Maçãzinha
És mesmo igualzinha à tua mãe!
Igualzinha como, avó? Mafalda não conseguiu evitar e colocou-se logo em posição defensiva, mas logo se controlou. De quem é que estava a tentar proteger-se?!
Só pensas no que te apetece! A tua mãe era igual, nunca ouvia ninguém! E tu estás no mesmo caminho!
E eu, afinal, o que tenho de ouvir?
A mim! Tens de me ouvir e respeitar! Porque sou mais velha e sei melhor da vida! Ouviu-se bem?
Mafalda olhava, incrédula, para a avó, meio despenteada, vermelha de raiva, a agitar-lhe o dedo em frente ao nariz.
Era curioso. Porque tanta insistência em ser ouvida e obedecida? Aparece e ocupa logo todo o espaço!
Mafalda mexeu instintivamente os dedos, como a sentir um lápis imaginário na mão. Se pudesse redesenhar o dia Tirava as sombras dali, iluminava mais aqui Não gostava de confusões e barulhos. Não tinha paciência para discussões e vozes levantadas. A mãe nunca lhe falara com esse tom. Dizia-lhe sempre que as pessoas decentes sabiam ouvir.
Abrimos bem as orelhinhas, Mafaldinha, e ouvimos com atenção! Como os coelhinhos! Sabes porque é que eles ouvem tão bem? Porque a raposa anda silenciosa, e se eles não ouvirem, zás! Já eram!
Não quero! a Mafalda pequenina ficava petrificada a olhar para a mãe.
Claro que não queres! Por isso és esperta, ouves tudo com muita atenção e és rápida a fugir! Nenhuma raposa te apanha!
Isso era há tanto tempo Mafalda já quase era adulta, mas lembrava-se perfeitamente de todas as histórias e ensinamentos da mãe.
Engraçado Em miúda pensava que a mãe exagerava ou inventava. Agora via que ela tinha razão em tudo.
Olha a avó, por exemplo. Mafalda nem a conhecia até ao ano anterior. Vivia com a mãe numas ruas pequeninas de Vila Nova de Milfontes, ia ao jardim de infância, discutia com a Patrícia e a Leonor, depois faziam as pazes e as três juntas iam à gelataria do Largo tomar um gelado. Depois veio a escola, o Tiago, os primeiros beijos à beira-rio ao fim da tarde.
E havia a mãe
Por reflexo, Mafalda apertou com força a grande conta azulada da pulseira feita pela mãe.
Que interessa se é falsa? O que importa é que ficou bonita! Percebes, filha, às vezes o verdadeiro custa, é duro, difícil e só magoa. Mas a imitação nem sempre é má.
Como assim?
Olha, há pouco tempo zangaste-te com a Patrícia porquê?
Disse que éramos pobres porque só me compraste uns ténis da feira, imitação, e ela sabia que os verdadeiros eram diferentes.
Pois. A Patrícia tinha razão, não são da marca. O tio Rui fez-to-os de propósito. Mas nunca dissemos que eram de marca, pois não?
Pois não.
Mas são de pele boa, bonitos, feitos com carinho. O tio Rui só sabe fazer assim. Gostas deles?
Gosto!
Então, que interessa se têm o logotipo ou não? É tudo uma mania das pessoas, quererem parecer melhores e superiores. Percebes? Uns ligam ao rótulo, outros aproveitam o que têm. Quem é que é mais feliz, achas?
Mafalda pensou muito nisso. Até lavou o chão do seu quarto e da mãe enquanto pensava. Depois foi à cozinha, onde a mãe fazia doce de alperce, e perguntou:
Mãe, então a Patrícia não é minha melhor amiga? É? Fala bem e depois sai-se com uma dessas Sei que ela gostou dos meus ténis. Não quis só admitir.
Como sabes?
A Leonor contou-me. A Patrícia fez uma birra à mãe para ter uns melhores do que os meus.
Ai, Mafalda! A mãe, Teresa, pousou a colher de pau e abraçou a filha. Não sejas radical. A Patrícia é tão pequenina como tu
Eu não sou pequena!
Mafalda girou-se no colo da mãe, com os olhos irritados, mas a Teresa sabia: Mafalda estava zangada era consigo mesma, por pensar mal da amiga.
Para mim és sempre pequena retorquiu-lhe a mãe, suavemente. E para a mãe da Patrícia também. Isto de mães, os filhos e os amigos são sempre os meninos. E ainda bem. Se eu pudesse, gostava de ser pequenina outra vez para me darem mimos. Mas já não dá
Teresa suspirou e beijou o alto da cabeça da Mafalda.
Vá, mudando de assunto. Disseste que a Patrícia já veio cá?
Veio. Pedir desculpa.
E tu?
Eu disse-lhe que não queria vê-la e que nós não somos pobres!
Ficaste chateada?
Muito!
E agora?
Agora ainda estou. Mas menos
Então espera que a zanga passe mesmo e depois faz as pazes. Se for já, nem vais perdoar a sério e ainda acabam por se incompatibilizar para sempre.
Mafalda quase explodia de saudades da mãe. Ela saberia o que fazer, o que dizer. Sobretudo agora, com a avó por perto
A avó apareceu de rompante.
A Mafalda não sabia de nada. Nem de que a mãe já não estava bem, nem que se voltara a falar com a ex-sogra, e lhe pedira para vir.
Ora viva, Teresa! Nunca pensei em voltar a ver-te! E a senhora, já algo pesada e com as faces rubras do calor, fechou a porta do pátio, recostou-se a ela e ofegou. Isto é um forno! Não sei como aguento!
Olá, Dona Graça!
Mafalda olhou espantada para a mãe, que falava num tom estranho.
Esta é a Mafalda? Dona Graça suspirou, olhando-a de cima a baixo. Não tem nada do filho! Tens certeza que é filha dele?
A senhora é que nunca muda!
Agora a mãe até riu e Mafalda relaxou um pouco. Logo se vê, dizia a mãe.
Não gostou nada da avó. Faladora, nervosa, nada contida. Encheu a casa deles de ruído e arrumações sem nexo.
Desmazelo, como sempre! E têm uma filha em casa! Era para ela aprender a ser mulher, é? O marido ainda no casamento mete-te na rua! Muito bem fazia!
Mafalda não percebia porque é que a mãe não respondia, só sorria de lado e deixava Dona Graça instalar-se e arrumar como queria.
Os gatos, já habituados à casa, fugiam dela para todos os cantos, e o Rocky, o cão que o tio Rui oferecera à Mafalda, deitava-se no quintal à sombra, resmungando baixinho de cada vez que Dona Graça falava mais alto.
Cá está! O único bicho sensato é o cão! Sabe que não tem nada que ficar aqui. Animal em casa é que não!
Quando ouviram isso e viram Dona Graça com a vassoura, os gatos dispararam porta fora e esconderam-se.
Foi nesse dia que Mafalda bateu o pé. Agarrou o seu gato preferido, Pastel, e levou-o debaixo do braço até ao quarto.
Então? Mafalda! O grito de Dona Graça fez o Rocky ladrar lá fora.
Diz? A Mafalda virou-se preguiçosa e olhou a avó. Os gatos e o Rocky ficam! Eles já estavam cá antes de si. Se quer ordem, siga-a mas só na sua casa. Aqui é a nossa casa. E a senhora é visita.
Mafalda! A mãe ficou de boca aberta. Nunca tinha ouvido a filha responder assim a um adulto.
Mas para surpresa da mãe, Dona Graça não se ofendeu, só se riu e disse:
Bem ditas, és toda da nossa estirpe! A maçãzinha nunca cai longe da árvore Teresa! Podias ter educado melhor a miúda!
A partir daí, deixou de implicar com os gatos, limitando-se a afastá-los com o pé, mas já não os punha na rua.
Pouco tempo depois, tudo mudou e passou a correr depressa, os acontecimentos atropelavam-se e Mafalda só queria que o tempo parasse. Porque é que a vida tem tanta pressa? A mãe era tão nova Fazia-lhe tanta falta!
O tempo não lhe ligava: médicos, remédios, hospital
Teresa partiu numa manhã de primavera.
Na véspera, Mafalda tinha aberto as janelas, deixou entrar o vento do mar, e sussurrou:
Mãe, a cerejeira está quase a florir! Quase, quase!
Vou tentar ver, Mafaldinha Quero mesmo
Quando Mafalda soube que a mãe tinha partido, num acesso de raiva, quebrou o ramo que crescia junto à janela do quarto da mãe. Para quê, se ela já não estava lá para ver?
Dona Graça não andava com paninhos: puxou Mafalda para um abraço forte, tirou da mala um lenço que mais parecia um lençol, e disse:
Chora, grita, desabafa lá o que está aí dentro! Não te faz falta! Não podias fazer mais nada Cada um de nós tem o seu tempo
Como sabia ela o que dizer? De onde lhe vinham aquelas palavras? Era verdade: Mafalda sentia-se culpada. A mãe só trabalhava, nunca descansava, tudo por ela, pela filha, para que Mafalda fosse para a universidade e tivesse uma vida melhor…
E Mafalda? Saía com o Tiago, com as amigas, em vez de estudar ou pintar. As notas começaram a cair, só acordou a tempo para tentar recuperar, mas já não teve tempo de contar à mãe. Não queria preocupá-la
A carta que dona Teresa deixara à filha, Dona Graça só lhe entregou aos quarenta dias.
Aqui tens! Está na altura. Lê com atenção. É o último recado da tua mãe.
Porque está aberta? Mafalda virou o envelope branco sem selo nas mãos.
Para Mafaldinha. Era só o que dizia, com a letra larga da mãe.
Achas que sou assim tão má? Não te podes com a minha pessoa, e percebo, mas ler cartas dos outros Nem pensar! Vai, vai à tua vida, que tenho muito que limpar. Se quiseres, ajuda depois!
Estava ofendida Mafalda percebeu logo, pois Dona Graça virou costas, inspirou fundo e foi para a cozinha, sem ralhar, só num silêncio magoado. Mafalda encostou a testa ao batente da porta, onde ainda via as marcas a lápis que a mãe fazia para medir o seu crescimento.
Olha como a Mafaldinha cresceu! Que grande está!
A voz da mãe pareceu-lhe tão real que Mafalda quase recuou.
Crescida Só que não. Se fosse madura, saberia agir melhor. A mãe não ia gostar nada daquelas atitudes.
Fechou-se no quarto, sentou-se no chão, o envelope no colo. Não tinha coragem de abrir. Tanta coisa que queria ter dito e ouvido
O envelope vinha cheio, muitos papéis, escritos naquelas folhas de caderno quadriculado. Mafalda chamou o Pastel e começou a ler:
Mafaldinha! Para já, chega de lágrimas! És forte, minha filha! Para quê tanto choro? A vida é maravilhosa! Tem tanta coisa boa! Vê se aproveitas! Não desperdices o tempo com desgostos pelo que não aconteceu. Vais pensar que estivemos pouco juntas. Eu acho o contrário: tivemos muito tempo, tempo mesmo! Talvez só com o tempo entendas. Por isso, deixa contar-te tudo, devagarinho. É a tua história, tens direito a saber.
Começo pelo princípio: quando conheci o teu pai. Era uma pessoa incrível. Quando o vi, apaixonei-me logo. As minhas amigas diziam: Como é que podes? Ele é ruivo! Não percebiam a sorte que eu tive. Parecia o sol: bonito e quente. És muito parecida com ele, embora por fora se note pouco. Ficaste-lhe com as sardas, os olhos e o nariz. O resto é todo meu. Quando nasceste, ele passava a vida a olhar para ti, a imaginar as tuas caracóis como os da avó dele, Dona Graça.
Mafalda, ela é muito boa pessoa! Não ligues ao feitio difícil. Sempre foi assim: enérgica, por vezes dura, a ralhar, mas muito confiável e generosa.
Deves perguntar porque é que nunca a conheceste, nem tiveste contacto antes? Assumo a culpa. Eu, tola, era jovem e não a compreendi. Discutimos muito quando eras bebé. Com o teu pai correram bem as coisas, até ele se apaixonar por outra mulher. Acontece, Mafalda.
Não foi porque não gostasse de mim ou de ti. Encontrou alguém, foi a sua estrela. A vida tem destas coisas Eu sempre o amei mais, disso tenho quase a certeza. Era um bom pai, ficou connosco por tua causa até o coração dizer chega. E a mãe percebe isso agora, mas na altura doeu tanto, que perdi o chão. E a tua avó apareceu.
Só agora compreendo: ela veio tentar pôr juízo no filho, queria segurar o casamento. Não percebia o que estava a acontecer mas, como imaginas, só sabia ralhar por causa da falta de ordem. E eu explodi. Dissemos tanta coisa parva uma à outra até disse, num acto de desespero, que tu não eras neta dela.
Que parvoíce, Mafalda! Como é fácil errar, difícil corrigir!
Ela cuidou de mim meses antes de nasceres. Os médicos diziam que podias não nascer, e ela largou tudo, veio cozinhar e pôs ordem na casa, tanto, que depois eu nem sabia onde estavam as minhas coisas. Só deixou de cá estar quando tinha certeza de que tu estavas bem.
E não sabias, mas tens um irmão e uma irmã, filhos da segunda mulher do teu pai. Se quiseres, a avó apresenta-tos. Falámos sobre isso. É triste estar sozinha. Quanto mais família tiveres, melhor. Deixa que o tempo mostre o que é certo.
E agora, o que fazer daqui para a frente. Mafalda, estuda! Quero tanto que tenhas futuro! Mas escolhe tu. Não deixes que ninguém mande em ti. Já falámos sobre isto: o teu talento, o dom que tens. Usa-o! Não é para todos. Sim, vai dar trabalho. Mas pedi à Don Graça que te ajudasse. E tenho algum dinheiro guardado para ti. Não é muito, porque gastei quase tudo, mas dá para um ou dois anos. Depois, desenrascas-te. Já antes pintavas carteiras e quadros que os turistas em Lisboa adoravam comprar. Acho que em Lisboa ou Porto ainda venderás melhor. Não largues o teu sonho. Quem sabe um dia, numa galeria famosa, haverá um vernissage teu. E eu, onde estiver, vou festejar!
Amo-te muito! Tenho medo por ti, mas confio! És forte e esperta, minha filha!
Agora, enxuga essas lágrimas! Já disse!
Mãe.
Mafalda largou a carta, ficou muito tempo ali, apenas com o Pastel a dormir enrolado a seus pés, a pensar como é que se vive dali para a frente.
A resposta veio com Dona Graça a entrar pelo quarto, acendendo a luz e afirmando:
Anda, basta de penumbras. Venha beber um chá e conversamos. Há vida a tratar, nada de lágrimas!
A ideia de artista não caiu nada bem à Dona Graça. Repreendeu Mafalda, queria que tirasse uma profissão a sério, que fosse contabilista disso Portugal está sempre cheio, dizia ela. Mas Mafalda nem quis ouvir. Dona Graça resmungava que era teimosa como um burro, igualzinha a quem anos a fio não foi capaz de admitir um erro que afastou tanta gente.
Tantos anos calada! Nem palavra, nem notícia! E procurei por vocês por todo o lado! Ninguém me disse que mudaram o nome e o apelido! Não era só usar o de solteira, foram inventar outro! Como?!
O tio Rui ajudou.
Ai aquele Rui! Ainda lhe vou dar uma lição! Tirou-me a esperança de te encontrar! Ele que não se queixe depois!
Não ralhe, avó. O tio Rui foi um anjo para nós! Queria que a mãe casasse com ele.
E ela?
Não quis. Sempre amou o pai E eu sem saber se ele era vivo ou não. Se soubesse da história, tinha-lhe feito ver!
Coisas da vida, olha para isto Dona Graça pousou à bruta o prato à frente da Mafalda. Come lá e pensa no que te disse! Que raio de profissão é pintora!? Contabilidade é que é. Dá sustento!
Avó! E eu? E o que quero?
Primeiro contas dos outros, depois trata das tuas!
Não! Não quero! Não é esse o meu caminho, perceba!
Quem sou eu?
Não quero magoar. Só quero seguir o que amo! A mãe confiou-lhe dinheiro meu? Em mês faço dezoito anos. Dê-me e eu vou. Não lhe vou dar trabalhos nenhuns. Sigo sozinha.
A Dona Graça ficou furiosa, levantou o dedo indicador, mas lá se conteve. Olhou para a Mafalda, sorriu e, com três dedos, fez o gesto que toda a gente conhece desde o infantário.
Então pronto! Eu vou contigo! Para garantir que sais artista a sério! Prometi à tua mãe que não te deixava sozinha. E agora, silêncio!
Resmungou, empurrou o prato, mas era só ternura. Insistiu:
Come, Mafalda! Já arrefeceu tudo!
Anos depois, numa galeria pequenina do Chiado, via-se um grupo improvável.
Uma mulher ruiva, despenteada, com ar decidido, um rapaz alto de óculos grandes e a Mafalda, de filho ao colo.
Então, que achas? Mafalda tinha prometido a si mesma que não ia perguntar, mas não aguentou.
Dona Graça olhou a neta, bufou, tirou-lhe o bebé dos braços, limpou-lhe o nariz, ajeitou o menino sobre o ombro e só então acenou:
Está bom! As molduras ficam bem, no geral está tudo giro Mas gastas tinta como quem gasta água, não há carteira que aguente! Mafalda, pintavas menos, também não era mal! E arranja a oficina, que fui lá de manhã e aquilo parece um ninho de gatos! Luís! virou-se para o rapaz dos óculos. Então, homem? Não vês que ela anda com olheiras abaixo dos joelhos? Tem de descansar! Hoje levo o Simão comigo. Vão dormir, descansar e depois venham. Entendido? Pronto, vá, vamos embora, meu pequeno!
E ao sair, Dona Graça parou, passou a mão pela cara da Mafalda e, baixinho, disse-lhe:
A tua mãe teria muito orgulho em ti, filha. Eu também. Sabes disso, não sabes? És a minha maçãzinha.






