Apanhador de Sonhos

Caçador de Sonhos

Outra vez?! Sima, Sima! Acorda! Senão ela vai acordar os pequenos! Segura-a! Lina deslizou da cama e sacudiu o ombro da irmã. Quando é que ela se cala…

Sónia agitava-se no sono e o seu gemido, comprido, lastimoso, parecia encher o quarto, extraindo-lhes a alma, levando Lina a olhar para trás, de medo de encontrar alguém às suas costas.

Parece um filme de terror de domingo à tarde! Sima atirou o edredom para o lado e, ainda de olhos cerrados, cambaleou até à cama da Sónia.

Cobriu-a com a sua manta, deitou-se ao lado, puxou-a para si e começou, baixinho, a cantar:

Dorme, meu bem, dorme, não fiques à beira… Raios! Lina! Não adianta nanas agora! Ela está a arder! Vai chamar a mãe!

Lina andou de um lado para o outro ao lado da cama da Sónia, suspirou e, depois de hesitar, foi ao quarto dos pais. O que havia ela de fazer? Sónia era tão criança como os outros. E a mãe ia zangar-se com ela e Sima se soubesse que esconderam alguma coisa.

O quarto do casal estava mergulhado num silêncio pousado como broa fresca. Lina passou a mão por cima do bercinho do Sérgio, que ficava junto da cama dos pais, e tocou suavemente no ombro da Oxalina.

Mamã…

Uns olhos castanhos, iguais aos de Lina, abriram-se de repente como se Oxalina não dormisse , e a palma quente segurou os dedos da filha.

O que foi, querida?

A Sónia está mal! Mamã, acho que está com febre. Parece um ferro de engomar, está tão quente!

Sérgio gemeu baixinho e Oxalina, tal e qual Sima, sussurrou cantiga de embalar:

Dorme, dorme, meu menino…

Os seus dedos agarraram o pulso fininho de Lina, puxando de mansinho, colocando-lhe a mão sobre o irmão.

Embala o Sérginho, para não acordar, sim? Eu já volto…

Com leveza esquecida já a dor nas costas do tombo na escada, na arrumação do sótão Oxalina levantou-se e foi nas pontas dos pés até ao quarto das meninas, ouvindo o aconchego da casa adormecida.

Este era o seu orgulho, aquela casa em arredores de Lisboa. Quantas vezes os familiares tinham dito que não iam conseguir? Que tanto esforço não valia a pena mais valia estarem num apartamento nos Olivais!

Sacudiam os ombros, alguns até diziam na cara:

Para quê tanta trapalhada? E nunca tiveram filhos!

O coração de Oxalina encolhia-se, e a cabeça ficava baixa, como se alguém indiferente a empurrasse para o chão. Não consegues ser mãe? Não tens direito a sonhar com outro mundo!

Sempre que o António, vendo-a de olhos baixos, magoada pela conversa com a mãe ou as tias, a abraçava e colava-a ao pescoço forte, achava que o rosto dela encaixava-se mesmo no seu ombro. Como se fossem feitos um para o outro, sentiam até o pensamento alheio. Não havia nada que um sentisse que o outro não adivinhasse.

Deixa lá, amor! Não ligues ao que dizem. Eles não sabem de nada.

Mas que podem não saber, António? No fundo têm razão! Se nunca tivermos filhos…

Isso é conversa para adormecer! António rangia os dentes de raiva pelos outros e prometia a si mesmo fazer acontecer o milagre da mulher.

Parecia que, com dinheiro e perto da capital, tudo era possível. Mas primeiro uma clínica, depois outra, uma terceira… E de todo o lado ouviam:

Milagre não fazemos, senhora!

Oxalina fechava ainda mais o rosto, sem saber como dizer ao marido o que ela já considerava sentença antiga. Apenas quando ele falou em comprar terreno e erguer uma casa, ela abre o peito.

Não sou para ti, António… Amo-te e sabes bem, mas precisas de uma família verdadeira. Se não posso dar-te filhos, divorciamo-nos…

Só se for na tua imaginação! disparava António, batendo a chávena na mesa com tal força que quase deitava o chá fora Tu tens cada uma, Oxalina! A minha mãe vai dizer que me casei com maluquinha. Olha que se digo asneiras, é porque gosto! Quem te disse que te deixava ir embora, hem? Santa paciência… Só não te chamo nomes feios porque tu és perita em magoar!

Eu?! Oxalina, incrédula, levantava os olhos, esquecida das lágrimas.

Quem, então? Precisas tanto de mim quanto de filhos! Se vierem, bem, senão… É o fado, mulher. Nem todos podem ser pais…

Após aquele dia duvidoso, Oxalina nunca se tranquilizou. O António era novo ainda, mas algum dia ia pensar no que perdeu. Só que António insistia: esperara demasiado tempo para a sua alegria da vida.

O casamento com António era o segundo dela. O primeiro foi aos dezanove, e mais do que ser esposa, queria era escapar à vigilância e aos recados constantes da mãe.

Oxalina e a mãe sempre tiveram relação difícil. Lídia, senhora que de um dia para o outro trocava de humor ora um poço de mimo, ora um redemoinho de críticas. Uma vez, admirando o vestido de noiva que a filha tanto desejou, Lídia torceu o nariz:

Que trapo é esse, Oxalina?

A filha, desiludida um mês inteiro à procura do modelo ideal engoliu seco e finalmente disparou o que lhe guardava no peito.

Mãe, porquê? Sou tua filha única! Sempre vi-vos bem, a ti e ao pai. O que há em mim para tanto desprezo?

Deixa-te de coisas, Oxalina! Foste criada, estás vestida e alimentada. Sê mulher! Quando fores mãe, entendes…

Entender o quê, mãe?

Como é difícil amar um filho! E mostrar-lhe que o amamos…

Essa conversa abriu-lhe os olhos: após falar com tias, percebeu que sempre sonharam com um filho rapaz. Ela viera, e o sorriso dos pais ficou pela metade.

Santa terrinha atrasada, pensava ela, vagueando pelo Jardim da Estrela. Menina, rapaz, é tudo igual! Quando eu tiver filhos, hei de amá-los sem distinção, se Deus quiser…

O casamento decorreu com pompa, mas ela sentia-se uma marioneta numa peça onde todos brincam, menos ela. E ninguém queria escutar mais os seus protestos.

Durou pouco: ao perder o primeiro bebé, o marido apanhou as malas e partiu, nem esperando por ela sair da Maternidade.

O apartamento (prenda dos pais pré-núpcias) ficou vazio. Na viagem de regresso a casa, a mãe toda leve:

Arrendamos, filha! E vens viver connosco. Divertiste-te, agora toca a voltar à realidade! Vais acabar o curso que te arranjamos, depois tratamos de te encontrar alguém decente para casar que para essas coisas tu és cabeça no ar…

Oxalina não discutiu. À noite, no gabinete do pai, pediu:

Pai, se gostas um bocadinho de mim, deixa-me morar sozinha. Dói…

Dessa vez, o pai ouviu. Ignorando a mãe, decidiu dar-lhe uma mesada, proibiu Lídia de se meter nos seus assuntos.

Decidi.

Lídia nunca mais protestou, a não ser para lembrar o pai a guardar algum extra para a filha.

Oxalina licenciou-se, subiu na carreira, mas o coração vazava. Não faltava beleza, mas faltava-lhe faísca, qualquer calor sentia-se como brasa sem lume.

E não era sem razão. As sequelas do parto prematuro acabaram por ditar a sentença: provavelmente, nunca seria mãe.

Desfeita, sobrevivia funcionalmente, cumpria os papéis todos, mas havia um silêncio dentro dela que só a tia Olga reparou.

Então, Lídia, não vês a tua filha? Parece um fantasma. Faz qualquer coisa!

Inconsciente dos planos familiares, Oxalina notou apenas o aumento dos jantares, convívio na casa do campo, jovens convidados pelas tias.

Foi numa dessas tardes que conheceu António.

Não, não era um pretendente designado. Era só o taxista que trouxera uma das tias. Espantou-se ao ver aquela rapariga branca como neve, de casaco de pelo, a dar ordens:

Para Lisboa, já!

Talvez tenha sido cansaço, ou o azedume da tradição: sempre punham o primo ou a prima a declamar poemas em cima do banco, numa festa qualquer. E Oxalina só pensava em salvar as crianças dessa humilhação, ar que a família toda achava virtude.

António não fez perguntas. Levou-a ao destino. Quando ela deu pela falta da mala, enfiou as mãos nos bolsos.

Ups…

Problemas de dinheiro?

Não, deixei a carteira em casa da tia… Tenho a chave, claro, mas…

Não faz mal! Dá-me um sorriso e estamos quites.

Espere, vou lá buscar…

Mas António arrancou. Quando ela chegou para pagar, ele já não estava. E ficou, sob o arco da entrada, a pensar que acaso foi aquele.

No dia seguinte, António estava à porta, esperava-a para a levar ao escritório. Ela, já sem saltos, riu-se quando ele abriu a porta: Senta-te, é mais fácil assim falarmos.

Começaram assim.

Oxalina evitava, mas havia um calor estranho no olhar daquele homem simples. Não ia encontrar aprovação da família a mãe ameaçou: “Renego-te! Deixo-te sem nada!” mas pela primeira vez, Oxalina sabia o que queria.

Contou-lhe tudo antes de casarem.

E se nunca tivermos filhos, António?

A vida não se faz só de filhos. Amo-te, não me importa se somos só nós ou uma dúzia à volta.

Casaram pela conservatória em Sintra. Os pais dela não quiseram saber, apareceram só no final, secos, um aceno breve do pai antes de voltar ao castigo reservado aos rebeldes da casa noites no sofá do escritório.

Lá em casa dos pais de António, outra história. A futura sogra, Amélia, mulher de mãos largas e coração ainda maior:

Muito magra, essa Oxalina… António, tens de a pôr a comer! Se não sabe cozinhar, eu ensino! Vá, minha filha, vamos fazer compota e deixar os homens de fora…

E Oxalina, sentada numa cozinha estranha, percebeu que era ali que pertencia. Gostava daquela gente sem máscaras, da casa que cheirava a carinho, do segredo do doce de morango, partilhado como prova de família.

Quando souberam do problema da nora, a sogra nem pestanejou, sentou Oxalina ao colo e disse:

Oh, menina, agradeço-te pela sinceridade. Quanto aos filhos, isso são mistérios de Deus. Vai haver alegria ainda na tua casa, hás de ver.

Mas ainda nem casa temos…

Haveremos de ter! E marido escolheste bem. A mulher é a cabeça da casa, pelo menos cá, minha filha…

Foi ela, Amélia, quem sugeriu: “Não podem ter filhos? Adotem! Olha que também sou doçura emprestada nunca fui filha de sangue, mas mais pais meus não há!”

Crescia a casa. António, agora dono de uma transportadora, com o pai e amigos, construía as paredes ao fim de semana enquanto Oxalina corria tribunais, já advogada, mas já com outra coisa na cabeça.

Tinham acabado a formação para adoção quando a sogra ligou num rodopio.

Amélia, fala devagar! Oxalina, de mãos na massa, a sova-la para fazer pão ao domingo, como Amélia ensinara, pôs o telemóvel em viva voz.

Oxalina! Há crianças a precisar de casa! Os nossos vizinhos, os Simões, a mãe largou-os! Os serviços sociais vão levar os miúdos daqui, três! Eu conheço, são uns queridos! As meninas maiores são umas santas, ajudam o irmão pequenino! Eu sei que vocês só queriam um, mas pensem… Não deixem que vão para um lar, isso não é vida!

Mãe, calma! Espera por nós! António piscou a Oxalina, que já calçava os ténis na entrada.

Foi assim, entre a massa e o telefonema apressado, que Oxalina ganhou três filhos do dia para a noite.

Sima de sete, Lina de seis, e o pequeno Sandro com dois anos pouco estranharam muito. As meninas, já crescidas, foram diretas:

Não tenhas medo, Oxalina. Percebemos teu coração.

E Sandro, em pouco tempo, já só dizia “mamã” e seguia-a por todos os cantos.

As vozes de sempre protestaram:

Três filhos de outros, Oxalina? E se vêm com problemas? Como foi aprovada uma coisa dessas?

Mãe, sou advogada…

Pois eu, Oxalina! Toda a vida te guiei, mas agora nem me ouves! António, agora as crianças… Só escolhas!

Desta vez, Oxalina desligou o telemóvel. Talvez naquele momento tenha compreendido: cresceu, era dona do próprio lar.

Ano, outro, passaram…

Os filhos enchiam-lhe os dias, e dos processos só mantinha o essencial, trabalhando em casa. E quando menos esperava… Aconteceu.

Descobriu que estava grávida tarde. Pensava que era só stress, cansaço, mas António, apanhando-a junto ao espelho, decretou:

Vamos ao hospital!

Enquanto a sogra fritava crepes, deu-lhe um safanão amigável:

Escuta o teu homem! Vais ter de comer por dois!

No consultório, a médica explicou:

Não acredita? Olhe para o ecrã. Vê aqui? Bébé a caminho…

Só chorava, a olhar o ecrã, como se tivesse sonhado com aquilo uma vida inteira.

Sérgio nasceu no inverno, trazendo alegria e confusão à casa. Sima e Lina, com a sua filosofia simples, ajudaram e aceitaram. Já Sandro, meteu ciumeira, colava-se a Oxalina.

Sandrinho, meu menino, sabes que continuo a amar-te! Oxalina, com Sérgio agarrado numa almofada, permanecia com um braço para Sandro.

Com muito aconchego e palavras doces, ensinou-o: ninguém é esquecido numa casa grande.

Mas o destino, esse nunca se cansa.

Veio depois a Sónia. Filha da prima Fernanda, vivia no Norte, quase desconhecida. Só soube do drama através de um telefonema súbito da mãe.

Oxalina! A Fernanda… Como ele pôde! Fiz sempre questão de abrir-te os olhos, mas não quiseste escutar! Agora ela foi-se… Ficou a pequena órfã e quem a vai querer, filha dele?

Oxalina só queria saber: onde estava a menina?

Não sei! respondia a mãe.

Foi a tia Olga que tomou conta dos detalhes.

Em poucas horas, Oxalina sabia onde a pequena fora deixada. Sem pensar, vestiu um casaco e partiram para o aeroporto. Não foi fácil trazer Sónia. Tantas noites sem casa, tanto medo, que a menina fugia de tudo.

Muitas vezes, chamada pelas irmãs, Oxalina sentava-se na cama da Sónia, a embalava:

Sónia, estás em casa. Eu estou contigo. As manas estão aqui. Ninguém te faz mal.

Demorou que ela aceitasse. Durante semanas, a pergunta vinha:

A mamã vem? Quando vem?

Oxalina tentava rodear o assunto, mas um dia, os olhos da criança obrigaram-na:

Não volta, pois não?

E Oxalina respondeu-lhe, olhando diretamente:

Não, amor. Não volta…

A menina chorou no seu colo, finalmente deixando as irmãs abraçá-la.

As noites de Sónia continuaram cheias de gritos. A casa, mesmo cheia de companhia, acomodava fantasmas.

Sima e Lina tentaram de tudo: brinquedos, ganchos, blusas… Nada quebrava o feitiço.

Sandro resolveu. Recebeu da avó um livro dos índios e foi direito às irmãs.

Olhem! Isto é um caçador de sonhos. Apanhas os maus sonhos e põe-nos na teia. Sónia não chora mais.

As três meteram mãos à obra linhas, contas, penas (duas galinhas sacrificaram a sua melhor plumagem).

Naquela noite, Sónia acordou a gritar. Oxalina correu a ela:

Não me deixes! Não me deixes ao papá!

Foi ali que percebeu a menina vira tudo.

Lina, Sima, tragam o telemóvel! António entrou, sentiu-lhe a testa estava a arder. E a noite foi de luta, água e panos frios, febre a baixar ao nascer do dia.

Só de manhã, Oxalina despertou, Sónia repousando-lhe no peito. Lina, lendo ao lado, apontou para a parede:

Caçador de sonhos, mamã. Fizemos hoje à noite. Sandro quis. O livrinho diz que protege contra os pesadelos. Mas acho que não precisamos de caçador.

Não?

Tu és o nosso. Dormiu contigo no braço e não chorou mais.

E tu, Sima, Sandro, o pai, as avós… Oxalina olhava o relógio, espantada. Que horas são?

Já quase é almoço! O pai disse para não acordares. E as avós vieram. A avó Amélia trouxe um pintainho verdadeiro, mãe! O Sandro está ao lado da caixa dele… E nós, mamã, podíamos ter um gato? Ou um cão?

Sandro, fincando a cara na porta entreaberta, sussurra que “O almoço está pronto!”

E senta-se ao lado da mãe, esperando mimo.

A avó Amélia aparece, com o pequeno Sérgio ao colo, diz aos netos para irem comer.

Estás melhor, menina? pergunta, tocando em Sónia. O amor é que cura as crianças. Casa com barulho. Isso passa…

Vê o caçador de sonhos na parede e ri:

Qualquer proteção é boa, mas o melhor é o que está neste coração.

Os risos soam da cozinha, a avó Lídia surpreende Oxalina ao dar gargalhadas com a ex-nora, António buzina à porta, chega a tempo do almoço, e Oxalina, embalando a Sónia, sorri.

Agora está tudo certo. Todos em casa, todos debaixo do mesmo teto, todos da família… E quem sabe, talvez a vida ainda reserve mais sonhos. O tempo dirá.

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