Entre a Verdade e o Sonho
Catarina aconchegou-se melhor na sua manta quentinha, deliciando-se com o raro silêncio do apartamento em Lisboa. Lá fora, uma chuva miudinha escorria pelo vidro, desenhando caminhos tortos e lânguidos, como se a própria cidade andasse de pijama. Tinha acabado de regressar da prova do vestido de noivaaquela aventura épica que só uma portuguesa com nervos de aço consegue aguentar. Ainda segurava o saco onde tinha guardado os acessórios: brincos delicados, uma tiara fininha, e mais uns quantos pormenores que, segundo a modista, faziam toda a diferença. Na cabeça de Catarina, rodopiava já o grande dia: imaginava-se a entrar na Igreja de São Domingos, toda vaidosa, com os olhares das tias a ficarem emaranhados nas rendas do vestido.
O silêncio foi interrompido por uma campainha decididamente impaciente. Catarina sobressaltou-se, apertando a manta como se esta fosse escudo. Olhou para o relógio da cozinha: faltavam dez minutos para as sete. Mas quem é que se lembrava de aparecer a estas horas? Teria sido o estafeta do Continente? Ou a vizinha do 3.º direito, a Ana Paula, que se costuma esquecer sempre das chaves?
Aproximou-se da porta, espreitou pelo óculo mágico. Alguém estava ali, alto, mas o rosto era um enigma nas sombras do corredor. Vai-se lá saber se era para abrir logo
Quem é? perguntou, ensaiando um tom de voz civilizado, como quem não tem medo de nada (nem do preço das rendas).
Sou eu, Rui, respondeu uma voz abafada do outro lado. Preciso mesmo de falar contigo. Agora.
Catarina hesitou. Não era a companhia com que sonhava para aquele fim de tarde Mas e se tinha acontecido alguma tragédia à Francisca? Acabou por rodar a chave e entreabrir a porta. Lá estava ele: o cabelo pingado, o casaco ensopado, com um ar de quem confundiu a Avenida da Liberdade com as cataratas do Douro. Os olhos de Rui tinham qualquer coisa de inquietante. Tinha entrado em modo novela da RTP.
Entra, disse Catarina, tentando não dramatizar, mas preparadíssima para afastar o rapaz com o cabide do IKEA, se fosse caso disso. Estás encharcado, homem.
Rui atravessou o hall sem sequer tirar os sapatos molhados, deixando um rasto de água no parquet. Estava noutro mundo. Catarina observava-o, com aquela apreensão típica de quem percebe que está, de repente, no papel de protagonista de telenovela, mas sem copo de vinho à mão.
Catarina Não aguento mais. Amo-te!
A nossa heroína ficou estática. Aquilo só podia vir de alguém que tentou fazer um fado, mas saiu-lhe uma marrada.
Rui, tu tentou responder, mas a voz ficou-lhe presa nas amígdalas.
Sem lhe dar tempo, Rui avançou, como quem teme que o comboio da vida esteja prestes a partir sem ele.
Eu sei, sei que vais casar. Que isto parece loucura! Mas não consigo continuar calado. Passaram meses, tentei esquecer-te, tentei viver como gente normal, mas está difícil. Devia ter dito isto há séculos. Com a Francisca Olha, comecei só por tua causa! Queria estar mais perto, ver-te mais vezes. Nunca a amei, nunca!
Catarina gelou por dentro. Como assim: começou a namorar a amiga dela por interesse? E a Francisca, pobre rapariga, a alimentar esperanças
Aproximou-se da poltrona, pousou mecanicamente a manta no encosto, à espera que aquela sensação de irrealidade passasse. O ambiente ficou denso, quase a cheirar a drama.
Rui Tu ouves-te ao menos? conseguiu por fim articular. Eu tenho um noivo, amo-o. O casamento é mesmo a sério. E a Francisca
Ele acenou, mas sem nunca desviar os olhos dela. Ainda não tinha largado o papel de mártir apaixonado.
Eu sei Mas agora ou nunca! Daqui a umas semanas vais ser inalcançável. Se ficasse calado, ia arrepender-me para sempre. A Francisca, coitada, é irrelevante. Não significa nada para mimnunca significou!
Catarina sentiu-se esmagada com uma pena amarga. Mais valia não ter aberto a porta. Estava ali uma cena digna de um filme do Manoel de Oliveira, mas sem banda sonora.
A recordação de Rui e Francisca de mãos dadas, a rir nas festas, parecia agora uma má piada. Foi tudo um teatro? O mundo desmoronava-se como um soufflé mal feito.
Levanta-te, sussurrou ela. O rapaz ajoelhara-se, com uma caixinha onde brilhava um anel que, pelo menos, não era daqueles das bolinhas do Pingo Doce.
Deixa o teu noivo. Escolhe-me! Faço-te feliz, prometo!
Catarina olhava para ele carregada de memórias, sem saber onde estavam encaixadas as peçascomo um puzzle comprado numa loja dos chineses. Só tinha a certeza de uma coisa: não.
Eu acredito que digas a verdade, Rui. Só que isso não muda nada.
Deu um passo atrás, criando finalmente espaço para respirar. A resposta vinha-lhe aos soluços, mas não podia deixar nada por dizer.
Rui, és meu amigo, e nada mais. O meu coração já tem dono. Vou casar porque acredito nisto. Não procures mais onde não está.
Ele murchou, olhando para o chão, ainda com o anel na mão.
E se eu me tivesse declarado antes? Antes de ele aparecer?
Ela pensou dois segundos, depois respondeu suavemente:
Era igual, Rui. Nunca te vi como marido. És boa pessoa, não digo o contrário, mas não és o meu tipo.
Rui aproximou-se, teimoso, com aquele ar de quem faz ponto cruz no meio de uma tourada.
Mas porquê? Eu sei que há algo aqui, Catarina. Já vi como olhas para mim
Ela afastou-se discretamente na direcção da entrada. Honestamente, já temia que o rapaz perdesse as estribeiras. Em caso de necessidade, dar-lhe-ia um encosto e fugia escada abaixo.
Não há nada entre nós, Rui. O que sentes não é amor. É obsessão. Idealizaste-me na tua cabeça e achas que o resto do mundo só lá está para servir essa história. Vamos acabar aqui.
Ele cerrou os punhos, num misto de frustração e impotência. Procurava palavras, mas só saía teimosia.
Estás enganada. Nunca senti nada igual por ninguém! Isto é mais forte do que eu!
Catarina mordeu o lábio, a conter as emoções. Silêncios gritantes invadiam o hall. Não podia calar-se, sobretudo depois do que ele fizera à Francisca.
E a Francisca? Tens noção do que estás a fazer? Destroçaste os sentimentos dela só para fazeres figura triste à minha porta? Achas isto justo?
Sei que não estive bem, murmurou ele. Mas, sendo honesto, faria tudo outra vez
Rui, não se constrói felicidade sobre mágoa dos outros. E não se ama quem só existe na tua imaginação! Mal falámos a sério estas semanas! O que tu sentes é por um sonho, não por mim.
Pausou, esperando que ele assim assimilasse a chapada de realidade.
Tens de contar tudo à Francisca e pedir-lhe desculpa.
Rui ficou petrificado, a tremer ligeiramente. Fez uma careta.
Para quê? Ela sempre me aborreceu. Tu é que és a minha prioridade.
Catarina sentiu-se tentada a ter pena, mas reprimiu logo essa vontade. Se fraquejasse, ainda ele pensava que estava a mudar de ideias.
Tu não tens hipótese comigo. Nem com ela. E não penses que vou guardar segredo.
Rui fitou-a, geladoquase como um bacalhau guardado na Arca do supermercado.
Vou-me embora. Mas não desisto. Um dia vais ver que fomos feitos um para o outro.
Não faças isso, Rui. Vai viver a tua vida. Procura alguém real, não uma miragem. Agora, por favor, podes sair?
Ele encaminhou-se lentamente para a porta, arrastando o peso de todas as telenovelas fracassadas. Antes de sair, virou-se uma última vez.
Obrigado pela tua sinceridade, disse apenas, sem floreados. Mas não é um adeus definitivo.
E saiu, fechando a porta suavemente. Só então Catarina sentiu os ombros relaxarem. Foi até à janela: Lisboa resplandecia com a luz quente dos candeeiros, espelhando gotas nos carros estacionados à pressa. Viu Rui a afastar-se, encolhido, derrotado. Sentia-se incomodada, sem saber se aquilo tinha terminado ou estava só no intervalo. Pegou no telefone e ligou à Francisca.
Francisca, precisamos de falar. É urgente.
Do outro lado, Francisca respondeu com um suspiro aflito:
Que se passa, Catarina? Pareces preocupada. Está tudo bem?
Catarina soltou o ar devagar, a ajustar as palavras para não ferir mais do que já bastava.
O Rui esteve aqui em casa. Disse-me que começou contigo só para se aproximar de mim. Ele nunca te amou. Usou-te. E ainda me pediu para largar tudo por ele.
Silêncio. Depois, um suspiro triste:
E agora? O que fazemos?
Não sei. Acho que vai aparecer aí daqui a pouco. Estás sozinha em casa? Estou séria, o comportamento dele assustou-me mesmo.
Não te preocupes, respondeu Francisca, tentando soar firme. Obrigada pela honestidade.
Desculpa ter de ser eu a dar-te esta notícia, disse Catarina baixinho.
Antes saber do que andar a viver em mentira respondeu Francisca, com uma força improvável. Fica descansada.
Despediu-se, pousou o telefone. Era como se o mundo tivesse abrandado, e as gotas da chuva pintassem o horizonte de novas possibilidades. Catarina encostou a testa ao vidro, tentando adivinhar o que sentia a amiga. Talvez dor, talvez alívio. Melhor a verdade do que o engano, pensou.
**********
Nessa noite, Francisca permanecia sentada à mesa da cozinha, a relembrar todos os pormenores do namoro com Rui, agora tingidos de cinzento. Tinham-lhe vendido o fado, afinal era só desafinação.
Quando a campainha tocou, a chávena de chá quase tombou-lhe das mãos. Foi até à porta, espreitou. Rui.
Abriu, e ele entrou sem cerimónias, nevando tristeza e remorsos.
Francisca, preciso de confessar tudo. Eu começou ele, mas ela interrompeu:
Já sei. Não vale a pena repetir. Catarina contou-me. Diz lá o que quiseres, mas não tens nada a acrescentar.
Ele ficou em silêncio, derrotado. Tentou, no entanto, aproximar-se.
Vim pedir-te desculpa. Fui desonesto, usei-te. Nem sei porquê. Só queria não sei chegar à Catarina.
Francisca ouviu, mas a pena foi engolida pelo nojo da traição. Tanta coisa, e nem sequer lhe sabia explicar. Ele tirou do bolso a caixinha do anel:
Toma, fica com isto. Nem sei porquê o comprei.
Ela olhou, friamente:
Guarda para ti. Não quero nada teu.
Ele engoliu em seco, devolveu o anel ao bolso.
Eu sei que mereço o teu desprezo, murmurou. Sendo sincero, também deixei de saber quem sou.
Ela abanou a cabeça:
Rui, não se recomeça do zero com alicerces podres. Não acredito mais em ti, nem me peças para acreditar.
Só queria uma oportunidade
Oportunidades dão-se a quem as merece. Agora quero distância. Que sejas feliz, se conseguires.
Ele acenou e já ia sair quando a campainha tocou de novo. Francisca olhou pelo óculo: era Duarte, o noivo de Catarina. Impecável, frio nas atitudes, igualzinho a empresário que já perdeu a conta dos casamentos à portuguesa. Ela abriu a porta.
Posso entrar? perguntou, seco.
Francisca acenou com a cabeça. Rui ficou especado, como um cão reguila apanhado a morder os sapatos.
Estou a par da tua palhaçada, Rui, disse Duarte, incisivo. E já percebi a dor que causaste a ambas.
Rui começou a balbuciar defesas, mas Duarte mandou-o calar num tom de comando.
Chega de discursos. A Catarina explicou-me tudo. E há coisas que só se resolvem pelo método tradicional.
Duarte não hesitou. Um golpe limpo, seguro, e Rui caiu para o lado, a mão na boca ensanguentada.
Outra destas e não te safas só com um estalo, está bem claro?
Rui levantou-se, mais ofendido no ego português do que no corpo. Francisca manteve-se firme. Não estava ali para salvar ninguém.
Duarte, não é necessário tentou ela, numa voz que sabia não convencer ninguém.
Ele fez um gesto de desdém.
Está feito, Francisca. Não vais querer vê-lo outra vez, pois não?
Rui saiu, arrastando atrás de si o resto do pouco orgulho que lhe sobrou, sem dizer palavra.
Duarte virou-se para Francisca, a postura de chefe de família desvanecidatalvez só por uns segundos.
Perdoa-me se exagerei. Mas aquilo que vocês passaram não se resolve com miminhos. Espero que consigas ultrapassar isto depressa.
Francisca sorriu, cansada.
Merecia, sim senhor. Obrigada por teres vindo. E obrigada, acima de tudo, pela Catarina.
Ele esboçou um sorriso e, antes de se ir embora, deixou um conselho:
Vai passar. Vais ser mais forte. Tu és portuguesa, caramba!
Francisca fechou a porta, desabou no sofá. Tudo terminado. Sim, doía, mas havia um estranho alívio. Talvez fosse mesmo este o começo de outra vidasem novelas, sem fantasias.
**********
Enquanto isso, Rui arrastava-se pela Avenida Almirante Reis debaixo da chuva. A dor da boca era nada ao pé da tempestade interna. No escritório, no dia seguinte, os colegas olhavam-no de esguelha, mas ninguém ousava perguntar. Uns diziam Ai Jesus, perdeu no Benfica, outros sussurravam que tinha sido traído por uma mulher de armas.
Rui pediu transferência para o Porto. Um novo começo, pensava eleembora já sentisse a alma manchada de tristeza pegajosa.
Antes de partir devolveu o anel à ourivesaria, recebeu de volta 300 euros, que transferiu para Francisca com uma simples mensagem: “Desculpa. Era teu.”
No dia da viagem, esperava o Uber à porta do prédio. Olhou uma última vez para Lisboa. “Estraguei tudo”, murmurou, não em jeito de teatro, mas como constatação pura e crua da vida.
Saiu dali, resignado.
Enquanto isso, Francisca juntava-se a Catarina e Duarte num café na Baixa. Três chocolates quentes, algumas bolachas de canela e muita conversa. Entre brincadeiras, planos de casamento e desabafos, as mágoas pareciam finalmente dissolver-se.
Sabes, disse Francisca, olhando para a rua, já nem estou zangada. Só tenho pena que tenha sido assim.
Catarina apertou-lhe o ombro.
Não tens de sentir pena, só tens de ser feliz. Chega de dramas!
É isso mesmo, confirmou Francisca, erguendo a chávena com decisão. Vou ser feliz. Agora, só o verdadeiro.
Lá fora chovia, mas ali dentro sentia-se um aconchego que só as melhores amigas e o cheiro a pastel de nata conseguem dar. O passado ficara nos guarda-chuvas. O futuro era, como sempre, um desafio tipicamente português: cheio de saudades, mas aberto à esperança.







