Arriscar Tudo pelo Amanhã

Arrisquei pelo meu futuro

Mas para quê queres ir para Lisboa?! explodi eu, virando-me abruptamente para Madalena. E o que é que tem de mal viver aqui em Aveiro? Não te chega o nosso instituto? Porque tomas decisões destas sem sequer me consultares?

Senti-me magoado, atónito até não conseguia acreditar que a Madalena não queria sequer discutir comigo uma decisão tão importante para a nossa vida. Parecia-me um abandono, como se ela tivesse dado uma volta às minhas costas.

Madalena, por sua vez, tentava manter a compostura. Apertou os lábios e esforçou-se por falar calma, mas ouvi um tremor na sua voz. Estava claro que ela antecipava que esta conversa seria difícil, e o momento estava a tornar-se num desacordo quase inevitável.

Antes de mais, é a minha vida, o meu futuro respondeu ela. E depois, mas não conversámos já sobre isto, ainda no ano passado, antes da minha formatura? Foste tu que me convenceste a ficar, ainda que sempre tenha sonhado ir para Lisboa desde miúda.

Havia dor no seu olhar, mágoa contida a custo. As lágrimas teimavam em saltar-lhe aos olhos.

Aproximei-me da janela e apoiei-me com força no parapeito, sentindo os nós dos dedos brancos de tanta tensão. Lutava para conter a avalanche de emoções que ameaçava tomar conta de mim.

Pois fui admiti, mais calmo mas ainda assim inquieto. Mas não entendo porque queres ir embora, gastar rios de euros numa renda caríssima, quando podes ficar comigo não te falta nada. Tenho uma casa, nunca te faltará nada.

As minhas ideias misturavam-se. Eu fazia planos para nós dois: casa acolhedora, estabilidade, família. Agora, parecia tudo desmoronar-se como um castelo de areia. Se a Madalena fosse para Lisboa, como poderíamos continuar juntos? Esperaria eu cinco anos até ela terminar? E se ela nunca mais quisesse voltar?

Tenho um bom emprego, consigo dar-te tudo o que precisas. Nem tinhas de trabalhar! Então porque ir para longe e complicar o que já está tão bem?

No fundo, eu só queria que a Madalena compreendesse que as minhas preocupações existiam por amor.

Ela pulou do sofá, o rosto tingido de vermelho e os olhos faiscando de indignação. Claramente não estava à espera daquele argumento.

Porque achas que quero viver às tuas custas?! respondeu ela, ofendida. Não me vejo como dona de casa! Quero ganhar o meu próprio dinheiro e construir a minha independência.

A Madalena sempre acreditou que qualquer mulher devia ser financeiramente autónoma. Na vida tudo pode acontecer um casal pode separar-se, a saúde pode falhar, ou, Deus nos livre, uma tragédia. O que faria então uma mulher sem rendimentos próprios?

Ela não dizia isto abertamente, para não me provocar mais, mas sabia bem do que falava. Vivera dificuldades desde muito jovem. Quando os pais se divorciaram, o pai recusou-se a pagar pensão de alimentos e a mãe teve de criar os filhos sozinha. Viveram tempos apertados Madalena herdava roupas das primas, sonhava apenas com ténis novos. A injustiça e a dor dessa época ainda a assombravam.

As coisas melhoraram um pouco quando a mãe voltou a casar, mas o padrasto nunca a aceitou bem. A comer o pão dos outros, dizia a cada oportunidade. Acabou por ir viver com a avó, enquanto o irmão mais novo ficou com a mãe e o padrasto. A avó ajudava como podia, mas sobreviviam com uma pensão mínima.

Essas memórias ficaram cravadas nela. Sabia que, por muito amor e promessas que existissem, tudo podia mudar de um dia para o outro. Para Madalena, lutar pelo sonho de ir para Lisboa, tirar um diploma prestigiado e abrir horizontes, era garantir um futuro para os dois até, se ele estivesse disposto a tentar perceber.

Porque não vens tu comigo para Lisboa? sugeriu ela, com doçura. Tocou-me na mão, o olhar quase suplicante. O teu escritório central é lá, sempre te disseram que uma transferência seria fácil. O teu chefe adora-te!

No fundo, Madalena ainda queria uma solução conjunta: seguir a sua carreira sem abrir mão do amor. Eu, porém, senti-me atacado. Novo começo? Sair de um posto seguro onde já era respeitado para começar do zero onde ninguém me conhece? Ali seria só mais um entre muitos.

Para quê? Aqui tenho oportunidades, sou respeitado, posso até ser promovido. E isso em Lisboa, achas que ia acontecer? Lá seria só mais um.

Falei duro, tentando fazê-la perceber. Para mim, estabilidade, reconhecimento e futuro eram aqui. Em Lisboa incerteza, competição, recomeço.

Mas é lá que há oportunidades para mim! replicou ela, sentindo as lágrimas ameaçar romper. Não te peço que largues tudo logo, só quero que penses. Pergunta ao teu chefe, vê as condições. Eu também quero um futuro vejo-o apenas de outra forma.

Fiquei a observá-la. As mãos tremiam, o olhar fugidio, mas a determinação estampada no rosto. Porquê tudo isto? Só para um diploma? Ou estaria já algo ou alguém à espera dela por lá? Afastei esses pensamentos eram ridículos mas a insegurança corroía, travando a minha respiração.

Achas assim tão fácil? perguntei, tentando ocultar o tom amargo. Experimentar, arriscar tudo? E se falhar? Podemos ficar sem nada, sem trabalho, estabilidade, sem o futuro que planeei.

Madalena respirou fundo.

Não te peço que abandones tudo. Só queria que pensasses, que estivesses aberto a ponderar possibilidades. Também penso em nós apenas sonho diferente.

Afastei-me, de mãos nos bolsos, olhando pela janela para a vida comum dos vizinhos crianças a brincar, idosos a conversar ao sol. Tudo parecia distante. No ano passado ela já quisera ir, e eu consegui dissuadi-la. Desta vez, percebia que seria mais difícil. Estava decidida.

Vários planos cruzaram-me a cabeça. Convencer a mãe dela? Falar com amigas dela? Ou será que era só uma manobra para que pedisse a sua mão em casamento? Não o sabia. Apenas sentia a pressão de decidir o futuro, aqui e agora.

E então, sem conseguir esconder um tom glacial na voz, disse:

Se não desistes dessa ideia de Lisboa se fores mesmo, acabamos. Assim que saíres da cidade, acabou. Não espero que voltes, nem fico aqui à tua espera. Pensa bem no que é mais importante um diploma ou o nosso casamento, a nossa família.

A minha voz soou mais fria do que queria. Madalena ficou petrificada, enquanto eu saía, batendo a porta com força. O quadro tombou na parede e o vidro estilhaçou-se no tapete, mas nenhum de nós ligou a isso.

Ela ficou ali, imóvel, a questionar se eu perdera a cabeça. A sério, o que aconteceu? repetia em silêncio, sem acreditar no que ouvira. Ciúmes, desconfiança seria aquele tom um pedido de casamento? Não não era assim que ela sonhara aquele momento. Ela queria doçura, não ultimatos gritados durante uma discussão.

A raiva e a dor cresceram dentro dela. Como podia amar e querer construir uma família com alguém que não queria sequer tentar perceber ou apoiar os sonhos dela? Por muito que se magoasse, Madalena sabia o que precisava de fazer. Não podíamos mais fugir à verdade.

Ela aproximou-se da janela e ficou ali, olhos postos no Tejo imaginário Lisboa, a cidade das oportunidades, estava lá, ao longe. Aveiro com o seu amor, mas sem espaço para o sonho, ficava para trás.

Respirou fundo, endireitou-se, e disse, baixo mas firme:

Eu vou para Lisboa.

*****

No dia da partida, Madalena dobrava as roupas em silêncio. Eu, encostado ao batente da porta, via-a aproximar-se do futuro sentia-me cada vez mais pequeno, impotente. Achava que seria ela que cederia.

Ela limpava as lágrimas ao casaco, organizava livros, cadernos e roupas. Não houve muitos mais argumentos nem despedidas sabíamos que cada palavra era inútil.

Vozes dentro dela traziam dúvidas: E se não conseguir lidar com a pressão em Lisboa? Se não arranjar amigos, se falhar a adaptação? E se, ao regressar, tu, Tó, já tiveres seguido em frente?

Fechou o fecho da mala, endireitou o casaco, e dirigiu-se a mim:

Tenho de fazer isto. É a minha escolha.

Pegou na mala e desapareceu pela porta.

À medida que se afastava, um peso saía-lhe do peito. Pela primeira vez em anos sentia que era dona do próprio destino. Avançava sozinha, sim, mas confiante.

*****

Dez anos depois, Madalena regressou a Aveiro para o aniversário da mãe. Quando saiu do táxi à porta do antigo prédio, sentiu a nostalgia apertar-lhe o peito. Tudo parecia mais pequeno, até as árvores e as ruas.

Mas Madalena era outra mulher. O fato elegante assentava-lhe na perfeição, o colar de pérolas e a pose mostravam uma confiança impossível de imaginar dez anos antes. Os homens olhavam, mas ela já nem lhes notava os olhares. Agora, o sorriso era tranquilo: tinha ao lado o homem com quem queria viver muitos anos, uma filha cheia de vida, e uma carreira brilhante.

Ir para Lisboa foi a melhor decisão da sua vida. O curso terminou com distinção, e quase de imediato recebeu uma proposta de uma grande empresa internacional. Trabalhou, arriscou, e hoje tinha um apartamento amplo com vista para o Campo Grande, carro novo à porta, conta recheada, e, acima de tudo, independência. O marido, Miguel, era também trabalhador da empresa. Conheceram-se num dos primeiros projetos da Madalena, ele foi seu mentor e, aos poucos, a relação cresceu de profissional a pessoal.

Ao lado dela estava a filha, Solange, cinco aninhos de energia pronta a arrebatar a sala. Nas mãos levava uma caixinha pintada à mão, escolhida na feira com a mãe, que não via a hora de oferecer à avó.

Mamã, posso ir já dar?

Espera só um bocadinho, querida. Vens comigo já a seguir.

Em Solange, Madalena via-se a si própria: sonhos, persistência, brilho nos olhos. Fechou os olhos por um segundo valeu a pena lutar.

*****

Tó? O que fazes aqui? surpreendeu-se Madalena, ao ver-me entre os convidados. No peito, uma agitação nostálgica, rapidamente controlada. Não sabia que eras amigo da minha mãe.

Fui eu que o convidei, filha respondeu a senhora, sorrindo , temos nos dado bem nos últimos anos. O António casou com a Anabela, filha da minha colega do trabalho. Não sabias?

Porquê havia de seguir a vida do meu ex-namorado? respondeu Madalena, imperturbável. Mas era óbvio que sentia alguma coisa talvez não fosse mágoa, talvez só a memória do que poderia ter sido.

Eu, afastado, ouvia, de mãos nos bolsos, a minha história escrita atrás do olhar. O tempo não me perdoara. A empresa fechou há cinco anos, empregos precários, os sonhos ficaram pelo caminho. Olhava de soslaio para ela: elegante, confiante, com carreira, família e felicidade evidentes.

No fundo, sempre espreitara queria saber se fracassaria, se teria de voltar. Esperei que regressasse humilde. Mas ela venceu.

E eu? Fiquei onde estava, perdi a oportunidade de crescer com ela, de arriscar juntos.

Vi o marido a aproximar-se, a rodear-lhe os ombros, a sussurrar-lhe algo que a fez rir francamente. O olhar cúmplice entre os dois dava para entender: ele era parte do sonho concretizado, que poderia ter sido partilhado comigo se tivesse acreditado, se tivesse apostado nela, como ela apostou em si.

Tentei aproximar-me, dizer nem que fosse um “parabéns”, mas pareci-me irrelevante ali. Senti-me de repente deslocado, um estranho numa vida que já não era minha.

Na mesa, um porta-retratos exibia uma fotografia nossa, jovens e esperançosos. Toquei no vidro, quase a pedir desculpa a um eu distante, à miúda que só queria crescer.

Olhei uma última vez para Madalena e Solange. A filha correu para ela, de presente na mão, contando à avó como tinham escolhido a caixinha. O riso limpou-me qualquer esperança de um regresso possível.

Saí devagar, sentindo o coração pesado. Pela janela do carro, via as ruas da minha cidade menor, a vida que podia ter sido. Percebi que se pode perder tudo se se teme mudar, se não se apoia quem amamos. A lição custou-me uma vida: nunca traves sonhos alheios por medo dos teus. O futuro não perdoa hesitações.

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