O marido, que há dois anos foi para o estrangeiro viver com a amante, apareceu de surpresa à porta: Disse que queria voltar para casa, como se nada tivesse acontecido

Era um daqueles serões terços, dessas terças-feiras magoadas pelo outono. Deixei a chaleira ao lume, a rádio murmurava baixinho, e o cheiro a maçã assada enrolava-se pela casa fora era o meu feitiço contra a monotonia dos ventos frios. Um dia igual aos outros, até que a campainha tocou, trocando tudo por um momento de quase sonho.

Abri a porta e, por um instante esquisito, pensei estar a sonhar. Ali estava ele: a mesma gabardina já gasta, o mesmo olhar de sempre, como se regressasse de um simples recado ao supermercado, e não de dois anos sem regresso, de braços com outra mulher.

Olá disse ele, como se tivéssemos almoçado juntos ontem.
Permaneci muda, observando-o como se tentasse juntar peças: aquele que partira sem nunca virar costas, e este, parado à minha porta tudo tão irreal, como uma música a tocar ao contrário.

Fez há dois anos que fechou a mala à pressa, num fim de tarde sem regressos. Disse que assim não dava, que alguma coisa tinha de mudar. E a mudança tomou a forma de uma rapariga mais nova, conhecida num qualquer congresso fora de Lisboa.

Partiu para o estrangeiro, deixou-me e tudo o que era nosso para trás. No início ainda ia escrevendo mensagens secas: contas, empréstimos, recibos de renda. Depois, cada vez menos. Até que chegou o silêncio. E devagar, aprendi: já não esperava o bip do telemóvel, fazia as compras só para mim, adormecia com o vazio do outro lado da cama. Ensinei-me a existir sozinha.

Agora estava ele ali, sem aviso, sem telefonema, sem carta. Apenas ele e uma mala, os olhos cheios de espaço vazio.

Pensei em tudo começou. Aquilo foi um erro. Quero voltar.

Aquilo: assim falou de dois anos, como se fosse uma consulta mal marcada no centro de saúde.

Queres voltar para onde? perguntei, com uma calma deslavada. Para o mesmo apartamento, a mesma mesa da cozinha, para os Natais que não houve? Para a mulher de há dois anos?

Ficou calado. Encolheu os ombros, quase infantil, como se tudo ainda tivesse o sítio marcado à mesa. Está tudo aqui. A nossa vida.

A ideia era absurda; via-se nos seus olhos: achava mesmo que podia entrar, tirar o casaco e sentar-se à mesa onde estive, por dois anos, apenas com o barulho do relógio.

Convidei-o a entrar, não por ternura, mas como quem observa um animal raro queria ouvi-lo explicar, depois de dois invernos de ausência, o regresso. Sentou-se no lugar antigo, olhou em volta: cortinados novos, livros empilhados, imagens de escapadelas com amigas a marcar paredes diferentes.

Vejo que arranjaste isto notou.
Tive de arranjar respondi.

Abriu-se então em confidências. Que esperava outra coisa; que tudo sentira leveza por um instante, mas depois veio a rotina, as discussões, a falta de pertença. Que sentiu saudades. Que compreendeu. E agora queria regressar a casa.

Escutei. As palavras caiam num compasso antigo, esse tom de sempre mascarado de arrependimento. Mas a verdade era outra: esta casa também mudou. E eu mudei.

Passaste dois anos sem uma carta, sem apareceres no Natal, sem perguntares como fiquei disse-lhe, límpida. E agora voltas?

Sim repetiu ele. Porque te amo.

Amo-te. Soou a palavra estranha, como uma senha esquecida, incapaz de abrir qualquer porta.

Sentou-se à minha frente, naquele ponto em que antes desenhávamos sonhos e contas sobre a mesa, onde rimos de disparates dos miúdos. Olhava em redor, tentando apanhar ainda um resto da vida de antes. Mas aquela casa já não era dele. Via-se: como se tentasse caber num sofá desenhado para outro.

Sabes começou. Lá, tudo parecia diferente. Pensei que ia ser mais fácil. Um novo país, outra língua, outro emprego Ela com as suas manias, eu com as minhas. Não deu. Percebi que pertencia aqui.

Pertencer aqui, aquilo soou ingénuo, quase cruel. Onde estiveste quando me vi sozinha com cada factura, cada reunião na escola, cada ceia de silêncio? Onde estavas no Natal em que só havia o barulho dos talheres e o telemóvel quieto?

Olhei-o não como ao homem que havia amado, mas como alguém que se evaporou a meio de uma história e regressa, esperando que ninguém tenha percebido o vazio.

Foram dois anos sem ti, nem um telefonema na véspera de Natal, nem para os meus anos. Nunca perguntaste sequer como estava. E agora, bates à porta: voltei?

Apertou as mãos à mesa.
Sei. Desapontantei-te. Mas amo-te.

De novo, a palavra soava inútil. Uma chave que não abre já qualquer porta.

Não me digas que me amas disse, calma. Quem ama não desaparece dois anos para voltar como se tivesse ido só de férias.

Ficou o silêncio. Uma espécie de nada, o mesmo que ficou muitas vezes uma clareza infalível.

Levantou-se em câmara lenta. Encaminhou-se para a porta, olhou uma última vez, como se quisesse guardar tudo na memória. Vou arrendar um quarto, para começar murmurou. Não quero pressionar.

Ainda bem rematei. Forçar não devolve nada ao lugar.

Deixou a casa sem estrondo, fechando devagar a porta atrás de si. Escutei-lhe os passos a descer as escadas cada vez mais sumidos, cada vez mais longe. E a cada compasso, senti o peso afastar-se dos meus ombros, partindo com ele.

Sentei-me de novo à mesa. O chá arrefecia sobre o tampo, abandonado. Por instantes, pairou no ar essa expectativa eléctrica como se tudo ainda pudesse acontecer. Mas depois tudo ficou claro. Não era alívio, nem alegria: apenas uma certeza suave.

Levantei-me, abri a janela. Entrou o vento frio, soprou o aroma das maçãs assadas. Olhei para a porta de entrada, e nesse momento soube: durante dois anos, mesmo na ausência dele, mantive a casa à espera como se ele pudesse voltar. Agora, sabia: não.

Não houve lágrimas. Houve uma escolha. Séria, silenciosa e absolutamente minha. Não queria o seu regresso. Não por ódio. Porque aprendi: não preciso de alguém que acha, sempre, que tem onde voltar.

Fechei a porta atrás dele e, pela primeira vez em muito tempo, senti-me, enfim, do meu lado. E, no entanto, quando a casa mergulhou no silêncio da noite, uma última pergunta sussurrou, teimosa: E se me enganei? Talvez devia ter deixado ficar.

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