Saída da Cozinha: Descubra Novos Sabores Fora do Tradicional

Saída da cozinha
Dona Benedita, voltou a pôr a panela no sítio errado Pedro, o jovem cozinheiro de mãos constantemente húmidas, apontou com a cabeça para a prateleira acima do lava-loiça. Aqui é para o limpo. O sujo é ali.

Pedro, já trabalho aqui há três meses. Sei bem onde é limpo e onde é sujo.

Ótimo então. Só precisa de a mudar.

Benedita moveu a panela, calada. Já não tinha forças para discutir. Essas forças foram desaparecendo com a sua vida antiga, aquela cadeira de editora e o candeeiro de abajur verde que tanto gostava, e também com o ateliê que teve de alugar a estranhos para pagar os tratamentos da mãe, as injeções, a ajuda à senhora que cuidava dela.

A noite no restaurante Solar do Bairro seguia seu ritmo. Do salão vinham vozes alegres, gargalhadas, o tilintar dos copos, o aroma a carne boa com molho de vinho do Douro. Benedita estava junto ao grande lava-loiça de aço lavando pratos que lhe traziam aos montes, ainda quentes, com restos de comida que ela própria não podia pagar. As mãos estavam vermelhas da água quente, o avental molhado até à cintura.

Pensava no caderno de esboços. Estava no seu cacifo, pequeno, encadernado com argolas, capa macia da cor da erva seca. Benedita comprou-o em fevereiro com os últimos euros do adiantamento, porque sem aquilo já não conseguia. Sem aquele escape, teria enlouquecido ou deixado de saber quem era. Uma lavadora de loiça de cinquenta e sete anos? Não. Ou sim, agora talvez fosse, mas só por fora, porque por dentro havia outra Benedita.

À noite, no quarto alugado na Rua das Flores, onde o aquecedor zunia feito máquina velha e os vizinhos por vezes falavam alto, sentava-se à mesa, acendia a luz e desenhava. Só para si. As mãos cansadas do dia voltavam a ser precisas, obedientes. Desenhava ruas, transeuntes, a idosa com o cão que via de manhã, o ramo da árvore coberto de orvalho, o rosto da senhora da padaria em frente, cansado e bondoso. As linhas saíam fáceis, como se a mão nunca esquecesse, mesmo quando a cabeça já duvidava de tudo.

Durante vinte anos trabalhou como ilustradora. Primeiro numa revista pequena, depois numa editora chamada Brisa, dedicada a literatura infantil, coisa que Benedita amava. Gostava de inventar coelhos e raposas que pareciam pessoas vestidas com casacos de pelo, cheias de expressões e inquietações. Gostava de receber os exemplares, folhear os livros e pensar: fui eu que desenhei isto.

Depois veio a crise. Primeiro tiragens menores, depois o corte no departamento, depois o famoso: Dona Benedita, gostamos muito de si, mas. E depois desse mas nunca vinha nada bom. Tinha quarenta e quatro anos quando ficou, pela primeira vez, sem emprego, sem estabilidade, como se o chão tivesse deslizado debaixo dos pés.

O casamento já não era firme nessa altura. O marido, António, era boa pessoa, apenas fraco quando era preciso ser forte. Com dinheiro era afável e generoso. Sem dinheiro, surgiam irritações, cobranças, começou a chegar mais tarde a casa. Benedita não quis acreditar até ao fim. Depois não conseguiu mais. Separaram-se sem gritaria, quase em silêncio, como fazem pessoas demasiado cansadas.

E depois, a mãe adoeceu.

Um AVC. O lado esquerdo paralisado. Primeiro no hospital, depois em casa, depois outra vez no hospital. Benedita cruzava a cidade diariamente, pagava ajuda, remédios, cuidados. O trabalho em freelance era pouco, irregular. O ateliê tornou-se luxo impensável. Teve de o largar. Procurou emprego com salário fixo e horário certo. O que apareceu, aceitou.

A mãe morreu em outubro do ano passado. Em silêncio, no sono, como se tivesse finalmente decidido descansar. Benedita ficou sozinha, com dívidas, num quarto alugado e com os pratos do restaurante para lavar cinco vezes por semana.

Foi assim que ali chegou.

Dona Benedita, está ali outra pilha gritou Pedro, do fundo da cozinha.

Já vou.

Pegou no tabuleiro e foi ao lava-loiça.

Nessa noite, no Solar do Bairro, os clientes eram como sempre. Senhoras de vestido, homens de blazer, de vez em quando grupos de jovens barulhentos, outras vezes casais de negócios, cada um no seu telemóvel. Benedita não via nada disso estava do outro lado da parede, escondida atrás da porta basculante da cozinha. Mas ouvia. Vozes, gargalhadas, o barulho de copos. E às vezes, o tom subia se algo não agradava.

Um cliente vinha quase todas as semanas. Benedita só sabia porque Alice, a empregada de mesa, comentou uma vez nos balneários:

Aquele da mesa seis, vem sempre sozinho. Pede sempre o mesmo, come devagar, nunca olha para o telemóvel. Fica ali, a ver pela janela. Estranho.

Talvez só seja solitário respondeu Benedita.

E então? Eu também sou, mas ao menos janto com amigas.

Benedita não respondeu. Sabia que há muitos tipos de solidão. Daquela em que não se tem companhia, e da outra, dentro de si, em que mesmo entre gente nos sentimos sozinhos, porque a pessoa que nos entendia já não está cá.

O cliente da mesa seis vinha à quarta e sexta. Pedia borrego ou vaca, um copo de vinho tinto, às vezes sopa. Dava sempre uma gratificação jeitosa, mas discreta. Chamava-se Manuel Esteves de Oliveira, soube Benedita mais tarde. Por agora, só lavava pratos e pensava no seu caderno.

Nessa sexta-feira tudo corria normal. Benedita lavava loiça, a água escaldava-lhe os olhos, Pedro falava ao telemóvel, a máquina de lavar chiava, soavam vozes na sala do restaurante.

De súbito, algo mudou.

Parecia igual, mas não era. Benedita sentiu, sem logo perceber. Primeiro ouviu um gritinho assustado. Depois o volume aumentou, soando tenso. Logo alguém gritou a sério.

Benedita limpou as mãos ao avental e saiu para o corredor.

A porta metálica do salão estava só encostada. Empurrou-a.

Na mesa seis, um homem de ombros largos em blazer cinzento escuro. Algo estava errado: não desmaiava, mas o rosto mudara, levava as mãos à garganta. Benedita reconheceu o movimento. Uma vez vira o mesmo no hospital, com o vizinho de cama da mãe.

Dois empregados olhavam sem saber o que fazer. A chefe de sala, D. Fernanda, tapava a boca, a dizer Chamem o INEM, rápido! Alguém se levantou nervoso.

Benedita foi direta à mesa, sem pensar. Passou por toda a gente, colocou-se atrás do homem, abraçou-o pela cintura, pôs o punho acima do umbigo, a outra mão por cima, e fez força. Uma, duas vezes. Ele era grande, pesado, e Benedita quase teve de se pendurar nele, os pés bem ancorados no chão. Outra vez. Ele tossiu, algo saiu, voltou a respirar primeiro rouco, aflito, depois normalmente.

Benedita largou-o e afastou-se um passo.

Seguiram-se uns segundos de silêncio. Depois, a sala explodiu em vozes. D. Fernanda correu para o cliente, Alice trouxe água. Um cliente começou a bater palmas, outros imitaram.

Benedita ficou ali, de avental molhado, mãos vermelhas, sem saber o que fazer.

É médica? perguntou D. Fernanda.

Não. Lavo loiça.

E voltou para a cozinha.

Tremeu um pouco enquanto lavava as mãos. Pedro olhava-a de boca aberta.

O que se passou?

Um cliente engasgou-se. Já está bem.

Mas salvou-o?

Pedro, há panelas à espera.

Pegou na esponja e voltou ao trabalho. Loiça não faltava.

Vinte minutos depois, abriram a porta. Era estranho. Clientes não iam à cozinha, D. Fernanda fazia sempre questão de avisar. Mas o homem do blazer cinzento entrou, olhou e perguntou:

Onde encontro a senhora que me ajudou há bocado?

Pedro apontou para Benedita.

O homem aproximou-se. Benedita lavava uma tigela, só depois virou-se. De perto, era alto, ombros largos, cabelos grisalhos, rosto fechado de quem pouco sorri. Olhos cinzentos fundamente marcados. Um homem que há semanas ou meses não tem tido dias fáceis.

É a Dona Benedita?

Sou.

Ele demorou, sem saber bem o que dizer. Depois largou simplesmente:

Quero agradecer-lhe. Não sei como Só obrigado.

Não foi nada. Foi só agir rápido.

Não, foi sim senhor. Eu podia Tocou na testa. Se não fosse rápida

Qualquer um teria feito o mesmo. Só era preciso saber o que fazer.

Mas fez você. E sabia.

Benedita pousou a tigela e pegou no próximo prato. Ele ficou ali.

Isto é seu? perguntou subitamente.

Virou-se. Ele olhava para o caderno junto ao lava-loiça. Benedita tinha-o levado hoje do cacifo, para desenhar nos intervalos.

É meu.

Posso ver?

Encolheu os ombros. Ele abriu o caderno. Na primeira página, a idosa com o cão. Benedita desenhara-a várias noites, ajustando rugas, botas pesadas, o jeito de pegar na trela.

O homem folheou mais páginas.

Lá estava o ramo de árvore orvalhado, o rapaz no baloiço inventado, mas parecia real. Um esboço do mercado, rápido mas cheio de vida. Muitas mãos, poses diferentes, mania de quem sempre treinou em cadernos.

Folheou longamente, calado.

É artista disse, não perguntou.

Fui. Agora lavo loiça.

Porquê?

Motivos vários.

Assentiu. Olhou outra vez o mercado, fechou o caderno, pousou-o. Ficou ali um momento. Benedita achou que ele diria obrigado e sairia. Mas lançou outra questão:

Chamo-me Manuel Esteves de Oliveira. Sou arquiteto. Tenho uma proposta para si, mas antes quero saber: já não pode viver do seu talento?

Benedita olhou-o. Pedro, ao longe, disfarçava, mas escutava tudo.

Depende do que entende por viver disto.

Trabalhar. Ser paga pelos desenhos.

Olhe, Manuel há pouco escapou por pouco. Devia ir descansar.

Descansarei. Mas primeiro: quer trabalhar? Mesmo? Na sua área?

Havia uma verdade no tom dele, sem pressa, sem pose só honestidade.

Depende do tipo de trabalho disse Benedita.

Ele fez que sim, tirou do bolso um cartão. Simples, branco, só nome e contacto.

Ligue-me amanhã, ou então dou-lhe eu um toque. Explico tudo. É sério, não por agradecimento. Preciso mesmo de alguém com esse olhar.

Qual olhar?

Tornou a olhar o caderno.

Este que vi aqui.

Despediu-se com leve inclinação e saiu. Pedro olhou para Benedita.

Valha-me Deus.

Vai mas é descascar batatas respondeu ela.

Guardou o cartão no avental. As mãos voltaram a ficar molhadas. O rumor da sala regressou, como se nada tivesse acontecido.

Naquela noite, Benedita demorou a adormecer. Ficou deitada a olhar o teto, ouvindo o aquecedor. Pensava no caderno, no modo como ele folheou as páginas, como olhou os desenhos de verdade, não por cortesia. Não elogiou, apenas viu. E algo parecia mudar no rosto dele enquanto olhava.

De manhã, ao sábado, Benedita tomou o cartão, ficou a rodá-lo na mão. Depois ligou.

Atendeu logo, como se estivesse à espera.

Bom dia, Dona Benedita.

Como sabe o meu nome do meio?

Perguntei à chefe de sala ontem. Conte-me de si, se quiser. Depois explico o projeto.

Contou-lhe. Rápido. Editora, ilustração, crise, mãe, divórcio. Ele ouviu sem interromper. Depois foi ele.

O gabinete de arquitetura abriram-no há doze anos. Equipa pequena, projetos vários: casas, espaços públicos. No ano anterior ganharam concurso para requalificar o jardim à beira-rio. Tinham feito tudo certo plantas impecáveis, mas faltava-lhes vida.

Os desenhos são frios, percebe? Está tudo em ordem, mas falta imaginar as pessoas, sentir a vida ali. Precisamos de imagens que mostrem calor humano explicou ele. Que convidem a ver: aqui sentam-se senhoras, ali correm crianças, ali alguém pousa um livro. Percebe?

Percebo.

O seu desenho ontem nota-se que sabe pôr vida no papel.

Benedita ficou calada. Depois perguntou:

Prazos?

Quatro semanas. Se tudo correr bem, o projeto avança. Um parque a sério, para ser vivido.

Algo nela vibrou.

Está bem disse. Quando posso ver as plantas?

Hoje mesmo, se quiser.

O gabinete ficava num prédio antigo no centro. Terceiro andar, escada de madeira com corrimão branco. As salas eram amplas, tecto alto, folhas e modelos por todo o lado, cheiro a papel e café.

Os colegas eram quatro. João, jovem de auscultadores gigantes. Teresa, quarentona de cabelo curtinho, engenheira. Sr. Álvaro, idoso que fazia as maquetas. E ainda Diogo, que tratava dos renders.

Manuel mostrou as plantas: mesa grande, pesadas réguas a segurar as folhas, voz clara. Sem complicar, apontava: alameda principal, fonte, zona infantil, bancos, árvores.

Benedita esforçou-se por ver mais que linhas: imaginou ali um senhor com o cão, ali uma mãe com carrinho, ali dois apaixonados ao entardecer.

Posso ir lá? perguntou.

À beira-rio? Quero já?

Quero.

Foram juntos. Caminharam em silêncio, ela com o caderno, ele com mãos nos bolsos, passo vagaroso de quem repara em tudo.

A zona à beira Douro estava vazia num sábado de pré-primavera. Árvores despidas, chão ainda cinzento, mas o rio já vivo. Aqui e ali passantes, um ou outro cão. Onde seria o jardim, apenas bancos antigos e dois plátanos. Terra batida.

Benedita parou, olhou em redor, abriu o caderno.

Vai desenhar já? estranhou Manuel.

Um esboço. Quero lembrar-me do cheiro.

Ele ficou surpreendido.

Cheiro?

Sim. Água, terra húmida, folhas velhas. Fica no papel, mesmo sem querer.

Ficou calado. Benedita traçou linhas rápidas. Só para a mão memorizar o sítio. Margem, árvores, o ciclista que passou, duas crianças com a mãe.

Manuel ficou a olhar o rio, rosto pensativo.

A sua esposa gostava destes sítios? perguntou Benedita, continuando a desenhar, e logo acrescentou: Desculpe, não devia perguntar.

Não faz mal. Ela gostava era do mar. Dizia que os rios eram tristes, demasiado lentos Silenciou-se. A Sara morreu há oito meses. Cancro. Rápido, em quatro meses.

Lamento.

Obrigado.

Não falaram mais nisso. Benedita desenhou, Manuel ficou ao lado. O vento vinha frio, já com cheiro de água corrente, não de gelo.

De regresso ao ateliê tiveram café. Manuel explicou formatos: vinte folhas, diferentes zonas, horas do dia, pessoas diversas. Nada de ilustrações certinhas, mas vivas, como fotografias.

Entendi disse Benedita. Deem-me uma semana para os primeiros cinco.

Está combinado.

Benedita voltou para o quarto alugado na Rua das Flores. O aquecedor roncava. Pôs o caderno na mesa, pegou no lápis e ficou a pensar como começar.

O primeiro desenho saiu nessa noite. Uma alameda ao nascer do dia, quase ninguém. Um idoso passeia o cão, ao longe outra figura na névoa. Árvores com folhas jovens, sombra suave. Numa banca, uma senhora lê, confortável naquele amanhecer.

No dia seguinte mostrou a folha a Manuel. Olhou demoradamente.

É isto. Exatamente isto.

Teresa, engenheira reservada, veio ver. Ficou calada, depois disse:

Está perfeito.

Benedita sentiu algo antigo: satisfação, não alegria, mas aquilo que perdemos quando deixamos de fazer o que gostamos.

Nas duas semanas seguintes trabalhou sem descanso. Ido à beira-rio todas as manhãs, desenhava no local horas a fio. Depois, em casa ou no ateliê, compunha as versões finais. Manuel aparecia para aprovar, às vezes trocavam árvores ou bancos de lugar, outras vezes ele olhava e não dizia nada, o que também era resposta.

Foram-se aproximando. Às vezes iam juntos ao rio, ele explicava por que as curvas dos caminhos, a lógica dos bancos. Falava com paixão, sem formalismos. Benedita gostava de ouvir. Sentia que ali havia amor, não rotinas.

Sabe o que faz um bom espaço público? perguntou ele um dia.

O quê?

As pessoas escolherem sentar-se onde querem. Sentem-se num sítio porque ali estão bem. Isso é sinal de bom projeto.

Ela sorriu.

Sempre pensou assim?

Desde a faculdade. Um professor dizia: arquitetura não é sobre prédios, é sobre como as pessoas se sentem ao lado deles. Anotei e nunca esqueci.

Um bom professor.

Faleceu já, mas lembro-me da voz dele.

Falavam assim, de coisas pequenas. Benedita contou das personagens infantis que criava, do raposo favorito que pintou duas vezes, do retrato grande que perdeu numas mudanças. Manuel escutava, por vezes sorria do modo certo.

Também tenho desses projetos. Fiz há quinze anos uma casa pequena para um amigo. Recordo-a melhor que grandes obras. Às vezes o pequeno acerta onde o grande não chega.

Certa vez foram aquecer-se ao café, chá quentinho. Manuel olhou a chuva lá fora e comentou:

Não tem ar de quem gosta de lavar pratos.

Não disse que gostava.

Porque continuou tanto tempo? Não procurou ilustração?

Procurei. Mas falta estabilidade, um mês há encomendas, no outro nada. E eu tinha dívidas.

Agora já não?

Já quase paguei.

Concordou.

Já saiu do Solar do Bairro?

Pedi licença sem vencimento até ao fim deste projeto.

E depois?

Benedita mirou a chávena.

Logo se vê. Pelo menos sabem do que sou capaz.

Ficou em silêncio. Ela sentiu que queria dizer mais, mas não disse.

O trabalho progredia. Benedita encontrou um ritmo: manhã no rio, esboços, tardes a trabalhar, noites a rever. Desenhava todo o tipo de gente: casal jovem, idosa a dar pão aos pombos, adolescentes de bicicleta, donos e cães ao domingo, mãe com bebé sob os ramos em flor.

Manuel revia, sugeria mudanças.

Esta senhora traga um pouco mais para junto da fonte, há uma bancada.

De acordo.

Aqui faça a luz do fim do dia, lanternas. Devem estar bem visíveis.

Mostrava-lhe os candeeiros, ela ajustava. Às vezes discutiam.

Este caminho está demasiado direito. As pessoas veem sempre o mesmo. Devia haver uma curva.

Ele revisava o desenho técnico.

Não dá, ali passa o esgoto.

Mas as árvores podem-se pôr em ziguezague?

Foi perguntar a Teresa. Discutiram horas, lá convenceram todos. Os traços de Benedita ganharam movimento curvas, sombras variadas, promessa de surpresa.

Aqui está, disse ela, mostrando o desenho.

Manuel apreciou cuidadosamente.

Tinha razão.

No ateliê, foi aceite sem grande falatório. João, dos auscultadores, veio um dia espreitar o processo.

Trabalha sempre à mão? Não prefere digital?

Sei ambos. Mas no papel o pensamento flui melhor.

Ele assentiu.

Álvaro, veterano das maquetas, uma tarde trouxe-lhe chá sem dizer nada. Foi o melhor elogio possível.

Houve dificuldades. Três desenhos não saíam zona infantil, planeada para alegria e cor, ficava sem graça. Tentou, rasgou, voltou a tentar. Deu-se conta de algo: desenhava crianças imaginárias.

No sábado de manhã sentou-se num parque vizinho, observou miúdos reais. Esboçou um rapaz seríssimo no baloiço, duas meninas, uma mãe a rodopiar o filho. Em dois dias terminou as três folhas.

Quando Manuel as viu, demorou mais tempo.

Onde arranjou estas crianças?

Ali no parque em frente.

São verdadeiras.

Pois são.

Veio a última semana. Os desenhos quase prontos, o gabinete a preparar apresentação. Manuel ficava até tarde, por vezes Benedita via luz no terceiro andar mesmo às dez da noite.

Uma tarde ficaram os dois até ao fim. Ele ajustava as plantas, ela terminava o último desenho. Só se ouvia o lápis, o papel e o leve suspiro de Manuel, quando estava concentrado.

A Sara viu este projeto começar? perguntou Benedita.

Demorou a responder.

Viu os primeiros meses. Ganhámos o concurso quando já havia diagnóstico. Ficou feliz. Dizia: vai ficar um jardim bonito, vou passear lá. Mas… não chegou a tempo.

Por isso estava triste? Ia ao restaurante sozinho, sem prazer?

Ele olhou-a.

Percebeu?

Alice, a empregada, contou. Notava-se.

Sorriu de leve.

Imagine-se…

Ia tantas noites lá jantar sozinho. Ela dizia que custava olhar.

Não reparei que se notava tanto.

Quem está só pensa que ninguém repara. Mas vê-se tudo.

Silêncio.

Também é sozinha?

Fui. Agora não sei. Agora tenho trabalho que gosto. Isso conta muito.

Sim concordou. Conta.

Permaneceram calados, serenos.

Quando perdi a Sara disse ele, devagar , não entendi para que servia isto tudo. O trabalho, o gabinete. Sempre adiávamos vida para depois. E o depois não chegou.

Entendo-o. Disse o mesmo em casa, com a mãe.

Também perdeu alguém?

O ano passado.

Anuiu. Mais nada perguntou. Só assentiu, como quem compreende tudo o que importa.

Saíram juntos. Estava já escuro, uma brisa fria. Benedita ajeitou o casaco.

Vai a pé?

Tenho de apanhar o autocarro, para a Rua das Flores.

Acompanho-a até à paragem.

Caminharam em silêncio. A meio, Manuel disse:

Dona Benedita…

Só Benedita.

Benedita, depois da defesa, seja qual for o resultado, queria convidá-la a ficar na equipa. Não só neste projeto. Precisamos sempre de quem veja assim com olhos de artista. É proposta séria.

Ela parou.

Não faz por gratidão?

Por gratidão, oferecia flores. Isto é por precisão.

Ela sorriu, de verdade.

Dou-lhe resposta.

Mas não demore.

Chegou o autocarro. Benedita partiu. Ele ficou a vê-la pela janela de trás.

O dia da apresentação foi numa quinta-feira.

No ateliê estavam todos tensos. Teresa revia cálculos, Diogo afinava as imagens digitais, Álvaro trouxe a maqueta polida, Manuel passeava nervoso, café em punho.

Benedita sentou-se a olhar os seus vinte e dois desenhos. Alamedas, fontes, crianças, fim de tarde, bancos, casais, pombos, chuva, bicicletas.

Nervosa? murmurou Manuel.

Um pouco.

Vai correr bem. São excelentes.

Os desenhos ou a comissão?

Os desenhos.

Sorriu.

O conselho municipal reuniu-se na Câmara, sala imensa, oito pessoas de vários perfis, quase todos de fato escuro, caras sérias. Manuel começou pelos planos, Teresa explicou pormenores e normas, Diogo mostrou projecções digitais.

Por fim, Manuel anunciou:

Queremos mostrar uma série de desenhos. Visões vivas do espaço.

Foi colocando as folhas de Benedita uma a uma na longa mesa.

Silêncio.

Um dos membros, homem de sobrancelhas fartas, pegou no desenho da alameda matinal, contemplou-o demoradamente.

Isto são desenhos? Não é foto?

São desenhos, sim. Realizados no local.

Têm vida murmurou o homem, para si. Benedita escutou.

Seguiu-se discussão, questões técnicas, prazos e orçamentos. Manuel respondeu, Teresa ajudou. Benedita limitou-se a escutar não era a sua parte. No final, uma senhora elegante pediu para ficar com o desenho dos pombos. Benedita sorriu.

O parecer veio logo ali: projeto aprovado, sujeito a pequenos ajustes.

No corredor, Teresa cumprimentou Manuel e depois Benedita. Diogo sussurrou boa. Álvaro não foi, mas mandou uma mensagem: Bem feito.

Manuel por fim chegou junto dela. Estavam à janela, a cidade lá fora já quase toda verde, gente sem casaco na rua.

Pronto resumiu ele.

Pronto concordou ela.

Vamos à beira-rio?

Agora?

Agora. Quero ir ver o sítio.

Foram a pé. Lisboa cheirava a primavera, flores e pedra quente. Manuel não apressava o passo. Benedita levava o caderno, já por hábito.

No cais, sol e vento. O rio reluzia. Bancos ocupados, donos e cães a passear. O futuro parque continuava igual, chão de terra e dois plátanos, mas algo parecia diferente talvez Benedita, que já o desenhara vinte vezes.

Pararam junto ao rio. O vento arrefecia, ela fechou o casaco.

Vai ser um bom parque disse.

Vai sim.

Ficaram calados. Uma jovem mãe passou com o carrinho, apressada.

Benedita disse Manuel.

Sim?

Ele olhava o rio, não para ela.

Vivi muito tempo cercado de gente e tarefas, mas vazio. Sabe como é?

Sei.

Estas semanas voltei a gostar de sair de manhã. Não para trabalhar, mas só… sair.

Benedita fitava o Tejo. Os rios vão devagar, indiferentes a tristezas.

Disse que a Sara não gostava de rios. Eram lentos.

Sim.

A mim agrada-me o lento, desde pequena.

Ele virou-se para ela. Um olhar inteiro, honesto.

Fico feliz que naquele dia tenha saído da cozinha.

Eu também estou. Embora só pensasse que alguém se estava a sufocar.

É por isso.

Só mais tarde entendeu que não falava só desse dia.

Manuel disse ela devagar.

Sim?

Não sou boa nestas conversas.

Nem eu.

Então estamos empatados.

Ele riu, pela primeira vez. Um riso genuíno, suave, inesperado.

Benedita disse.

O quê?

Posso convida-la para jantar? Não no Solar do Bairro. Noutro sítio qualquer.

No Solar até se come bem.

Pois, mas tenho vergonha de olhar nos olhos da chefe de sala depois daquele episódio.

Imaginou o rosto de D. Fernanda e acenou:

Justo.

Aceita?

Benedita abriu o caderno. Pegou em folha nova. Olhou o rio, as árvores, as pessoas nos bancos. Começou a desenhar.

Aceito disse, sem desviar o olhar.

Ele não disse nada. Só ficou ao lado.

No fundo, compreendeu que em Portugal, como no resto do mundo, a vida raramente segue como planeámos, mas nunca é tarde demais para recomeçar, nem para encontrar novos lugares e pessoas onde finalmente pertencemos.

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Saída da Cozinha: Descubra Novos Sabores Fora do Tradicional
Невероятна случка: Зашеметяваща история, която ще ви разтърси!