A Julinha Diferente

Não é bem a Jô

Joana! Outra vez?! Valha-me Deus, tu não és uma criança, és um autêntico sarilho! Como é possível, filha?!

Mãe, eu não sei… aconteceu…

A mãe arrancava do corpo de Joana o casaco encardido, as botinhas húmidas e o gorro já sem pompom.

Todos têm filhos normais, só eu… Joana! Quando é que aprendes, hein?

Joana olhava o vestido rasgado e suspirava.

E até foi giro! O comboio humano ficou ótimo! Pena que o Alexandre puxou demasiado pelo vestido dela. Aí está, rasgado… E a dona Catarina Micaela disse logo que não foi contratada para coser vestidos, que essa tarefa era para a mãe da Joana. Pois, com razão! Só que depois a Joana teve de estar sentada num canto, o resto da tarde toda, desde o lanche até ao final. Não ia mostrar as cuecas aos rapazes, pois não?! Isso era muito indecoroso! A avó sempre lhe dizia que isso não se fazia, e a avó percebia destas coisas.

Por exemplo, sabia dizer que a Joana era assim A mãe não achava, mas a avó dizia, sem cerimónias.

Deixa lá a menina em paz! Que mania essa, sempre a ralhar!

Ó mãe, tu educaste-me assim, porque é que agora criticas? Se eu não for rígida com a Joana, o que é que ela vai ser quando crescer?

Vais ver, cresce para ser uma rapariga cheia de cabeça e beleza, como tu! Não chega?

Ah, poupa-me! Não tenho paciência para as tuas conversas! Joana! Vai mudar de roupa! Agora!

Joaninha, aliviada, escapava para o quarto e a discussão entre as duas mulheres mais importantes da sua vida continuava sem ela. Nem precisava de estar lá, servia apenas de pretexto.

Um dia, perguntou à avó:

Avó, isso de sermos sarilhas, o que é?

A avó riu-se:

Ralhar sem motivo não tem graça, minha querida. Ralhar por uma boa razão, isso sim!

Então, eu sou o vosso motivo?

O mais importante! És a única que temos, Joana. Por isso nos preocupamos tanto. Cada uma à sua maneira. A tua mãe é dura, pensa que isso é essencial. Eu… todo o rigor gastei-o na tua mãe; contigo só me restou doçura. Por isso tenho de inventar outros métodos. Uma guloseima, por exemplo…

Não gosto de broas!

Está bem, então um rebuçado.

Assim está melhor! Avó, achas que a mãe gosta de mim?

Mais do que tudo! Nem penses noutra coisa. Mais do que gosta de mim, até!

Mas está sempre a ralhar comigo…

Por isso mesmo.

Que amor esquisito Tu também gostas de mim, e nunca ralhas assim.

Sou tua avó, ela é tua mãe. É diferente, percebes?

Não

Ainda não é altura de perceberes. Mais tarde vais entender.

Mas esse mais tarde nunca mais chegava.

Joana esperava, mas a mãe ficava sempre mais rigorosa.

O que hei de fazer contigo?! Queres ver que és daquelas que vai dar problemas?

Joana ouvia aquilo mil vezes, mas durante anos nem percebeu o que queria dizer. Só se lembrava do vestido rasgado do infantário. Sempre teve vontade de perguntar como se leva alguma coisa num vestido com buraco, mas pensava melhor. A mãe não acharia graça, e Joana é que pagava.

No fundo, tantas preocupações da mãe eram descabidas.

Desajeitada, meio desastrada, Joana até se achava banalíssima. Tanto fazia o que dizia a avó! O espelho é que sabia a verdade:

Lá só via… nada de bom! Os olhos pequenos, um rabo-de-cavalo curto de cabelo escuro e borbulhas no nariz. Linda? Nem por isso.

Aceitou essa verdade da vida há muito tempo, por isso nem se preocupava com vaidades. Assim era mais fácil, para todos. Nada de roupas da moda, nem sapatos novos. Os ténis velhos serviam para tudo, excepto quando ia ao teatro com a avó. Nesses dias, pegava nos sapatos a sério.

Joana adorava o teatro. Pena ir tão pouco. O dinheiro não chegava para bilhetes. A avó ainda juntava do pouco da reforma, mas demorava… Por isso, desde o sétimo ano, Joana começou a ajudar a vizinha, a tomar conta dos dois gémeos dela, ganhando os seus primeiros tostões. Os miúdos eram traquinas, mas educados, e Joana, que não tinha irmãos, gostava deles como se fossem quase família. Achava mais alegria do que obrigação.

Simpático! Brincava, dava-lhes o lanche à colher, e voltava para casa. E nada de discussões, nem rabiscos nas coisas dela, nem quartos partilhados. Perfeito!

Não era egoísta, apenas percebia que para criar dois filhos já era caro. E em casa? Era o salário de enfermeira da mãe, mesmo sendo nos cuidados intensivos, e a reforma da avó. Mais importante ainda, não havia pai. Joana nunca o viu, nem tinha curiosidade, por ser sincera.

Nunca contou estas reflexões à mãe. Para quê? Já bastava o que a mãe passava. Só faltava mais angústia.

Ainda bem que, durante um tempo, a avó se lembrava do pai. Um dia, contou tudo à neta, enquanto ainda se recordava.

A tua mãe para ele não era importante.

Porquê?

Era um conquistador. Tinha várias! Bem lhe disse, ela não quis ouvir. Apaixonou-se, dizia que ele ia casar com ela e as outras eram só juventude.

Casaram?

Casaram, pois, a tua mãe quando quer uma coisa não desiste. Mas de que valeu? Soube que ela estava grávida de ti e evaporou-se. Como quem foge ao toque do sino. Nem sabemos para onde foi. Só deixou um bilhete.

E dizia o quê?

Não interessa para ti, Joana. Coisas dos adultos, cada um com a sua vida. Mas ouve uma coisa: tu foste a menina mais desejada da tua mãe. Ela andava nas nuvens enquanto esperava por ti, tratava-se como um vaso de cristal cheia de medo que alguma coisa te acontecesse. E nunca deixou de ter esse medo. Porque achas que ela te ralha e educa tanto?

É por isto?

Claro! Tem medo por ti! Às vezes fica acordada à noite, a olhar-te, acaricia-te os cabelos e quase chora. Se pergunto, refila. É só dela. Mas ama-te, Joana, à sua maneira. Percebeste?

Penso que sim Avó, e tu também ralhaste tanto com ela?

Pois claro! Todas as mães são iguais. Fazemos asneiras por medo, e depois arrependemo-nos.

Mas porque é que temos de ter esse medo?

Não sei, Joana. Não se explica. Quando fores mãe, talvez percebas.

Joana não disse nada, mas pensou: ela nunca ia ralhar assim com os filhos. Ia educar diferente. Inocente… mas quando somos novos, quem não é?

Mas filhos ainda estavam longe dos planos dela. Nem acreditava que isso viesse a acontecer.

Quem quereria alguém como ela? Baixinha, feia, um sarilho pegado! Se cola, pronto, habituem-se.

Ao acabar o curso de auxiliar de saúde, Joana foi trabalhar para o mesmo hospital da mãe. E então recomeçou tudo!

Nada estava certo! Dizia-se que Joana era rápida demais, que se envolvia com os doentes, que devia ser mais fria, porque senão montam-se-lhe em cima. E que por muito que tentasse, não valia a pena.

Mas Joana não queria ouvir. Tudo o que os doentes sofriam mexia-lhe com o coração. Custava-lhe muito Era-lhe tão fácil dar uma injecção, ou ajeitar a cama, ou dizer uma palavra amável. Isso até as gatas gostam de ouvir, quanto mais as pessoas.

Nem a mãe queria que ela se metesse em tudo.

Filha, não te metas em abrigos de fogo, aqui ninguém gosta de heroínas. Só vais arranjar confusão. Eu, tu, a avó precisamos desse ordenado. Não podemos pôr a avó num lar. Uma cuidadora é cara, sabes bem. Tens de trabalhar, ganhar experiência. E quem fica com a avó?

Mãe, não consigo ser diferente! Eles ralham com os doentes, são mal-educados…

O trabalho é ingrato e as pessoas diferentes. Percebes? Devia ser como tu fazes, mas nem todos conseguem. No vosso serviço, há três assim… É já muito bom, a tua chefe disse-me isso. Mas pediu que sejas mais calma. Não vais mudar ninguém à força, filha. Se deres o exemplo, quem sabe?

Isso demora

Oh Joana! Mas porquê és assim?

Como?

Teimosa!

Não sei. Se calhar, como tu.

Joana!

O quê?

Nada! Segue o que a mãe diz!

Está bem…

Joana evitava discutir, mas nem sempre ouvia a mãe. Talvez tivesse razão, só que… havia lá na enfermaria uma idosa teimosa como cem pulgas, que todas as manhãs sorria para Joana. Nunca se queixava dela por causa das injecções, nem da falta de atenção. Das outras sim, mas dela não.

E não era só ela. Havia tantas… Gente sofrida, consumida pela dor, zangada com a família… Joana via e ouvia tudo. Visitavam, discutiam heranças ou coisas parvas, e os doentes ficavam a chorar Perceber, ela percebia.

Só que a mãe só queria saber se Joana estava bem. Mas alguém está se os outros ao lado estão mal?

Claro, não podia resolver tudo, mas se pudesse ajudar alguns

As colegas riam-se dela, diziam que a Joana é santinha e que devia ir para o convento. Problema delas! A avó dizia sempre: a caravana tem de seguir o caminho, não importa o resto…

E Joana ia andando, mesmo a sentir-se um bicho raro.

É duro sentirmo-nos incompreendidos. Ainda mais quando falta aquele alguém que nos diga és assim, e está bem.

Não é que Joana precisasse de aprovação. Acostumara-se a viver sem ela. Mas desde que a avó desapareceu para o mundo dos esquecimentos, Joana pouco tinha com quem falar de verdade. A mãe suspirava, empurrava-a para sair com as amigas, mas sabia que era inútil. Joana tornava-se numa solteirona e recusava a ideia de amor ou família.

Mãe, se queres netos, diz! Faço-te um par. Hoje em dia é fácil…

Joana! Que cinismo é esse?!

Que queres que te faça? Príncipes há poucos e não chegam para todas! É a natureza, mãe. O que esperas de mim?

Quero que sejas feliz…

Então para de falar sobre a minha vida amorosa. Não se resolve sozinha! Está bem como está. Não fales mais nisso…

E a mãe abrandava, resignada, só lhe restando esperar pela sorte. Os filhos das amigas estavam todos já protégés, o resto era confiar na vida.

E foi então que a vida resolveu dar-lhe um presente, mas não como Joana sonhava.

Pensava que o seu príncipe apareceria por acaso e esperaria pacientemente pela resposta, mas não foi assim.

Tudo começou com a tal idosa refilona, a Maria Alexandrina. Aparecia no serviço hospitalar da Joana duas vezes por ano, criando sempre alvoroço nas enfermeiras.

Lá vem ela, já vão começar as reclamações! Joana, é tua protegida!

Maria Alexandrina recuperava o ânimo só de ver a Joana a correr pelo corredor.

Menina, adoro ver-te! Ao menos aqui há um rosto humano.

Oh, não diga isso. As nossas colegas são todas ótimas!

És muito ingénua, por isso ainda não percebeste! Eu já vi muito na vida!

Eu levo-a ao quarto, que já pôs toda a gente em polvorosa…

Que tenham medo, faz-lhe bem!

Que refilona, Dona Maria…

Sou, sou, mas a minha gata é pior! Essa é que tu devias conhecer!

Joana ria, mas nem ligava ao assunto, sem saber o que o futuro lhe reservava.

Um dia, Maria Alexandrina apareceu diferente, calada, estranha. Entrou no quarto sem discutir, deitou-se e virou-se para a parede. Respondeu a tudo com um simples deixa-me, filha… depois falamos

Em poucas horas, Joana já sabia do diagnóstico e que Maria viera ao hospital por vontade própria.

Zangou-se com os filhos, agora sofre. A vida é assim. Se não aquece o coração, depois acaba sozinha.

Joana ouvia sem julgar. Quem é que sabe mesmo dos assuntos dos outros? Cada casa, sua sentença.

No fim do turno, Joana espreitou o quarto.

Precisa de alguma coisa?

Maria ficou a olhar muito tempo, e depois falou.

Joana, quero pedir-te um favor… mas não sei como… nunca pedi nada. Sempre fui ensinada pela minha mãe a lutar à força. Se queremos alguma coisa, temos de ir atrás! Mas não me explicou o que fazer se um dia já não conseguir…

Diga, não tenha medo.

Olha, tenho família para dar e vender, mas não confio em ninguém. A vida passou e não há muito para recordar. Trabalho, problemas e círculos viciosos, alegrias poucas, chatices muitas. Fiquei a pensar que ao menos criava os meus filhos bem mas só estraguei. Até partilham as minhas coisas em vida! Tudo o que consegui foi para eles casa, suporte, estudei-os, ajudei com os netos. Mas agora, para eles, já não conto. Só me sobra a gata. Joana, leva a minha Miúda!

Quem?

A minha gata! É refilona mas muito esperta, entende tudo! Antes de vir, não me largava. Não me deixava sair de casa…

Joana hesitou.

Gostava de animais, mas nunca tiveram nenhum lá em casa, por causa da avó, e também, o dinheiro não chegava.

Mas não conseguiu recusar. Maravilhou-se com aquela mulher a pedir ajuda pela primeira vez. E pensou: quem é ela para julgar?

Ao final do turno foi ter com a mãe.

A Maria Alexandrina pediu para ficar com a gata dela. Achas mal?

Podes trazer, Joana. Mas é só por uns dias!

Claro que sim, promete!

Maria acenava, pela primeira vez parecia uma velhinha normal, e não um furacão.

A Joana, ao chegar ao prédio da Maria Alexandrina, ficou uns segundos à porta, com a chave, sem coragem de entrar sozinha. Bateu à porta da vizinha do lado.

Desculpe, a Dona Maria pediu-me para ir buscar a gata. Pode aguardar aí enquanto a tiro lá de casa?

Sozinha não entras, né? Fazes bem! Aquela velha é refilona, mas olhe, está bem, vamos lá!

E ficaram à espera.

Ao abrir a porta, vê um trovão negro a atravessar o corredor, galgando escadas.

Fecha a porta! gritou a vizinha. Não a apanhas agora! É brava. Força e paciência!

Obrigada!

Desceu as escadas a saltar, torcendo para que a porta do prédio estivesse fechada.

Nada! Estava aberta. Homens carregavam móveis do elevador.

Viram uma gata a passar? perguntou, sem esperança.

Um deles acenou para as árvores nas traseiras.

Subiu para uma árvore!

Os outros riam, vendo Joana à caça da gata. Não iam ajudar não era trabalho deles, tempo é dinheiro!

Joana nem via a gata, só ouvia o miar e os rosnados no meio dos ramos.

Miúda, psst, psst…

Só ouvia rosnados.

Ai, que bicho! suspirou.

Tinha mesmo de subir. Não havia volta a dar. Com uma gata dessas, ninguém ia buscar por ela.

O bairro estava deserto, começou a cair aquela chuva miudinha que faz lembrar o outono. Ela só queria estar em casa, debaixo da manta com o chá, com um auricular na orelha (o outro a ouvir a mãe, claro). Agora, estava ali, a tentar salvar a Miúda.

Tinha dado a palavra, tinha de cumprir.

Ajustou a mochila, agarrou no ramo, e vá, mais uma subida.

A gata cada vez mais perto, até que sentiu uma pata a raspar-lhe a cara.

Miúda, perdeste o juízo?

Baixou o tom. E se a gata realmente entendesse tudo?

Conseguiu agarrar a gata pela pele do pescoço.

Larga o ramo!

Resmungava quase tanto como a gata. A Miúda lá percebeu e deixou-se enfiar no casaco. Seco e quente, calou-se logo, e Joana também.

Agora, descer… Isso sim, complicado. Joana percebeu que tinha subido sem pensar, mas sempre teve medo de alturas desde miúda. E a Miúda, teimosa, estava bem alto.

Aperta-a dentro do casaco, olha para baixo… e tapa logo os olhos.

Ó mãe…

Era realmente alto.

Ficou ali, presa ao ramo, a distinguir-se apenas pelas asneiras que murmurava. O telemóvel tocava sem parar, mas com medo de cair, nem se moveu.

Gritar? Pedir ajuda? Tinha vergonha, não queria fazer figura de tola. Só culpa dela.

Está-te a saber bem aí, é?

A voz surpreendeu-a tanto que quase caiu.

Calma! Aguenta-te! Já venho aí buscar-te, espera um pouco!

Ele falava como se ela pudesse ir a algum lado

Pois Está bem, eu espero ironizou.

Ele disse Hmm… e foi-se embora, deixando-a a praguejar.

Ia praguejar-lhe mais, mas nem tempo teve.

O rapaz voltou, encostou uma escada ao tronco que apareceu não se sabe de onde, e ordenou:

Anda daí! Ou vais dormir aí em cima?

Joana, de olhos fechados, abanou a cabeça, esquecendo-se que ele nem a via.

Tenho medo…

Nem acabou a frase, sentiu alguém a agarrar-lhe a perna, escorregou na rama e, no instante seguinte, já estava na escada, nem soube como.

Aguenta-te! Eu seguro-te, desce devagar!

Obedeceu. Assim que pisou o chão, a gata quis fugir, mas Joana já estava alerta. Voltou a metê-la dentro do casaco.

Quietinha aí! Prometi que tomava conta de ti, e tomo!

És determinada, hã…

O rapaz era magro, de ar despretensioso, e observava-a com uma expressão marota.

Precisas de companhia até casa?

Não, obrigado Joana quase bufou, mas arrependeu-se. Afinal, o rapaz apanhou-a encharcada numa árvore, arranjou uma escada só por ela!

Desculpa… Obrigada mesmo, se não fosses tu ainda lá estava no alto!

Porquê?

Tenho vertigens.

E então porquê que subiste?

Pela gata… Tenho de ir, a minha mãe está preocupada.

Não me trates por você. Depois de ver o teu rabo molhado e salvar-te vida, podes-me chamar Tomas. Venho contigo até ao metro. Moras longe?

Não muito…

E Joana sentiu de repente um quente no peito, como se a alma flutuasse e tudo passasse a ter outro sabor, ao ouvir as piadas do Tomás.

A Miúda, aninhada no casaco, nem miava, também sentia era uma alegria nova. Não se via, mas estava ali.

Tomás levou-a até casa e, no dia seguinte, esperava-a à porta do hospital, para irem ao supermercado comprar comida especial para a Miúda, que parecia entender tudo e não comia qualquer coisa.

Joana tomou conta dela durante uma semana. Foi só isso. Até que a filha da Maria Alexandrina veio buscá-la.

A minha mãe sente tanto a falta dela… é melhor ficarem juntas.

Vai buscar a sua mãe, também?

Claro, é a minha mãe! Sempre a teimar que não queria ir lá para casa, mas agora não há volta a dar. Obrigada!

E Joana acenou à mulher que levava a Miúda ao colo, murmurante, ao pensar como nunca sabemos o que se passa no coração de família alheia. Não inventemos dramas onde não há.

Se o mais importante no fim é que a gata voltou para quem precisava, então talvez nada seja tão simples como parece.

E, afinal, mais vale construir a nossa própria família, se temos com quem. Porque, no fim, não interessa quem fala primeiro do que sente. Importa é outra coisa.

O que importa mesmo é isso: que o tal com quem queremos estar encontre tempo e escada, exactamente quando precisamos. E que nunca nos diga que não somos normais. Porque para ele, não haverá no mundo ninguém melhor que nós.

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