A Vida Depois do Divórcio

Vida depois do divórcio

Leonor, porquê é que estás sempre a embirrar? O tom da Eugénia, a mãe, era aquele clássico de quem explica o óbvio a uma criança distraída, sempre com aquela pitada condescendente de paciência a mesma que fazia Leonor encolher-se por dentro. O Miguel é um homem impecável! Bonito, inteligente, com um bom ordenado e apartamento no centro de Lisboa. Que mais queres tu?

Leonor largou a colher com que mexia a sopa e olhou diretamente para a mãe. Os dedos tremiam-lhe, por isso enfiou rapidamente as mãos debaixo da mesa, não fosse Eugénia reparar.

Mãe, ele traiu-me, disse Leonor num sussurro firme, olhando bem nos olhos da mãe. Não foi uma vez, nem duas foi uma rotina! Casámos há meio ano e já consegui juntar provas que faziam corar o próprio juiz. Ele nem hesitou: recusou o período de reconciliação! Vês bem? Até alguém de fora percebe que não havia volta a dar ao nosso casamento.

E então? Eugénia encolheu os ombros enquanto ajeitava o avental, como se varresse uma poeira insignificante. Todos os homens são assim, filha. Repara: um homem não foge se a mulher for fantástica! Tinhas era de trabalhar mais em ti. Ir a um ginásio, mudar o corte do cabelo, fazer uns workshops. E tu, ai logo o divórcio!

Leonor suspirou, sentindo a fadiga a tomar conta do corpo. Era a décima vez que tinham esta conversa em quinze dias, sempre com o mesmo guião cansativo. Depois de se separar, Leonor teve de voltar para casa da mãe o seu pequeno T2 herdado da avó estava alugado e ainda tinha de esperar que os inquilinos fossem para poder, finalmente, criar um espaço só para si o seu ninho para respirar e, quem sabe, dormir sem ouvir lições às nove da noite.

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Quando o intercomunicador tocou, estridente e impaciente, Leonor nem precisou adivinhar. Miguel. Outra vez. Gelou-lhe o coração e as mãos humedeceram-se. A mãe, como se de propósito, insistia em convidar o ex-genro, ignorando olimpicamente os protestos da filha, como se a dor dela fosse uma coisa menor.

Filhota, é o Miguel! Eugénia apareceu à porta da cozinha com o rosto radiante, quase infantilmente entusiasmada. Vá, entra! gritou para o hall, a voz carregadinha daquele entusiasmo que só lhe dava vontade de fugir pela janela.

Leonor apertou tanto a colher que os nós dos dedos ficaram brancos e o metal quase se entranhou na palma. Um nó subiu-lhe à garganta e só lhe apetecia desaparecer.

Mãe, eu não quero falar com ele, murmurou, esforçando-se por manter a voz estável.

E alguém te perguntou? Eugénia respondeu, de repente, com aquela secura cortante escondida atrás da doçura. Estás em minha casa, filha. Enquanto cá estiveres segues as regras.

Leonor sentiu os olhos a arder, mas engoliu em seco. Levantou-se sem dizer palavra, quase derrubando a chávena, e atravessou a sala, desviando-se da mãe e do ex-marido, que se descalçava no hall. O cheiro a aftershave dele, intenso e amadeirado, bateu-lhe no nariz e subiu-lhe o enjoo.

Leonor, espera! chamou Miguel, com uma voz de falsa preocupação, daquelas que só irritam ainda mais.

Ignorou-o. Abriu a porta da varanda num impulso, saiu e fechou-a atrás de si com um estrondo. O vento frio entrou por baixo do casaco, cortando-lhe pescoço e orelhas, mas Leonor só queria sentir alguma coisa diferente do que o que se passava dentro de casa. Encostou-se ao parapeito, agarrando-se a ele até ficar com as mãos dormentes, só a olhar para as luzes soltas nas janelas dos outros prédios, gente anónima a viver vidas menos complicadas, esperava ela. Lá em baixo, o camião do lixo, música do vizinho algo ligeiro, quase gozado pelo universo só para a irritar.

Que ele se vá embora de uma vez, pensou, enroscando-se ainda mais no cardigan fininho, que só servia mesmo para efeito psicológico. Ouvia a mãe, na cozinha, a rir alegremente com o Miguel, como se nada tivesse acontecido, como se a filha não estivesse ali, empoleirada ao frio, a tentar controlar o tremor das mãos.

Os minutos arrastavam-se, lentos como segunda-feira de manhã. Os dedos congelaram, mas entrar era impensável. Respirou fundo e fechou os olhos, procurando não pensar em nada, só a escutar o som da cidade.

Foi então que a porta da varanda rangeu um som discreto mas ameaçador, e Leonor deu um pulo. Era o Miguel.

Leonor, ficou a dois passos dela, mãos nos bolsos das calças de ganga, cabeça ligeiramente inclinada, estudando-lhe o rosto. Podemos falar como duas pessoas civilizadas?

Não temos nada a conversar, virou-se para o vidro, observando as gotas de chuva agarradas ao apartamento do lado.

Ouve… ele avançou mais. Leonor sentiu-o encostar-se, o desconforto irradiando-lhe da coluna até à ponta dos pés. Olha que eu percebi que errei. Já aprendi a lição. Quero tentar de novo. Juro que desta vez vai ser diferente.

Tu nem um pedido de desculpas decente sabes fazer, atirou de rompante, virando-se de frente, irritação a fervilhar-lhe na voz. Andas só à procura de voltar ao mesmo, porque é mais simples para ti. Não mudaste nada, Miguel! Só queres de volta o que perdeste.

Mas eu…

Acabou, cortou ela, sem sequer esperar que ele terminasse. E até se surpreendeu com a decisão no tom. Não quero promessas ocas, nem um homem que não sabe ser leal a uma só mulher. Nem alguém que acha que o seu conforto vale mais do que o respeito por mim.

Agarrada à maçaneta da porta, percebeu que estava trancada. Óbvio! Arte e engenho da mãe.

Mãe! gritou, e a própria voz saiu-lhe num misto de desespero e cansaço. Abre a porta!

O trinco lá virou ao fim de uns segundos, e Eugénia apareceu, com o seu avental das cerejas e uma chávena fumegante nas mãos, sorridente como se estivessem a celebrar um aniversário.

Então, meus filhos, estão a congelar cá fora? largou o chá no mesinha que ela mesma tinha arrastado para a varanda, toda atarefada. Venham jantar, está tudo pronto. Chá de hortelã, como vocês gostam!

Leonor escorregou para dentro, de olhos baixos, o peito a explodir de raiva não só contra o Miguel, mas principalmente contra a mãe, mestre na arte de desvalorizar os sentimentos alheios.

Mãe, chega, parou no corredor e enfrentou Eugénia, olhos nos olhos. Não quero mais visitas do Miguel, nem quero que o chumbe em minha casa. Isto é a minha vida, e agora decido eu.

Oh filha, Eugénia tocou-lhe no ombro, gesto gelado e mecânico como quem bate o pó da mesa. O rapaz está arrependido! Uma mulher sábia perdoa, dá uma segunda chance. Tu é que és teimosa, filha… Devias era ser mais flexível, mais… compreensiva.

Leonor inspirou fundo, os números a ecoarem-lhe na cabeça, tentando conter as lágrimas. Discutir não valia a pena era conversa de surdos, ela sabia. Virou costas e foi fechar-se no quarto, porta quase a estalar. O ar ali era pesado (ter-se esquecido de abrir a janela de manhã não ajudava). Sentou-se na beira da cama, a tremer tanto que teve de apertar os punhos contra os joelhos para tentar acalmar a tempestade que lhe lavrava dentro.

No fundo da casa, ainda se ouvia a conversa animada entre Eugénia e Miguel, a mãe triunfante como se tivesse ganho a Taça da Liga, e Miguel com aquele tom meloso de sempre, a tentar convencê-la de que o seu último caso era só uma brincadeira de colegas. Só de pensar era suficiente para embrulhar o estômago.

Como é que ele tem lata para aparecer aqui?, resmungou Leonor entre dentes, cravando as unhas na palma da mão. Depois de tudo o que fez, de todas as mentiras… E a minha mãe, claro, sempre solidária, claro…

Passou meia hora. Quando finalmente o silêncio caiu e ouviu a porta bater, Leonor arriscou sair do quarto. A cozinha cheirava a chá de hortelã e bolo de iogurte Eugénia já tinha alinhado o lanche da tarde como quem espera visitas reais.

Estás amuada, filha? a mãe virou-se com aquele sorriso forçado, colado como autocolante velho. O Miguel está tão mudado… Eu disse-lhe que tinha de te provar que era outra pessoa.

Mãe, chega. Não quero provas nenhumas. Quero apenas paz até ter a minha casa. É pedir muito?

Eugénia deixou-se cair na cadeira, quase derrotada, limpando as mãos ao avental.

Estás a ser muito dura, Leonor. A vida não é preto no branco. Ele errou, mas quem nunca errou? E tu, será que não devias ter sido mais carinhosa? Talvez cuidar mais de ti, caprichar mais…?

As palavras picaram. Leonor sentiu uma pontada tão forte no peito que só queria que acabasse.

A culpa foi minha, então? a voz tremeu-lhe no fim.

Não digas isso, Eugénia fugiu com o olhar para fora, onde o céu já escurecia. A culpa nunca é só de um. Tinhas de ser menos rígida…

Talvez ele é que devesse ser fiel, não? interrompeu Leonor, com inesperada dureza. Custa assim tanto?

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De então para cá, Miguel começou a aparecer com a frequência dos CTT antes do Natal. Era vê-lo à porta, encostado ao Renault, mãos nos bolsos, sorriso de cão abandonado. Ora aparecia com chocolates, ora com um ramo de flores daqueles bem vistosos do Continente: Vim só dar uma volta ao bairro, pensei em passar. Sim, pois claro…

Certa vez trouxe mesmo um ramo de rosas encarnadas e uma caixa de bombons Mon Chéri, aqueles que Leonor só comia em miúda, quando a mãe comprava ao Natal. Os lírios ainda pingavam, a caixa brilhava como se fosse presente de casamento.

São para ti, sorriu, tom humilde, até parecia real.

Leonor olhou para as flores, olhou-lhe para a cara, agora marcada pelos olhos fundos e olheiras. A covinha na bochecha, que antes achava irresistível, agora só lhe lembrava o passado.

Obrigada, mas não quero, não lhe tocou sequer no ramo. E não venhas mais.

Eu sei, mas não consigo desistir assim de nós. Não sabes o que significas para mim.

Signifiquei, Miguel. Já passou.

Fez-se silêncio. Miguel baixou a cabeça, derrotado.

Pronto, está bem. Desculpa andar sempre em cima.

Ia a sair quando Eugénia apareceu, pronta para o Óscar da melhor sogra ex.

Miguel, entra, homem! E com aquele tom tão alto quanto falso. Não te deixes ficar à porta! Oh, Leonor, já viste? O teu ex-marido não morde, anda cá tirar duas palavras ao rapaz! E já agora pega no ramo, que eu cá não me importava de receber flores destas…

Mãe, ele vai embora, Leonor respondeu, já sem energia. E não quero flores de desconhecidos!

Oh filha… Eugénia agarrou Miguel pelo braço (e ela viu bem como ele ficou tenso mas resignado). Anda daí para dentro, tenho bolo acabadinho de sair do forno!

Miguel cedeu protestar era inútil. Leonor limitou-se a ir para o quarto. Atrás da porta, ainda ouviu Eugénia:

Vês? Ela só está magoada, mas passa-lhe. Tu persiste, não desistas! Ela no fundo aprecia.

Leonor tapou os ouvidos, mas as palavras entravam-lhe na mente como nevoeiro. Quis gritar, mas não saiu nada. Em vez disso, pegou no caderno e desatou a rabiscar ondas e linhas tortas, à espera que o caos do papel acalmasse a cabeça.

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Meses depois, Leonor conseguiu finalmente mudar-se para o seu apartamento, mais perto do trabalho. Fez amigas novas para pequenos almoços e cafés, e rendeu-se ao yoga ao sábado, coisa que jurara nunca fazer. As aulas davam-lhe uma paz e confiança física e mental que nunca achara necessárias até aquele momento.

Num desses sábados, meteu conversa com o instrutor, Rui. Uns anos mais velho, sereno, sorriso sincero e olhar que não julgava ninguém. Trocaram números. Depois veio um café, outro, um jantar…

Rui era o oposto de Miguel: não prometia luas, mas estava sempre presente, ouvia-a e respeitava-lhe os silêncios. Com ele, Leonor sentia-se a salvo, pela primeira vez em muitos anos. Não tinha de fingir ser alguém perfeita, bastava ser ela, com os seus defeitos e tudo.

Ao mencionar Rui à mãe, percebeu que vinha lá sermão:

E quem é esse senhor? Faz o quê? Mora onde? os disparos de Eugénia eram sempre assim, certeiros, quase agressivos.

É treinador de yoga, na academia ao pé do escritório. Aluga casa aqui no bairro do lado, explicou, esforçando-se por soar calma.

Só isso? Eugénia fez uma careta como quem mordeu limão. Sem estatuto? Sem dinheiro? Vais sustentar o rapaz? Ou vai viver para tua casa? Cuidas tu dele?

Mãe, o dinheiro não é tudo. Ele respeita-me e faz-me feliz, argumentou Leonor, firme.

Respeita… Eugénia bufou, com um risinho ácido. Como o Miguel, que tu nunca soubeste valorizar! Enfim, és uma complicadora nata.

Leonor fechou os olhos para contar até dez. Convencer Eugénia era tão produtivo como explicar criptomoedas ao avô João. Na cabeça dela, marido de jeito era quem tinha casa própria, carro e emprego num banco; e esposa de valor era a que sabia suportar e perdoar.

Com Rui a vida era leve e segura, como um ribeiro a crescer após o inverno. Falavam muito, passeavam, inventavam jantares e, devagarinho, partilharam sonhos. O tempo e a simplicidade fizeram Leonor acreditar de novo no futuro.

Seis meses depois, Rui pediu-a em casamento no banco do jardim, entre folhas frescas e pardais curiosos:
Leonor, quero estar sempre contigo. Aceitas casar comigo?

Olhou-lhe nos olhos quentes e viu ali uma paz que já não se lembrava de sentir.
Sim, sussurrou ela, e sorriu.

Sabia que isso ia trazer desgaste com a mãe. Dito e feito.
Não podes casar com ele! Eugénia barrava-lhe a entrada da sala, com os braços cruzados como porteira de discoteca. Estás a arruinar a tua vida! Vais arrepender-te!

Mãe, já decidi, Leonor abotoou o casaco, o coração a bater forte mas, enfim, confiante. E sou feliz. Não basta?

Não, cortou Eugénia, gélida. Nunca vês nada à frente do nariz! Sempre foste teimosa. Vais chorar…

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O casamento foi simples só amigos e a tia Rosa do lado do noivo. Leonor escolheu vestido branco discreto, Rui um fato azul escuro com gravata às riscas. Quando trocaram alianças e vieram os beijos, sentiu finalmente que fazia algo só para ela.

Eugénia não apareceu. Mandou, no entanto, um ramo de lírios brancos com fita preta de luto e um cartão: Espero que voltes atrás. Leonor olhou para as flores, pousou-as num canto, sentindo apenas um vago aperto e a certeza de que não queria voltar.

Houve ainda tempo para uma última surpresa: Eugénia conseguiu convencer o Miguel a aparecer no casamento. Leonor deu por ele quando saía do registo civil, parado encostado a um carro, com um olhar tão perdido como um turista sem GPS.

O que é que fazes aqui? Leonor parou, mas já sem o drama de outros tempos, só um leve travo amargo.

Foi tua mãe que pediu, Miguel deu de ombros, resignado. Disse que já te arrependeste, mas pronto…

A minha mãe diz muita coisa, Rui apertou-lhe suavemente a mão, seguro. Só não costuma ter razão.

Pois, pois… Miguel forçou um sorriso. Quando te fartares de viver apertada, dá-me um toque, Leonor. Eu aceito-te de volta.

E deixou-os ali, com a bênção do universo.

Depois do casamento, Leonor e Rui começaram a planear uma mudança. Surgiu oportunidade noutra cidade Coimbra, grande e luminosa, cheia de futuro. Leonor aceitou sem hesitar. Queria recomeçar onde ninguém a lembrasse do passado; onde pudesse construir uma vida de raiz, à sua maneira.

Antes de partir, foi despedir-se da mãe. Eugénia recebeu-a de costas, ainda colada à janela a olhar para o entulho das traseiras.

Vamos mudar-nos, mãe. Para o norte.

E daí? Vais fugir dos teus problemas?

Não, mãe. Vou correr atrás do meu próprio futuro. E gostava de te incluir nisso, mas só se respeitares a minha decisão.

Eugénia virou-se, olhos relampejantes, veia na testa aos saltos. Levantou os braços como se erguesse uma muralha.

Respeitar? Porquê? Vais viver da renda de um treinador de yoga? Ele dá-te estabilidade, dá? O Miguel dava-te tudo e tu nunca valorizaste!

Leonor sentiu uma fadiga de chumbo. Quantas conversas iguais já tinham tido? Respirou fundo.

O Rui é tudo o que nunca senti com o Miguel: segurança, paz. Não tenho de estar sempre em alerta. Posso ser eu, mãe.

Paz? Eugénia riu-se, boca torta. Paz é viver num apartamento alugado e comer carapaus ao domingo? O Miguel metia-te num spa qualquer em Vilamoura, fazia-te a vontade toda. Não vou aceitar!

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Leonor estava longe de imaginar que nessa noite Eugénia ligou ao Rui. Ele estava a arrumar caixas quando o telemóvel tocou.

Rui, meu querido, voz melosa, insuspeita. Estou preocupadíssima com a Leonor, tão impulsiva, tão cabeça no ar… Este vosso plano é um erro. Ela vai arrepender-se.

Rui ouviu em silêncio.

Ela não está recuperada do divórcio, ainda gosta do Miguel… Tu és só uma distracção. Não arruines a tua vida.

Dona Eugénia, Rui interrompeu calmamente. Eu conheço a Leonor melhor do que imagina. Sei como ela se tornou mais serena comigo. Ela escolheu-me, e eu não a vou deixar cair.

Ai, tão ingénuo… Vais ver, ela arrepende-se, fica lá sozinha… O Miguel continua por perto.

Rui respirou fundo. Pensou na Leonor, nos seus olhos felizes, nas gargalhadas soltas.

Acho melhor ficarmos por aqui. A Leonor sabe o que faz.

E desligou. Pobre Leonor, crescer assim, com a mãe sempre a puxá-la para trás…

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No dia seguinte, Leonor voltou tentar uma despedida decente. Levou uma caixa de broas que a mãe adorava, um ramo de margaridas campestres.

Mas Eugénia era um poço de críticas.

Nem pensas antes de agir? Fica cá um mês! Descansa, pensa com calma, filha! Talvez isso seja só cansaço…

Já está tudo decidido, mãe. Temos casa, trabalho, tudo pronto. Encontrámos apartamento junto ao parque, já conheço os colegas via Zoom, o Rui já tem emprego na academia… Está mesmo a correr bem.

Foi ele que te pôs isso na cabeça? Ele só quer dependência, prender-te! Aqui, se estivesses comigo e com o Miguel, acordavas…

Leonor ficou petrificada. Não era a sua mãe que falava, mas alguém que nem a conhecia.

Acreditas mesmo nisso? Que o Rui quer controlar-me? Que ele me manipula?

Todos os homens querem controlar! O Miguel sempre foi honesto nas intenções, este Rui até parece bom demais.

Já chega. Não aguento mais. Só peço respeito. Quero ser feliz!

Virou-se para sair, Eugénia agarrou-lhe o braço quase com força de ferro.

Espera. Eu sou tua mãe, só quero o melhor.

O melhor é aquilo que escolho, mãe. Escolho o Rui. Escolho a nossa vida. Escolho partir. E quero que tu um dia aprendas a gostar de mim como sou. Mas se não consegues, é melhor darmos espaço.

Se é assim… Eugénia virou costas para a janela, voz baixa. Sabes onde me encontrar quando voltares à razão.

Leonor ficou mais um minuto, a ver as mãos nervosas da mãe, o cabelo grisalho apanhado de qualquer maneira. Apeteceu-lhe abraçá-la, mas sabia que era tudo menos honesto naquele momento. Saiu sem fazer barulho. No bolso do casaco, um telemóvel novo com um número que, por agora, a mãe não teria.

Talvez um dia voltassem a conversar. Mas, para já, Leonor só queria espaço o seu, limpo, leve e só dela.

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