O Preço da Arrogância

O Preço da Soberba

Mariana, podes emprestar-me umas coisas? pediu com voz suplicante a Margarida, mal transpôs o limiar do confortável apartamento da irmã.

Não conseguiu evitar que o olhar se demorasse no hall espaçoso, com móveis de design, nos espelhos de molduras requintadas, no pufe impecável junto à entrada tudo parecia retirado das páginas de uma revista de decoração. No peito, displicente mas amarga, mexia-se aquela inveja habitual: a irmã sempre tivera tudo no seu devido lugar.

Margarida, surgida à porta da sala, percorreu-a com o seu olhar perscrutador. Mesmo de robe de caxemira, numa tarde qualquer de semana, exalava aquela elegância natural que Mariana tentara em vão conquistar ao longo dos anos.

Então, conta lá. Que mistério é esse? perguntou ela, encostando-se ao batente da porta.

Mariana ajeitou instintivamente a manga do casaco já não novo, mas ainda em bom estado. Esquivou o olhar à grande tela pendurada à frente, ao arrumo irrepreensível, ao aroma de café fresco que inundava o apartamento.

Não é grande coisa murmurou, juntando forças para continuar.

Margarida não desviou o olhar, e Mariana percebeu que não poderia sair dali sem abrir o jogo. Respirou fundo e desabafou:

No sábado vai haver o jantar dos antigos alunos. Não posso faltar! E tenho mesmo de aparecer impecável, estás a perceber? Quero que toda a gente pense que a minha vida é um conto de fadas!

E para quê? retrucou Margarida, finalmente desviando o olhar. Porque hás de esforçar-te tanto à frente de gente com quem quase nem falas? Tu nem sequer moras nesta cidade, quanto mais na região!

Mariana passou os dedos nervosamente pelo cabelo. Nesse instante, desejou ardentemente ter uma cozinha igual com ilha, eletrodomésticos embutidos e aqueles candeeiros suspensos de cortar a respiração. Que as suas manhãs começassem também num lento e calmo café, num ambiente bonito, em vez da confusão a que estava habituada.

Tu não entendes! escapou-lhe. Para mim é importante. Quero que vejam que consegui, que ninguém pense que falhei…

Caiu em silêncio, ao notar o olhar de inveja que já não conseguia camuflar. Margarida, como sempre, parecia nem reparar ou talvez apenas dissesse nada.

Vais mesmo fingir ser alguém que não és? perguntou suavemente Margarida, sentando-se num banco. Achas que vais impressionar quem quer que seja?

Não é isso Mariana abanou a cabeça. Só quero que os colegas acreditem que realizei todos os meus sonhos!

Pronto, suspirou a irmã. Vamos lá ver o que tenho. Mas promete-me: é a primeira e última vez que tentas enganar as pessoas. Isso, francamente, não é bonito.

Tu não entendes!

E Mariana começou a contar a sua história…

~~~~~~~~~~~~~~

Em tempos de escola, fora estrela incontestável da turma. Todos o reconheciam. No corredor, os rapazes formavam um cortejo atrás dela, cada qual desejando, ao menos por instantes, atrair a sua atenção. Até os professores suavizavam o tom ao vê-la chegar, aquele olhar pensativo e ligeiramente melancólico parecia hipnotizar os adultos. Os pais, então, não lhe recusavam nada bastava um suspiro, um levantar de sobrancelha, e logo o desejado aparecia nas mãos.

Acostumara-se a obter tudo com facilidade. Quando cobiçou uns ténis da nova coleção ainda mal tinham chegado a Lisboa no dia seguinte a mãe surgia com a caixa decorada. Se entrava um aluno novo e jeitoso, pouco passava até o rapaz esperar por ela à saída das aulas. Aquilo tornara-se um jogo: até onde podia ir, quantos desejos podia fazer realizar, quantas fronteiras transpor.

Porque eu posso, repetia para si, como se fosse um feitiço. Tornou-se o seu lema, a desculpa para tudo. Quando uma amiga se aproximava de algum rapaz de quem Mariana gostava, rapidamente entrava na disputa e quase sempre vencia. Não era amor verdadeiro, mas a adrenalina de saber se conseguiria chamar todas as atenções só para si.

As amigas antigas foram afastando-se. Primeiro foi uma, depois outra, cada qual encontrando novas companhias. Mariana não se preocupava demasiado ali à volta nunca lhe faltavam pretendentes ao seu círculo restrito, ansiosos por aprovação. Aceitava como natural: quem não aguentava as regras do seu jogo, não era digno de ficar por perto.

No baile de finalistas, sentiu-se autêntica rainha. O salão, decorado com serpentinas e balões, parecia-lhe o próprio reino. Os colegas aproximavam-se, atentos a cada gesto e palavra. Aquele era o lugar dela sempre no centro, como nascera para estar.

Embalada pelo êxito, permitiu-se o excesso. No calor das memórias, largou uma chuva de palavras rudes às colegas: recordou velhas desavenças, comentou as falhas das outras, não poupou observações maldosas sobre o aspeto físico. Falava quase sem filtro, olhos a brilharem de excitação: queria vê-las defender-se, testar os limites.

A minha vida vai ser maravilhosa! proclamou, cabeça erguida, percorrendo com o olhar as ex-colegas. O tom seguro e altivo, como se já vivesse naquele prometido futuro de luxo.

Fez pausa e continuou, com redobrada energia:

Vejo-me casada com um homem rico, capaz de me dar tudo, num casarão cheio de empregados… talvez até abra uma empresa só minha, vamos lá ver mas duvido, trabalhar nunca foi muito comigo! Tudo vai correr sem esforço: dinheiro, glamour, atenção tudo a meus pés.

O olhar brilhante, o sorriso autossatisfeito desenhado nos lábios. Era como se sentisse já os candeeiros de cristal, os carros caros, as noites em restaurantes de requinte.

E vocês? Vocês vão ter bem menos sorte! alterou bruscamente o tom, encarando uma das raparigas mais discretas, sempre sentada à frente e de caderno cheio de apontamentos perfeitos.

A rapariga encolheu-se, mas Mariana já não parava:

Tu vais acabar professora numa escola obscura, ou então a atender pessoas num balcão qualquer. Porque não sabes valorizar-te! e lançou um olhar de desdém. O teu marido será um operário que, com azar, chega a casa embriagado e até te levanta a mão!

As palavras saíam com maldade, quase como discurso ensaiado. Não era troça; era júbilo por sentir-se superior.

Sem esperar resposta, virou-se para outra colega.

E tu? Vais trabalhar num escritório sem graça, a contar trocos e a sonhar com um vestido novo. Jamais poderás ter aquilo que eu terei!

Continuou, percorreu cada rapariga com profecias cada vez mais carregadas a umas augurava vida em apartamentos velhos, a outras uma existência fechadas em casa com filhos e sem ascensão profissional. Cada previsão saía acompanhada de uma crítica à aparência ou comportamentos.

As colegas desviavam o olhar, entre sorrisos forçados, tentando fingir que era brincadeira. Mas pairava no ar aquela tensão as palavras de Mariana doíam, por trás da sua aparente leveza.

Ela ria-se dos semblantes desanimados, deliciada com o efeito. O seu riso espalhou-se, e os rapazes do grupo juntaram-se com sorrisos, uns por convicção, outros para não parecerem deslocados.

Mariana acolhia essas gargalhadas como se fossem prova da sua razão. Sentia-se poderosa capaz de ditar destinos.

Quando chegou à altura de escolher curso, foi para uma universidade no Porto não pelo curso em si, mas pelo prestígio do local. Afinal, pensou, só numa cidade grande poderia encontrar um bom partido rapazes de famílias endinheiradas, jovens empreendedores, carreiristas ambiciosos. E tinha uma vantagem: o antigo apartamento da avó ficara-lhe, nada de partilhas ou quartos alugados, distinção entre as colegas.

Os primeiros dias correram como imaginara. Mariana decorou a casa a preceito, fez amigos, não faltou às festas. Continuava a ser notada pela postura, pela forma de se exprimir. Dava-se ao luxo de escolher companhia, recebia elogios, ainda acreditava: cedo encontrará alguém que a valorizasse.

Mas rapidamente se deparou com a realidade. Os estudos eram mais exigentes. As aulas pediam atenção, os trabalhos demoravam, os exames apertavam. Acostumada ao fácil, custava-lhe adaptar-se. Faltava a disciplinas, deixava tudo para depois, pensando que o seu charme iria resolver tudo.

Bastou o primeiro semestre para tudo ruir. Chumbou quase todas as cadeiras. Os professores, já pouco tolerantes, foram diretos: “Ou mudas de atitude, ou então sais.” Pela primeira vez, sentiu a sua confiança a vacilar.

Aos poucos, percebeu a infância ficara para trás. O mundo era bem mais competitivo. Raparigas bonitas, ambiciosas, inteligentes, não faltavam. As colegas estudavam, faziam estágios, projetavam o futuro. E ela? Continuava presa à imagem construída no passado.

Em vez de corrigir o rumo, apostou tudo numa nova estratégia: casar rapidamente. “Enquanto tiver beleza”, pensava, calculando por quanto tempo seria “a mesma Mariana”.

Intensificou encontros, aceitou convites de homens mais velhos, esmerava-se no visual. Nas conversas, soltava insinuações sobre casamento e família, valorizava o quanto seria bom encontrar “a sua metade”. Mas quanto mais se esforçava, mais insegura ficava e isso afastava os que poderiam interessar-se de verdade.

Um rapaz destacou-se, talvez tivesse futuro.

Mas a vida pregou-lhe nova partida.

O candidato era de família abastada os pais eram donos de clínicas, viviam num bairro nobre de Cascais e davam-se com gente da nata. O filho, Tiago, único herdeiro, educado no estrangeiro, trabalhava já na empresa da família, postura determinada.

Esteticamente, não era digno de cinema: baixo, rosto arredondado, postura algo desleixada. Mas Mariana não quis saber: “Dispenso galãs sem ambição”, pensava. “Assim tenho casa, estatuto, liberdade financeira.” Já se via dona de um solar, a desfrutar festas e viagens.

Traçou o plano. Primeiro, conseguir cruzar-se com Tiago: soube onde estava ao fim do dia, “acidentalmente” encontrava-o no ginásio ou cafés. Depois, mostrar o seu melhor simpatia, humor, diálogo. Escolheu bem as roupas, pesou cada palavra, queria soar natural, mas irrepreensível.

Aos poucos, conseguiu que Tiago lhe desse atenção. Saíram diversas vezes, jantaram fora, passearam. Sentiu interesse por parte dele. Não apressou nada, só deixou cair a ideia de querer algo sério falou de família, de valores, de procurar “a sua pessoa”.

Mas esqueceu um detalhe: naquela família, o passado e as raízes pesavam mais do que imaginava. Os pais de Tiago há muito tinham em mente outra noiva uma rapariga “do círculo deles”, boas famílias, boas ligações.

Quando Tiago comentou a existência de Mariana, a mãe apenas levantou uma sobrancelha:

E quem é ela? O que faz a família dela?

Tiago deu de ombros:

É estudante. Filha de pais normais, do interior.

Normais? a mãe encolheu o nariz. A nossa família representa tradição, estatuto e relações. Queres que digam: “O filho dos donos das clínicas casou-se com uma rapariga sem eira nem beira”?

Tiago tentou argumentar:

Mas é inteligente, interessante…

Inteligentes há muitas, cortou secamente a mãe. Nós queremos alguém com pedigree. Não compliques.

Entretanto, Mariana sonhava: já planeava o momento em que apresentaria Tiago aos pais, quando juntos escolheriam o novo lar… Até que ele ligou, dizendo que precisavam de conversar.

No café, Tiago estava tenso. Não encontrou logo palavras:

Os meus pais… não apoiam isto. Acreditam que somos de mundos diferentes.

Mariana sentiu-se esmagada por dentro, mas forçou um sorriso:

Isso não importa. Somos adultos, decidimos por nós!

Mas para eles importa suspirou Tiago. Escolheram outra para mim. Tentei argumentar, mas… Não quero ir contra a família. Desculpa.

Depois do encontro, ficou ainda uma eternidade a olhar para a chávena vazia. Nem chorou apenas sentiu um azedume surdo.

Porquê? pensava. Fiz tudo certo! Porque é que ele não consegue desligar-se dos pais? Até o velho truque de engravidar ele teria caído nunca me largava!

Mas ainda pior estava por vir. Poucas semanas depois, caiu-lhe a notícia: nos círculos de possíveis pretendentes, alguém começou a espalhar rumores diziam que “andava à caça de homens ricos”, que usara Tiago só pelo dinheiro. Em meios restritos, as notícias correm célere.

Quando íamos às festas ou aos sítios habituais, notava olhares de esguelha, sorrisos forçados, cochichos atrás das costas. Vários homens, dantes tão simpáticos, agora frios ou indiferentes. Um deles, noutros tempos bem disposto, agora nem ficou para conversar acenou ao longe e saiu apressado.

Tentou não dar parte fraca, mas por dentro sabia: a reputação estava arruinada. Casar bem? Esquece, pelo menos naquela elite.

Regressar a casa? Jamais seria admitir fracasso. Durante anos dissera aos pais maravilhas; não sabia como explicar a verdade. Ao telefone, mantinha a farsa cursos de sucesso na Faculdade de Direito do Porto, projetos de empresas em part-time, namorado encantador da linha de Cascais.

Os pais ouviam cheios de orgulho, até repetiam as histórias à vizinhança. Mariana visualizava-lhes a expressão de orgulho não aguentaria vê-los desiludidos nem perguntas difíceis.

Só Margarida sabia a verdade, por um acaso apanharam-na desprevenida numa visita entre comboios.

Volta para casa, aqui já nada te espera disse Margarida, séria. Diz-lhes que mentiste, acaba com isso.

Mariana endireitou-se, limpou as lágrimas e respondeu, hirta:

Confessar tudo? Jamais! Vou lutar até ao fim, hei de ser feliz!

E naquele momento acreditava. Bastava querer e tudo mudava. Continuou a sair em encontros, a fazer contactos, a tentar entrar nos grupos influentes. Mas o tempo passou o marido rico nunca chegou. Os que mostravam interesse depressa se afastavam perante as exigências exageradas, o olhar julgador, a indisponibilidade para ceder.

O dinheiro do legado da avó, que restava para além do apartamento, foi-se esgotando. Primeiro reduziu despesas, depois deixou de ir ao café, desistiu de roupas novas, largou o ginásio. Mas as contas não perdoavam.

Até que, num desses dias, ao contar as últimas notas, percebeu: ou arranjava trabalho, ou não resistiria mais. Procurou algo “à altura”, mas sem curso acabado nem experiência, ninguém queria arriscar.

Foi assim que a antiga rainha acabou a trabalhar numa caixa de supermercado. Os primeiros tempos foram um suplício. Atrás da caixa, escutava comentários de quem achava estranho vê-la ali, tão bem vestida. Tinha de sorrir, passar artigos, agradecer e lembrar-se constantemente: aquilo era apenas provisório.

~~~~~~~~~~~~~

Ontem recebi o convite para o jantar de antigos alunos! concluiu, pesarosa, a sua história. Não posso faltar, percebes? Se não aparecer, vão pensar logo que a minha vida deu para o torto!

Margarida pousou a colher, acabara de mexer o chá, e olhou-a com atenção. No olhar misturavam-se ceticismo e carinho, mas não apressou respostas.

Já pensaste se não será precisamente essa a ideia convidarem-te só para ver se te apanham na mentira, para te gozarem? Lembras-te daquela noite no finalistas… nem todas esqueceram o que disseste.

Mariana ergueu a cabeça, rosto já ruborizado.

Que disparate! desdenhou, gesticulando como quem afasta uma mosca. Disfarço-me bem, ninguém sabe nada ao certo. Basta-me aparecer em grande e mostrar que continuo no topo!

Margarida recostou-se, batendo pensativa os dedos na caneca. Parecia-lhe estranho. Por que chamar de volta quem tanto desprezara e humilhara? Era improvável que as antigas colegas anseiassem reatar laços com alguém que só profetizara desgraças. Mas há muito que não tentava mudar as ideias da irmã; Mariana fazia sempre o que queria, e depois assumia a factura.

Pronto, assentiu Margarida, cuidadosa. Se decidiste ir, vai. Mas pensa se estás mesmo preparada para o que aí pode vir.

E o que poderia acontecer? respondeu Mariana, franzindo a testa. Vai correr bem. Escolho o melhor vestido, arranjo o cabelo… ninguém adivinha que estou em apuros.

Está bem. Se precisares de ajuda a vestir-te ou pentear-te, avisa. Estou aqui.

O rosto de Mariana iluminou-se.

Obrigada respirou fundo. Preciso mesmo do teu juízo! É fundamental estar perfeita… não quero dar motivo de falatório.

**********************

Mariana saiu do restaurante a correr, lágrimas a costurar-lhe o rosto. O ar fresco da noite colou-se à pele quente mas ela nem notou as pernas levavam-na para longe daquele prédio, onde minutos antes tentara aparentar aquilo que não era. Como a Margarida tinha razão! Nunca devia ter vindo!

E tudo começou bem. Ao entrar na sala do jantar, todos olharam logo para ela. Mariana ensaiara cada passo: caminhar serena, sorrir pouco, deitar um olhar distraído para o relógio tudo sugeria alguém ocupada, importante, que deixara uma agenda cheia só para estar presente.

Depressa se aproximou de um grupo que pouco a conhecia dos tempos do liceu. E lança o seu teatro: marido empresário, em viagem de negócios no estrangeiro; casa grande com jardim e rosas todo o ano; férias em resorts várias vezes por ano. Mariana deixou-se levar pela sua teia de invenções, sem notar os olhares cúmplices, sorrisos escondidos, trocas de olhares entre as colegas.

Sentia-se rainha até ouvir um ex-colega, voz alta, demasiado clara:

Sabem? Vi a Mariana há pouco tempo… e a vida dela não é nada como a que acabou de contar.

Silêncio pesado. Todos olharam.

Pois é, reforçou outra colega, tirando o telemóvel. Tenho fotos. Encontrei-a há umas semanas.

E foi o início do fim. No ecrã projetado, uma a uma as imagens mostravam Mariana no seu dia-a-dia real.

Ali atrás da caixa do supermercado sorriso ensaiado para um cliente maldisposto, de avental e crachá ao peito. Ali a organizar prateleiras a ver promoções; ali a entrar de cabeça baixa no autocarro, com um saco de compras. E a pior de todas a entrar num prédio antigo, com os sacos das compras, de ar cansado.

Primeiro, uns risos contidos. Depois, gargalhadas abertas. Um comentou: Falou do palacete! Outro: E o marido empresário, também é da caixa?

Mariana ficou estática, rosto ardente, pernas bambas. Não havia vergonha nenhuma naquilo tanta gente vivia igual. Mas, minutos antes, descrevera luxos até acreditar neles. Bastaram aquelas fotos para desmascarar a sua fantasia.

Sem esperar por mais perguntas, fugiu disparada porta fora. Mal escutou os gritos ou percebeu quem tentava detê-la. Só o vento frio e as lágrimas, que esfregava desajeitada, a empurrá-la para o banco do jardim mais próximo, para recuperar a respiração e decidir o que seria da vida.

Não viu o homem que vinha na direção contrária, só deu conta quanto se esbarrou nele. Cambaleou, quase caindo.

Precisa de ajuda? disse-lhe ele, preocupado. Era uma voz tão genuína que Mariana ficou sem reação.

Ergueu os olhos e, diante dela, havia um homem normal, roupa simples, saco de compras na mão. Mas o olhar aberto, atento, acabou com o pouco que lhe restava de dignidade.

Não… murmurou ela, sufocada. O meu noivo deixou-me mesmo antes do casamento…

De facto, a vida nunca lhe ensinara coisa nenhuma.

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