– Paulo, não sei o que fazer! Ela não ouve ninguém! Ficou com aquilo na cabeça: que vai ter o bebé! Mas que filho, Paulinho? Só tem dezenove anos! Tem a vida inteira pela frente! Agora quer sair da universidade e depois? Vai varrer ruas? Isto tem de se resolver de alguma forma! E tu tens de me ajudar!
– E como, mãe?
A voz de Paulo era tão fria que Irene quase deixou cair o telemóvel. O filho nunca tinha falado com ela assim! Sempre fora o rapaz bondoso e carinhoso… Agora isto? Em que é que ela falhou? Na verdade, a culpa não era dela, era da Lara! Essa mania de ter encontrado o amor da vida! Miúda tola! Porque é que não escuta a mãe? Adiantava-se agora lamentar? O erro era todo dela! Sempre mimou Lara, deixou-a fazer tudo, queria ser amiga… Agora que tire as consequências, Irene Patrícia! Todo o teu esforço educativo está à vista! Mas porquê assim? O Paulo sempre foi um filho exemplar! Inteligente, educado, obediente! Sempre pronto a ajudar e apoiar! Mesmo vivendo sozinho. Bem, claro, já é homem feito, independente, só lhe falta casar. Por mais que lhe dissesse que estava na altura de formar família, ele nada… E ela só queria pegar ao colo os netos! Até quando esperar? Quando a Lara era pequena havia sempre tanto para fazer: ginástica, competições, não havia tempo para pensar na idade. Agora? A filha é independente há muito. E, apesar de ter deixado o desporto, quase não está em casa. Sempre a correr de um lado para o outro: aulas, amigos, escuteiros e agora ainda apareceu aquele tipo Valha-me Deus, onde é que ela o foi buscar, aquele ser perdido? De certeza, uma alma acéfala! Irene percebeu-o logo, mas a Lara apaixonou-se! Nunca teve jeito para escolher pessoas! Para ela, todos são bons! Por mais que lhe explicasse que existem poucas pessoas verdadeiramente boas neste mundo ela não compreende. E agora? A que é tudo isto conduziu? Como lidar agora com isto tudo? O Natal à porta e ela só tem dores de cabeça. Agora até o Paulo Mas que tom foi aquele? Porquê falar assim com a própria mãe?!
– Paulo, porquê esse tom comigo?
– Onde ela está, mãe? Paulo virou o volante, entrou numa rua lateral e estacionou. A calma habitual tinha acabado no momento em que ouviu bebé. As mãos tremiam no volante, os olhos escureciam, vontade de gritar, como daquela vez Mas não valia a pena. Só tinha de se acalmar e fazer pelo menos alguma coisa para que, se não foi o seu filho ou filha Paulo nunca soube de quem é que a Sílvia estava grávida pelo menos esta criança, a do Lara, vivesse. Ó mãe! O que estás a fazer! Sempre gostaste mais da Lara que de mim. Uma menina, e ainda por cima, vinda muito tarde como não ficar rendida a tal milagre de olhos azuis claros e caracóis louros? A Lara sempre foi linda, desde o primeiro dia. Paulo já tinha visto muitos bebés, numa família enorme com imensas tias, primas e primas-sobrinhas. Todos iguais olhos azul-acinzentados, corpo atarracado, braços e pernas gorduchas exibidos a toda a família. O mais gordo era sempre o mais querido. Mas a Lara surpreendeu-os todos. Os olhos eram de família, mas o resto… De onde aquela fina garganta de cisne, mãos e pernas esculpidas, delicadas, perfeitas como de um escultor? A mãe até evitava os olhares para ela, como se tivesse vergonha. Só mais tarde passou a olhar com orgulho quando, nas festas de família, a filha brilhava entre as primas como uma borboleta. Era impossível não reparar na diferença.
– Nasceu mesmo uma beleza! suspiravam com inveja as tias, ajeitando laços e vestidos às filhas.
Quando participou pela primeira vez numa competição de ginástica, ficou claro: aquela rapariga nascera para muito mais do que agradar à vista.
A mãe lançou-se na carreira da Lara na ginástica, e Paulo ficou finalmente livre da atenção opressiva da mãe e pôde cuidar da sua vida. Sabia que a mãe o adorava, mas o orgulho era tanto que irritava. E se por acaso alguém esquecia como o Paulo era brilhante, Irene apressava-se a recordar:
– O Paulinho ganhou a olimpíada de física. Sim, a maior de todas! Agora já não preciso preocupar-me com o futuro dele. Está tudo garantido. E os resultados a matemática saem já, tenho a certeza do mesmo! Oh, não tem segredo… É preciso é acompanhar os filhos!
Nem reparava nos suspiros abafados das outras mães. Vivia no seu mundo perfeito. Os filhos geniais e lindos, o marido cuidadoso, o trabalho que lhe dava prazer, ainda que pouco dava aulas de inglês, com tanto talento que conseguia preparar alunos quase do zero para a faculdade, em apenas um ano. Pagavam-lhe o dobro de qualquer professora, passada de mão em mão entre conhecidos.
– Depende, se querem resultado ou só gastar dinheiro. Quem quer ver o filho entrar na universidade, vem ter comigo.
Paulo não podia deixar de admirar a capacidade da mãe para fazer tudo caber no tempo. As aulas da Lara, a casa, o emprego. Era uma organizadora nata, e ensinou-lhe isso. Agora, o que aprendera com a mãe era essencial no seu dia-a-dia.
Mas agora o dia estava a fugir-lhe por completo. Só já era fim de tarde quando a mãe lhe contou tudo. Nada fazia sentido.
Quanto tempo já passara desde aquela conversa com a Sílvia?
– Estou grávida. Não vou ter. Sou demasiado nova e não pronta para tamanha responsabilidade. E a culpa é tua! Portanto, resolve tu! Já encontrei a clínica.
Meu Deus, como discutiram Em três anos juntos, Paulo nunca gritara com Sílvia. Mas nesse dia, gritou tanto que os vidros tremeram. Oferecera-lhe tudo: casamento, família, a vida já encaminhada apartamento, pequeno mas suficiente, carro, um negócio que começava a dar lucro. O que mais queria ela? Não era rico, mas também ela não era princesa, era uma rapariga simples, colega de outro curso, vinda de uma aldeia de nome esquisito, que fazia sempre rir quando o Paulo tentava dizê-lo. Começaram a namorar pouco depois de ela lhe ter ralhado por escrever fórmulas numa parede do corredor na universidade.
– Que fazes aí? Agora é permitido pintar paredes? Fazes isto em casa? cuspira entre dentes, enquanto tentava tirar o sapato com salto partido. E voou descalça, cheia de pressa para o exame. Paulo ficou enfeitiçado e foi atrás.
Depois do exame, Sílvia virou-se e abanou a caderneta:
– Vê lá, tive 20! Temos de comemorar. Alguma ideia?
Namoraram ano e meio antes de se juntarem. Paulo ainda vivia com o avô, que cuidava porque a mãe viajava muito e o pai trabalhava o tempo todo. Quando o avô morreu, os pais decidiram vender o apartamento por ser pequeno e desconfortável. Mesmo assim, Paulo não se importou, desde a morte do avô aquele lugar já só lhe trazia tristeza. Que falta fazia o avô, que ao acordar murmurava:
– Vai lá, estudante! Fiz-te o pequeno-almoço.
O avô era rijo, aguentava tudo, até que a avó partiu.
– Daqui a pouco vou-me eu também. Isto sem ela não tem graça.
– Ó avô, então e nós? E a Lara?
– Por vós vivo mais uns tempos. Quero ver no que vos tornais. Depois, vou ter com a minha passarinha.
Chamava à avó passarinha desde sempre.
– Era tão doce Já não se fazem mulheres como ela, Paulinho. Pois eu, tolo, por vezes magoei-a, e ela só sorria e dizia: «Estás mesmo irritado, Paulinho». E pronto! Nunca uma crítica, nunca uma birra! Se ao menos me tivesse ralhado a sério alguma vez… Seria tudo mais leve agora.
– Havia razão para isso?
– Pois, a vida é longa. E sabes, Paulo, quando se perdoa, sente-se menos saudade. Caso contrário, tudo pesa Procuro-a por todo o lado, mas não a encontro… Estou em baixo.
Paulo notava. E foi nesse tempo, ao ver o avô apagar-se, que compreendeu o que era o amor aquele amor total, maior que tudo, intemporal.
Foi o que sonhou viver com a Sílvia, mas percebeu que não ia acontecer, no instante em que ela lhe estendeu a mão, fria, a pedir-lhe o cartão para pagar a clínica.
Ela levou o cartão e, depois de uma última zanga, atirou a roupa à pressa para uma mala, tirou o dinheiro da carteira de Paulo e bateu a porta. Só notou quando recebeu a notificação do banco, de que levantara uma quantia avultada. Bloqueou o cartão e foi aos pais.
A mãe lamentava e protestava, o pai interrompeu o drama com uma palmada nas costas:
– Precisarás de ajuda, estamos cá.
Aos pais, Paulo só contou que tinha acabado. Sabia que a mãe iria odiar Sílvia, e não queria problemas. Que pensasse o que quisesse: não resultou, ponto.
No quarto, sentou-se durante horas no sofá antigo que os pais nunca quiseram trocar. Só lhe vinha escuridão à cabeça, como caramelo pegajoso onde não conseguia ver nenhuma luz. De onde viria esperança?
Veio. A Lara bateu à porta, ficou um instante a olhá-lo, sentou-se no tapete, arranjou os braços e pernas com uma flexibilidade única, limpou-lhe as lágrimas com os dedos, depois lambeu-lhes o sal, e disse:
– Estás mesmo mal… Paulo, que posso fazer? Quero tanto ajudar-te, mas não sei como
– Só fica aqui ao pé. Só para eu não fazer asneira.
E ficou. Sentada ao lado, toda a noite até o despertador tocar e a mãe se aperceber que a filha não estava no quarto. Nessa noite, não falaram metade do tempo, mas depois começaram a conversar e não pararam mais. Naquela irmãzinha cresceu diante dos olhos de Paulo, sensibilidade e sabedoria. Sim, sabedoria não havia outro nome. Lara conseguiu arrancar dele tudo o que sentia e, com palavras simples e certas, explicou como seguir em frente. Sem frases feitas nem soluções mágicas, mas de repente Paulo soube: a vida não acabou, ainda vem aí alguma coisa boa.
– Lara, tens de estudar psicologia!
Quando viu a irmã corar, soube que acertou no sonho dela. Pena é que não era o sonho da mãe, que só a via como grande atleta. Inclusive agora, entrou furiosa no quarto, ralhou porque a filha não lavou a cara, despenteou o Paulo, sabendo bem que ele detestava, e voou para a cozinha.
Nessa tarde, Lara ganhou o campeonato. Voava literalmente sobre o tapete, deixando os juízes boquiabertos. De onde vinha tanta emoção? A Habanera enchia a sala, e Lara mostrava tudo o que ouvira pela noite dentro do irmão: dor, confusão, vontade de lutar até onde já não há forças.
Aquela vitória mudaria a carreira de Lara para sempre. Começaram as conversas para ir para Lisboa. Só que tudo desabou. Ao voltar sozinha do treino, Lara foi seguida por dois rapazes. Nesse dia ia a pé. O pai, que a devia buscar, ficou preso no trabalho; Paulo nem telefonou.
– Ó menina, espere! Trazemos um cão tão fofo! Veja!
Um rosnar assustador nas costas fê-la apressar o passo.
– Não quer conhecer-nos? Demasiado altiva? Rick, vai buscá-la!
Sempre teve medo de cães, Lara nem olhou para trás. Sabia que não podia correr, ou o cão atacaria. O prédio estava a dois passos; havia luz e gente. Lara acelerou com esforço até às escadas, esquecendo o gelo. Tropeçou no gelo fino das escadas e caiu.
Despertou no hospital. A mãe, pálida, sentada ao lado, balançava. A cabeça andava à roda, as pernas doíam.
– Mãe
– Acordaste Irene desviou o olhar. Os olhos inchados. Como pudeste, Lara?
Lara nunca soube se à mãe doía mais as fraturas que precisariam de muito tempo, ou o facto de a carreira dela como atleta terminar ali. Não sentiu pena nem ternura maternal. Não que tivesse saudades disso nunca gostou de ser alvo de pena. Mas desejou, nesse momento, que a mãe deixasse as lamentações de lado e só dissesse: Filha, aguenta! Vai passar, a dor acaba!
Mas não veio da mãe, veio do Paulo.
– Miúda, força aí! Sei que dói. Queres um bolo gigante? Agora já podes! Comemos até doer a barriga! Ou pego-te ao colo e vamos dar uma volta? Queres? Faço bolas de neve para atirares de cima do banco? E não fiques triste! Heis de ver, vou comprar muletas novas e preparas-te para psicologia. Ainda não mudaste de ideias, pois não?
Ele abraçava a Lara, e ela escondia-se dele. Assim, a dor aliviava.
A recuperação foi longa, mas no fim do primeiro ano da universidade, a Lara andava quase como antes. Faltava-lhe aquela leveza no andar, e de vez em quando sentia-se como a Pequena Sereia, mas pelo menos as muletas e bengalas tinham ficado para trás. As muletas cor-de-rosa, que o irmão pintou de propósito, pensou em guardar. Mas, depois de conhecer o grupo de voluntariado, percebeu que havia quem passasse por mais do que ela. E deixou de ter pena de si mesma. Ofereceu as muletas à Lena, coordenadora do grupo, que sendo deficiente de nascença, conseguia ainda assim participar e contribuir. Com um timbre bonito e animado, coordenava tudo a partir de sua casa.
– Lena, não descansas um segundo… Lara preparava chá pela centésima vez e cortava mais enchido, organizando os lanches para os voluntários. Alguém iria chegar da busca a qualquer momento e precisava de comida quente e rápida.
– E achas que queria paz, Lara? Antes isso do que viver sozinha, sem ninguém, fechada num mundo qualquer. Eu preciso disto, percebes? Preciso de sentir que faço parte… Não é o essencial?
Foi aí, nos voluntários, que Lara conheceu o Maximiano.
A Irene tinha razão numa coisa: ele era apagado, quase invisível, mas fazia o trabalho de muitos, calado, competente. Lara conhecia-lhe a história, mas não a contava à mãe essa nunca ia compreender. Para Irene, Maximiano nunca seria “bom partido”.
Entrou para o grupo depois de o padrasto desaparecer. Procurou por ele sozinho quase um dia inteiro, mas acabou por pedir ajuda aos voluntários quando a polícia recusou aceitar o desaparecimento.
– Ele é diabético! Se aconteceu alguma coisa… Não desaparecia assim! quase gritava Maximiano, mas ninguém ouvia.
Com o padrasto tinha criado laços especiais. Gervásio, terceiro marido da mãe, tornou-se o pai que nunca teve. O primeiro homem abandonara a mãe ao saber da gravidez e nem régua fez. A avó e o avô chegaram-se à frente.
– Não faz mal! Criamos nós!
Dois anos a cuidar e depois a mãe foi trabalhar para o estrangeiro. O Maximiano ficou com os avós, sendo que quase esqueceu a mãe. Só tinha dez anos quando ela voltou, com novo marido. A nova família não funcionou. O padrasto era agressivo.
– Só respeitando quem manda é que há ordem! dizia, olhando para Maximiano.
A primeira bronca por partir um vidro na escola acabou com o rapaz a fugir de casa, o avô resgatou-o.
– Vais morar connosco. Nunca mais fazes parte daquilo.
No dia seguinte, a mãe tentou ir buscá-lo, hesitante, sem olhar nos olhos, ora pedindo desculpa, ora culpando-o. Mas ele não quis voltar.
Com Vítor, o segundo, a mãe separou-se menos de um ano depois.
– Não nos demos; perdoa-me, filho… Zina, a mãe, tinha vergonha de lhe tocar.
Maximiano sentia-se desconfortável. Aquilo era o seu lar.
Gervásio apareceu meio ano depois. As amigas da mãe insistiam que ela não devia desperdiçar tal homem. Sim, viúvo, mais velho, mas um bom senhor! Tranquilo, trabalhador, sem vícios. E disposto a aceitar o filho. Que sorte!
Ela abraçou essa sorte depressa, mas Maximiano travou a princípio. O homem, um pouco obeso e de ar afável, nada lhe dizia. Tudo mudou no dia em que Gervásio o levou à pesca.
Sem grandes conversas, sentaram-se na barca ao nascer do sol e algo mudou no Maximiano. Sentiu uma ligação. Desde então, iam sempre juntos. O padrasto ofereceu-lhe uma boa cana e começou a procurá-lo para conversas e conselhos. Percebeu que podia confiar mais nele do que na mãe ou avô, que entretanto começou a perder a memória.
A avó e o avô partiram em menos de um ano e o Maximiano teve de se mudar com a mãe. Já não era problema, porque Gervásio era ali, agora, verdadeiramente, o pai. E quando, um ano depois, a mãe morreu depressa de cancro, ninguém questionou com quem ficaria o rapaz: no hospital, Gervásio tratou de tudo e adoptou-o legalmente.
– Se concordares Gervásio olhou para o rapaz, frágil com desgosto; puxou-o para si, abraçou-o: Não estás sozinho! Comigo estarás sempre.
Desapareceu numa noite, voltava do trabalho, telefonou a Maximiano para comprar pão depois, nunca mais. O rapaz perguntou, indagou, procurou. Um condutor recordou-o no autocarro, confundiu-o com outro amigo.
– As roupas agora são todas iguais. Porquê? Que se passou?
– É o meu pai. Não voltou a casa.
– Já foste à polícia?
– Já. Não aceitaram a queixa. Disseram para voltar passados três dias.
O condutor indicou uma folheto colado:
– Liga para aí! Ajudam-te!
E ajudaram. Mas ao Gervásio, ninguém já podia ajudar Encontraram-no gelado no parque a poucos metros do caminho. Talvez pouca gente, talvez ninguém quis saber de um homem caído. Podia ter sido salvo, se alguém se preocupasse. Porque foi por ali? Ninguém entendeu.
No dia seguinte ao funeral, Maximiano apareceu em casa da Lena:
– O que tenho de fazer? Quero ajudar.
Lara apresentou o namorado ao Paulo logo desde cedo.
– Gosto dele, Paulo. Talvez mais do que isso.
– Isso é bom?
– Acho que sim
– E como é ele?
– Parece-me boa pessoa
Mais próximo do Maximiano, Paulo acabou por reconhecer: Sim, ela tinha razão. Juntos, eram estranhos: a Lara, alta e etérea; Maximiano, apagado. Viu o choque dos pais, mas apoiou a irmã.
– O que interessa é ser boa pessoa! Não é assim?
Irene torceu o nariz, mas calou-se; o pai olhou de óculos na ponta do nariz, pensou e assentiu.
– Vamos ver.
Pois, já viram
Paulo ligou o carro e saiu. Tinha de encontrar a Lara. Não pensava em suicídio, mas nunca se sabe A mãe nem quis ouvir a filha, tinha a certeza disso, por isso nem sabe que o Maximiano já não está ali. Só o bebé ficou
Um acidente fútil, absurdo, levou aquele rapaz sereno. De noite, regressava a casa, falava com a Lara ao telemóvel, e atravessou a rua antes do passadeira, esqueceu o casaco claro, vestia sobretudo preto. Não havia como culpar o condutor. Paulo conhecia bem esse troço, a iluminação era péssima. De noite, sem luz, ninguém distingue uma sombra das árvores.
Foi há dois dias. Amanhã é o funeral, e Lara nunca contou nada aos pais. Desde então, congelou não fala, não chora.
– Não consigo chorar, Paulo. Não sai… Só gemo baixinho na almofada, para os pais não ouvirem
– Não lhes contaste?
– Não consigo. A mãe ia começar E eu não aguento.
Paulo não sabia porque não o procurou. Talvez nem soubesse? Ou quando soube, não quis?
Demasiadas perguntas. Sem resposta.
A porta do apartamento da Lena estava como sempre, destrancada. Paulo bateu de leve na ombreira da cozinha, e, quando a Lena se virou, perguntou:
– Lena, a Lara está aí?
– No meu quarto. Vai. Ela esperava-te.
No quarto escuro, Paulo afastou-se do interruptor. Se a Lara chorava, não queria que a luz magoasse os olhos.
– Paulo…
– Estou aqui.
– Ainda bem…
O suspiro foi tão leve e sofrido que Paulo avançou para a cama onde a irmã enroscada, debaixo do cobertor, e apertou-a com força.
– Não tenhas medo, pequena, estou contigo! Vamos conseguir! Sei que agora te parece impossível, mas vai correr bem! Vais ter o bebé, vai nascer uma nova vida! Ele vai ser bom, é impossível não ser: com uma mãe e um pai assim não podia ser diferente!
Ela enfim chorou, agarrada ao ombro do irmão.
– Tu também podias ter estudado psicologia, Paulo Tens jeito Estou tão mal! Se soubesses como dói
Nesse dia Paulo levou-a para sua casa. Aos pais disse sem rodeios: a Lara vai viver comigo agora, e se não querem perder os dois filhos, vão ter de aceitar que as escolhas são dela.
Depois, nada foi fácil. A gravidez da Lara, o enjoos, o cansaço quase até ao fim, as conversas duras com os pais, que lá aceitaram a independência deles. Era sobretudo com Irene que discutiam: o pai, mais discreto, ia várias vezes ajudar a filha, preparava tudo para a neta, arranjou um excelente médico.
A pequena Vitória nasceu de madrugada, depois de muitos suspiros de exaustão, berrando tanto ao sair que a enfermeira soltou uma gargalhada:
– Que voz tem a moça! A mãe é toda delicada e a filha é das que é ouvida à distância! Saiu a quem?
– Ao pai… Sorriu Lara para o rosto corado da filha. Ali estava a nova vida E Maximiano iria viver nela, visto que aquela menina nem tinha os olhos dos Matos. Significa que a linhagem vai seguir pelo Paulo, não por ela. A Vitória será o coração do Maximiano
Três anos depois.
– Vitorinha! Anda cá! O tio trouxe-te uma prenda!
– Outra, Paulo? espreitou Lara da cozinha, mãos cheias de farinha. É Natal, não aniversário. Pára de mimar assim a minha filha!
– Tenho direito! Para isso servem os tios e os padrinhos! Essa era do tio, esta é do padrinho!
Vitória deixou de brincar com o rabo do gato, que estendido no chão, na sala que era quarto e sala da pequena casa comprada por Paulo para a irmã. Paulo vendeu a sua própria casa e comprou dois apartamentos iguais no mesmo prédio, para estar perto da Lara e da sobrinha.
Os olhos atentos, bem à Maximiano, brilharam ao ver a caixa nas mãos do tio. Quando ele a abriu, iam brilhatando como as luzes da árvore.
– Gostas?
Vitória tocava com delicadeza os enfeites de vidro, maravilhada.
– Posso?
– Claro! São para ti. Anda, vamos pô-los juntos na árvore!
Lara secou as mãos ao avental e entrou quando Paulo, ao pegar a sobrinha, a ajudava a pendurar o Quebra-Nozes.
– Uau! Que beleza! Paulo, são lindos! Mas são de vidro! E se caem?
– Não faz mal! Agora já sei onde comprar mais. Olha para ela, parece encantada!
A pequena sentou-se ao pé da árvore, agarrando o gato, e contava-lhe uma história atrapalhada. Estava tão envolvida que receava que o gato se cansasse antes dela acabar o conto. Conhecia-o bem, tinham ido ao teatro ontem graças ao Paulo, hoje andava todo o dia a imitar as bailarinas.
– Parece que já não somos precisos aqui! Vês, e dizias que ela não ia gostar!
– Eu disse que era pequena e não ia aguentar. Enganei-me. Quem diria que a minha filha era tão calma?
Paulo olhou de lado para a irmã, rindo.
– Vais repetir essas palavras mais logo quando tentares pô-la a dormir! Vais ver então quem é calma e quem é uma criança normal! Dás-me de comer? Ainda tenho de trabalhar até ao fim do dia.
– Não ficas? Os pais vêm já! Podem brincar com a neta.
– Melhor. Assim matam saudades. Eu volto mais à noite. Alguém tem de dar descanso ao gato ela não o larga!
– Sabias que a mãe lhe arranjou uma escola de ballet?
– Oi!
– Pois. Que dizes?
– Vai-se ver! Tentamos canalizar esta energia de avó dedicada para coisas produtivas.
– E se não resultar?
– Então tu és a mãe e eu defendo-vos. Com os dois juntos, não há-de conseguir impor-se.
– Achas?
– Tenho a certeza! Agora, dão-me comer nesta casa?
– Dão! E tu, quando é que te casas? Quero uma cunhada que te alimente!
Lara desviou-se da palmada e fugiu a rir.
– Tu e a mãe combinaram-se? Nunca chegam!
– Anda, que um tesouro destes não pode desperdiçar-se! Ainda não tenho sobrinhos!
– Ah, mulheres!
A boneca da Clara rodopiou na árvore, empurrada por um dedo pequenino. Vitória começou a cantar e voltou a dançar pela sala. E o gato saiu-lhe do caminho, resignado, quem sabe, perante uma futura expressão máxima do nosso ballet.







