A minha sogra recusa-se a ir embora

O nó na garganta surgiu antes mesmo de Teresa conseguir pousar a chávena sobre a mesa.

Voltaste a pôr demasiado sal disse D. Graça, olhos na sopa, como quem anuncia que vai chover.

Teresa estava de pé junto ao fogão, observando as costas da sogra. O cabelo cinzento apanhado em coque, seguro por um gancho preto. Os ombros direitos sob a camisola de lã creme já um pouco gasta.

Para mim está bom, respondeu Teresa, sem alterar a voz.

Para ti está, repetiu D. Graça, saboreando a palavra como se confirmasse o dito. Joãozinho, prova lá isto.

João estava sentado à frente da mãe. Já levava a colher à boca. Percebeu os olhares postos em si e encolheu os ombros com um gesto quase impercetível.

Está bom, mãe.

Está bom… e D. Graça repetiu aquela palavra, como se duvidasse dela. Bom para quem? Para cantinas, talvez…

Teresa pegou no pano da loiça. Enxugou as mãos devagar, dedo a dedo, como aprendera nas últimas três semanas. Quando era preciso fazer alguma coisa com as mãos para não tremerem.

Três semanas. Era para ser só cinco dias. Depois ficaram sete. Depois D. Graça queixou-se que não se sentia bem e João olhou para Teresa com um misto de alívio e preocupação, como os filhos olham para os pais quando não sabem se vai haver castigo ou não.

Agora era já a terceira semana.

Vou dar uma volta, disse Teresa, pousando o pano no cabide.

Ninguém lhe disse nada.

Foi para o quarto. Fechou a porta devagar, sem estardalhaço. Sentou-se na beira da cama. Olhou em volta: duas almofadas, mesinhas, candeeiros iguais. Tudo em ordem. Tudo certo. Só que essa ordem, antes quentinha, já lhe parecia decoração.

Pela janela via-se Lisboa em março, cinzenta, restos de chuva e gente apressada nas ruas. Teresa gostava desse tempo trémulo, indeciso entre inverno e primavera. Gostava, antes. Agora pensava só nos relatórios para terminar e que a sogra, amanhã, ainda lhe ia pedir mais uma coisa do Lar Doce Lar porque nesse supermercado, dizia ela, é que havia guardanapos decentes.

Da cozinha ouvia-se D. Graça falando com João. Ele respondia, depois soltava uma gargalhada.

Teresa esfregou as têmporas.

Quando João e ela se conheceram, D. Graça parecia-lhe uma mulher normal. Um pouco rígida, um pouco antiquada como quase todas. No casamento ofereceu-lhes um serviço de louça e um conselho com sorrisos. Teresa era boa a sorrir. Sempre foi. Sabia ver o melhor nos outros. Sabia esperar. Sabia calar quando alguém levantava a voz. A mãe dizia que era paciência, ela achava que era só crescer.

Aos trinta e dois, Teresa começava a desconfiar que paciência e maturidade eram coisas diferentes.

Ouvia João rir. Agora mais alto.

Ergueu-se e foi ao espelho. Viu o cabelo escuro pelos ombros, os olhos claros, cansados. Não era das noites mal passadas. Era um outro cansaço, mais fundo, que o sono não tira.

Pegou no telemóvel da mesa de cabeceira. Escreveu à amiga Mafalda: Amanhã?

Mafalda respondeu passados três minutos: Claro! A que horas?

À hora de almoço. Passo pelo teu escritório.

Mafalda respondeu com um emoji. Teresa pousou o telemóvel e voltou para a cozinha. Era preciso levantar a mesa. Mais uma das suas tarefas só agora, desde o chegar de D. Graça, percebia como essas ações eram vistas como obrigações.

A sogra já estava sentada no cadeirão da sala. Dantes era o lugar favorito de Teresa, junto à janela. Lia ali à noite. Agora lia no quarto, porque o cadeirão estava sempre ocupado.

Teresa, chamou D. Graça quando ela passou, não compraste o chá de que te falei?

Pedi pela internet. Chega na quarta.

Internet… meneou D. Graça, como quem ouve uma piada sem graça. Mais fácil era ir ao supermercado. Sentir o aroma, ver como é.

Esse chá não há nos super perto.

Então procuravas melhor.

João mexia no telemóvel. Sobrava um silêncio morno, mas sempre à beira de ferver.

Pronto, D. Graça. Para a próxima procuro melhor.

Ficou a arrumar a loiça. Lembrava-se, enquanto lavava, de tempos outros no casamento. João chegava com pastel de nata comprado numa pastelaria da Almirante Reis. Ligava-lhe só para dizer que tinha saudades. Uma noite impulsiva, foram aos arredores só para ver as estrelas, que na cidade nunca se avistam.

Agora passava o dia na sala com a mãe, enquanto esta explicava à nora como se escolhe chá.

A água jorrava quente. Teresa regulou. Continuou.

A psicologia da família, pensava às vezes. Não serve só para amar serve para se aguentar quando está apertado. João não era má pessoa, sabia ela. Era terno, atento, divertido. Mas com a mãe por perto mudava. Tornava-se aquele menino das fotografias antigas, de fato-macaco azul, com ar perdido. À espera.

Pousou o prato na cesta de secar.

Lá fora, anoitecia cedo. Março era assim escuro e indeciso. Teresa pensava que devia comprar lâmpadas mais quentes. Desde que compraram a casa há três anos, foi ela quem quis logo mudar as cortinas, as almofadas. Verr as prateleiras ao seu gosto. Achou finalmente, depois de meses de busca, uns pratos de barro com borda azul, iguais aos da avó.

Era a sua casa. O seu território.

Da sala ouviu:

Joãozinho, ajeita-me o xaile. Há corrente de ar.

Teresa enxugou as mãos. Sentiu apertar o peito. Não doía, mas sentia-se como se lhe torcessem devagar.

No dia seguinte encontrou-se com Mafalda.

Mafalda trabalhava numa pequena empresa de contabilidade. Tinham o hábito de almoçar juntas de quinze em quinze dias, desde que Teresa também começou naquele mundo dos números. Diziam que se não tivessem aqueles almoços, acabavam com a cabeça atolada de contas.

Foram à cafetaria de sempre, aquela na Avenida, sem música alta, só vozes e o cheiro a pão quente.

Então, conta, pediu Mafalda, aconchegando a chávena entre as mãos.

Ela está cá há três semanas…

Mafalda não se surpreendeu. Sabia de D. Graça o suficiente.

E o João?

Como de costume. Ou não vê, ou finge que não vê. Já nem sei o que é pior.

Falaste com ele?

Já tentei. Ele diz que não é nada, que a mãe precisa de companhia. Que é só ter mais um bocadinho de paciência.

Mas ela diz que está doente?

Queixa-se. Mas se for preciso ir ao centro, ou às compras, passa-lhe logo. Na outra quarta foi ao Mercado de Campo de Ourique andou três horas a ver lençóis. Quando voltou disse que precisava de deitar-se…

Mafalda ergueu as sobrancelhas.

Três horas nos lençóis?

E comprou duas fronhas, que meteu na minha pilha da roupa sem pedir. Abro o armário e nem sei o que é.

Diz-lhe.

Como? Assim, como tu? Digo Ó D. Graça, por favor, não mexa nas minhas coisas?

Sim, é isso mesmo.

Mafalda, se faço assim, arranjo uma guerra. Ela vai dizer que queria ajudar, que antigamente era diferente, que na família sempre foi assim. E o João calado. Depois, sozinhos, diz-me que devia ter sido menos fria.

E tu?

Nada. Volto a pôr as fronhas na prateleira dela e pronto.

Mafalda ficou calada um pedaço.

Estás cansada.

Estou mesmo… disse Teresa, sentindo um alívio quase físico ao dizê-lo.

Quanto tempo mais vai ela ficar?

Não sei. O João acha que é esperar. Que ela vai querer ir embora.

Isso não é resposta.

Pois não.

Mafalda bebeu o café. Olhou-a com aquele ar sério que só as amigas sabem ter.

Precisas de falar a sério com o João. Mas a sério a sério, para ele perceber.

Nem sei se ele consegue, Mafalda. Com ela ao lado vira outra pessoa.

Então falem quando ela sair. Ou arranja forma de terem tempo os dois.

Teresa sorriu de lado.

Parece fácil, não é? Mandá-la dar outra volta ao Mercado?

Sim. E enquanto isso, conversas com o João.

Ficaram a ver pela janela uma mulher a passear um cão rameloso, castanho. O cão puxava para um lado, ela para o outro uma espécie de trégua silenciosa.

Sabes o que me assusta? Não é ela. É o João. Assusta-me perceber que não sei como ele ficou.

Mafalda não respondeu. Às vezes não há resposta.

Pagaram, despiram-se e foram. O ar estava frio, mas já cheirava a primavera. Teresa subiu o colarinho, entrou no metro.

Pensava no relatório por fechar, no leite a acabar lá em casa, há quanto tempo não ligava à mãe. E no que Mafalda dissera: era preciso falar. A sério.

Mas ainda não sabia como.

Casa a cheirar a perfume. Não dos seus, mas adocicado, pesado. D. Graça usava Charme da Noite um cheiro de guarda-fatos antigos, a velhice de coisas guardadas.

Já chegaste? perguntou a sogra. Descasquei as batatas, podes fritar.

Tirou o casaco, pendurou no bengaleiro, ajeitou-o. Era preciso ser perfeccionista até nesse gesto.

Obrigada, D. Graça.

O João ligou, disse que se atrasa até às oito. Trabalho.

Eu sei, ele avisou-me.

Entrou na cozinha. As batatas estavam cortadas grandes, tortas. Nada do que ela fazia, tudo igual e rápido. Respirou fundo e começou a cortar tudo de novo, em silêncio.

O que fazes? Perguntou a sogra, entrando à socapa.

Corto mais pequeno.

Para quê? Já estavam boas.

Assim fritam melhor.

Em minha casa sempre foi assim, nunca houve problema.

Teresa não parou. A voz de D. Graça ficou fria, um tom abaixo do costume, aprendendo aquelas notas novas só agora:

Digo-te que já cortei.

Eu ouço, obrigado. Agora faço à minha maneira.

Pausa. Longa.

À tua maneira… e saiu.

Teresa acabou de cortar. Pôs azeite na frigideira, esperou aquecer, deitou a batata. Escutou o chiar. Pensava: todas falam de limites pessoais. Mas de facto, era só o direito de cortar batatas como quisesse na sua cozinha.

João chegou quase às nove. Cansado, cara de dia longo. Deu-lhe um beijo e entrou. E seguiu para a sala.

Mãe, está melhor?

Melhor. A cabeça já dói menos.

Que bom. Teresa, há jantar?

Há. Está quase.

Jantaram. A conversa era sobre o trabalho de João. D. Graça perguntava, ele contava. Teresa mastigava e sorria por cortesia. A rotina instalara-se, pesada.

À noite, depois do banho, Teresa trabalhou no quarto. O som distante da televisão e deles na sala. Às onze, João apareceu.

E tu, estás bem?

Está tudo.

A mãe disse que te viu aborrecida.

Desligou o portátil, virou-se para ele.

Não estou aborrecida. Estou cansada.

Do trabalho?

Olhou-o. Na penumbra, ele parecia tão sereno. Não fingia. Era sincero mas não percebia.

Não só.

E de quê mais?

João, tu percebes que já passaram três semanas?

A mãe está doente.

Três semanas já lá vão. Ela agora anda horas de loja em loja.

Ele ficou quieto, fitando o teto.

Gosta de estar perto de nós, está sozinha.

Eu entendo. Mas esta casa é nossa.

É dela também…

Não, João. É nossa. Tua e minha.

Nova pausa. Teresa já sabia ouvir silêncios.

Eu falo com ela… prometeu ele.

Quando?

Quando for boa altura.

Teresa deitou-se. Olhava o teto. Nunca chegaram a pintar o quarto. Ficou sempre prometido, como outras coisas.

Boa noite, disse ela.

Boa noite.

Ele adormeceu depressa. Ela só dormiu depois da uma.

No sábado, D. Graça fez o pequeno-almoço. Aveia com passas, torradas, manteiga. Tudo ali, arrumado.

Fiz como fazia ao João em menino, anunciou.

Obrigada.

Ele gosta com passas. Sabias?

Sei, disse Teresa. Três anos a fazer papas de aveia assim. Mas agora isso já não interessava.

E tu?

Gosto de torradas com queijo.

Não encontrei queijo decente nesta casa. Só essas coisas estranhas…

É esse que gostamos.

D. Graça franziu os lábios, mas desta vez calou.

De pijama, João apareceu todo contente:

Oh, papa de aveia! Mãe, fizeste papa!

Para ti, querido.

Teresa, prova, vê como se faz.

Ela provou, demasiado doce para o seu gosto, mas não disse nada.

Conversaram do tempo, dos planos para ir ao Jardim Botânico no domingo. João aceitou logo. Teresa questionou discretamente se não seria cansativo para a sogra esta respondeu que andar faz bem à saúde e lançou-lhe um olhar triunfal.

No sábado, Teresa pôs-se a limpar. Era a sua defesa: organizar, pôr tudo no seu sítio. A ordem ajudava a pensar. Mexeu nas estantes, voltou a pousar a tal estatueta de madeira comprada na feira há dois anos, lentamente repôs tudo como gostava.

Na entrada, os casacos de D. Graça ocupavam quase todo o bengaleiro. O seu, enterrado debaixo do casaco escuro da sogra. Ajeitou os cabides, sem pressa.

O que fazes? mesma frase, sem entoação.

Estou a arrumar.

Porque mexeste no meu casaco?

Estava a ocupar tudo.

Para ti, tudo ocupa. Nunca está bem…

Teresa calou. Puxou a escova do calçado e continuou.

Só digo, murmurou D. Graça, menos dura, talvez por perceber que batera num muro. Podes sempre perguntar.

Está certo. Pergunto.

Ao jantar, João sugeriu pedir pizza. D. Graça reclamou: não é comida, é porcaria, porque não fazia Teresa algo decente? Decente, claro, queria dizer algo cozido, feito em casa.

Teresa olhou o marido. Ele devolveu o olhar.

Mãe, pizza é rápido. A Teresa está cansada.

Cansada de quê? Fica em casa…

Trabalho em casa, não é a mesma coisa.

Eu também sempre trabalhei… e tinha tudo feito!

D. Graça, respondeu Teresa, esforçando-se para não perder o controlo. Fico feliz por isso. Hoje pedimos pizza.

João agarrou no telemóvel para pedir. A sogra afastou-se, foi à sala que era da Teresa. Ainda voltou, fez um sandes, recusou a fatia de pizza que lhe ofereceram.

À mesa, enquanto arrefecia a pizza, Teresa foi clara:

Disseste que ias falar com ela.

Agora não…

Então quando?

Teresa… sê paciente. Ela vai acabar por se ir embora.

Porquê achas isso?

Sempre foi assim.

Antes vinham três dias. Agora são três semanas.

Tem saudades.

Eu também, disse Teresa.

O olhar dele era quase surpreso.

O que queres dizer?

O que disse.

Ele desviou o olhar, comeu a pizza fria.

Estás a exagerar…

Teresa também levou a pizza à boca. Sim, ouvir estás a exagerar era falar noutro idioma o de quem não quer realmente ouvir.

Conflitos de gerações, pensou. Mas em casa, o conflito era sobre espaço. Sobre quem tem último voto. Quem diz normal e quem se cala.

No dia a seguir, foram todos ao Jardim Botânico. Em março, as árvores nuas, a terra húmida, a cidade a espreitar no horizonte. D. Graça caminhava devagar, agarrada ao braço do filho, contando histórias dos velhos do bairro. João ia acenando, Teresa seguia uns passos atrás.

A meio, entre dois plátanos, D. Graça virou-se:

Teresa, sorri. Pareces num velório.

Estou como sempre.

Devias soltar o rosto.

É assim que sou, D. Graça.

Ela fez um gesto com a mão. Paciência.

Beberam um café ao fim. D. Graça logo: E filhos, pensam nisso?

Assunto nosso, respondeu Teresa.

Mas devias pensar nisso, estás a ficar crescida…

Eu ouço, mas essa conversa é comigo e com o João.

Pela primeira vez, a sogra calou realmente.

Passaram os dias em rotina. Teresa trabalhava sem descanso. Os números eram aliás refúgio, tinham respostas certas. D. Graça também parecia mais calada.

Numa tarde, Teresa abriu o armário e viu as toalhas organizadas de forma diferente. Não gostou. Procurou pela casa o equilíbrio.

Foi ter à sala. D. Graça lia.

D. Graça, não mexa nas minhas coisas, por favor.

Só tentei ajudar, estava desarrumado.

Não estava. Era o meu arrumado.

Cada qual com o seu jeito…

Exato. Este é o meu. Não mexa, por favor.

Regressou ao trabalho, mãos a tremer ligeiramente, mas sentiu que tinha feito bem. Pequeno passo. Importante.

Na sexta, João chegou mais cedo, com bolo de limão da loja da Graça. Teresa sorriu, relaxada.

Trouxe para ti, lembras-te como gostas?

Obrigada.

Mãe, queres?

Não posso doces, faz-me mal à tensão.

Ficaram os dois na sala, chá e bolo. Primeira vez em quase um mês que estavam só os dois.

Tenho andado a pensar no que disseste.

E pensas…?

Tenho medo de magoá-la.

Podemos ser brandos. Dizemos que gostamos dela, mas precisamos de espaço.

Ele comeu.

E se fosses tu a dizer?

Não. Tem de ser de filho para mãe. Se fui eu é a nora que põe fora. Se fores tu, é o filho que põe limites.

Ele assentiu, devagar.

Tens razão.

Nesse serão, algo mudou. Pequeno, mas notável. Não se resolveu tudo, mas movia-se finalmente.

D. Graça saiu para o quarto dela, dizendo-se cansada. João murmurou: Amanhã falo com ela.

No dia seguinte, a sogra avisou desde cedo: queria fazer almoço de verdade. Sopa de legumes, bacalhau no forno, pudim. Acordou cedo, ocupou toda a cozinha.

Teresa levantou-se com o cheiro a cebola a borbulhar no ar.

Foi até à cozinha de ver o espetáculo. Tacho ao lume, tudo ocupado.

Preciso de espaço, podes sair? lançou a sogra.

Desculpe?

Aqui não há espaço. Deixa estar, que faço tudo.

É a minha cozinha, D. Graça.

Mas hoje faço eu. Aproveita, dá uma volta.

Teresa retirou o café, foi para o quarto. Ouviu o movimento, facas, panelas.

Sentou-se. Estava imóvel, como quem ficou de repente sem calor.

Era a sua cozinha. Doeu. Mas engoliu o gosto amargo.

Veio o João do banho, a toalha ao ombro.

Ouviaste?

O quê?

A tua mãe disse não faças barulho, aqui mando eu.

Teresa…

Fala hoje. Não depois. Hoje.

O olhar foi longo. Por uns instantes, viu ali o gosto do menino mas também o adulto. Depois, murmurou:

Falo.

Ela assentiu. Voltou ao quarto, abriu o livro que adiava ler, forçou-se a começar.

O almoço saiu delicioso, disso ninguém podia mentir. A mesa posta à moda, guardanapos dobrados. Tanto esforço, tanto zelo.

É assim que se faz! D. Graça disse, distribuindo sopa.

Está óptimo, João.

Teresa?

Obrigada. Está bom.

Bom… pois, estive na cozinha desde as oito, tinha de sair.

Podia ter pedido ajuda.

Dizes que estás sempre ocupada.

Trabalho.

Pois… Mas só quis ajudar.

Dissera-me então para não estar aqui.

Sogra fitou a nora, depois o filho.

Queria fazer tudo sozinha.

Pois.

Ficaram a falar de vizinhas, filhos, emigrar. Teresa pensava em triângulos familiares, nessas linhas onde um de três é sempre suplemento. Não por mal. Por dinâmica. Isso nunca consola.

No fim, João foi à varanda. Teresa desmontou a mesa. D. Graça lavava pratos.

Estás chateada comigo?

Teresa virou-se.

Porquê diz isso?

Quando te calas assim, percebo.

Não é zanga, é pensar.

Em quê?

Em prioridades. Em como fazer as coisas certas.

D. Graça bufou.

Tanto livro, tanta mania de pensar. Antes vivia-se, era-se feliz.

Pois crê nisso?

Creio.

Fechando a torneira, Teresa disse, escolhendo as palavras:

A D. Graça é mulher sábia. Tem jeito, sabe cuidar da casa, cozinha tão bem eu não tenho essa experiência.

A sogra ouvia, olhos semicerrados.

Mas somos diferentes. E a maneira como vivo aqui em casa é assunto meu. Eu gostava de nos darmos bem.

Ainda bem…

Isso requer limites. Os meus, os seus, os do João. Não é sobre zangas, é respeito.

Silêncio.

Concordo, sim, voz de quem diz só porque se espera.

Fico contente.

Teresa saiu para a varanda, ficou ao lado do marido. Crianças jogavam à bola na rua, felizes.

A tua mãe ofendeu-te?

Não, respondeu. Falei com ela sobre limites.

E?

Diz que percebe. Logo se vê.

Ele pegou-lhe na mão, só isso. Ela não a tirou.

Passados dias, a sogra perguntou, numa tarde mais silenciosa:

Acham melhor ver quando é que marco o regresso à minha casa?

Teresa estava no corredor, escutando sem querer. D. Graça falou baixo:

Joãozinho, já estou cá há muito tempo, não achas?

Mãe, és sempre bem vinda.

Sim, mas a Teresa anda mais calada. Mulher calada nunca é só por nada.

Silêncio.

Já reparaste?

Reparei.

Não sou cega. Sei quando atrapalho.

Mãe…

Estive em muitas casas. Sei a diferença entre ser da casa ou ser visita.

Teresa encostou-se à parede, fechou os olhos.

Vou na sexta, decidiu a sogra. Tenho coisas para arrumar, a vizinha pediu ajuda, logo vejo.

Fica mais…

Não. Está feito, filho.

Teresa deslizou pelo corredor. Entrou no quarto. Ficou a olhar para o espaço. Silencioso, bom. Não sentiu vitória. Nem alívio pelo menos, não logo. Só um soltar devagar, como quem finalmente respira depois de tempo debaixo de água.

Na sexta, arrumaram tudo. D. Graça fez as malas devagar, aceitou ajuda no final.

Sabes dobrar bem as coisas, comentou.

O João viaja muito, aprendi.

Antes não sabia nada destas coisas.

Agora sabe, disse Teresa, sorrindo. Sem forçar.

Acabaram. A sogra deu uma volta pela casa, como a despedir-se. Parou junto à janela.

É bonita, a vossa casa. Tem luz.

Gostamos muito. Escolhemos com calma.

Nota-se. Trataram disto com alma.

E isso era um elogio. O primeiro sem espinhos.

Obrigada, D. Graça.

A sogra olhou-a. Sem calor era cedo para isso. Mas era um olhar novo, para lá das convenções.

És forte, menina.

Tento.

João levou a mãe ao comboio. Teresa despediu-se à porta. A sogra deu-lhe um abraço breve. Depois, disse, já no elevador:

Vens visitar-me na Páscoa?

Logo se vê, se tudo correr bem.

Vêm sim, decretou a sogra, e sumiu.

Teresa entrou, fechou a porta. Parou no corredor. Depois a sala o cadeirão à janela voltava a ser só dela. Sentou-se. Acolheu o peso do assento, reconheceu o encaixe.

Lá fora, chovia miudinho. Março ainda era um tempo indeciso; isso, pensava, também tem o seu encanto.

Pegou no livro. Leu um capítulo. Depois outro. Ali sentada no seu lugar, no silêncio da casa.

Horas mais tarde, João chegou. Ouvia-se o descalçar dos sapatos, o caminhar pelo corredor. Olhou pela porta.

Tudo bem?

Estou a ler.

Percebe-se. Ela já ligou, diz que voltou bem.

Ainda bem.

Teresa…

Ergueu o olhar.

Sei que foi complicado. Desculpa.

Vê-lo ali, meio desajeitado, com os ombros a pedir desculpa, limpou-lhe a impaciência.

Está perdoado.

Devia ter feito antes…

Já está. Não precisamos de falar mais nisso.

Sentaram-se em silêncio. Ela lia, ele olhava pela janela. A chuva caía.

Temos de trocar a lâmpada do corredor. Está a piscar muito.

Já comprei, está no saco.

Vou pôr.

Pouco depois ouviu-se um clique, depois luz mais quente.

Pronto.

Obrigada.

Continuaram, em paz. Teresa folheava o livro. Pensou em ligar à mãe. Comprar as tais lâmpadas quentes para o quarto. Finalmente arrumar o escritório que voltaria a ser dela, com secretária e tudo.

Coisas pequenas, mas certas. Com começo e fim.

Poucos dias depois de D. Graça sair, Teresa encontrou na prateleira a lata de chá verde, oferta da sogra. Não sabia se esquecera ou se deixara de propósito. Era de folha seca, em lata de flores antigas. Teresa abriu, cheirou tomilho e terra. Fez chá. O sabor surpreendeu.

Sentada no cadeirão, chá quente nas mãos, como Mafalda fazia, apreciou o bairro pela janela. Parou a chuva. O pavimento brilhava, refletindo a luz do céu. Lisboa, entre porqueiras e promessas de primavera.

Decidiu que ao domingo telefonava à sogra. Não por obrigação. Porque era o mesmo certo. D. Graça era difícil, mas era mãe do João. E, agora, o que havia entre elas e entre Teresa e João tinha de ser tratado com cuidado, com fronteiras e distância. Com respeito.

Sabedoria feminina, pensava Teresa, não é paciência infinita. É saber onde acaba o nosso espaço. É falar quando é preciso, e calar quando não. Não confundir delicadeza com ausência de posição.

O telemóvel vibrou. Mensagem da Mafalda: Sobreviveste? Ela foi?

Teresa escreveu: Foi. Está tudo.

Mafalda mandou um emoji de café.

Sorriu, largou o telefone. Bebeu mais um gole do chá.

Na segunda voltou ao trabalho com um sentimento estranho. Não era bem felicidade. Mas como largar um saco pesado ao fim de uma caminhada longa. O corpo ainda sentia o peso, mas estava livre.

Revisou o relatório, corrigiu um erro, avisou a colega da reunião, fez mais café.

À hora de almoço ligou João.

O que apetece ao jantar?

Não sei. O que quiseres?

Saímos para variar?

Teresa lembrou-se: há quase um mês que não saíam. Não era possível, com D. Graça em casa.

Podemos ir ao restaurante italiano da Av. Liberdade.

Por mim, sim. Às sete?

Sete.

Estavam numa mesa pequena, luz de abat-jour, vinho branco. Teresa pediu massa com cogumelos, João um bife grelhado. Conversaram sem pressa, João contou a trapalhada de um colega no escritório. Riram juntos.

Gosto de te ver rir, elogiou ele.

Nota-se?

Foste muito tempo sem rir de verdade.

Ela sorriu.

Eu própria senti falta do meu riso.

Ficaram em silêncio, mas um silêncio bom.

Falaste das lâmpadas para o quarto.

Lembras-te?

Lembro. Vamos comprar juntos esta semana?

Vamos.

Acabaram o vinho, partilharam sobremesa. Abril espreitava lá fora. João passou-lhe o braço por trás ela deixou.

Chegaram a casa, agora quieta, e Teresa percorreu a sala. Tudo no lugar. A escultura da feira, as estantes, pratos azuis, o cadeirão junto à janela.

Aproximou-se, olhou Lisboa à noite, as luzes, os carros.

Pensou, amanhã ligaria à mãe. Havia de comprar as lâmpadas. Podia cozinhar só para ela, no domingo.

Pertencia-lhe aquele pensamento. Aquela casa. Aquela paz.

João saiu da casa de banho.

Vens dormir?

Já vou.

Ele assentiu. Saiu.

Teresa ficou à janela. Lisboa fervilhava lá fora. Em cada casa, talvez, mulheres como ela aprendiam o equilíbrio: manter o casamento, não se anular, pôr limites sem perder o essencial.

Não sabia se conseguiria sempre. Talvez fosse sempre assim tentar, recuar, avançar passo a passo. D. Graça voltaria. João vacilaria. Nem tudo seria perfeito.

Mas no corredor, a luz finalmente era quente. E o cadeirão era dela.

Por agora, era tudo o que precisava.

Não se apressou para o quarto. Bebeu água da torneira, apagou luzes.

De manhã ligaria à mãe.

Essa seria outra conversa mas não esta.

Percorreu o corredor escuro até ao quarto. Deitou-se. O teto, cinzento, ainda à espera de cor. Havia de pintar. Algum tom quente.

Cá fora, a cidade murmurava o rumor habitual de Lisboa, o rumor certo de quem vive e conhece um lugar.

Fechou os olhos.

Como preservar o casamento, segurar-se, criar limites sem perder afectos? Perguntas sem resposta simples. Talvez o segredo feminino seja mesmo esse: saber viver com perguntas.

Nem mártir. Nem vitoriosa. Apenas alguém que conhece o seu chão.

Na sua casa.

À sua janela.

Na sua vida.

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A minha sogra recusa-se a ir embora
Čierna vdova Krásna a inteligentná Lýdia tesne pred ukončením štúdia na fakulte žurnalistiky spoznala Vlada, muža o dosť staršieho, ktorý si ihneď všimol jej štíhlu a jemnú postavu – Vladislav Romanovič, známy Bratislavčan, ktorý písal pesničky obľúbené v celom meste. Vlad bol pre všetkých svojím človekom, na miestnej televízii mal známosti takmer s každým. Nebol teda problém vybaviť Lýdii po škole miesto moderátorky vlastného programu. A čoskoro odvysielala prvú reláciu pod názvom „Rozhovory od srdca“. Pozvala známeho mestského psychológa aj pár zaujímavých hostí, diskusie boli otvorené, otázky aj životné príklady. – Výborne, Lýdia, – pochválil ju Vlad po relácii, – to treba oslaviť. Vladislav Romanovič, štyridsaťpäťročný trojnásobný rozvedený, bol vždy obklopený kopou priateľov, jeho kreatívny život v reštauráciách, v kaviarňach, v saunách, vôbec nepasoval do rodinného modelu. Sám seba pokladal za takmer zaslúžilého skladateľa. Písal, pil, zabával sa, bol obľúbený všade. Čas plynul. Lýdia sa stala v Bratislave populárnou, vydala sa za Vlada, jej relácie sledovali mnohí. Vždy vkusne oblečená, milá, vtipná, a nikdy nevyvolávala dojem osudovej ženy – bola televízna kráska, tak ju všetci poznali. Ale manželstvo s Vladom po čase začalo pripomínať boj so zlozvykmi – neustále podgurážený Vlad. – Vlad, nepreháňaj, – povedal raz jeho kamarát Šimon, – tá dievčina ti ešte ukáže, čo je život, – keď sa Vlad snažil Lýdiu ponížiť v opitosti. – Šimon, ja si nikdy nevyberám múdre ženy, – pochválil sa Vlad a šťuchol Lýdiu do líca, sedeli spolu v kaviarni. Kým sa o ňu uchádzal, bol galantný – kvety, darčeky, pesničky, vypočul ju. Ale keď sa stala jeho manželkou, záujem zmizol. Venoval jej pozornosť asi ako domácej mačke. – Bola som naivná, myslela som si, že s ním budem hviezdou, – premýšľala Lýdia. V univerzite študovala francúzštinu, ale Vlad jej vyčítal: – Uč sa angličtinu. Francúzština ti je na cestách zbytočná. Po týchto poznámkach sa Lýdia z trucu odmietala učiť angličtinu. Zmenilo sa to až po tom, keď Vladov múdry kamarát Šimon povedal: – Angličtina k elegantnej žene patrí ako lodičky. Na druhý deň sa Lýdia prihlásila na kurzy angličtiny. – Sema na moju ženu dobre zapôsobil, všade počúvam angličtinu, – smial sa Vlad. Lýdia s Vladom bývali vo veľkom byte, ktorý Vlad zdedil po starom otcovi, profesorovi medicíny. Mali domácu pomocníčku Věru, štyridsaťtriročnú osamelú ženu, závistlivú a popudlivú, ale vedela to skrývať. Věra bola všetkému svedkom. Jedného rána Lýdia našla Vladovu prázdnu fľašu od koňaku v kuchyni. Věra sa opýtala: – Čo mu pripravím na raňajky, keď sa zobudí? – Vývar, – odpovedala Lýdia. Po siedmich rokoch manželstva s Vladom Lýdia deti nerodila – on už mal syna z prvého manželstva. Postupne sa jej rodinný život s Vladom zhnusil; radšej budovala kariéru. Jedného rána, keď Věra šla zobudiť Vlada, našla ho na bruchu s červeným fľakom na vankúši. – Lýdia! – kričala – Treba volať rýchlu. O pätnásť minút už Lýdia sedela v sanitke, Vlad bol v nemocnici – v kritickom stave. Večer jej volali: – Váš manžel zomrel. – Tomu… nemôžem uveriť, – šepkala. – Veď ešte nebol starý. Pohreb bol honosný, prišli davy ľudí, Vlad bol v meste osobnosťou. Na spomienke prehovoril Šimon: – Nesmúťme príliš, Vlad žil naplno a zaslúžil si pokoj. Pre Lýdiu sa začal nový život. Po smrti Vladislava Romanoviča jej ostali dva slušné účty – rozdelili ich medzi jeho syna a ju. Po čase zašla do neďalekej kaviarne, kde ju oslovil mohutný muž – Imrich, nie pekný, ale sympatický, humorista, pripomínal jej plyšového medveďa. – Dovoľte mi vás pozvať… – usmial sa. Zachytil jej pozornosť, rozosmial ju, rozveselil, odviedol domov, dohodli si ďalšie stretnutie. Lýdia ráno oznámila Věre: – Už ťa nepotrebujem, zvládnem to sama. Věra sa rozplakala, prosila ju, aby ju nevyhodila. Nakoniec Lýdia ustúpila. Tak sa v ich domácnosti usídlil aj Imrich – „Imro“, Lýdia ho milovala, vydala sa za neho po troch mesiacoch. Svadobná cesta bola na Maldivy – Imrich si to mohol dovoliť, bol podnikateľom. Nečakala luxus, ale Imrich jej pripravil VIP zážitok, krásnu vilu, osobný katamaran, všetko dokonalé. Bola šťastná, len ju trápilo, že jej plyšový medveď raz pichol do seba inzulín. – To je len kvôli cukrovke, Lýdia, nič vážne. Po návrate do práce Lýdia stále viac cítila, že k Imrichovi necíti lásku, že túži po skutočných emóciách, po vášni. Na pracovnej oslave jej kolega Kubo ponúkol odvoz domov – jeho kamarát Artur bol krásny, svalnatý mladík, ktorý si ju okamžite získal. Stretávali sa tajne, v práci sa nič neprezradilo. Jedného dňa Lýdia prišla k Arturovi a dvere roztrhol Imrich. – Kto ma prezradil? – preľaknuto sa spýtala. Imrich zbledol, skolaboval; Lýdia mu rýchlo podala inzulín, ale už nepomohla – umrel. Po pohrebe Lýdiu vyhodila z domu Imrichova dcéra s právnikom – dostala balík peňazí, mala tri dni na odsťahovanie. Vrátila sa s Věrou do veľkého bytu po Vladislavovi. Stretávala sa ďalej s Arturom, ale žiadne záväzky. Jedného dňa jej kolega Kubo zatelefonoval: – Artur mal nehodu… zomrel. Lýdia sa zahĺbila do seba: – Prečo moji muži umierajú? Som akoby čierna vdova, už ma tak aj začnú volať. Moja aura je asi temná. Raz do relácie prišiel mladý sympaťák – Marek. Po natáčaní ju pozval na kávu, Lýdia sa zamilovala, cítila šťastie. – Tak toto je pravá láska – Marek, bez teba neviem žiť. Mareka si neskôr vyhľadala na internete – zaradila ho medzi najbohatších Slovákov! Bola ohromená, ale bála sa, že aj jeho postihne nešťastný osud. Jedného dňa sa dozvedela, že Mareka hospitalizovali – mal problém so srdcom. – Nič vážne, bude žiť, – uistil ju lekár. Vošla za ním do izby, držali sa za ruky. – Keď sa uzdravím, vezmeš si ma? – usmial sa Marek. – Samozrejme! Vpred! Čaká nás šťastie. Skutočné. Ďakujem za vaše čítanie, priateľstvo a podporu. Veľa šťastia v živote!