A minha família
Valha-me Deus, Matilde, como estás linda! exclamou Leonor, maravilhada, ao entrar no quarto da filha.
Matilde estava em frente ao espelho, enquanto a sua amiga e penteadora, Beatriz, dava os últimos retoques ao véu. Com as últimas pregas do pente no penteado, Matilde virou-se para a mãe.
Achas mesmo, mãe? Fico bem assim?
Estás maravilhosa, filha! És a mais bonita das noivas! Leonor sorriu, comovida. Afinal, a sua mãe também lhe disse o mesmo naquele dia distante No fundo, todas as mães dizem isso às filhas quando vestem o vestido de casamento pela primeira vez.
A escolha do vestido demorou. Matilde era exigente nas roupas. Não lhe importava a moda nem opiniões alheias. Importava, sim, que ela gostasse, e com o seu gosto apurado e o corpo elegante, nunca ninguém lhe disse que estava mal vestida. Para o casamento, não quis saber de rendas e brilhos, nem do que era tendência: preferia algo diferente, fora do vulgar. Espantou as funcionárias da loja, até que a dona, Patrícia, sugeriu:
Acho que tenho ali algo que vais gostar.
Saiu e voltou minutos depois com outro vestido. Assim que tirou da capa, Matilde sentiu logo: era aquilo! Linhas simples, tecido luxuoso, sem detalhes supérfluos. Olhou-se ao espelho e viu-se: era o tal. Assentava-lhe que nem feito à medida. Nem precisava de arranjos.
O que achas?
Quero este!
Patrícia sorriu, um brilho de nostalgia nos olhos. Quem precisava de saber que aquele vestido era para si própria, nunca usado porque para casar, é preciso confiança e amor. E se falta um, o outro desaparece também. Pensou brevemente no Pedro ah, Pedro, porque é que fizeste assim comigo? Tanto sonho, filhos, futuro Mas pronto, a vida segue.
E tenho aqui um véu maravilhoso para esse vestido. Vou buscar.
Matilde piscou o olho à mãe:
Não te tinha dito que ia encontrar o vestido que queria?
Leonor acenou-lhe com ternura. Sentia-se feliz, e sabia que recordaria estes dias como os mais felizes da vida. Recordou o seu próprio casamento, os tempos em que arranjar vestido era uma epopeia: ou o que havia na loja dos noivos, ou costurado pela nossa própria mão. O vestido dela fora feito pela amiga da mãe na velha costureira do bairro: alguém arranjou o tecido, outra os botões… Ficou lindíssimo, apesar de tudo. Só o casamento não trouxe felicidade. Separou-se do marido ainda Matilde era pequena, com apenas dois anos. Novos amores, novas tempestades Tornou-se desnecessária para quem foi marido, assim como a filha. Matilde cresceu sem pai, recebendo apenas a prestação de alimentos, porque não tivesse ele pago, a reputação ficava em causa, e assim, manteve-se o decoro social. Falava-se pouco, ligava-se menos. Era apenas a vida a mudar, cada um para seu lado. E o pai, Miguel, nunca mais procurou a filha.
Não preciso de problemas, Leonor.
A mãe nunca insistiu. Melhor nenhum pai que um pai ausente. Tentou refazer a vida, mas a relação com o padrasto não resultou. Viveram juntos pouco mais de um ano; ele gostava de Leonor, mas não da filha. Quando sugeriu que talvez fosse melhor Matilde ir para a casa do pai, Leonor calou, fez-lhe as malas e mandou-o embora.
Não faz mal, filha. As duas vamos-nos safando. Não precisamos de mais ninguém.
Matilde recorda (ainda miúda) que a mãe a escolheu, e nunca esqueceu isso. Talvez por isso, quando era adolescente e até já adulta, Leonor nunca teve problemas com a filha. Para Matilde, a mãe estava acima de tudo.
Matilde, está na hora! Vão-se atrasar. Leonor ajeitou delicadamente o véu e beijou a testa da filha. Sê feliz, minha menina!
Matilde riu, abrindo os braços.
Mãe! Não me faças chorar, que a Beatriz mata-me. Um hora a maquilhar-me para não parecer pintada, e vou borrar tudo.
Abraçou a mãe, ao ouvido:
Eu vou tentar
O dia do casamento passou num ápice. Leonor entrou pela casa vazia, fechou a porta atrás e sentou-se no banco do corredor. Estava sozinha. Matilde iria viver com o marido na casa da avó, que Leonor lhes oferecera. André, agora marido da filha, não tinha casa, e quando a filha sugeriu viver com os sogros, Leonor apenas sorriu e, mais tarde, deu-lhe as chaves da casa.
Não é necessário, filha. Vivam os dois, sozinhos.
E os inquilinos, mãe?
Já tratei disso. Saem antes do vosso casamento.
Mas era renda teu dinheiro! Já tínhamos tudo planeado para alugar.
Filha, eu preciso de pouco. Tenho trabalho, saúde, dou-me bem. Vocês é que precisam do vosso espaço.
Matilde dançou no lugar, com as chaves na mão.
Obrigada, mãe! Agora estou um bocadinho mais perto de ter a nossa própria casa.
Casa?
Sim! Grande, luminosa, com quartos para todos Três quartos de crianças, pelo menos! corou, encostando-se à mãe. Achas demais?
Nunca é demais, filha, desde que sejas feliz!
Que bom que compreendes
E ainda bem que serei avó ainda jovem! Leonor riu e beijou-lhe a cabeça. Casa é casa. Vive à tua maneira!
Leonor não contou à filha sobre a conversa com os futuros sogros, na véspera.
A apresentação foi tradicional, em casa da noiva. Leonor passou o dia todo na cozinha. Gostava de cozinhar, mas raramente tinha ocasião de mostrar o talento.
Os pais de André pareceram agradáveis, mas logo houve tensão, com Dalila, a futura sogra, torcendo o nariz:
Estranho Isto não é como fazemos.
Leonor surpreendeu-se. O peixe assado com receita da avó nunca falhava, o pernil estava uma maravilha. O sogro comeu em silêncio, saboreando tudo. Dalila perguntou, afastando o prato:
A Matilde também não sabe cozinhar? Vai ter de aprender. O nosso André é muito mimado, é filho único. Ainda bem que vão morar connosco: aprende rápido. Matilde também é filha única?
Sim.
E criou-a sozinha? Sem o pai?
Foi a vida
Família completa é fundamental. Como é que uma rapariga aprende a viver em família sem homem em casa? Gosto muito da Matilde, mas criada assim, vai ser difícil.
Leonor ouvia, calada, com Matilde a piscar-lhe discretamente por debaixo da mesa: aguenta, mãe, não respondas. Já antes lhe dissera que André não era como os pais.
A arrumar, Dalila pediu para falar sem crianças. O sogro, António, olhava silencioso, com certo embaraço.
Leonor, falo como mãe Tenho receio pelo meu filho. Preciso de garantias. Este é o passo mais difícil da vida dele. Não quero que passe por isto mais alguma vez
Leonor sabia, cá dentro: quem não interrompe, ouve mais. Era diretora de centro de saúde, sabia ouvir.
Gostamos da Matilde, mas tenho dúvidas. Preciso de respostas.
Estou a ouvir.
O pai da Matilde houve doenças na família dele? Porque separaram? Era alcoólatra, irresponsável?
Nada disso.
Mas qual foi o problema? Queremos saber, pela saúde dos futuros netos. Como médica, sabe a importância. Ignoro ter sido criada só pela mãe, mas a herança é o que mais importa.
Nesse momento, Leonor sentiu o limite do seu silêncio. Estava quase a responder, mas viu Matilde à porta a pedir-lhe que não o fizesse. Sabia que ia haver tempestade.
Mãe?
Sim, filha. Leonor sorriu-lhe. Estou quase. Vai buscar o serviço de chá da avó, por favor?
Quando Matilde saiu, Leonor virou-se para Dalila.
A Matilde tem excelente hereditariedade. Disponibilizo os dados que quiser. Não preciso perguntar-lhe o mesmo sobre a vossa família. E espero que os jovens decidam juntos, sem pressões. Dalila e fez um gesto, impedindo-a de continuar compreendo o vosso medo, mas não deixem que interfira nessa decisão tão importante.
Pegou no prato de bolo de bolacha e olhou para a porta:
Vamos, já nos esperam. Ajuda-me?
No olhar agradecido de António percebeu que a mensagem tinha passado. Pelo resto da noite, Leonor deixou claro a Dalila que o assunto terminara ali.
Até ao casamento, não se voltaram a encontrar. Matilde e André trabalhavam os dois e organizaram tudo sozinhos.
Dois anos depois, venderam a casa da avó e, com o dinheiro, compraram terreno para construir casa própria. Matilde, grávida, que se informara durante anos sobre construção, tomou tanta conta das obras, que os empreiteiros desconfiavam, mas acabavam por fazer tudo como ela queria. Não conseguiram acabar antes do parto, e assim, quando nasceu a pequena Helena, André levou Matilde para casa de Leonor.
Peço desculpa não levar a Matilde para nossa casa, mas aqui sentimo-nos melhor, mãe.
Fizeste bem, André. Leonor sorriu perante a hesitação do genro. Estás nervoso, pai? Desembrulha lá a tua filha. Ela tem calor.
Estou assustado
Não tenhas medo. É tua filha, não lhe farás mal. É instinto, André. Tenta.
Durante o banho e o passeio, André saiu-se lindamente. Dalila, ao ver o filho assim, comentou:
Isto não é trabalho de homem, cuidar de bebés
Isso são ideias feitas, respondeu Leonor, sorrindo ao genro atarefado.
Quis por instantes pegar na neta, mas se conteve. Todos os avós acham que sabem melhor, esquecendo-se de que também começaram inseguros
A pequena Helena crescia saudável. Fizeram o jantar de inauguração da casa nova, e cerca de um ano e meio depois, Matilde quis outro filho. Mas, de repente, surgiu um susto.
Mãe, a Helena está com febre, disse a filha, a voz a tremer como nunca.
Alta?
Sim, não cede
Chama o INEM. Já aí vou!
Leonor guiava a toda a velocidade, a rezar. Que não fosse nada grave
Desta vez, parece que não houve resposta Ou ficou para depois.
INEM, reanimação, dois dias intermináveis à espera. O médico explicou:
Esperem, estamos a fazer tudo.
Matilde, estátua no corredor, não arredava pé. Leonor só lhe levava água, chá, obrigando-a a comer.
Precisamos de força. Quando Helena estiver no quarto, ela vai precisar de ti forte.
André andava entre hospital e trabalho. Leonor, vendo-lhe os nervos à flor da pele:
Aguenta, André. Se caires, a Matilde não aguenta.
Dalila apareceu a questionar tudo:
Porque ficou doente, o que aconteceu, de onde veio, é genético?
Dalila, chega! Leonor perdeu a paciência. Agora não interessa!
Como não! Dalila olhou para Matilde, sem forças, encostada à parede, André de mão dada, e Leonor a fitá-la de forma dura como nunca. Parou. Desculpa.
Leonor acenou. Quando não se compreende a gravidade das palavras, de pouco vale explicar.
Por fim, Helena recuperou, para alívio geral. Dois dias depois, Leonor foi ao hospital vê-las:
Mãe, espera. O André já vem. Queremos pedir-te uma coisa.
Quando percebeu o pedido, Leonor sorriu emocionada.
Mãe, então aceitas?
Claro! Nem deviam ter perguntado!
Obrigada! São dois filhos, a Helena precisa de atenção, não damos conta sem ti
Claro que dávam, Matilde! Tens o André!
André, debaixo do edredon, sobressaltou-se:
Então, não te importas?
Mudar-me para vossa casa? Não quero, mas pronto, parece que vai ter de ser. Nem perguntou porque o André não pediu à mãe. Só por uns tempos. Até a Helena ficar bem. Vão pensar que sou trabalhadora sazonal!
Mãe!
Que foi? Ainda não sei como dizer isto. Ajudo, mas toda a vida convosco é que não. Cada um deve ter a sua família. Uma coisa é ajudar, outra é viver sempre juntos.
Eu era feliz se estivesses sempre por perto
Sempre estou, filha. Perto, a apoiar. Mas sou velha solteirona, vocês têm de fazer o vosso caminho. Está decidido. Trabalhadora sazonal, não é Helena?
Sim! gritou a neta, entre sorrisos.
De regresso a casa, Leonor arrumava as malas quando o telefone tocou.
Leonor, estranho, não acha? Porque é você e não eu? Dalila não tergiversou. Eu, que conheço melhor crianças, tenho tempo, devia ajudar mais
Dalila, não fui eu que escolhi. Pergunte ao André e à Matilde. Eu apenas ajudo, quando me pedem.
O André recusa-se a falar! Não percebo o que ele vê em si Ignora a própria mãe! Como pode?
Não sei. Pergunte-lhe, Dalila.
Não és fácil de falar, Leonor! exclamou Dalila, impaciente. Devias dizer-lhes que não, alegar trabalho.
Ouve-te bem, Dalila? E quando foi a última vez que visitaste a Helena?
Para quê? Lá estás tu sempre, até comida já levas quando quero levar
Pois Já tens a resposta. Agora, desculpa, tenho muito que arrumar.
Desligou, pensativa. É fácil destruir a paz frágil da família. Reconstruí-la, é que muitas vezes é impossível. Dalila não compreendia, mas Leonor sabia-o bem demais. Determinada, pegou no telefone e ligou ao genro:
André, precisamos de conversar.
Três anos depois.
Avó, hoje levas-me tu ao ballet ou a avó Dalila?
Hoje sou eu. A avó Dalila vai passear com o Martim. A mãe tem de ir trabalhar.
E almoço em tua casa?
Sim.
Fixe! Vais fazer bolinhos como da última vez?
Gostaste? Então faço.
Leonor conduzia, espreitando pelo retrovisor a neta, sentada no cadeirão.
Avó
Sim, querida?
No fim de semana vamos ao Jardim Zoológico contigo ou com a avó Dalila?
Vamos todos juntos. E o avô também vai, que precisa de dar uma caminhada!
Vais-me comprar balões?
E gelado, e algodão-doce!
Que bom! Também tens de comprar balão ao Martim, sim?
Claro!
Avó
Sim?
Posso contar-te um segredo? Mas mesmo secreto!
Podes.
Acho que vou ter um mano ou irmã.
Leonor ergueu as sobrancelhas, surpresa. Matilde andava com outro ar, mais sorridente ultimamente Mas ainda não lhe tinha dito nada. Desde que recusou viver com a filha e o genro, preferindo ajudar à distância, as decisões passaram a ser combinadas primeiro com o André. Custou no início, houve discussões, mas com o tempo encontraram harmonia. Todos se adaptaram, aprenderam a escutar. Agora, Helena e Martim tinham duas avós e um avô formidável.
Como sabes? Leonor reduziu o volume do rádio.
Ouvi a mãe e o pai ontem. Pensavam que eu dormia. Avó Posso querer uma mana?
E porque perguntas?
Porque se for mano, pode ficar triste por eu não querer
Leonor sorriu. Boa menina estava a crescer ali.
Minha querida, gostas do Martim?
Muito!
Então, se for mano, vais gostar igual. Tal como ele gosta de ti, não achas?
Acho!
Então, vamos esperar para saber quem vem aí, está bem? E sabes o quê?
O quê?
Sempre quis ter um irmão. Ou dois.
A sério?
Juro!
Então, vou esperar. Helena aconchegou as peluches. O coelho era da avó Leonor, o urso da avó Dalila. Se for irmão, também fico contente.
E sabes mais? Leonor virou para a rua da casa de Matilde e André. É como um presente de Natal. Só sabes o que é quando abres!
E já me compraste o meu presente? Helena olhava-a curiosa, enquanto a despia do cinto.
Para o Natal ainda não. Mas para o teu aniversário já comprei. Queres segredo?
Sim!
A avó Dalila também já comprou, mas não te digo o que é!
Ohhh! fez Helena, meio amuada.
Anda lá, não fiques assim. Falta pouco para o teu aniversário. Logo vês.
Pronto! pegou no coelho e correu para o portão.
Leonor tirou da bagageira o saco da natação e acenou a Dalila, que vinha ao longe com Martim ao colo.
Olá, avó!
Olá, linda!
Vamos passear.
Nós vamos para o ballet. Depois trocamos.
Leonor via Helena a conversar animada com Dalila e pensou em como podia ser tão difícil e tão simples, ao mesmo tempo: bastava amar quem está ao nosso lado, saber ouvir, saber ver, saber que somos importantes e também precisamos uns dos outros. Isto é ser família.






