O Preço de Uma Segunda Oportunidade

O PREÇO DE UMA SEGUNDA CHANCE

Hugo inclinava-se levemente para a frente, encarando Carolina, a voz baixa e suplicante, quase meiga, como se temesse que uma palavra mais ríspida pudesse afugentar a mulher. Desta vez, era ele quem procurava a réstia de sinceridade.

Só peço que me contes tudo. Prometo não me vou zangar disse, num tom suave que contrastava com o olhar tenso. Carolina estremeceu: nos olhos de Hugo percebeu, de novo, aquela sombra familiar de desconfiança a mesma que lhe gelava o sangue.

Ainda por cima, nessa altura, já estávamos divorciados murmurou ele, quase num sussurro.

Carolina respirou fundo, mordeu o lábio, sufocada de irritação. Como aquilo lhe custava! O mesmo interrogatório, a dúvida repetida dia após dia Tentava manter o controlo, mas a tensão explodia-lhe em cada palavra.

Já chega! Não aconteceu nada, ouviste? Pára de me fazeres sempre a mesma pergunta atirou, mais alto do que pretendia. Por minutos, lamentou ter cedido a tentar pela segunda vez. Lembrava-se das advertências das amigas: homens como Hugo raramente mudam. Mas quis acreditar que o amor resolvia tudo, quis calar os conselhos.

De repente, o tom dele endureceu, deixando cair toda a gentileza.

Então eu pergunto à Matilde retorquiu Hugo sem hesitar. A nossa filha não vai mentir-me.

Cada palavra soou como um tapa. O rosto de Carolina ficou a arder, a voz embargou-se-lhe de raiva.

Força! Mas lembra-te, ela só tem cinco anos, e durante este ano ficou aos cuidados de muita gente endireitou as costas, cerrando os punhos. O simples pensamento do marido envolver a filha naquela zanga revolveu-a por dentro. Eu tive de trabalhar para lhe dar de comer! Hugo, para com isso! Com quem estive, com quem falei Não te diz respeito! Já chega, Hugo! Já te deixei uma vez. Achas que não consigo sair de novo?

Por um instante, Hugo pareceu petrificar, surpreendido com a violência da resposta. Um breve lampejo de confusão cruzou-lhe a face, rapidamente substituído por uma ironia amarga.

E tens dinheiro para o bilhete? lançou, trocista.

Mas mal viu o pânico no rosto de Carolina, apressou-se a corrigir.

Desculpa, não era isso Só me espanta a tua teimosia. Disse-te com honestidade que não ia ficar com ciúmes. Preferia que refletisses sobre isso.

Sem pensar, Carolina agarrou na almofada do sofá e atirou-lha quando o viu afastar-se. A almofada não lhe causou dano, só beliscou o orgulho. Hugo já abria a boca para responder, quando Matilde surgiu à porta.

A menina de vestido cor-de-rosa, leve e axadrezado, correu para o pai, os olhos brilhantes e o sorriso largo. Abraçou-o pela perna e falou-lhe depressa, ansiosa:

Pai! Voltaste! Que saudades!

Hugo olhou para a ex-mulher com uma expressão de vaidade silenciosa, transmitindo-lhe, sem uma palavra, que via agora quem era a favorita da filha. Deitou-lhe um olhar breve, quase trocista, mas logo, ao voltar-se para a pequena, o rosto suavizou-se e a voz tornou-se surpreendentemente doce.

Anda, coelhinha, vamos brincar sussurrou, pegando em Matilde com facilidade. Levantou-a no ar, provocando-lhe gargalhadas cristalinas, e sorriu. Vai lá, mamã, descansa um pouco, deves estar cansada.

Carolina, na cozinha, apertava o pano com tanta força que os nós dos dedos esbranquiçaram. Por dentro, só amargura: Pronto, agora vai pôr a filha contra mim!, pensou, lutando para não chorar. O suficiente já foi dito e ouvido. Era tempo de partir.

Mentalmente, traçou o plano. Dentro de uma semana receberia o diploma do curso de especialização só faltava recolher o papel. Nessa hora, compraria o bilhete aéreo para onde fosse, pouco importava, desde que longe. Hugo estava enganado ao pensar que não tinha dinheiro, que ela estava presa para sempre ali. Estamos no século XXI, qualquer pessoa encontra trabalho à distância bastam uns cliques, propostas não faltam.

Afastou-se da banca e, soltando o pano, ficou a espreitar pela janela. Cá fora, a rua fervilhava: gente apressada, carros no trânsito, vitrinas acesas de lojas a colorir o entardecer lisboeta.

Ao menos isso murmurou. Nem tudo foi mau nesta mudança de cidade: aqui, os cursos são bem-vistos e há emprego em todo o lado.

Sentiu o peito aliviar. Pela primeira vez em meses sentiu confiança, não desespero. O plano estava montado, a decisão tomada. Faltava pouco: esperar o documento, fazer as malas e começar tudo de novo

*********************

Porque cedeu ela? Porque aceitou dar-lhe uma segunda oportunidade? A própria Carolina não sabia bem. É que ele parecia realmente mudado, falava com tanta sinceridade! Jurava que seria o melhor marido, o melhor pai! Aqueles olhos cheios de esperança, a voz embargada e ela acreditou. Quis tanto acreditar que podiam voltar a ser uma família, imaginaram-se felizes a passear pelo Jardim da Estrela, a celebrar aniversários em conjunto, a planear férias de Verão na praia.

Mas as promessas esfumaram-se depressa. Hugo foi carinhoso o primeiro mês: ajudava com a filha, fazia o jantar, recebia-a com um sorriso. Depois, tudo se repetiu. Voltaram as acusações, as suspeitas, as perguntas sem fim: Onde estiveste?, Porque demoraste?, Com quem falaste ao telefone?.

Não se separaram por traição. Nunca houve alguém entre eles. Mas a obsessão de Hugo era corrosiva. Tinha ciúmes de tudo e de todos a cada sombra de um homem, a cada gesto banal. Carolina nem conseguia trabalhar: qualquer emprego, com colegas do sexo masculino, era motivo de discussão. Nem visitas à família podia fazer em paz o vizinho solteiro à espreita, que ainda por cima lhe segurava a porta Claro, é só o que ele quer!, ironizava Hugo.

Encontrar as amigas tornou-se quase impossível. Começou com umas caretas de reprovação, evoluiu para discussões constantes:

As tuas amigas só pensam em engatar homens exclamava Hugo, sempre com desprezo. Só querem dar maus exemplos às casadas!

São livres, têm direito defendia Carolina, fervendo de revolta. Só querem ser felizes.

Pois que sejam, mas sem contagiar as outras! dizia ele, braçando-se.

As amigas, aos poucos, deixaram de lhe ligar. Tentou explicar-lhes a situação, mas ninguém compreendia. Aos poucos, Carolina ficou isolada sem amigos, distante da família e sem colegas. Uma mulher só, com uma filha pequena a precisar de atenção todo o dia.

Numa noite durante o jantar, Hugo largou:

Está na hora de termos outro filho.

Carolina ficou estática, de colher na mão. Tinha passado meia hora a tentar convencer Matilde a comer mais três colheres, enquanto esta fazia birra, virava a cara, e, para finalizar, entornava a tigela no pano. Hugo, impassível, soltava aquela ideia como se fosse natural. Como podia ele sugerir mais um filho, quando ela mal se aguentava com um?

Até parece que agora tens muito tempo livre continuou o marido, pondo os talheres de lado. Já levei conversa com a tua irmã, andas com ideias de cursos Para quê? Não vais trabalhar.

Carolina sentiu um nó na garganta. Debaixo da mesa, apertou a toalha com força.

Quero crescer, aprender. O que há de mau nisso? perguntou baixo, lutando para não se emocionar.

Só queres inventar. Terás mais o que fazer com outro bebé sentenciou Hugo, como se o assunto estivesse encerrado.

Ela ficou em choque. Era impossível sequer imaginar Mal conseguia equilibrar tarefa sobre tarefa alimentar Matilde, brincar, embalar, acalmar Hugo, a julgar pelo brilho nos olhos, não brincava.

Dentro dela, tudo se contraiu. Tinha de tomar precauções sem ele saber, pensar em como proteger a si mesma e à filha. Compreendeu de vez: não podia continuar assim.

A gota de água foi quando Hugo proibiu Carolina de ir ao aniversário do irmão. Vão lá muitos homens, não admito, cortou Hugo. Ela debateu-se, suplicou era só família! mas ele manteve o braço de ferro.

Carolina cedeu.

Numa manhã, mal Hugo saiu para trabalhar, ela preparou as malas com mãos trémulas. Chamou o irmão, que percebeu logo o que se passava e ajudou sem hesitar até arranjou uma carrinha pequena para a mudança.

Saíram quase sem fazer ruído. Deixou um bilhete na cozinha: Desculpa, mas não posso mais. Quero que a Matilde cresça tranquila.

Nesse mesmo dia, deu entrada no tribunal para o divórcio.

A audiência foi rápida. Hugo queria prazo de reconciliação, insultava-a, acusava-a de egoísmo e descaso. O discurso era agressivo, vácuo de culpa real interrompia Carolina sempre que tentava falar.

A juíza, uma mulher idosa, de olhos exaustos, ouviu tudo com paciência. Mandou Hugo calar-se várias vezes, deu a palavra à ex-mulher. Percebendo o ambiente, recusou o prazo e dissolveu o casamento ali mesmo.

Não vejo hipótese de este casamento se salvar declarou. Tem toda a minha compaixão, Carolina. Viver assim cinco anos é uma prova de força.

Carolina anuiu, sentindo um peso levantar-se. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se certa da decisão.

Depois do divórcio, mudou-se para casa dos pais no Porto, arranjou emprego e, pouco a pouco, voltou a ser feliz. Custaram-lhe as mudanças: tratar da bagagem, fazer-se à estrada com a filha, enfrentar as perguntas da família Mas, ao chegar, sentiu de novo a segurança de outrora.

Entrou num curso de design gráfico era um sonho antigo, sempre travado por Hugo, que achava isso perda de tempo. Mas agora Carolina dedicava-se: aprendia programas, fazia esboços, experimentava paletas e letras. O estudo devolvia-lhe energia, vontade de crescer.

Foi conhecendo gente nova: colegas do curso, vizinhas, mães do parque onde levava Matilde. Até começou a ir a encontros descomprometidos apenas um café, um papo leve. Pela primeira vez em anos sentiu-se verdadeiramente livre sem medo de julgamentos, sem censuras.

À noite, sentava-se na varanda dos pais, chá de limonete quente na mão, a ver Matilde brincar com os primos riam, inventavam esconderijos, atiravam migalhas aos pombos. O som do riso da filha era puro alívio.

É isto que devia ser a vida, pensava, provando o chá. Sem suspeitas, sem medo de falar. Só paz, alegria, esperança para a minha menina crescer feliz.

Carolina acreditava que tudo ia ficar bem. Planeava terminar o curso, fazer uns trabalhos, talvez até alugar casa perto dos pais Mas, volvido um ano, Hugo voltou a cruzar-se no seu caminho.

Descobriu-o num mercado do Bolhão, quando comprava maçãs para uma tarte. Escolhia cautelosamente as mais bonitas, sentindo-se reconfortada pelo burburinho das vendedoras, pelo cheiro das flores e frutas frescas.

Sentiu de repente um olhar fixo. Virou-se e viu Hugo a uns metros, magro, com o rosto anguloso e marcas de cansaço sob os olhos. Já não era o homem de outrora. Mas o olhar continuava o mesmo: astuto, atento, a procurar fendas no seu escudo.

Carolina… murmurou, um passo atrás do outro, com uma doçura estranha. Andei à tua procura.

Ela recuou, instintiva, apertando o cesto de fruta ao peito.

Para quê? saiu-lhe num suspiro, tenso, incapaz de disfarçar o susto.

Mudei. Sinto que perdi o mais importante e não consigo sem vocês.

Engoliu em seco. As lembranças escoaram-se: a primeira dança à chuva, o riso de Matilde ao ver o arco-íris, noites à lareira, Hugo a ler contos, Carolina a tricotar um cachecol. Tudo tão terno, mas agora inalcançável.

Dá-me uma segunda chance pediu Hugo, os olhos rasos de esperança. Só uma. Prometo que sou outro homem.

Não sabia como, mas ele convenceu-a. E Matilde, coitada, morria de saudades do pai perguntava constantemente por ele, trazia-lhe desenhos, sonhava com um reencontro. Tão triste, tão calada, Carolina viu-se vencida.

Aceitou retomar com condições: nada de novo casamento, pelo menos durante dois anos. Queria a certeza de que tudo ia mesmo mudar. Deu o recado de frente:

Sem registos, sem papéis. Enquanto não confiar a sério, nada feito. E liberdade: quero ver a família, sair com amigas, trabalhar. Percebeste?

Claro, Carolina! Como quiseres! Hugo acenou com presteza, tão rápida que quase pareceu suspeita.

Mudaram-se juntos para Faro, no sul. De início parecia entusiasmante: recomeçar longe, tudo novo, uma vida plena de possibilidades. Mas Carolina depressa percebeu a jogada. Ali, sem amigas nem família, ficou totalmente dependente dele. As chamadas para o Porto eram vigiadas, as conversas, pouco frequentes.

Liga à tua mãe este fim de semana, é melhor. Agora é tarde sugeria Hugo, sempre presente, sempre a ouvir do outro lado da porta.

O pior? Hugo não digeria a ideia de que, aquele ano separados, Carolina pudesse ter conhecido alguém. Não lhe saía da cabeça.

Conta-me. Só quero a verdade. Não vou ficar zangado dizia ele, vez após vez.

Por muito que Carolina explicasse que só trabalhou e cuidou da filha, ele não largava. Espreitava mensagens, controlava telefonemas, desconfiava de tudo.

Uma noite, enquanto Matilde dormia, o cenário tornou-se insuportável.

Voltaste às mensagens, não foi? arrancou-lhe o telemóvel das mãos, enquanto ela ria com a amiga Rita. Quem é este?

Hugo, dá-me o telefone, é a Rita! Amanhã vamos ao parque com as miúdas, já te falei dela!

Amiga? E os emojis? Isso é para quê? resmungou ele, mexendo no ecrã.

O que se passa contigo? Carolina explodiu em voz baixa, frenética para não acordar a filha. Não combinámos que ia ser diferente? Eu confiei em ti, estou a tentar, mas voltas ao mesmo! Nunca mudas!

Hugo pareceu por um instante chocado com o próprio reflexo. Mas logo ficou de pedra, o olhar fechado, a rigidez de sempre.

Se não tens nada a esconder, mostra-me a conversa. Qual é o problema?

Não. Chega! firmou Carolina, arrancando-lhe o telemóvel e recuando. Aviso-te: não vou aceitar mais isto, nem interrogatórios, nem desconfianças. Ponto final!

Não vais a lado nenhum! Não tens dinheiro, nem trabalho nem casa! ameaçou Hugo, avançando.

Estás enganado ela ergueu-se, os ombros direitos, enfrentando-o. Sentiuse forte de novo, como se a esperança voltasse. Fiz o curso de design, tenho um portefólio, a Rita já me arranjou trabalho. Não tenho medo. Serei independente. Conseguirei sozinha!

Nesse momento ouviu-se a voz sonolenta de Matilde:

Mamã, estás a ralhar?

Carolina correu para a filha e aninhou-a nos braços.

Está tudo bem, minha flor murmurou, com todo o mimo do mundo. Vamos fazer uma grande aventura: mudar-nos para uma cidade só nossa, cheia de sol e jardins. Gostavas?

Matilde sorriu, ainda entre o sono, e abraçou a mãe.

Hugo ficou parado à porta, perplexo, desta vez sem arrogância, só o vazio do fracasso.

Vais mesmo? perguntou ele, derrotado.

Sim respondeu Carolina, olhando-o firme, a mão a envolver Matilde. E não volto atrás. Eu e a minha filha precisamos de paz e segurança. E contigo isso nunca há-de acontecer. Desculpa.

***********************

Hugo perdeu o norte, tentou tudo implorou, ameaçou, chorou, implorou novamente. Carolina não cedeu. Não o ouviu mais, não aceitou conversas. Sempre implacável: Acabou, Hugo. Tomei a minha decisão.

Matilde sentiu a separação nos primeiros dias tinha dúvidas, olhos marejados, abraçava-se à mãe, às vezes chorava. Carolina rodeou-a de carinho, procurou distraí-la, mudou-se para um apartamento com vista para o Jardim da Cordoaria: luminoso, colorido, perfumes novos a cada manhã.

Inscreveu Matilde numa escolinha de artes. Rapidamente a menina fez amigas, ria-se de novo, a vida ganhava cor.

Hugo, nas primeiras semanas, telefonava dia sim dia não, fazia perguntas, tentava demonstrar interesse. Aos poucos, os telefonemas espaçaram-se, tornaram-se mensagens quase formais e as transferências de euros mal chegavam para os materiais da escola. Percebeu que não conseguiria reconquistar Carolina pelo coração da filha. As manipulações fracassaram.

Neste novo lar, Carolina sentiu finalmente poder respirar. As noites no parque, os patos no lago, folhas de outono, papagaios coloridos a bailar. Via Matilde sorrir novamente, e sabia: tinha feito a escolha certa.

Agora, custasse o que custasse, estava livre. Livre para trabalhar, criar a filha, sonhar. O mundo voltava a ser um espaço seu, feito de luz, futuro e paz. E ali, nesse pequeno grande paraíso, não havia mais lugar para medo, suspeita ou acusações. Só para amor e recomeço.

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Este é o filho do Igor…