E tu, Béatriz, tão bonita, onde pensas que vais a estas horas? perguntou a D. Graça, já a conter a irritação, enquanto lançava um olhar às horas no velho relógio pendurado na entrada: já eram quase oito da noite. Já viste as horas?
A Béatriz só sorriu de lado, ainda focada no espelho do hall. Com um gesto rápido, puxou a madeixa rebelde atrás da orelha e só então se virou para a mãe. Sabia que vinha aí mais uma conversa desagradável, mas francamente, estava habituada e já quase nem perdia energia com isso.
Mãe, já não tenho quinze anos respondeu, com aquele meio sorriso nos lábios. Já sou mulher feita e não tenho de dar satisfações. Ao menos, não a ti.
A expressão da mãe ficou logo retesada, as rugas na testa mais vincadas, os lábios apertados. Quem é que esta miúda pensa que é? Onde já se viu tamanha falta de respeito?
Mas vives debaixo do meu teto! O tom de D. Graça subiu um tom, toda ela já indignada por tamanha ousadia. E já agora Com quem é que fica o teu filho, hã? Olha lá se achas que sou eu que vou aturar o teu menino traquina de oito anos. Estás muito enganada, minha querida!
Ela arregalava os braços, dramatizava o horror que era, na sua cabeça, ter de ficar com o neto. Filha crescida, cheia de opiniões Mas foi ela mesma que há pouco veio quase de joelhos pedir guarida, não foi?
Quero ver a minha novela sossegada, tomar um chá em paz, não andar feita maluca atrás dele pela casa, nem ouvir birras por causa dos trabalhos de casa! Tu fazes ideia do cansaço? Sempre a mesma coisa: ora não quer comer, ora está aborrecido, ora diz que os TPC são a maior injustiça do mundo. E eu que aguente com tudo?
Pronto, já chega! cortou a Béatriz, agora com outro ar. A calma e ironia de antes desapareceram num instante, dando lugar a uma firmeza nada habitual. O Lourenço vai dormir em casa da Sofia. E olha, tu és mesmo a última pessoa deste mundo em quem eu confiava o meu filho. Não quero que ele tenha esse tipo de exemplo. As crianças, sabes tão bem, absorvem tudo como esponjas.
D. Graça ficou de boca aberta, agarrada teatralmente ao peito, cabeça inclinada para trás como se lhe faltasse o ar. Fazia um ar tão ofendido que até dava vontade de rir, mas nem o ambiente deixava.
Olha-me a tua ousadia! gritou, a fingir desespero. Eu que te abri a porta quando voltaste para casa de rabo entre as pernas, cheia de problemas! Dei-te quarto, abrigo, tudo! E é assim que agradeces?
Pausou, sempre à espera do pedido de desculpa da filha. Mas a Béatriz já estava escaldada com as táticas da mãe. Não ia cair nessa.
Não te esqueças que um quarto desta casa é meu! interrompeu, de sobrancelha erguida. Tu não és a única dona disto. Tenho direito a viver aqui e nem preciso de pedir licença.
A Béatriz saboreava cada centímetro de surpresa na cara da mãe. Afinal ainda achava que a filha ia continuar submissa e a pedir perdão?
E mais, não tens qualquer direito de me impedir de viver aqui continuou, sentindo-se finalmente capaz de dizer tudo o que estava atravessado. As mãos tremiam ao verificar se tinha tudo na mala. Mas manteve-se firme.
Além disso, não vamos cá ficar muito. Duas semanas, no máximo um mês. Por isso, aguenta só mais um bocadinho. Depois nunca mais nos vês.
D. Graça deu uma gargalhada curta e mordaz, ecoando pelo corredor. A Béatriz até se encolheu. A mãe cruzou os braços e olhou para ela com um misto de desprezo e satisfação mal disfarçada.
E para onde é que tu vais, diz-me lá? arrastou as palavras, a saborear o poder. Não tens nada, Béatriz! Nem para o desconto da entrada de uma casa tens dinheiro, quanto mais para um empréstimo. E já nem falo da papelada…
Fez pausa para deixar que a filha absorvesse aquele banho de realidade.
O teu ex, esse sim foi esperto, pôs a casa em nome da mãe dele. Ficaste a ver navios depois do divórcio. Nem parece minha filha, tamanha ingenuidade Que vergonha!
A Béatriz sentiu um nó apertado, mas não ia dar parte de fraca. Agarrou a mala com mais força, os dedos quase brancos, e respondeu o mais serenamente possível:
Isso não é da tua conta, mãe. Fez um esforço para não explodir. Já não sou aquela miúda ingénua. Pronto, adeus. E já agora, a melhor e mais dedicada avó do mundo, o Lourenço já saiu há uma data de tempo.
Sem esperar resposta, deu meia-volta e saiu quase a correr, os saltos a ecoar pelo chão encerado do hall. Desceu as escadas a voar, só queria distância daquela casa, onde nunca, nunca se sentiu bem-vinda.
Na rua estava fresco, mas ela nem sentiu. O sangue fervia-lhe nas veias. Só pensava em fugir dali, daquele ambiente e daquela mulher que era mãe só no nome. Parecia que uma nuvem cinzenta tinha engolido tudo à volta e levado com ela qualquer pedaço de alegria.
Como é que me calhou uma mãe destas? repetia para si própria, de punhos cerrados, indiferente ao que os outros pudessem pensar. Naquele momento, importava-lhe zero. Sentia só: às vezes, é melhor não ter mãe, do que ter alguém como a D. Graça alguém que só sabia acusar, criticar e comparar, incapaz de dar amparo, ternura ou colo.
À primeira vista, quem não conhecia bem a D. Graça gostava dela. Sabia pôr-se bem com toda a gente: sorriso afável, palavras calorosas, sempre pronta a ajudar nas festas, nos papéis da junta, a emprestar a cadeirinha ou a dar conselhos a quem precisasse. Na vizinhança, era admirada; ouvia-se sempre a Dona Graça é tão prestável.
Quem a conhecia a fundo, via outra face. Por trás daquele sorriso doce estava uma mulher inflexível, controladora, só confiante nas próprias ideias. Achava sinceramente que só ela sabia o que era bom para toda a gente. E não tinha pejo nenhum em fazer sentir isso, mesmo que a voz lhe saísse seca, quase cortante quando contradita.
A Béatriz sempre viveu segundo as regras da mãe. A D. Graça decidia: o que vestia, que actividades fazia, as amizades, até as festas de anos eram crivadas vezes sem conta. Nenhum amigo da filha escapava a escrutínio. Certa vez, assim que soube que havia ali amizade com a menina filha de mãe solteira, ditou logo sentença:
Não te metas nessa companhia, Béatriz. Não é ambiente para ti.
E aquele miúdo, vê lá, é doido das ideias Mais vale afastares-te. Só te mete em sarilhos.
Já outra rapariga tinha o selo de aprovação total:
Podes andar com ela, sim senhora. A mãe trabalha na Câmara, tem um bom cargo. Liga-te a quem possa ser útil no futuro!
Chegada a altura de decidir o que fazer da vida, a mãe nem perguntou. Já estava decidido: Béatriz ia para Enfermagem, ponto. Nem quis saber se gostava da área, se tinha interesse. E o pavor dela por sangue? Para a mãe, só fita de adolescente, nada a considerar:
Isso são manias tuas, filha. É para chamar atenção, só pode.
Qualquer protesto era visto como fraqueza, como falta de vontade.
A única saída que a Béatriz vislumbrou foi casar cedo. Mal fez dezoito anos. Não houve dúvidas ou grandes ponderações, aceitou o pedido do Ricardo, que já a rondava. Era só mesmo o desejo de escapar, de ser dona dos próprios passos, longe dos comandos da mãe.
Tinha consciência que o casamento era coisa séria, mas pareceu o único caminho para a liberdade. Queria era sair dali, deixar de ser tratada como uma extensão da mãe e viver as próprias escolhas, por mais falíveis que fossem.
O casamento da Béatriz e do Ricardo, como era de esperar, não aguentou muito. No início, tudo era novidade: casa pequena arrendada, sonhos de futuro, planos partilhados. Mas, passado pouco tempo, começaram as discussões, as dificuldades. Os motivos eram banais: quem lavava a loiça, quem ia ao Pingo Doce, como gastar o pouco dinheiro E, aos poucos, os conflitos tornaram-se mais sérios. O Ricardo começou a chegar tarde, cada vez mais afastado, notas de álcool, respostas ríspidas.
Quando nasceu o Lourenço, tudo piorou. Noites em claro, cansaço, birras um cocktail explosivo. As cenas repetiam-se quase todos os dias, de gritos ou silêncios pesados.
A certa altura, a traição foi evidente. O Ricardo nem se deu ao trabalho de esconder. Chegou a casa um dia e atirou a frase:
Olha, conheci uma tipa. Nada de mais, mas Podes ir embora se quiseres.
A Béatriz ficou plantada ao fundo do corredor com o Lourenço adormecido ao colo, e só lhe deu para acenar e ir deitar o filho.
Não tinha para onde ir. O pai tinha morrido cedo, a mãe era o que era. Amigas prontas a receber uma mãe solteira e um miúdo de colo? Nenhuma. E lá ficou. Aguentou-lhe as ausências, as bocas, as humilhações. À noite chorava baixinho na almofada para o filho não acordar.
Deixou o curso de Enfermagem cedo, ainda antes do parto. Tentou conciliar mas não conseguiu. Quando Lourenço foi para o jardim de infância, surgiu, por fim, uma brecha: decidiu fazer um curso de contabilidade no politécnico. Não era sonho antigo, mas era possível, era realista: podia garantir algum dinheiro, alguma independência.
Estudava à noite, depois do trabalho; era comum adormecer com os apontamentos na almofada. Mas cada pequena vitória devolvia esperança. Talvez ainda desse a volta à vida, quem sabe.
Quando se sentiu finalmente segura, pediu o divórcio. Tinha emprego, formação (não era o que sonhara, mas era seu), o Lourenço já era mais crescido. O problema era a casa o arrendamento era caríssimo em Lisboa, não sobrava quase nada do ordenado. E lembrou-se do seu direito legal a um quarto na moradia da mãe. Sabia que não era solução perfeita, mas não havia alternativas.
A perspetiva de voltar à casa da infância não era feliz. Tudo era familiar, mas tudo era julgado. Mas não havia volta a dar. Inspirou fundo e ligou à mãe…
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Tu vais é dar em doida, Béas dizia-lhe a Sofia na cozinha, enquanto roía a ponta da toalha. E então o Lourenço? Aquela tua mãe tem a mesma paciência que uma galinha, ele não aguenta aquilo! Ela vai-lhe pedir perfeição, tu sabes. Miúdo vivo como o teu não se encaixa no esquema da tua mãe.
A Béatriz ficou pensativa a olhar para a janela, onde já dançavam as primeiras gotas da trovoada. Suspirou e virou-se, cansada mas firme.
É só por umas semanas, Sofia. Eu sei que ela não muda e que vai tentar manipular tudo como sempre. Mas não há outra opção. Depois desaparecemos dali e vamos vivendo à nossa sorte. Eu, reintegrar relações, não faço questão.
A amiga percebeu a determinação mórbida no tom dela.
E depois? Já tens tudo decidido? Sofia inclinou-se, perscrutando-a. Não és nada destas coisas planeadas, ainda para mais neste molho de vida
A Béatriz fez um sorriso de quem guarda segredo. Pegou na caneca de chá, sorveu devagar, quase a ganhar coragem.
Não sou tão ingénua como a minha mãe pensa disse, olho no olho. E pelo bem do meu filho faço tudo o que puder. Sabes que há alguém que tem vindo a mostrar-se interessado.
Parou, reparou no brilho curioso da Sofia. Ia dizer o nome, hesitou e cortou logo.
Não leves a mal, mas prefiro não dizer quem é. Ainda é cedo, nem quero fazer apostas. Mas sinto que pode ser o meu bilhete de saída.
A Sofia assentiu em silêncio. Tinha mil perguntas, mas respeitou.
E eu vou agarrar esta oportunidade, custe o que custar! afirmou a Béatriz, convicta. Já não aguento esta ansiedade, ver o Lourenço sempre encurralado pelos comentários da avó. Ele merece algo melhor: estabilidade, casa onde se sinta querido, uma mãe inteira. Se tenho que arriscar arrisco.
Na voz dela, apesar do cansaço, havia finalmente decisão amadurecida, de quem ponderou todos os prós e contras.
A Sofia estendeu-lhe a mão, apertando-lhe suavemente os dedos.
Acredito em ti, Béas. Só tem cuidado, está bem?
A Béatriz sentiu-se aquecer por dentro. Agora, sim, não havia volta a dar.
E afinal, gostas dele? insistiu a Sofia, temendo que a amiga se precipite de novo. Já cometeste esse erro, de casar só para fugir da tua mãe Olha que podes ficar em minha casa. Temos espaço, não é um T5 mas o Lourenço até pode brincar com o Lucas, o miúdo do lado.
A Béatriz brincava com a chávena, pensativa. Os candeeiros da rua já acesos, a cozinha com aquele calorzinho de fim de tarde. Sorriu, desta vez de verdade.
É boa pessoa, Sofia. Gosta de crianças, e isso nota-se. Ele tem um filho, mais velho um pouco do que o Lourenço. Conhecemo-nos no parque, foram eles que nos aproximaram. Primeiro falávamos só dos putos, depois sobre tudo e mais alguma coisa.
Recordava cada pormenor Como ele escutava as histórias das diabruras do Lourenço, sem nunca criticar ou olhar de esguelha, como a ajudava a apanhar os brinquedos, sempre com aquela paciência.
Com ele tudo é leve continuou, o olhar distante. Não me julga, não tenta mudar-me. Só me apoia. É um pai como deve ser: brinca, explica, ouve. Nunca grita.
A Sofia sorveu a resposta como se fosse a coisa mais importante do mundo.
Esta escolha é minha, Sofia. Desta vez não estou a fugir, estou a caminhar para qualquer coisa que faz sentido. Quero isto para mim e para o Lourenço: não só para escapar, mas para construir. E vou arriscar.
A Sofia apertou-lhe a mão com mais força.
Então está bem. Se é isso que queres, cá estou para ti. E sabes que, se tudo correr mal, a minha casa é vossa.
A Béatriz, emocionada, só conseguiu sussurrar:
Obrigada Nem imaginas o que isso vale para mim
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De facto, a Béatriz tinha razão: em menos de duas semanas, veio aquele convite inesperado. O Miguel pediu-lhe para ficarem juntos, sem dramas ou promessas vazias. Era o tal recomeço que sempre sonhou o recomeço longe dos ecos e julgamentos do passado. Poucos pertences, os brinquedos favoritos do Lourenço, um par de malas e pronto, estavam prontos. Parecia que até o destino os empurrava para fora daquela casa.
O Lourenço estava em êxtase. Nunca aturou bem a avó, sempre hipercrítica e a querer controlar tudo. Agora brilhava-lhe o olhar: era finalmente livre para ser simplesmente ele próprio.
Quando D. Graça soube da notícia do novo casamento, ficou desatinada. Quis logo conhecer o pretendente:
Tenho de ver quem é! Se não gosto, não há casamento, ouviram? Não deixo que te ponhas noutra asneira!
A Béatriz respondeu sem hesitar:
Mãe, eu é que escolho. Não há apresentações marcadas.
Aquilo caiu como gasolina na fogueira. D. Graça saiu à rua, quis mostrar o escândalo à vizinhança. Aos gritos, lançou as maiores acusações: irresponsável, ingrata, sem vergonha.
Os vizinhos, habituados à versão cordata e prestável da dona Graça, ficaram de boca aberta. Houve quem tentasse acalmá-la; em troca, receberam só má-criação. Foram-se afastando, a cochichar: Nunca pensei Sempre tão direita
Depois, D. Graça ainda tentou justificar-se, contando à vizinhança que tinha exagerado, que era tudo preocupação de mãe. Mas a imagem ficou: passou a ser aquela senhora do escândalo.
Já a Béatriz finalmente respirava. O novo casamento era tudo o que nunca tivera: calor, respeito, companheirismo. O Miguel não só era atencioso, era um verdadeiro pilar para ela e para o Lourenço. Com ele, não precisava de inventar desculpas por cada passo dado.
Outro sonho cumpriu-se: voltou a estudar, agora a área que realmente gostava. Malabarismos entre trabalho, aulas e tarefas de mãe, mas todas as manhãs, ao abrir o livro, sentia-se viva como nunca.
Arranjou trabalho numa pequena empresa, nada de espetacular, mas estável, com patrão decente e espaço para crescer. Aprendeu a gerir o orçamento, a juntar uns euros para emergências. Aquelas economias davam-lhe segurança, símbolo do novo caminho.
Por vezes ainda pensava naquela noite em que saiu da casa da mãe. Agora, tinha tudo o que receava nunca alcançar: marido de verdade, filho feliz, emprego, estudos, e sobretudo liberdade para ser ela mesma e desenhar o próprio destino.
Ainda viriam dificuldades, claro. Mas agora sabia: dali para diante, quem escolhia o rumo era ela. E ninguém mais.






