Mãe Catarina

Oh amiga, tenho que te contar uma história que parece saída de um filme, passada mesmo aqui, bem no nosso Portugal.

Estava a Violeta sentada num banco de jardim na estação de comboios de Braga, encharcada de lágrimas, quando apareceu uma senhora enorme, daquelas que enchem a alma só de olhar. Sentou-se ao lado dela e, com aquele sotaque bem nortenho, começou logo: Ó menina, que pingas são essas? Já basta estar húmido lá fora, ainda trazes a tua molha para aqui!

A mulher, que mais parecia uma mãe-galinha com corpo de aldeã, suspirou e abanou-se com um papel do Continente. Hoje está abafado que não se aguenta! E ainda por cima, chuva logo de manhã. Parece um forno a lenha, não?

Tirou da mala uma garrafa de água das Pedras, abriu-a depois de uma luta, e ofereceu à Violeta: Queres? Dizem que acalma. A mim nem um balde desenrasca…

A Violeta, bem, só queria desaparecer. Que mal teria feito para estar aquela mulher ali ao lado a meter conversa? Se era para ser castigada, porque tinha de ser assim? Ela nunca teve paciência para pessoas grandes, sempre lhe causavam espécie. Achava pouco estético, desculpa lá a sinceridade! Pensava: custa assim tanto mexeres-te, comeres menos, pensares nos outros à tua volta? Recordou-se logo da última ida ao spa com as amigas, quando a Mariana, toda fit do fitness, se recusou a entrar na piscina porque lá estava uma senhora grande. Não sou capaz, nem olhar, nem entrar, fico enojada!, bufava a Mariana. Violeta sentiu-se desconfortável, mas no fundo sabia que também pensava de forma parecida. Se não te arranjas, fica mas é em casa, não incomodes os outros.

E ali estava ela, ao lado de outra senhora que parecia ainda maior que a do spa. Falava, falava, e Violeta, exausta de passar horas a chorar, nem forças tinha para sair dali. Ficou, sem querer, a ouvir os disparates suaves da mulher.

És tão bonita… Não tens malas, nem mochila. Não vais de viagem. Estás à espera de alguém, ou não tens para onde ir? Violeta inevitavelmente olhou para ela. A mulher sorria com umas bochechas rosadas que faziam lembrar bonecas de barro das feiras em Barcelos.

De repente, Violeta não aguentou e chorou alto outra vez. E sabes o mais estranho? Aquela mulher abraçou-a, com um carinho que fez Violeta relembrar-se do cheiro que as mãos da mãe tinham flores misturadas com sabão azul e branco. E do nada, aquele abraço fez-lhe lembrar a única recordação que tinha da mãe: um campo coberto de flores onde ela lhe fez uma coroa de margaridas.

Então moça, quem te fez mal?
Violeta balbuciou que não, mas logo abanou a cabeça e acabou por admitir.
Gente ruim! Maltratar quem não fez mal a ninguém Espera aí. E já estava a tirar um guardanapo e uma maçã vermelha da mala. Come isto, que esmorecida não resolves nada.
Violeta, envergonhada, admitiu: Quase não como carne
Agora não é altura de fitas! Toma! E enfiou-lhe o sandes na mão. Violeta cedeu e, ao trincar, quase chorou de prazer estava há quase um dia sem comer e não tinha nem um euro no bolso.

A senhora, sentindo a carência, adaptou-se à conversa: E tu, o que fazes aqui? Sozinha, sem malas, sem dinheiro?
Violeta, lavada em lágrimas, acabou por contar tudo. Desde a véspera, quando o pai, depois de uma discussão amarga, lhe disse que não era filha dele, que tinha sido adotada e agora vinha um filho verdadeiro a caminho, graças à madrasta, Filipa, que era pouco mais velha que ela. Aquilo caiu-lhe como um balde de água gelada. O pai, que ela sempre sentira como porto seguro, afinal não era seu pai de sangue Tantas vezes mudaram de cidade, nunca fez amizades a sério e, agora, nem casa tinha.

A mulher ouviu sem interrupções, só entregando um lencinho barato de um café ali perto. Isso tem que se conversar com calma com o teu pai. Mas antes, diz-lhe ao menos que estás bem.
Tirou do bolso um telemóvel Nokia velho, e Violeta lá escreveu uma sms.

A mulher apresentou-se depois: Chama-me tia Amália. Moro num aldeamento perto de Braga. Queres vir comigo? Não ficares na rua, ao menos
Violeta pensou: porquê tanta bondade? O que queres tu de mim? E tia Amália, com um sorriso tão grande que não cabia nas bochechas, respondeu ao pensamento: Porque ninguém tem filhos a mais. E não se deixa criança perdida
E lá foram de comboio.

No caminho para a aldeia, tia Amália não perguntou mais nada. Para entrar na alma de alguém, é preciso jeito. Quando estiveres pronta, falas. E tudo se resolve chorar, rir, o que surgir.

Já no aldeamento, uma lufa-lufa daquelas, com gente a sair das casas, miúdos a correr pela rua, uns a dizer Mãe Amália!, outros Tia Amália!, e um velho Peugeot azul enferrujado, pintado pelo Santi, o irmão da vizinha, com um Gato das Botas na porta.

A vizinha, Inês, levou Violeta para casa dela e foi-lhe apresentando a família toda. Explicou-lhe: Vês, somos uma família inventada. A Amália não nos teve, fomos aparecendo. Tudo filhos do coração uns fugidos de maus tratos, outros sem família. Ela recebe-nos, trata de tudo, dos papéis, da escola, até das rendas faz magia.

A Amália era diabética, o coração fraquito por tanto desgaste, mas nunca parou. No início, teve dificuldades, mas depois ganhou a confiança do pai do Pacheco um rapaz especial, um bocadinho diferente dos outros, que foi adotado por ela também e que depois o pai biológico ajudou imenso, em tudo a casa, os processos, fez da Amália meio que sua advogada de serviço. Com o tempo, tudo ficou mais fácil e o aldeamento tornou-se um lar de verdade.

Para Violeta, aquele ambiente era só surreal. Nunca tinha estado à mesa com tanta gente, riso, pão, caldo verde, alegria simples, tudo sincero. Uns pais ali, outros ali, irmãos de qualquer lado, todos juntos. E começava, aos poucos, a sentir o quentinho de uma família, mesmo sem laços de sangue.

Mais tarde, o pai de Violeta apareceu, cabisbaixo, ansioso. Tia Amália foi buscá-lo a Braga e pôs ordem no assunto: Tens de pedir desculpa à rapariga e apoiá-la como sempre fizeste! E o homem, num tom envergonhado, ofereceu pagar estudos, uma casa. Mas Violeta já não era a mesma. Quero ser independente, pai. Tu ensinaste-me assim. Agora é pôr em prática.

E foi. Desejou ao pai felicidade com a nova família, ficou grata pelo apoio, mas escolheu ficar na aldeia, ao lado da Amália, a estudar psicologia infantil em Lisboa aos fins de semana e a ajudar miúdos como ela.

Quando tia Amália teve um AVC, Violeta largou tudo e foi cuidar dela. Foram meses duros, mas tão bons. A casa cheia, a bancada feita pelo Santi e pelo António para que Amália ficasse à porta a tomar sol, sempre de sorriso aberto, a ver os miúdos a brincar.

Então Amália, como te sentes na tua corte? perguntavam-lhe, gozona, enquanto o pequeno Tiaguinho tentava fazer piruetas na bicicleta, sempre a pedir: Avó, avó, viste? Quase caía!

Violeta só voltou a sair dali quando soube que Amália estava bem o suficiente para ficar com a família improvisada.

E, claro, quando casou, a primeira pessoa que convidou, mesmo antes da família biológica, foi Amália:

Mãe Amália, vem comigo? E ela, feliz: Estarei sempre aqui, minha menina, sempre…

Amiga, diz-me, como podia alguém acreditar que, num pequeno lugar de Portugal, há famílias assim inventadas, feitas de afeto, não de sangue? E o melhor? Tornam-se, sem dúvida, a família mais verdadeira da nossa vida.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

2 + nine =