A minha sogra ofereceu-me um creme anti-rugas e uma balança no meu aniversário de casamento. Mas desta vez a “surpresa” não aconteceu na festa… ela nunca imaginaria onde a verdadeira surpresa a estaria à espera… tive de sair logo naquele momento

A minha sogra ofereceu-me no meu aniversário um creme anti-rugas e uma balança. Mas dessa vez, o presente não foi na festa…ela nunca poderia imaginar onde a surpresa a esperava…e teve mesmo de sair naquele instante.

O meu aniversário redondo era suposto ser uma noite de glória. Tinha acabado de ser promovida no trabalho, eu e o Diogo finalmente pagámos o último euro da hipoteca, sentia-me em alta, cheia de esperança de que só viriam bons brindes e palavras calorosas. Mas, quando tocaram à campainha, foi a minha segunda mãe Dona Amélia Figueira quem entrou em casa.

Dona Amélia tinha esse dom de dar elogios que mais pareciam picadas, frases que faziam qualquer um querer ir à casa de banho lavar o desconforto do rosto. Oh, que vestido ousado para as tuas ancas, Estás tão magra… deve ser o trabalho a consumir-te toda, eram algumas das suas amabilidades, sempre com um travo de veneno. Desta vez, ela apostou mais alto.

Como tu consegues estar tão mal e tão bem ao mesmo tempo!

Os convidados já estavam sentados à mesa, os parabéns já ecoavam, e as iguarias enchiam a mesa até vergar. Chegara aquela altura levemente constrangedora, mas simpática, de troca de presentes. A sogra levantou-se, pediu atenção e começou um discurso longo, empolado e filosófico.

Dizia ela como o tempo passa veloz, que a beleza feminina é como uma flor que precisa de cuidados para não murchar, que o marido merece uma esposa cuidada e cheia de vida. Ouvi-a, e no peito já adivinhava: vinha aí algo especial.

Entregaram-me então um saco. Abri, desembrulhei dentro, duas caixas. Numa, uma balança de chão; noutra, um conjunto de cremes para senhoras de 45+, ostentando em letras garrafais: Regeneração da pele madura. Combate às rugas profundas.

Instalou-se um silêncio estranho. O Diogo ficou tão vermelho que parecia querer desaparecer na toalha. Os convidados trocavam olhares, sorrindo nervosamente, sem saber para onde olhar. Dona Amélia brilhou:

É para o futuro, filha! Prevenir é melhor que remediar. E a balança… bem, tu própria disseste depois do Natal que as calças te apertavam. Eu, como mãe, preocupo-me

Estiquei um sorriso, engoli um obrigada, e pus as caixas debaixo da mesa. Mas, dentro de mim, a noite quebrou-se. Forcei-me a manter a postura, mas por dentro fervia uma mistura de humilhação, tristeza e raiva.

O prato frio que preparei durante meses

Não fiz cena. Não deitei a balança fora verdade seja dita, vontade não faltou de a lançar pela varanda. O creme ficou bem visível na casa de banho, só de propósito, mas nem me passava pela cabeça usá-lo.

Sempre que Dona Amélia vinha, olhava com satisfação para os presentes e perguntava:

Tens usado?

Guardo para ocasiões especiais respondia, o mais neutra possível.

Ao mesmo tempo, aguardava o aniversário dela. Ela faria cinquenta e cinco uma data marcante, uma ocasião que pedia uma lembrança à altura, e uma boa oportunidade para mostrar que nem todos temos de engolir a preocupação alheia em silêncio.

Refleti. A ideia de retribuir na mesma moeda, talvez com um tensiómetro e um creme anti-manchas, pareceu-me demasiado directa. Queria algo mais elegante. Mais certeiro. Mais subtil. Um golpe bonito, mas que doesse.

Rapidamente percebi onde acertar. O maior ponto fraco da Dona Amélia não era a idade, o corpo ou a saúde. Era a língua. Aquela mania de dar lições, meter-se entre nós, comentar tudo: das cortinas da sala ao modo como corto cenouras para a sopa.

Fui à livraria e encontrei um verdadeiro achado uma edição de capa dura, bonita, intitulada: A Arte de Ficar Calada: Como Segurar a Língua e Preservar os Laços Familiares. Logo abaixo, o subtítulo que me soou a música de vitória: Manual prático para quem gosta de dar conselhos não solicitados.

Para completar, comprei ainda uma lupa grande, elegante, com um cabo antigo, digna de um filme do tempo da minha avó.

Esta é pelo creme e pela balança

O aniversário dela foi num restaurante. Casa cheia: família, amigas, colegas. Dona Amélia era o centro das atenções, inebriada com os elogios, feliz por ser a estrela da noite. Era disso que ela precisava para viver.

Chegou a hora dos parabéns dados por mim e pelo Diogo. O meu marido, um diplomata, soltou palavras doces e entregou um vale de spa. Afinal, há que manter as aparências.

Depois, sorri e levantei o meu embrulho.

Dona Amélia, este é só meu. Um mimo pessoal, para a alma… e para o auto-desenvolvimento.

Ela pegou no saco, foi abrindo devagar, saboreando o suspense. Primeiro tirou a lupa.

Que bonita… um achado! Mas para quê? Felizmente ainda vejo bem.

Respondi, amável:

Para ver melhor as qualidades dos outros, não apenas os defeitos.

Os convidados riram-se, ainda sem entender bem a provocação. A sogra ficou tensa, mas continuou a abrir… e então deparou-se com o livro.

Leu o título para si, depois sussurrou como se não acreditasse:

Como Segurar a Língua…?

Olhou-me nos olhos.

Isto… é um livro? conseguiu dizer, a voz falhando.

Sim, Dona Amélia, respondi alto, e tranquila. Tal como a senhora me recomendou cuidar da aparência, achei que aos 55 era um óptimo momento para cuidar do mundo interior e da harmonia familiar. Vai ver que lhe saberá tão bem como aquele creme anti-rugas me serviu a mim.

O rosto dela ficou manchado, mas não pôde fazer um escândalo se o fizesse, o livro passava imediatamente a prova do seu próprio problema. Limitou-se a um Obrigada. Muito original.

E pôs o presente de lado, como se fosse algo desconfortável e vivo.

Já avançou no capítulo da delicadeza?

Não deixámos de falar, nem houve drama depois da festa. Aconteceu algo mais interessante: as regras do jogo mudaram.

Naquela noite, percebeu uma coisa: agora éramos duas a jogar. Para cada espeto inofensivo, eu teria resposta pronta respostas que seriam difíceis de digerir.

Nas primeiras semanas, ligava só ao Diogo. Comigo, o trato era frio, distante, quase formal. Mas, com o tempo, uma pequena maravilha: os conselhos não pedidos rarearam.

Deixou de falar do meu peso e de fazer ironias sobre a comida. Sempre que parecia prestes a abrir a boca para mais uma delicadeza, eu fixava-a no olhar e perguntava:

Dona Amélia, e o livro? Já chegou ao capítulo da delicadeza?

Ela recuava.

Agora, a balança está esquecida no alto do armário. O creme, confesso, foi útil passei-o nos calcanhares e, milagrosamente, ficaram mais suaves. Por isso, obrigada, vá! E um dia, na casa dela, vi o livro sobre a mesinha de cabeceira com um marcador a meio.

Parece que funcionou.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

twenty − 12 =

A minha sogra ofereceu-me um creme anti-rugas e uma balança no meu aniversário de casamento. Mas desta vez a “surpresa” não aconteceu na festa… ela nunca imaginaria onde a verdadeira surpresa a estaria à espera… tive de sair logo naquele momento
Не прощавай