Manuel, está na hora. Eu, sinceramente, aconselhava-o a ir ao médico. Ver se está tudo bem com o coração.
O que é que tem o meu coração?
Olhe, parece-me é que não tem coração nenhum!
O Nico não entendia porque é que a porta do prédio, por onde tantas vezes tinha entrado com o dono depois dos passeios, estava agora fechada.
Sentado em frente à velha porta castanha descascada, Nico farejou o ar.
Será que me enganei? pensou. Não! respondeu logo a si mesmo. O cheiro era igual, era ali.
Só tenho de esperar mais um pouco, que o dono há de lembrar-se que me levou no carro até ao pinhal e me deixou lá sozinho. Isto é só um jogo! Mas eu vim atrás, encontrei o caminho. Agora é esperar!
Já nevava coisa rara por estas bandas de Lisboa e as patas de Nico arrefeciam cada vez mais. O corpo tremia, e nem o pelo lhe bastava já de defesa.
Não pense em fome. Já já eles vão ver-me, vão ficar felizes, vão dar-me um osso daqueles de sabor que só eles têm…
Tremendo, o pequeno cão encostou-se a um monte de neve e começou a lamber. A água fria aliviava-lhe a sede, mas sentia-se ainda mais gelado.
Daqui a pouco deixam-me entrar, deitam-me ao lado daquele radiador branco enorme. Primeiro vem o osso, depois a sopa, depois posso até resmungar-lhes. Eu sei, isto é só treino! Treinaram-me para isto!
Andei noites à procura do nosso pátio. Ontem consegui entrar pela porta aberta do prédio para aquecer. De manhã o senhor do lixo deu-me um pontapé. Chorei, nem forças para rosnar tinha.
As pessoas são estranhas. Quando passo de trela com o dono, todos sorriem, até cumprimentam. Mas sozinho só olhares duros, até pontapés. E ficou a doer-me o lado.
Durante horas Nico não tirou os olhos da porta do prédio, mas ninguém entrava, ninguém saía. O cão começou a ganir baixinho, já só fantasiava com comida e calor.
Só preciso de esperar mais um bocadinho. Só mais um bocadinho…
A ventania cresceu. Nico já mal sentia as patas. Deitou-se, fez-se um novelo. O pensamento foi voando para longe. Cumpriu o que devia: encontrou a casa, resistiu. Sabia que fez tudo. Estava na hora de descansar…
Victor Manuel estava sozinho em casa. Grandes afazeres: ver televisão, beber chá, voltar a mudar de canal, mais chá, depois dormir, talvez mais chá
Nada mais de novo. Aliás, assim seria nos próximos dez anos, pelo que sabia.
Antes era diferente! Maquinista no comboio da linha de Sintra. Transportava pessoas dos subúrbios até ao coração de Lisboa. Sentia-se peça de uma rede viva, fundamental.
Pronto! tentava animar-se a primavera está quase aí. Vou plantar a horta na varanda. Tempo para a temporada nas Caldas não falta. Só falta aguentar mais umas noites frias.
Foi para a cozinha e pôs água ao lume. Antigamente, enquanto esperava pelo chá, a casa cheiinha, muita conversa. Agora só o silêncio. Como se tivessem tido pressa em deixá-lo sozinho.
A chaleira estava pronta. Abriu a gaveta do chá, mas dentro da caixa não estava nada.
Raios me partam! Acabou. Tenho mesmo de ir ao supermercado. até sorriu, com o pequeno objetivo do dia.
Vestiu-se num instante e desceu as escadas. A luz do corredor não acendia deviam ter levado outra vez a lâmpada, pensou. Pôs logo na lista: comprar uma nova na volta.
Ao sair do prédio tropeçou em algo, quase caiu.
Bolas! resmungou. Era um cão, coberto de neve, imóvel. A neve nem derretia no pelo.
Nico! Victor Manuel reconheceu logo o cão do vizinho.
Ó Nico, estás bem? Queres ver que estás mesmo mal? Espera, vou chamar os teus donos.
Foi ao intercomunicador e tocou à porta dos donos de Nico. Nada. Tentou os vizinhos. Uma voz atendeu.
Daqui fala o vizinho, não sabe dos senhores do 64? Está aqui o cão deles quase morto de frio!
Foram-se embora. Divórcio, acho eu. O apartamento está à venda.
Ena pá! Obrigado.
Victor tirou o próprio casaco e tapou Nico. Com muito cuidado limpou-lhe a neve e colocou-o no casaco. O cão mal respirava.
Vá lá, vá lá, Nico, aguenta!
Arrastou-o para o prédio, encostou-o ao radiador. Depois bateu na primeira porta. Abriu a vizinha, Dona Filomena.
Ó Victor Manuel, que foi agora?
Filomena, ajude-me, por favor. Veja-me aí o contacto da veterinária e chame um táxi por favor.
Mais tarde, já com tudo acalmado, Victor Manuel ligou à antiga dona do cão. O número dera-lho Filomena.
Sim? Quem fala?
Sou o vizinho do 72, Victor Manuel. A Filomena deu-me o número.
Ah, olá.
É sobre o Nico.
Isso é com o Manuel. Eu nunca quis saber desse bicho.
Pois… Nós estamos na veterinária…
Victor Manuel, aquele janota nem trabalhar sabia, quanto mais pagar a casa!… E comprou um cão, imagine. Eu é que tive de segurar a casa todos estes anos! Disse-lhe para se livrar do bicho, nem isso era capaz. Boa tarde!
Olá, Manuel? Victor Manuel aqui. O seu cão voltou para casa!
Tem de estar errado. O Nico perdeu-se no pinhal.
Olhe que é mesmo ele!
Não pode ser.
Pois… Não se faz isto aos bichos.
Não estou a entender!
Percebe sim senhor. E ainda bem que já não somos vizinhos.
Já faziam meses que o Nico vivia agora noutro lar. Ficou sem as pontas das orelhas, duas patas ainda lhe doíam, mas adaptara-se.
Compreendeu que aquilo não era jogo nenhum. Ou melhor, era um jogo de adultos onde ele teve de cumprir a ordem: “morre”. Mas cumpriu mesmo.
Agora percebia que tinha novo dono. Saíam três vezes ao dia. O dono era idoso e para não vegetar frente à televisão, Nico obrigava-o a dar uns passeios.
São engraçadas, as pessoas. Aqueles pareciam felizes, mas quase me matavam. Este nunca está satisfeito, resmunga sempre, mas é bom homem, cuidadoso. O Nico não era tolo: uns merecem arranhadela, outros todo o carinho!
Alguém bateu à porta do Victor Manuel.
É o Manuel. Estou a viver com uma companheira. Ela tem filha, e a miúda quer um cão. Dê-me lá o Nico. Desculpe a história toda. Quanto devo pela veterinária?
Manuel, não estou a perceber…
É que… Não ganhava o suficiente…
Olhe, ao cão pouco importa o quanto ganhe… O Nico perdeu-se no pinhal.
Victor Manuel, ele está aí, deitado na almofada!
Aquilo é o Bobi, Nico perdeu-o de vez.
Nico, anda cá!
O cão nem se mexeu. Só mostrou os dentes, desconfiado.
Manuel, está na hora. Vá lá ao médico, veja o coração…
Acha que está mal?
Eu cá acho que não tem coração nenhum!
No fundo, aprendi que ter tempo de sobra não chega para ser feliz. Quem não tem coragem para assumir os seus, nunca será dono de nada verdadeiramente seu. E com os cães aprende-se isto melhor que com quase toda a gente.







