Sofá Clássico dos Anos 90

O Sofá dos Anos Noventa

Filhos, temos uma surpresa para vocês! Dona Amélia brilhava como uma árvore de Natal junto à nossa nova, ainda quase vazia, sala. Resolvemos dar-vos o nosso sofá!

O mundo ficou suspenso por um instante. Olhei para Gonçalo. Ele sorria, mas parecia ter engolido um limão inteiro.

Mãe, pai, vocês têm a certeza?… Ainda está em ótimo estado, tentou argumentar ele. Vocês próprios ainda precisam dele.

Ora, nem pensar! respondeu o senhor Manuel, acenando com desdém. Comprámos um novo. Moderno. Este é dos bons, madeira mesmo! Agora já não se fazem assim. Para vocês, serve perfeitamente. E ainda poupam uns trocos.

“Ao início, serve.” Esta frase soou como uma sentença estranha, talvez vinda de um pesadelo. Eu imaginei aquele sofá ali, naquele espaço. Um mastodonte de veludo granada com pernas entalhadas, ao qual, durante os meses que vivi na casa deles, só conseguia chamar mentalmente de “O Monstro da Sala”. Ocupava metade do espaço deles. Passaria a ocupar metade do meu.

Dona Amélia, é mesmo muita generosidade, mas tentei encontrar as palavras certas. Nós íamos por um estilo mais contemporâneo…

Contemporâneo! bufou a sogra. Essas modernices brancas um dia passam. Boa mobília dura uma vida, Leonor! Ainda vais agradecer. Amanhã mandamos os carregadores.

No dia seguinte, dois carregadores entraram ofegantes e empurraram para a nossa sala luminosa esse monstro de veludo. Quando saíram, ficámos, eu e Gonçalo, a contemplar o enorme sofá. Ocupava a parede central. Pesava no ambiente, as pernas entalhadas parecendo dedos retorcidos a cravar-se no soalheiro chão de madeira recente. O cheiro de pó e de veludo velho alastrava-se, adocicado, por toda a sala.

Bem… disse Gonçalo. Pelo menos temos onde nos sentar.

Virei costas, fugi para a cozinha. Percebi então que o sofá era mais que mobília: era um cavalo de Tróia. Dentro dele vinham toneladas de culpas, expectativas, família, obrigações. E agora estava ali, no coração da casa.

***

Três meses a desenhar a sala: noites a folhear inspiradores catálogos de decoração, a guardar imagens, a experimentar esquemas de disposição. A sala era a essência da casa: dezoito metros quadrados com uma janela virada a nascente. Sonhava os raios de sol espalhados pelo soalho cor de carvalho claro. As paredes pintei de branco quente, quase leite. Consegui cortinas de linho leves, em tons suaves. Planeava um sofá de canto escandinavo, cinza, pernas de madeira fina, prático e elegante. A combinar, uma poltrona baixa, uma mesa de centro com metal claro e madeira clara. Na parede, uma estante estreita suspensa para a televisão e prateleiras abertas para os livros. Minimalismo. Espaço. Luz.

Agora, no lugar de tudo isso, havia um sofá dos anos noventa. O sofá comprado por Dona Amélia e o senhor Manuel no início do casamento. Uma fortaleza de veludo vermelho escuro, florido com rosas roxas desbotadas, folhas sem nome. O tecido estava esburacado nos braços, já com espreitadelas de espuma amarela. Encosto alto, madeira escura com laca gasta, pernas entalhadas à leão, ridículas perante a minha decoração nórdica. Enorme, fundo, três metros e meio. Sentava-me e ficava atolada, aprisionada pelas molas que gemiam de dor. Uma delas devia estar partida, uma cratera no meio onde tombavam as almofadas sem hipótese de retorno.

Mas o pior era a memória. Memória de décadas de família, de vidas: ver televisão, comer tremoços, dormir depois do turno, os panos de croché, todos os cheiros: tabaco do senhor Manuel, perfume da Dona Amélia, suores, café, vida. Estava de tal forma impregnado do quotidiano alheio que parecia uma criatura viva. Agora dominava a minha sala.

Na primeira noite tentei deitar um lençol branco por cima. O tecido escondeu a cor, mas não as pernas. E agora pareciam mais grotescas ainda. O lençol escorregava, fazia pregas, nunca assentava. Cansei-me, desisti.

Se calhar compramos uma capa à medida, sugeriu Gonçalo.

Uma capa com três metros e meio? E as pernas, envolvemos também? Gonçalo, não é o tecido, é o tamanho! Ocupa metade do nosso pequeno mundo!

Gonçalo calou-se. Sempre que a conversa girava aos pais, calava-se. Na casa dele, nada se deitava fora. Tudo se aproveitava. O senhor Manuel, reformado das forças armadas, sempre ensinou moderação, pragmatismo. Dona Amélia guardava das chávenas às toalhas, tudo o que fora comprado com sacrifício. Para eles, deitar fora seria trair a história.

Mas eu? Só queria espaço, luz, harmonia. Porque tinha de viver com este monstro?

No dia seguinte ligou Dona Amélia.

Leonor, querida, que tal o sofá? Confortável?

Sim, obrigada, segurei o telemóvel como se fosse possível espremê-lo em pó. É… impressionante.

Claro! Comprámo-lo em noventa e três. O Manuel esteve na Alemanha, trouxe-na as economias. Mobiliário de antigamente era coisa de respeito. Isso hoje desapareceu. Este ainda aguenta mais vinte anos!

Vinte anos. Imaginei vinte anos de solidão em veludo vinho numa sala branca e senti um fogo frio subir-me do estômago.

E vocês já têm o novo?

Temos. Um mais pequeno, cinzento, abre-se facilmente. Para nós chega. Agora, para uma família como a vossa, o nosso ainda dá um ar respeitável!

Desliguei e sentei-me no chão ao lado do sofá. Eles trouxeram para si a modernidade confortável; a mim coube o monumento ao passado, sob o disfarce de herança generosa. E nem sabiam que, para mim, não era bondade, era só um fardo.

***

Passou uma semana. Tentei dar uma hipótese ao sofá. Tentei sentar-me de manhã com o meu galão, abraço de almofadas e jornal. Enterrava-me. O cheiro a mofo apoderava-se de mim, entranhava-se no cabelo, na roupa. Tinha vergonha de receber visitas. Logo eu, designer, sentada a trabalhar entre relíquias de décadas passadas. A minha amiga Mafalda, quando veio, parou à porta.

Leonor, isto…? apontou.

Prenda dos sogros.

Mas tu mostraste-me o projeto! O sofá esquimó, minimalista, nórdico! E isto é…

Um monstro, confirma, Mafalda.

Olha, não queria ofender os pais do Gonçalo, mas… isto não liga, não tem alma com o resto!

Pois, eu sei. Eles acham que estão a ajudar. Dona Amélia liga todos os dias: Então, leonorzinha, já te habituaste ao sofázinho?

Sofázinho! Isto é um sofá e uma sala em fusão! Olha, se não tirares, nunca vais encaixar poltrona, mesa, nada!

Eu sabia. O sofá era o centro gravitacional de tudo.

***

Duas semanas depois, visita dos pais do Gonçalo. Eu fiz queques, limpei a casa, preparei chá. Pus um temporizador de quarenta minutos no avental: era o máximo de tolerância sem perder a compostura.

Entraram os senhores com o saco de laranjas, compota, biscoitos. Chegaram à sala e pararam, olhando o sofá triunfal ao centro.

Olha! Dona Amélia bateu palmas. Vês, ficou perfeito! Como feito à medida, Manuel?

O senhor Manuel sentou-se, testou.

Sólido, aprovou. Nada de mobiliário frágil dos suecos…

Gonçalo sorria. Eu mordi o lábio, o timpano interno fazia tique-taque: quarenta minutos.

Leonor, estás sóbria! O sofá não te agrada?

Gosto, claro. Só… ele é tão grande. Imaginei talvez algo menor.

Menor? torceu o sobrolho. Porquê menor? Depois vêm os netos, e onde se senta toda a família? Isto sim é prático!

Prático. A palavra preferida deles. Tudo prático. Beleza, harmonia, estilo, eram modas de revista.

E a mesinha de centro? perguntou o senhor Manuel.

Ainda não temos, murmurou Gonçalo.

Na casa de férias temos uma. É pesada, mas forte! Também trazemos, se quiserem.

Eu imaginei outra peça monstruosa, outro ancoradouro de passado. Ganhei coragem.

Obrigada, mas não, disse. Temos planos para algo mais moderno, leve.

Dona Amélia olhou-me com leve censura.

Leonor, queremos ajudar-vos. Não faz sentido gastar dinheiro se temos coisas boas.

Mas é a nossa casa, escapou-se-me. Queremos escolher à nossa maneira.

Silêncio. Gonçalo pálido, os sogros secos.

Pois, claro. A casa é vossa. Só queríamos ajudar, mas se não valorizam…

Mãe, a Leonor não quis dizer isso, intrometeu-se Gonçalo.

Concordei. O temporizador marcava vinte minutos. Faltava pouco.

Na cozinha, o clima era espesso, os assuntos triviais. Quando saíram, Gonçalo virou-se para mim.

Tinhas de ser tão brusca?

E tu? Continuas a deixar que decidam tudo por nós! Trabalhei três meses para isto, e agora entrou aqui um dinossauro e ficou tudo decidido por eles!

Era uma oferta! Para pouparmos!

Era lixo disfarçado de presente!

Discutimos até ficarmos em silêncio, ele na sala, eu no quarto. De noite, quando fui beber água, encontrei-o deitado, cabeça virada para as almofadas, a chorar.

Sentei-me ao lado dele, as molas rangendo.

Desculpa, murmurei. Ninguém quer magoar os teus pais.

Eles pouparam meses para comprar aquele sofá. Era o primeiro grande investimento. Para eles, dar-nos era um gesto de amor, de legado. Queriam que lembrassemos…

Mas eu não quero lembrar, Gonçalo. Quero a nossa história, a nossa casa, o nosso início.

Não houve resposta possível.

***

Tentei integrar o sofá. Comprei almofadas cinzas e brancas, mas parecia um tanque decorado por rendas. Pus plantas, tapetes claros, prateleiras leves: nada resultava. O sofá era a força dominante. O projeto da sala parecia um mosaico de realidades paralelas: anos noventa versus modernidade. E ganhavam sempre os anos noventa.

Mafalda visitou-me, sentou-se, viu o desastre.

Isso não tem remédio. Ou te livras dele, ou perdes a sala de vez. Metes no OLX, dás, deitas fora.

E os teus sogros?

Dizes que estragou, a cadela roeu. Que não deu.

Não temos cadela.

Arranjas uma, nem que seja imaginária.

Acho que és capaz de ter razão, sorri sem vontade. Se cedo agora, cedo sempre. Daqui a nada trazem mesa, loiça, tapete, talheres. E acabamos por morar no Museu dos Pais do Gonçalo.

Sabia que era verdade. Mas temia tanto o confronto com eles que preferia viver num aquário decorativo.

***

Sábado, chegou o grupo dos amigos do Gonçalo o Rodrigo e o Simão. Mal pousaram os casacos:

Gonçalo, mas o que é isto?! apontou Simão.

Prenda dos pais, serviu-lhes cerveja.

Sentaram-se, afundaram-se.

Isto é vintage puro! riu Rodrigo.

E com certeza tem bicho. Já viste se tem traça no tecido comprido? sugeriu Simão.

A ideia deixou-me suspensa. Agarrei uma lanterna, investiguei: entre a madeira, as almofadas, as sombras, não achei traça. Mas encontrei um pão duro, mais antigo que as notas de escudo, escondido sob uma almofada, bolorento, fossilizado. E nesse instante chorei. Não pela sujidade, mas pela impotência. Aquilo era o símbolo de tudo o velho, o que não se larga, o que apodrece e ocupa espaço.

Gonçalo, olha isto…

Ele reconheceu.

Temos de nos livrar deste sofá, Leonor.

Esse foi o ponto de não retorno.

***

Durante dias, Gonçalo preparou-se para ligar. Queria o discurso perfeito para não magoar os pais. Telefonava, desligava. Quando falou finalmente:

Mãe, olha… o sofá é enorme, não encaixa. Talvez fique melhor na vossa casa de praia? Ou outra pessoa aproveita?…

Do outro lado, ouviam-se vozes magoadas. Indignação. Choro de Dona Amélia. O senhor Manuel: “Se não querem, levamo-lo, não vos damos mais nada. Não sabem dar valor.”

Chegaram no sábado. As mesmas caras fechadas. Os carregadores tiraram o sofá. Ficou um retângulo escuro no soalho, marca sobrevivente ao sol. Tive alívio e lamento ao mesmo tempo.

Era isto que querias? perguntou Gonçalo.

Queria respirar. Só isso, confessei.

Ficámos o resto do dia sem trocar palavra.

***

Comprei finalmente o sofá dos meus sonhos: cinzento, de canto, simples. A sala clareou. Mas quando me sentava ali, sentia culpa. Gonçalo sentia distância. Agora tínhamos espaço, mas atravessados pelo silêncio com os pais. Os jantares eram breves, conversas frias.

Até que decidi: convidámos os pais para virem ver a sala. Vieram, de má vontade. Dona Amélia observou o sofá novo.

É moderno, é prático… mas a minha alma ainda preferia o antigo, forte, leonino…

Mas aqui está melhor assim, mãe, disse Gonçalo, sereno. É mesmo o que queríamos.

Ela resmungou qualquer coisa sobre os jovens e as manias do minimalismo. Não voltei a insistir. Sentei-me, servimos chá, falámos do tempo. Nada mais.

Antes de saírem, Dona Amélia abraçou-me:

Leonor, pequena, perdoa-nos. Só queríamos ajudar.

Eu sei. Obrigada, de coração.

Mas agora escolham vocês. A casa é vossa.

Essa rendição, tão silenciosa, valeu por tudo.

***

No fim do verão, Dona Amélia ligou:

Olha, Leonor, sabes aquele site onde compraste o vosso sofá? Dizes-me o nome? Para a casa de praia não queremos nada pesado, basta confortável e moderno.

Sorri.

Claro, ajudo-vos a escolher.

Quando desliguei, Gonçalo olhava-me com espanto:

Pedem agora o teu conselho para mobília?

O tempo trata de tudo, ri.

Olhei para o sofá novo, a luz do entardecer acariciando a sala. O passado, afinal, aprende a sair de cena. Às vezes, é preciso deitar fora o velho para fazer espaço ao novo. A liberdade, afinal, também se conquista a cada escolha.

Querida, queres chá? chamou Gonçalo da cozinha.

Quero sim, Gonçalo, disse, sorrindo.

Porque, enfim, sentia-me em casa. No nosso lar, do nosso jeito.

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