O MEU LUGAR
Mãe, estás a brincar?! O que estás a fazer? perguntei quase em lágrimas, vendo a minha mãe a tirar, sem dó nem piedade, as minhas poucas coisas do roupeiro. O meu vestido vermelho com bolinhas, o meu preferido, caiu ao chão e logo chamou a atenção do meu irmão mais novo, que estava sentado no tapete. O Rui agarrou-lhe a ponta da fita e levou-a à boca. Não, Rui! Dá cá!
Agora fazes uma cena por causa dum trapo! disparou a minha mãe, arremessando os meus jeans para o monte de roupa e batendo a porta do roupeiro. Põe-te a andar!
Mas para onde, mãe? Onde é que queres que eu vá? Ainda por cima já de noite! O que é isto?
O que me apetece! Esta casa é minha! E tu já não tens lugar aqui!
E eu?! Não é minha casa também?
Não, minha menina! Aqui não tens nada teu! vociferou ela, pegando o Rui ao colo e limpando-lhe o nariz à barra do meu vestido. Absolutamente nada! E chega de me moeres a cabeça! Agora que estava finalmente a pôr a vida nos eixos, vens tu estragar tudo? Esquece!
Mas O que é que eu estraguei? Explica-me!
A quem é que fazes olhinhos ao Vítor, hã? Não és tu?!
Ó mãe! gritei tão alto que o Rui se assustou e desatou a chorar. Ouves-te ao menos?!
Perfeitamente! Chega! Já está decidido! Em cinco minutos já quero ver-te fora daqui!
Ela saiu a pisar forte porta fora, deixando-me ali imóvel, sem perceber bem o que se tinha passado. Será que me tinha mesmo posto fora de casa? O meu cérebro recusava-se a raciocinar. Tentava agarrar-me a um pensamento qualquer, uma solução, mas só me vinha à mente flashes soltos. Do outro lado da porta, o Rui chorava com toda a força dos seus pulmões. Era sempre eu a acalmá-lo, a distraí-lo com qualquer coisa, a fazer de mãe para minha mãe poder ir dedicar-se ao companheiro novo. O Vítor não suportava barulho em casa e não queria saber de crianças a chorar, nem do próprio filho.
Ocupa-te, já és crescida, portanto ajuda!
Crescida Ontem ainda era a filhinha mimada, e agora era tratada como se nem fizesse parte da família. Nos últimos dois anos, tudo mudara tão depressa que eu já não conseguia acompanhar.
Primeiro, perdemos o meu pai, vítima de um ataque cardíaco. Morreu ali, ao lado da paragem de autocarro, e ninguém fez nada. Tinha menos de cinquenta anos, era arranjado, mas ficou mais de uma hora no chão, e as pessoas nem olharam, nem ligaram para o 112. Devem ter pensado que estava bêbedo ou maluco. Quando uma senhora finalmente se chegou ao pé dele, já era demasiado tarde.
Lembro-me bem de como a minha mãe reagiu. Ficou gelada, sem lágrimas, sem uma palavra. Eu só chorava, tentei fazê-la falar, mas era como se tivesse desaparecido. A mãe fechou-se no quarto e esqueceu-se que eu existia.
Família não tínhamos, e os amigos dos meus pais eram só conhecidos que apareciam de vez em quando. Os meus pais gostavam de se gabar que só precisavam um do outro e da família nuclear. Eu acreditava, e até me irritavam visitas em casa.
Tudo mudou quando entrei na escola primária. No início, meteram-me à secretária com uma miúda pequenina mas endiabrada, chamada Aldina, de longas tranças negras, tão grossas que ela andava sempre de cabeça erguida. Eu, com os meus caracóis loiros, era chamada Flor de Dente-de-Leão. As tranças da Aldina fascinavam-me. Dois dias depois, ela protestou, já farta das fitas: Qualquer dia corto isto tudo, nem quero saber se a mãe refila!. Fui eu, sem pensar, quem tentou acalmar: Estás maluca? É tão bonito!
A amizade cresceu a partir daí. A Aldina era a quarta filha na enorme família Figueiredo. Entrar na casa deles era um choque adultos, velhos, bebés, tudo aos gritos numa casa absurda, cheia de anexos. A mãe dela sentava qualquer um à mesa, tivesse vindo por ideia própria ou não, e depois era preciso rebolar para sair da cozinha de tão farto que era o jantar. Ali todos se ajudavam, o irmão mais velho dava explicações de matemática, a irmã ensinava-me receitas, e até as crianças faziam bolos e empadas. Eu só olhava, porque a minha mãe não deixava sequer aproximar-me do fogão.
Aprendi que afinal ter família grande e amigos por perto até era bom. Na casa da Aldina davam-se presentes em qualquer data especial e eram tantas! Doces, camisolas, laços, só porque sim.
Mas porque é que recebes prendas no aniversário da tua tia-avó? Nem é o teu dia!
E então? Não é preciso estar sempre à espera de uma razão especial para alegrar quem mais gostamos! Espera pelo Natal, aí sim é que são prendas! E desatávamos as duas a rir.
A minha mãe não gostava da Aldina, nem sonhava que eu ia a casa dela. Felizmente, ela estava sempre a trabalhar e bastava passar em casa a comer qualquer coisa, antes de fugir para a minha segunda família, onde era recebida de braços abertos.
Foi a família da Aldina que, mal souberam o que nos tinha acontecido, trataram de tudo: os irmãos dela vieram ajudar com os papéis, trataram do funeral, e apoiaram-me enquanto a minha mãe continuava sem forças para agir. A Aldina tentava consolar-me e, depois de lavar as mãos, chorávamos juntas.
No dia seguinte, nunca andava sozinha. Os homens da família acompanhavam-nos, antecipando tudo o que pudesse correr mal, protegendo-nos. Para eles eu não era de fora.
Quando perguntei porquê, a Aldina respondeu:
Que perguntas! Tu és uma das nossas agora. E já não há homens na tua casa, alguém tinha de ajudar.
Meio ano depois, casaram à pressa a Aldina. Quase não acreditei. Ela queria ser médica, não namorava nem de longe, mas explicou-me que havia de continuar a estudar, o pai já tinha combinado tudo com o futuro marido. Fiquei sem palavras.
Mas amas o rapaz ao ponto de não conseguires viver sem ele?
Amar? Mal o vi duas vezes. Os pais é que escolhem. Eles querem o nosso bem; nunca me desejariam algo mau.
Na boda chorei por dentro mas aguentei-me. Depois soube que eles iam viver para Lisboa, para um apartamento comprado pelos sogros. Andava perdida.
Quando a minha mãe conheceu o Vítor, as coisas pioraram muito. Ela mudou depois do nascimento do Rui, já não me suportava. Passava poucas noites em casa. O Vítor tornara-se obcecado a controlar-me, com olhares enviesados, portas trancadas. Eu continuava a tomar conta do miúdo, passava noites em claro a embalá-lo, a minha mãe mal queria saber. Cheguei a desmaiar no centro de saúde, da exaustão.
Antes mesmo de terminar o curso, comecei a trabalhar no Hospital de São José. Agora podia justificar noites fora. Dei-me por feliz.
Quando me despedi da Aldina, ela só me pediu uma coisa:
Se precisares, aparece. Não penses só em ti. Lembra-te do Rui.
Depois da saída da Aldina, os conflitos com a minha mãe pioraram até rebentar tudo. Empurrou-me para fora de casa no dia em que uma vizinha comentou como eu era bonita, um desperdício ter ficado sem pai, e que já estava em idade de arranjar namorado. Não sei porque, mas foi essa a gota de água.
Sem saber para onde me virar, pensei ligar à Aldina, mas ela estava grávida e cheia de coisas em mãos. Recolhi o essencial, uma fotografia do meu pai, enxuguei as lágrimas e decidi que não voltava atrás. Não mais voltaria àquele sítio onde me faziam sentir uma estranha. Deixava a minha mãe a viver a vida dela.
Quando desci, o vento era já frio e remexia as árvores do bairro de Benfica. O Outono chegou de repente, a sério, e toda a gente estava ou desagasalhada ou a suar de mais. Eu enrolei-me ao cachecol que a Aldina me tinha oferecido no último Natal juntas. Não me apetecia voltar a casa, nem ver a minha mãe. Sentei-me no banco da paragem, com uma mala e as mãos enfiadas nos bolsos.
O carro que encostou assustou-me; recuei um passo, preparada para fugir.
Leonor?
Ó Diogo!
Era o irmão mais velho da Aldina. Foi ele que nos ajudou em tudo, explicava-me matemática e tratou do funeral do meu pai.
O que fazes aqui sozinha? Vens do trabalho?
Não Bem, sim Ia para o hospital! Sim, tenho turno.
Não parece nada. E essa mala? O que se passa?
Bastou o seu olhar calmo para eu lhe contar tudo: a minha mãe, o Vítor, estar de malas feitas porque não tinha para onde ir.
Vá, entra lá no carro disse apenas, prático.
Achei que me levaria ao hospital e não pensei muito. O silêncio acalmou-me mais do que as palavras. No carro estava quente. Percorremos Lisboa quase toda até parar num prédio alto e arranjado, no Restelo, com portão e tudo.
Temos de ir ali.
Subimos ao terceiro andar, o Diogo tocou à campainha, esperamos. A porta abriu-se e surgiu a mulher mais imponente que já vira. Era a Dona Graça, avó da Aldina.
Entra, filha, mas ainda és mais alta ao vivo do que na televisão, olha que só te vi na boda! Não estejas aí parada, a olhar como um patinho assustado! Aqui não és estranha, percebes?
Fui envolvida, de repente, naquele ambiente quente. No corredor, o chão de mosaico reluzente e um lustre cheio de penduricalhos brilhantes deixavam-me tonto.
O Diogo falou em voz baixa com a avó, despediu-se com um aceno e desapareceu.
Então, não tiras o casaco? Anda daí, vens beber café comigo, contas-me tudo: como é que uma rapariga tão bonita ficou na rua a estas horas? Não tens casa? Não tens mãe?
Acho que não. De repente, as forças faltaram-me, sentei-me num banco e larguei-me a chorar. A Dona Graça agarrou-me, aconchegou-me nos seus braços enormes e embalou-me como uma mãe.
Ó menina, assim não pode ser Vai correr tudo bem! Vais ver! Confia em mim. Eu já vi muita dor na vida e ninguém merece ficar sozinho. E tu não ficas!
Fez-me um café amargo, daqueles de verdade. Aquele amargor misturava-se com as lágrimas.
Chama-me Graça. Era o nome que me davam quando eu era pequena, como tu. Vivia também rodeada de irmãos numa terra lá para o Norte. A vida obrigou-me a sair de lá, mas nunca esqueci o cheiro da infância. Sabes? Nem sempre as mães dizem ou fazem o melhor. Às vezes o peso da vida é demais. Esquecem-se de quem são. Ficam ocas, só carapaça, a tentar sobreviver.
Contei-lhe a minha história. Ela ouviu tudo, como se fosse a primeira vez que alguém desabafava consigo.
Continuei a viver com a Dona Graça. Aprendi receitas tradicionais, aprendi a coser, a passar a ferro, a contar memórias. Em dois anos, cozinhava já melhor que a Aldina e ajudava toda a família.
Quando vinha a Aldina visitar-me, elogiava os meus salgados palitos de carne, empadas, rissóis.
Conseguem ser mesmo melhores que os meus! Que pões no recheio? perguntava ela.
A Dona Graça é que me ensinou. Se não fosse ela
Basta, rapariga! Tu é que dás o sabor! a Dona Graça não se deixava elogiar.
Tudo ia correndo bem, até chegar uma notícia. A minha mãe estava gravemente doente, internada no hospital onde eu trabalhava. Colocaram-na na minha enfermaria. Eu não conseguia vê-la. Ainda guardava mágoa.
A Aldina insistiu comigo:
Tens de ir, não podes fugir disto! Senão, um dia queres e já não dá.
Sei que tens razão. Mas não consigo.
A minha mãe, abandonada pelo Vítor, também perdera o Rui, que fora entregue a uma instituição. Eu não podia ficar com ele apesar de trabalhar, não tinha habitação própria nem papéis suficientes. Nem para ele, nem para mim.
Então vais para a frente. Tratas dos papéis, vais buscar o teu irmão. Ele precisa de ti, não foi culpa dele.
Eu acabei por me reconciliar com a minha mãe. Dois dias antes de falecer, magoada e transformada pela doença, pediu desculpa por tudo. Fui eu que tratei dela até ao fim, corri entre repartições para garantir que o Rui voltava para casa.
Ao olhar para a minha mãe, já quase apagada pela dor, só me veio à cabeça o cheiro a cerejas amarelas do nosso quintal, e os lábios doces da minha infância. Disse-lhe baixinho:
Eu perdoo-te, mãe.
Nesse instante, compreendi finalmente o que a Dona Graça me tinha ensinado: há mágoas que têm de ser largadas, como cães raivosos, ou elas acabam connosco. Não é para quem fez mal, é para nós. Precisamos de espaço para o que vem de bom, de peito livre para respirar.
E foi assim que, uma semana depois, o Rui, de mão apertada na minha, voltou à casa velha e perguntou-me, com olhos sérios:
Agora já sou mesmo de casa?
Agora somos, sim. Este é o nosso lugar, Rui. O nosso lar.
E ele assentiu, com tanta convicção, que soube, nesse momento, que tudo finalmente estava onde devia estar.






