Para a aldeia foi uma notícia de cair o queixo: o irmão da Eva tornou-se seu marido

Para a aldeia, aquilo foi o choque do século: o irmão da Eva tornou-se seu marido. Os vizinhos até cumprimentavam de má vontade, com olhares atravessados dignos de novela da noite. Os dois juntaram as suas casas, puseram uma vedação nova e começaram, como bons portugueses, a tratar da horta, das galinhas e do queixo fresco. Só que, quando a Eva entrou na igreja, a vida dela mudou para sempre porque o destino, essa eterna trapaceira, conduz uns pelo caminho das rosas e a outros só reserva pedrinhas no sapato.

Da mãe, Eva não tinha uma única recordação. Morreu enquanto dava à luz. O pai, João, ficou sozinho com a menina, sem família nem cães ou gatos, que nem para um caldo verde havia. Algumas almas mais frias sugeriram levar a miúda para um orfanato, mas João não quis nem ouvir falar disso: A Eva é a minha gotinha de sangue, a minha estrelinha, o meu farol!

Todos os dias aparecia lá a vizinha Maria, viúva, a criar um rapazinho de 13 anos. Levava o jantar, dava banho à pequena Eva, alimentava-a e, quando precisava, embalava-a ao colo durante as choradeiras intermináveis. Um dia, a olhar para Maria com aqueles olhinhos azuis, a pequena Eva chama-lhe mamã.

Maria ficou aflita, o coração aos pinotes. João, por sua vez, deixou cair duas lágrimas do tamanho de bagos de uva. Viste, Maria? A minha filha chamou-te mãe. Então sê mesmo. E pousou-lhe um olhar terno, à espera. A Maria corou, engoliu em seco e disse: Oh João, deixa lá, ainda temos tempo para conversas sérias. Primeiro é o jantar.

Era dez anos mais velha que João, mas não era só isso que a preocupava. Não fazia ideia de como o filho, Tiaguinho, ficaria com esta história. Tiago, porém, respondeu como gente grande: Oh mãe, já somos uma família há muito tempo, não é?

Unificaram as propriedades, cercaram tudo bem direitinho, que uma vedação sempre afasta más línguas. Juntos cultivavam a horta, criavam os miúdos, tratavam dos animais, sempre com respeito e carinho. Maria olhava feliz da vida ninguém diria que era mais velha que João. Mas a felicidade, como a chuva em agosto, foi curta. Uma tarde, o João estava a escovar a crina do cavalo, e, num instante, levou um coice. Uma dor aguda, um grito, e Maria saiu disparada da casa para vê-lo caído, contorcido. Chamou logo a ambulância. Três dias hospitalizado, os médicos fizeram o que podiam, mas o João acabou por partir.

Maria, viúva pela segunda vez antes dos quarenta, viu o Tiago entrar no curso de construção civil. O rapaz foi para o internato, ganhava o almoço e um quartinho, o que já era muito, pois Maria tinha agora a pequena Eva a seu cargo.

Tiago, sempre que recebia a magra bolsa de estudante, comprava um miminho para Eva. Quando reaparecia em casa, ela corria para os seus braços. Um dia trouxe-lhe uma boneca. E, ao sentar-se no colo dele, Eva disse baixinho: Obrigado, papá. Maria sentiu o coração afundar-se: viu o Tiago desconcertado. Não dês importância, filho. A Eva esteve a ver o álbum do pai e perguntou por ele. Disse-lhe que tinha ido para longe. Deve ter achado que eras parecido Vai-lhe passar!

Mas não passou. Continuou a chamar-lhe pai. E todos se foram habituando.

Ao acabar o curso, Tiago cumpriu o serviço militar e regressou mudado: homem feito, direito, bonito. Maria esperava que ele trouxesse uma nora para casa, mas o tempo passou e o Tiago nem olhava para as raparigas. Nada de bailes, nem um vira, nem uma desgarrada. De casa para o trabalho, sempre a inventar, reparar ou refazer alguma coisa. Faço pela Eva, que é uma mulher bonita a crescer! Qualquer dia temos cá pretendes à porta, dizia, a rir.

Até que um dia, Maria caiu desmaiada na horta, a apanhar batatas. Jurou ser cansaço, mas no dia seguinte nem se levantava da cama: tonturas, náuseas, fraqueza nas pernas. Tiago levou-a à policlínica distrital do Porto. O diagnóstico gelou-lhe o sangue: tumor cerebral. O médico sugeriu que a levassem a casa: O melhor é a senhora Maria passar os últimos dias onde sempre foi feliz.

Maria foi-se apagando aos poucos. Eva, permanentemente à cabeceira, escondia os olhos vermelhos das lágrimas, sem imaginar como ia ser a vida sem aquela mãe doce e ternurenta.

Perto do fim, Maria pediu para ficar a sós com Tiago. Filho, peço-te, nunca deixes a Eva. Na verdade, nem são do mesmo sangue, entendes? Ninguém vai cuidar dela como tu. E tu também vais ser melhor, só com ela ao teu lado disse, quase sem voz. Depois do funeral, Tiago começou a mastigar aquelas palavras, até perceber que a mãe lhe pedira secretamente para casar com Eva. Mas, como é possível? Se sempre foi o irmão, o pai, agora tinha de ser marido? Isso já era pedir ao Fado para desafinar a vida toda.

Tiago foi morar sozinho e deu em mudar tudo à sua maneira. Eva não compreendia nada. O que terá feito para ele fugir dela? Sentia saudades dos risos, das conversas puxadas pela noite dentro. Quase desmaiou ao ver, um dia, que Tiago tinha posto uma cerca entre eles.

Ora uma vez, o chefe dela, na Junta de Freguesia, deu-lhe um bónus. Eva comprou um bolo-rei, uma garrafa de espumante e foi bater à porta de Tiago. Estava deslumbrante, nervosa, as bochechas rosadas. Venho celebrar foi a minha primeira gratificação, Tiaguinho! disse, cheia de esperança.

Tiago ficou feito estátua, a olhar para ela, sem saber o que dizer. Ali percebeu que estava perdido de amores, mesmo. A mãe, afinal, sempre soube.

O silêncio cresceu, mas a Eva, com aquele jeito dela, confessou: sim, talvez fosse errado, estranho, mas ela estava apaixonada por ele. E não queria mais ninguém.

No domingo seguinte, Eva foi confessar-se. O padre, depois de ouvi-la com atenção, tranquilizou-a: podia casar-se, porque de sangue não eram nada.

Assim Tiago, a quem ela chamava irmão e pai, tornou-se marido. Trinta anos já passaram. Criaram dois filhos, e agora são avós de quatro netos. Que se falou, falou-se muito, mas ambos sabem: quando há amor, é preciso paciência para ignorar as conversas e defender aquilo que importa. Que o tempo só apaga o que é fraco.

E se algo os anos ensinaram, é que um coração de mãe, abençoado por Deus, nunca se engana a sonhar o futuro dos filhos.

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