Boas Intenções

Boas Intenções

Otília! Finalmente! Já estava a desesperar-me! Margarida Patrocínio abriu a porta e abraçou a irmã. Já nem penso direito, não sei o que fazer!

Acalma-te primeiro! a robusta e serena Otília Patrocínio entrou pelo corredor com a tranquilidade de uma tartaruga centenária. E ela, está em casa?

Não! Pegou nos miúdos de manhã e desapareceu! Margarida fez um gesto desamparado. Não quer ouvir ninguém. Diz que se apaixonou!

Olha, Margarida, deixaste a miúda à solta, agora que esperavas? Anda, senta-te e conta-me tudo, sem esconder nadinha. Depois logo vemos o que fazer.

Otília avançou para a cozinha e, sentando-se à mesa, observou minuciosamente a irmã a preparar o chá.

Devias passar o bule por água quente, quantas vezes tenho de repetir? Não aprendes, pá

Margarida estremeceu, apanhou o bule mal-jeitosamente e logo queimou os dedos, levando-os à orelha.

Ai, valha-me Deus, ainda sou uma desajeitada! Deixa, Otília, senta-te que faço eu, senão ainda te mutilas de nervos.

Otília tratou do chá com a eficácia de quem monta prateleiras do IKEA sem manuel de instruções.

Pronto, agora senta-te, minha rica, e começa a contar tudinho, ponto por ponto. Quem é o rapaz? Que faz? E que raio vai pela cabeça à Leninha?

Margarida segurou a chávena com as duas mãos. Nem ela sabia explicar porque é que esta história a deixava tão aflita. O novo namorado da filha caçula era uma pessoa, aparentemente, decente: não bebia, nada de maus caminhos, simpático, educado. Trabalhava por conta própria sim, era uma oficina de automóveis, mas sempre era trabalho honesto. E mãos tinha, que já arranjou a torneira ali em casa quando até o canalizador tinha declarado derrota. Mas Margarida arraigou tanto a ideia de que a filha mais nova era um problema ambulante como Otília sempre vaticinara que já só lhe servia uma desgraça como prova de amor verdadeiro. E o modo como aqueles dois se conheceram parecia saída de uma telenovela. Um mecânico bem-sucedido a consertar à borla o carro da primeira mulher que encontra? Só porque era inverno, chuva miudinha e os miúdos no banco de trás? Sim, são coisas da vida, mas não para dar novelas da TVI! E depois, todos os fins de semana lá ia ele confirmar que nada faltava à família. Meia dúzia de meses nisto, e a Leninha literalmente nas nuvens, ignorando filhos e mãe porque tem que ser feliz! Como se não bastasse ter passado já uma.

Tudo isto a Margarida contou à irmã, entornando ali a vida como quem despeja um balde de água fria. Confiava mais em Otília do que em si própria desde pequena era o rabinho de saia da irmã mais velha, que tantas vezes a carregara ao colo. O pai morreu cedo e a mãe fazia o que podia para criar as filhas. A trabalhar de sol a sol, acabou por passar meio serviço para Otília:

Ó Otília, já és crescida, ajuda lá a mãezinha.

A diferença de idade entre as duas era grande, uns belos oito anos. Quando soube da segunda filha, a mãe nem sabia se ria ou chorava não estava fácil pôr uma casa com uma criança, quanto mais duas. Mas tanto o marido como a filha mais velha juraram:

Damos conta do recado!

E dona Catarina acreditou. A Margaridinha nasceu franzina, doente e sempre no hospital. E sempre ao lado, a irmã Otília.

És mesmo anjinha da guarda, mesmo que digam que não existem! dizia Catarina enquanto fazia tranças à Margarida antes de ir para o trabalho. Não sei, minha filha, o que seria de mim sem ti!

Otília, orgulhosa, levava a irmã à escola pela mão e ainda tratava de tudo para ela. Quando a Margarida entrou na primária, já sabia ler, escrever e contar de trás para a frente. Foi um passo inteligente, porque logo nesse ano adoeceu outra vez e só teve forças para ir às aulas aqui e ali. Dona Catarina andava com ela pelos médicos, mas os doutores eram sempre de opinião:

Com o tempo, a menina ganha resistência. Vai ver que sim.

E éramos a Otília de novo a controlar vitaminas, chás e sestas. Sentava ao pé da Margarida, de sobrolho carregado, até ela beber o leite com aquela nata insuportável.

Odeio isto! Tem película cá em cima!

Não reclames! É para o teu bem!

A Margarida choramingava mas lá ia o leite, gole a gole.

No segundo ano escolar lá esteve mais saudável, e só raramente faltava às aulas. A vida estava de melhorar só que aproxima-se o ensino superior e Catarina pergunta à filha mais velha já quase com netos a caminho:

Achas que ela continua a estudar?

Tem que ser, mãe. Tem cabeça, é um desperdício largar agora.

Mas só eu não consigo pagar

Quem disse que vai sozinha?

A mesada era minúscula, mas Margarida não reclamava. Otília visitava-a no quarto do lar universitário, torcia-lhe o nariz se via pó (e havia sempre pó), e descarregava dois sacos de compras.

A mãe adoeceu no segundo ano da faculdade. Quando a Margarida, meio envergonhada, lhe contou do novo namorado, uma semana depois recebeu a notícia do diagnóstico fatal.

O que faço, Otília?

Estuda, acaba tudo com boas notas e nem penses em contar à mãe que sabes o que se passa! Eu trato do resto.

A Margarida só teve tempo de se despedir, uma última semana, tentando não ouvir o sofrimento da mãe e a correr para a cozinha, onde mordia em silêncio uma colher de pau para não gritar. As lágrimas, essas, não apareciam.

Otília era de ferro. Tratava de tudo com eficiência e varria a Margarida para fora da cozinha de cada vez que se punha a chorar.

Outra vez?! Nem pensar, deixa a mãe ter paz, se já não podemos ajudar.

As palavras de Otília caíram como um balde de água gelada. E, enfim, dona Catarina partiu numa madrugada, segurando a filha pela mão. Margarida, privada de mãe em segundos, desatou a chorar finalmente. Enfim, era permitido.

As irmãs venderam a casa dos pais; Margarida ficou com um T1 ao lado da Otília.

Ainda bem que ficaste perto. Eu trato disto tudo, nem chamaste ninguém! decretou Otília a avaliar as paredes. A minha equipa faz o que for preciso.

Otília já era chefe de equipa de obras, prestigiada, minuciosa. Os tempos mudaram e houve até direito a empresa própria. Cursava à noite na faculdade eixava-se:

Não me chega o tempo para nada, o Alcino só me complica! Enfim, isto passa, depois lanço-me a sério!

Não se lançou. As crises vinham e Otília lá se aguentava à tona. Falar de negócios com ela era sempre igual:

Ninguém tem cabeça nem mão para isto! Fazem porcaria, depois sou eu a arcar com os clientes! E tu, Margarida, tudo bem?

Margarida fazia o relatório. Desde que casara, tinha sempre culpa porque Otília desgostava do genro. Era a primeira vez que Margarida lhe fazia frente, mas o marido viu longe e soube conquistar Otília. Não se sabe como, mas até ela derreteu com o tempo. Hoje, reconhecia: o Maximiliano, ao menos, era bom marido, estimava a família e o salário era todo para casa. Só havia uma coisa que a fazia franzir o nariz: Maximiliano passava tempo demais com as filhas.

Isto não está certo! Ainda acabam mimadas. Homem que é homem não é ama de casa todos os fins de semana!

Margarida concordava por hábito, mas no fundo achava que Otília tinha um bocadinho de inveja, pois o seu Alcino evitava filhos a todo o custo. Quando o filho mais velho de Otília começou a dar problemas na escola, o marido encolheu os ombros.

Foste tu quem o educou, agora desenrasca-te. A minha parte faço ponho dinheiro em casa.

Otília suspirava mas não discutia. Entre discussões, lá se arranjaram, e o rapaz acabou no exército, conselho de cliente habitual.

Aquilo vai pô-lo nos eixos!

Curiosamente, o rapaz apaixonou-se pelo quartel. Nas reuniões familiares dizia sempre:

Tive uma mãe-general, claro que era este o meu destino!

Mas então, foi a filha que saiu da linha.

Mãe, estou grávida.

Otília caiu no sofá.

Mas como? Acabaste de fazer dezoito anos!

E depois? Já sou maior de idade. Poupa-me ao sermão, está bem?

Sermão, para quê, minha rica? Agora é casamento.

Não vale a pena. Ele não quer casar.

Isso querias tu! E Otília levantou-se cheia de energia Não há cá netos sem pai! Não te preocupes, tudo se vai resolver!

A filha nem duvidava. Quem resolve, resolve, só a mãe.

Casaram logo e Otília instalou os jovens no apartamentinho do tempo da partilha.

Agora portem-se!

O que funcionou, ninguém sabe. Medo de sogra? Mão firme? O certo é que os jovens foram vivendo e Otília relaxou. Com os filhos encaminhados, achava que ia descansar.

Pois sim! Mal teve tempo de recuperar e apareceram os dramas da parte das sobrinhas.

As filhas da Margarida eram umas campeãs. Saudáveis, robustas nada de pestilentas como a mãe em pequena.

Dá gosto vê-las! dizia Margarida toda orgulhosa ao ver as miúdas a jogar à apanhada com o pai. Nem parecem minhas! Eu vivia doente, mas estas só apanham um resfriado por ano, com sorte!

Boa, só faltava serem génias para se fazerem santas!

São jeitosas, sim senhora. Bom desempenho na escola, nas actividades… Só são fisicamente o oposto uma da outra. Uma, a Sofia, é mais apagada, parece-se comigo. A Leonor saiu ao pai cheia de brilho e genica.

Fica de olho nela. Vai dar-te sarilhos.

As miúdas quase da mesma idade um ano de diferença e decidiram pôr-na na mesma turma, o que só ajudou à Sofia, que era mais calma. A Leonor era traquina mas ajudava a irmã em tudo.

Mas foi nessa altura que Maximiliano teve um acidente, quando as raparigas estavam no sexto ano. Uma semana no hospital e… não aguentou. Ficaram orfãzinhas.

Pobrezinhas! Otília agarrava-as Não faz mal, a tia está cá, a mãe está cá. Chorámos juntas, mas toca a andar para a frente.

As raparigas tinham medo até de olhar para a mãe. Avaladas, sentiram a ausência não apenas do pai, mas quase da própria mãe, que entrou em modo fantasma andava mal-disposta, magra, gritava durante a noite. Nenhuma delas dormia sozinha, aconchegavam-se à mãe, esforçando-se por lhe devolver qualquer laivo de vida.

E quem teve que intervir? Otília, pois claro. Fez um escândalo daqueles:

O que é isto, Margarida?! As miúdas já sem pai e tu agora fazes-te ausente? Achas que és a única a sofrer? Vê o estado delas!

Margarida ouvia sem emoção. Parecia que, em cada canto da casa, imaginava o marido a entrar da cozinha, a sorrir, a perguntar Quem quer jantar? Só então percebeu, devagar, que Otília tinha razão. Despediu-se do luto devagarinho e as raparigas voltaram a vê-la sorrir, mesmo que com pouco brilho.

No décimo ano, como que combinadas, apaixonaram-se as duas. Mas Sofia, depois de ouvir o discurso inflamado da Otília e enxugar as lágrimas com a mãe, pensou: Mais vale ouvir a tia Otília Tenho tempo!

Já Leonor pôs-se toda senhora dona da razão:

Amo-o!

Amor, o camandro! Vê lá se sabes o que é casar. Nem limpar o nariz sabem e já se querem atirar à vida! Já houve alguma coisa entre vocês ou não?

Isso é comigo. A miúda encarou a tia com desaforo. De que servia? Primeiro dominara a mãe, agora queria fazer o mesmo com ela? Qual troika, qual quê!

Mas Leonor era brava, só que ponderada. Não se deixou ir em falinhas mansas do Sérgio, o namorado. Pôs-lhe as cartas na mesa:

Achas que sou para diversão? Casamos ou nada feito.

Ó Leonor, claro que te amo!

Então casa, é contar aos teus pais.

O caso parecia-o tirar de letra, mas ela foi severa.

Casaram um ano depois. Margarida chorou pela vida inteira na boda, Otília quase explodiu ao ver a felicidade da sobrinha.

Para quê tanta pressa? Tinham que ser agora?

Mas os rumores de que Leonor teria engravidado por acidente eram infundados. O primeiro bebé só chegou dois anos depois. Fez a licenciatura sem parar, com o apoio da mãe e da irmã. O Sérgio estudava à noite e trabalhava no negócio do sogro. Iam-se safando, apesar do arremesso de mãe e do sarcasmo de tia. Quando acabou o curso, o sogro, já esperto, ofereceu-lhe um posto de contabilista.

Tem cabeça e é da casa! O que quero mais?

Leonor aceitou, sabendo que, sem experiência, dificilmente arranjava melhor. Quando percebeu que ia ter o segundo filho, já era chefe de contabilidade e o Sérgio tinha aberto a sua própria empresa. Em equipa, ele e o sogro triplicaram as contas da família. Margarida sentia-se em estado de graça, só estragado pelos habituais comentários de Otília:

Tudo tão certinho Alguma coisa vai correr mal. Este génio da Leonor mete água depressa, depois sobra para ti.

Margarida já nem partilhava tudo com a irmã preferia evitar, pois só ouvia críticas em vez de qualquer alegria pelas sobrinhas. Achava que era frustração com os próprios filhos, que apesar de tudo não estavam assim tão encaminhados.

Vai lá olhar pelos teus, Margarida!

E a Margarida lá ia. Mas o azar bateu de surpresa: Sérgio, sempre tão ocupado, mete-se numa aventura. Leonor soube da pior forma, por um daqueles tristes acasos. Ainda tentou salvar qualquer coisa, combinar encontros românticos, mas percebeu que algo cheirava mal. Conflito, silêncio e, quando a bomba rebentou, foi brutal: uma tarde, no parque, cruzou-se com uma grávida desconhecida e o mundo caiu.

Tu és Leonor? a mulher quase a mirar de cima.

Sou…

Eu sou Elisa. A mulher do Sérgio. Ou melhor, a preferida agora.

Leonor desatou a rir apenas para não lhe acertar com o boneco do filho.

Ai sim? Também fizeste bingo?

Sim, menino! E o teu ainda pensa divorciar-se?

Por acaso, não… E aos teus olhos, os dele são menos filhos? Leonor virou-lhe as costas sem paciência.

Elisa, inconformada, uivou ao afastar-se: Resolve lá isso com o Sérgio! Estou quase a parir!

Leonor ficou a olhar, lágrimas a querer trair diante do filho.

Mãe, estás a chorar?

Nada disso, querido. Caiu um mosquito no olho. Vai brincar!

A verdade não se esconde, e Sérgio assumiu.

Passas a vida cheia de trabalhos e filhos, não lembraste que eu sou homem, pois não?

Epá, és mesmo original. Vais para o Guinness do cliché.

O divórcio foi daqueles penosos. O Sérgio transformou-se em adversário nuns jogos olímpicos de partilhas deitava as mãos ao que podia. Margarida ficou a gerir o rescaldo, a olhar para a filha ex-mulher, ex-nora, ex-empregada; o sogro, envergonhado, fez-lhe o favor de sugerir o despedimento.

Desculpa, mas… é melhor.

Não há problema, qualquer coisa ligo para os avós quando quiserem ver os netos.

Os sogros continuaram a mimar os netos, pouco interessados nos dramas de adultos. Os miúdos, ao princípio, estranharam o desaparecimento do pai do quotidiano, mas pouco a pouco fizeram-se à nova vida.

Margarida continuava a apoiar como podia. E Otília, claro, picava:

Nunca há ninguém em casa! A Leonor só trabalha, os miúdos largados por aí! Vais ver que aparece-te outro homem e sobra-te trabalho

Margarida acreditava, mas o medo tornou-se em pânico quando apareceu o Leonel, o novo namorado da filha.

E agora, que faço?

Mãe, tu vais mas é chamar a Leonor e metê-la nos eixos! Dois miúdos, ela já trambolha pessoal novo para casa?! Quem sabe se o homem não quer só a vida dela?

Vá lá, Otília…

Digo-te, Margarida: investiga! Ao menos conversa com ela.

Não quer falar, acredita? Só sorri e diz maravilhas do homem.

Pronto, está na cara! Cresceu mas não aprendeu nadinha. Vai lá, liga-lhe! disse Otília, atirando-lhe o telemóvel.

Quando hesitou, a Otília pegou no aparelho.

Olha, bem, eu telefono. E tratou de enredar a Leonor: A tua mãe está mal. Andaste a stressá-la. Vem já cá a casa!

Leonor só soube apanhar nas chaves, despachar-se.

Leonel, a minha mãe não está bem!

Vou contigo?

Não, eu resolvo. Cuida dos miúdos.

Leonor correu pela noite de Lisboa, o coração aos saltos. Nem ligou à Sofia, que estava grávida, já ela passara por dois internamentos.

A Margarida abriu a porta e desviou o olhar.

Mãe!

Estou bem.

Então porquê…

Entra! Otília apareceu de avental e a Leonor, logo desconfiada, pronta para a bronca. Sentaram-se.

Ou mudas de vida, ou tomamos conta dos teus filhos. Isto não é exemplo para ninguém!

Leonor sentiu o estalo e o abismo. Levantou-se, compôs a saia e disparou:

Tia Otília, não tem problemas suficientes em casa? Ou pensa que eu sou sua aluna, para me dar lições? Tenho idade suficiente para tratar da minha vida!

Então assume as consequências, vá.

É isso mesmo. Acabou. Não quero saber mais das vossas opiniões. Não me venham cá meter-se, que não admito. Já tenho dose de comparações com a Sofia, só porque ela é mais pacata, casou tarde e demorou a ter filhos. Olhem, cuidem da vossa vida e talvez tenham melhores resultados com os vossos.

Quem te deu o direito de falares assim?!

Dei-me a mim mesma, tia.

Maluca…

Perdi a paciência de ser o bode expiatório. Ou melhor, a cabra expiatória, que bem me define!

Que estás para aí a inventar, Leonor? Margarida olhou admirada.

Nada, mãe. Chega de me fazer de saco de pancada. A minha vida é minha e dos meus filhos. O vosso excesso de zelo nem sempre é sabedoria! Fiquem quietas.

A Otília, furiosa, já ia responder, mas a Margarida, branca como a cal, agarrou-se ao coração e caiu sentada.

Leonor, chama o INEM!

Leonor, nem discutiu mais, foi buscar o telemóvel.

Na manhã seguinte, a família reuniu-se no hospital. Otília abeirou-se da sobrinha, sem saber por onde começar o pedido de desculpa.

Está desculpada, tia. disse Leonor, séria. Agora o importante é a minha mãe.

Margarida recuperou. Fez as pazes com a irmã ainda no hospital e, a partir daí, fechou os ouvidos a comentários sobre as filhas.

Otília, claro, demorou a sossegar, mas tirou as devidas lições. E, no casamento de Leonor e Leonel, foi a primeira a gritar Amassos!, abraçando a sobrinha e murmurando ao ouvido, emocionada: Perdoa-me!

A vida pôs cada uma no seu devido lugar. Seria a Leonor quem acompanharia Otília nas operações, Leonel a levá-la de consulta em consulta, e, já de cama, Otília apertou a mão da sobrinha:

Ficaste com um homem a sério, Leonor! Agarra-o bem! riu-se.

Não te preocupes!

E Leonor segurou-lhe a mão até ao fim. E a última palavra de Otília foi:

Obrigada!

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