Abandonada por Amor

A mãe regressou do trabalho diferente naquele fim de tarde, os olhos vivos, umas bochechas coradas e um sorriso novo, iluminado, que Rosarinha já não via há muito tempo. O coração da menina acelerou parecia quase feliz!

Rosarinha, hoje conheci uma pessoa maravilhosa! disse a mãe, pendurando o casaco junto à entrada antes de se ajoelhar ao seu lado, apertando-lhe as pequenas mãos nas suas. Ele chama-se Eduardo. Trabalha numa construtora, é um homem sério, ponderado. Muito, muito fiável.

Rosarinha só acenou com a cabeça, sem perceber ainda porque era tão importante. Mas a mãe brilhava. Os olhos reluziam e aquele sorriso era quase mágico. E bastava aquilo para lhe aquecer também o peito, reacendendo qualquer coisa que julgava perdida.

Nas semanas seguintes, a mãe falava de Eduardo a cada passo: de como ele ajudou uma idosa a carregar os sacos, de como organizou uma recolha de fundos para a Casa do Gaiato, de como arranjava tudo em casa. Rosarinha ouvia e acenava, mas sentia uma inquietação estranha como se tudo fosse mudar rápido e não necessariamente para melhor. Havia qualquer coisa, lá dentro, que lhe dizia que a vida não voltaria a ser a mesma

Conheceu Eduardo num café pequenino perto de casa. Ele era um homem alto, seco, cabelo muito curto e uma boca fechada, só sorria quando precisava e até os sorrisos lhe paravam nos lábios, sem tocar nos olhos, que ficavam frios, distantes.

Esta é a minha Rosarinha a mãe afagou-lhe o cabelo, num gesto tão familiar e seguro que quase bastava para acalmar o aperto.

Tem graça. Que idade? Eduardo lançou-lhe um olhar de cima abaixo, apurado, como quem olha para um banco velho, para logo fixar de novo a mãe.

Oito, já lhe disse a mãe sorriu, ignorante à frieza, sem notar o tom arrastado, de quem está a pensar noutra coisa.

Todo o serão Eduardo falava só com a mãe, de vez em quando dirigia-lhe palavras secas, curtas, como se fosse incómoda. Quando Rosarinha pediu para ir espreitar o aquário com peixes, ele nem disfarçou o incómodo:

Mas não faças barulho.

A mãe não percebia, demasiado ocupada a saborear a felicidade, cega pelo sol do novo amor. E pela primeira vez Rosarinha percebeu que talvez aquele homem nunca seria o pai querido com que sonhava. Não ia ler-lhe histórias, nem apertar-lhe os ombros, nem ensinar-lhe a andar de bicicleta. Não. Nada disso.

Aos poucos, Eduardo passou a ir lá a casa cada vez mais. Nunca de mãos vazias, mas os presentes eram sempre para Leonor, a mãe. Rosarinha nem um rebuçado via! Falar, também não falava, respondia com hum e um aceno desatento. Se ela se aproximava, ele afastava-se, como se estivesse desconfortável.

Um sábado, Rosarinha entornou sem querer chá na camisa dele. Eduardo afastou a mão bruscamente:

Tem mais cuidado, rapariga desajeitada!

A mãe apressou-se a pedir desculpa:

Oh, desculpa, por favor. Rosarinha, então? Vai buscar um guardanapo.

Na cozinha, ouviu o tom gelado de Eduardo:

Leonor, esta miúda é barulhenta e trapalhona. Está sempre no caminho! Já me irrita

É só uma criança a mãe tentava abrandar, mas Rosarinha ouviu qualquer coisa na voz dela: uma ansiedade, um tremor. Falta-lhe um pai. Precisa de carinho masculino.

Quem disse que quero ser pai de uma filha que não é minha? O tom dele era cortante. Não tenciono criar uma criança que não é do meu sangue.

A mãe não entendeu o peso do que sentiu. Estava apaixonada, convencida de que Eduardo era o melhor homem do mundo. Enganava-se.

Depois do casamento, seis meses mais tarde, só piorou. Eduardo mudou-se e a casa deixou de ter o riso da mãe, as histórias ao deitar, o cheiro a jantar acabado. Passou a ser fria, despida de alma.

Nunca gritava com Rosarinha nem lhe batia, mas havia sempre silêncio, um olhar de censura em cada movimento da menina. Se ria mais alto, ele levantava uma sobrancelha: o riso morria-lhe, como se faltasse o ar. Se fazia perguntas, ele respondia seco, como que a despachá-la.

Numa dessas noites, fingiu adormecer mas foi ouvir a conversa deles. O tom de Eduardo era impaciente:

Leonor, odeio viver assim. Sempre que olho para ela, lembro-me do teu ex-marido! Não tem nada de ti.

Mas é só uma menina! Não tem culpa disto ouviu-se dor, quase desespero na voz da mãe.

Eu percebo, mas não consigo sentir nada além de irritação. Isto destrói-nos. Decide: ou ela vai para a tua mãe ou eu vou-me embora. Não fico mais com ela.

Rosarinha esqueceu-se de respirar. O mundo ficou escuro. Sabia: era problema dela. Quem tinha de desaparecer era ela.

Pela manhã, sem lhe conseguir olhar nos olhos, a mãe disse:

Filha, a avó sente tanto a tua falta. Vais lá ficar umas semanas, sim? Vemo-nos todos os dias

Ela anuiu, engolindo lágrimas quentes, salgadas. Percebeu tudo, sem mais palavras. Ficou fria por dentro, um vazio enorme onde dantes existia o aconchego.

Três dias depois, mudou-se para casa da avó. Recebeu-a com braços abertos, um bolo de maçã acabado de sair do forno mas nem aquele perfume acalmou Rosarinha nessa tarde. Sentia-se deixada para trás, trocada, dada, como quem devolve um bibelô esquecido. A mãe cumpriu a promessa de a visitar todos os dias. Mas, aos poucos, vinha menos. Rosarinha percebeu: deixou de ser precisa.

Só a avó, acariciando-lhe o cabelo ao adormecer, sussurrava baixinho:

Vai ficar tudo bem, querida. Tudo se compõe.

Mas Rosarinha sentia algo nela tinha partido. Talvez nunca sarasse.

***

Nos primeiros dias, a mãe aparecia quase todas as noites depois do trabalho. Abraçava-a, trazia chocolates, tentava brincar, mas os olhos traíam o sorriso. Era um sorriso preso, colado, como os das bonecas de loiça. E Rosarinha pensava: a mãe está aqui, mas já não está.

E então, querida, a avó trata-te bem? sentava-se à beira da cama, ajeitando-lhe a franja.

A avó é um amor. Faz bolos de maçã e lê histórias

Que bom, filha. Tenho tantas saudades mas para já ainda não te posso trazer para casa. Aguenta mais um pouco.

Rosarinha sorria, fingindo, mas o peito encolhia-se. Sentia alivio na mãe como se gostasse de estar ali, longe do desconforto dos olhares de Eduardo.

Com o tempo, as visitas rarearam. Primeiro eram diárias, depois só ao fim-de-semana. Um sábado a mãe telefonou:

Hoje não posso, filha. Vamos ao teatro, eu e o Eduardo. Amanhã vou aí e trago-te gelado, está bem?

Rosarinha engoliu o nó na garganta, respondeu o mais alegre que pôde:

Está bem, mãe. Divirtam-se.

Desligou e encostou a testa ao vidro, vendo a chuva a tombar nas folhas lá fora. Pela primeira vez, entendeu: a mãe escolheu mesmo o Eduardo, não ela.

A avó percebia-lhe o silêncio, tentava animá-la:

Vamos ao jardim da Estrela? Apanhamos sol e tomamos chocolate quente

Vamos respondia, mas nada lhe enchia o vazio da mãe ausente. Nem carrosséis, nem luzinhas.

Na escola, fechou-se. Antes, era a primeira a rir e saltar para o recreio, partilhou segredos e brincadeiras. Agora só olhava, de canto, enquanto os outros se atropelavam em gritos. Quando a colega Filomena perguntou: “Porque moras com a tua avó?” Rosarinha deu de ombros, já sem ter como esconder as lágrimas.

Num desses fins de tarde, cabisbaixa, quase chocou de encontro a alguém: era a mãe.

Rosarinha! Ia agora a casa, levar-te um presente.

Foram juntas até casa. A mãe falava do dia, de como Eduardo lhe comprara um casaco novo, mas Rosarinha limitava-se a absorver o tom de voz, cada palavra, cada olhar saboreando a ilusão de que, por momentos, tudo podia melhorar.

Mãe arriscou, apertando-lhe a mão com força porque vens tão poucas vezes?

Foi como se a mãe envelhecesse num segundo. Voltou-se, ajoelhou-se frente a ela e, nos olhos encheu-se de dor:

Meu amor, é tão difícil Eu queria estar contigo, mas amo o Eduardo. Parece que sou duas. Cada vez que me vou embora, levo um pedaço do coração.

Mas podias ter-me deixado ficar a mágoa de Rosarinha transparecia na voz. Não tinhas de o escutar

A mãe baixou os olhos, as lágrimas a caírem sem fazer barulho.

Achei que ia ser melhor. Enganei-me, filha.

Ficaram em silêncio. A mãe disse:

Vou tentar ver-te mais vezes. Prometo.

Rosarinha acenou, sem esperança. Se quisesse, já o teria feito

Durante algumas semanas, realmente veio mais. Saíam, viam filmes, faziam bolacha caseira. Rosarinha começou a querer acreditar. Mas logo voltou o mesmo rosto triste, a voz envergonhada, outra vez desculpas murmuradas.

O Eduardo está outra vez aborrecido. Diz que te tomo tempo que é da família. Sugeriu ficares só connosco ao fim-de-semana, e nos outros a semana aqui com a avó.

O frio invadiu-lhe o corpo, gelado.

Assim é melhor para todos tentou a mãe.

Rosarinha sorriu:

Sim, talvez.

Sabia que não era. A rotina dividiu-se: escola e avó à semana, mãe e silêncio ao fim-de-semana. Em casa, andava de mansinho para não incomodar. Cumpria o papel da filha perfeita, calada.

O olhar de Eduardo mantinha sempre a distância. Perguntava pelos trabalhos da escola, mas nunca a ouvia. A mãe fazia o impossível para agradar aos dois, mas Rosarinha via como se apagava, como o sorriso da mãe se foi tornando cada vez mais cansaço.

Tinham passado meses. Num serão, a avó disse baixinho, ao aconchegá-la na cama:

Amor, não és culpada de nada. Eu vou ficar sempre aqui para ti.

Só aquelas palavras a aqueciam e, mesmo assim, não curavam a ferida funda.

***

O tempo corria. Dez, onze, doze anos. Aquela vida tornou-se normal: semana na avó, fim-de-semana na mãe. Rosarinha já não sonhava voltar a casa. Aprendeu a não esperar, a não achar que um dia a mãe a ia buscar de volta.

Distanciou-se dos colegas. Tinha amigas de conversa, mas não íntimas. Tinha medo de perder de novo. A avó tornou-se o seu refúgio. Aprendeu com ela a fazer bolos, croché, encher vasos de gerânios, e a viver devagar.

Porque não me ralhas nunca quando faço asneira? perguntou um dia, entre chá e bolachas.

A avó sorriu:

Para quê, filha? Tu és boa menina sem precisar disso.

Chorou baixinho. A avó não prometia milagres, mas com ela o mundo era suportável.

Num sábado, a mãe chegou cedo:

Dorminhoca, acorda! Vamos ao Jardim Zoológico com o Eduardo!

Rosarinha olhou desconfiada. Ele, interessado? Mas naquele dia, Eduardo foi quase um pai normal: levaram-na à roda gigante, comprou-lhe algodão-doce, tirou-lhes uma foto junto ao lago.

Durante uns minutos, Rosarinha permitiu-se acreditar: podia mudar. Mas, à noite, ouviu o tom dele:

Leonor, tentei. Não consigo. Ela só devia vir cá em datas especiais.

A mãe suspirou:

Como quiseres, Eduardo.

Rosarinha ouviu tudo. Tapou-se, a certeza a doer: não ia mudar. E a mãe iria continuar a escolher Eduardo.

No dia seguinte, a mãe foi a casa da avó sozinha.

O Eduardo acha melhor que venhas só em feriados.

Melhor para quem? Para ele?

A mãe desviou o olhar:

Para todos, querida.

E eu, mãe?

Já estás crescida, vais perceber.

Ela acenou. Por dentro estava tudo escuro. Não houve mais lágrimas só uma clareza gélida: ali, já não era esperada.

***

A partir daí, só se viam em festas ou se, por milagre, Eduardo mudava de ideias. Aos poucos, Rosarinha deixou de criar expectativas. Ficou próxima da avó, passou a ajudar no quintal, conversava com vizinhas, aprendia a fazer compotas. Descobriu que havia mais mundo além daquela família.

Aos treze, confidenciou à avó:

Acho que perdoei a mãe. Ela seguiu a vida dela. Eu sigo a minha. É mais fácil assim.

A avó apertou-a com força:

Isso mesmo. Não carregues ódio. Tua mãe teve medo de ficar sozinha. Só Deus lhe pode julgar.

***

Aos quinze, Rosarinha já sabia o que queria. Gostava das letras, dos desenhos, e a professora de português, Dona Teresa Amaral, disse-lhe:

Tens talento, Rosa. Pensa em jornalismo.

Isso aqueceu-lhe o coração, mais que qualquer elogio materno. Começou a escrever num diário: contos, desabafos, pequenas crónicas.

Um dia, a avó descobriu o caderno.

Queres que o guarde? És especial, Rosa. Qualquer dia todos lêem as tuas histórias.

Rosarinha riu:

Achas mesmo?

Tenho a certeza, piscou a avó. Tu vês o que mais ninguém vê.

Aos dezoito, entrou na faculdade de jornalismo. A mãe até felicitou.

Sabia que ias conseguir.

Sentaram-se à mesa da avó. O Eduardo, já nem vinha.

Mãe arriscou Rosarinha, se fosse hoje, voltavas a enviar-me para a avó?

Houve um silêncio comprido.

Não. Não voltava. Tinha medo de perder o Eduardo hoje sei que o mais importante eras tu.

Rosarinha acenou. Aquelas palavras não apagavam o passado, mas permitiam-lhe respirar mais livre.

Arranjou emprego num pequeno jornal. Escrevia sobre pessoas das ruas, das associações, como se as palavras pudessem sarar um bocadinho das dores que todos levavam. Um dia, fez reportagem numa ação solidária para crianças sem família. Viu neles o mesmo vazio, tentou devolver um pouco de esperança através do seu texto.

No regresso a casa, percebeu: tudo aquilo a fez mulher forte, mais capaz de compreender os outros e de amar.

***

Anos depois, casou com o Tomás um homem de voz calma, bondoso, sem máscaras. Ganhou logo a simpatia da avó, que o pôs de avental a ajudar nas limpezas. Rosarinha assistia, e sentia-se finalmente em casa.

Quando nasceu a Madalena, prometeu-lhe: nunca te vou fazer sentir menos. Beijava-a antes de dormir, lia-lhe histórias, murmurava: “És o melhor que tenho, filha”.

Um dia, levaram Madalena à avó. Esta folheava velhos álbuns de fotos.

Avó, és tu aqui? E a mamã também?

A mãe sentou-se ao lado.

Fui pequenina, e vivi aqui com a avó.

Ela gostava muito de ti?

Muito. Tal como eu te amo a ti.

A menina pensou um momento e respondeu:

Então eu sou a mais feliz. Tenho mamã, avó e papá.

Rosarinha sentiu lágrimas, mas não de dor desta vez, de alegria.

A avó sorriu:

E eu tenho as duas maiores riquezas do mundo.

Falamos de felicidade explicou Madalena , porque toda a gente aqui se ama.

A mãe olhou Rosarinha e ali houve, finalmente, orgulho verdadeiro.

Sim, sussurrou a mãe. Amamo-nos.

No serão, quando Madalena dormia, a mãe devolveu-lhe um pedido antigo:

Tive tanto medo de perder tudo, que falhei contigo. Perdoa-me, filha.

Rosarinha demorou, mas finalmente encontrou a frase certa:

Eu entendo, mãe. Agora já podemos tentar de novo.

***

O tempo corria. Madalena ia crescendo, cheia de gargalhadas, quedas e festinhas passadas em família. A avó fazia bolos, o pai contava anedotas, a mamã escrevia.

Um dia, Madalena encontrou o livro que Rosarinha publicara.

Mãe, este livro é mesmo teu?

Ela riu-se, abraçando a filha:

É. E fala de nunca termos medo de amar.

Posso escrever um também quando crescer?

Claro que sim. Mas lembra-te disto: escreves melhor se fores verdadeira. E nunca deves duvidar, és amada sempre.

Madalena fixou-a, séria. E Rosarinha sentiu a paz inteira, uma felicidade quieta: era amada, e sabia amar.

Olhou o céu estrelado da cidade, sentiu gratidão pela avó, pela mãe, pelo marido, pela filha e por cada passo duro, que a trouxera até ali. Abrira-se finalmente à vida, inteira, completamente sua.

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