Amiga Imaginária
À volta da Benedita, já iam três dias em que um mar de alunos andava atrás dela. A rapariga tinha ganho fama na escola inteira como vidente e conselheira de primeira. Toda a gente queria ouvir um pouco da sua sabedoria. Apanhavam-na junto à casa de banho, sentavam-se a seu lado no refeitório, levavam-lhe rebuçados, cadernos com exercícios de Matemática e outros presentes, mas por alguma razão ela recusava sempre tudo.
Gosto do Nuno, do 5.º B. Achas que podíamos casar e ter filhos? perguntava, sonhadora, a Matilde, colega de turma.
Não recomendo respondeu Benedita, calmamente, mordiscando um pão de Deus e bebendo um galão. O Nuno parece bom rapaz, mas passa a vida a levar o dedo ao nariz e depois… comes o resto. Ao menos fome não vai passar, mas duvido que evolua muito nisso. Vai passar a vida nesse ciclo.
Ai, que nojo! E o Tomás? Ele é óptimo aluno, anda a aprender guitarra continuou Matilde, abrindo um sorriso esperançoso.
O Tomás, esse, trata mal os gatos. Prende-lhes latas ao rabo e corre atrás deles nos quintais. Vai ser daqueles frios e, olha, ainda acaba amigo da bebida.
Mas porquê que dizes isso?
Já viste algum guitarrista que seja abstémio? Muito cedo ainda para pensares nessas coisas. Aproveita e arranja as tuas contas a matemática e pára de roer as unhas, ou ainda apanhas lombrigas.
Eu não tenho amigos. Chamam-me gordo e ninguém me convida para nada, disse o Diogo, do 4.º C, empurrando Matilde para longe, até ela escorregar bancada fora.
Na quarta-feira abre a inscrição para Karaté. Podes deixar o teu nome na sala do professor de Educação Física. Não vais emagrecer, mas pelo menos ninguém te chama nomes. E não voltes a empurrar assim a tua futura esposa.
Benedita levantou-se da mesa e foi deixar o tabuleiro na copa.
Benedita, achas que devia tirar a carta este ano ou espero pelo próximo? disfarçou a pergunta a professora de Geografia, Dona Manuela, frente ao lava-loiças.
Oh Dona Manuela, para tirar a carta convém ter carro. A sua mãe ainda lhe empresta o Renault 5? Vê logo a diferença?
S-s-sim, acho que percebo
Benedita revirou os olhos, lavou as mãos e acrescentou:
Venda o carro enquanto ainda vale alguma coisa, compre antes uma bicicleta e uns calções que em dois meses já tem boleia para o trabalho. Melhor ainda, invista numa casa os juros agora são de manteiga, e viver com os pais aos trinta e cinco não é coisa que se aconselhe. Digo eu, que sei.
Com o olhar atónito de todos, Benedita encaminhou-se para a aula de Educação Visual.
Durante quarenta minutos, enquanto as colegas tentavam aprender a passar linha na agulha e a usar o giz, Benedita remendou umas calças velhas, apertou a saia da irmã e ainda fez, à pressa, umas meias de lã que ofereceu à professora grávida, avisando que pé quente, gravidez contente. A professora faltou ao resto das aulas para ir comprar um teste de gravidez à farmácia. No dia seguinte o prémio foi um delicioso bolo de chocolate que ela partilhou com a turma, agradecendo à Benedita.
Em casa, também era um caso único. Criticou a mãe pelo frango de supermercado, meteu mãos à massa e preparou pataniscas de bacalhau. Em vez de se pôr a ver vídeos no YouTube, agarrou no “Os Três Mosqueteiros” e, de tempos em tempos, murmurava frases para o ar. O pai espreitava-a por cima do ecrã do telemóvel, até ela lhe dizer para se endireitar e ir antes sacudir o tapete do corredor, em vez de andar a navegar por sites duvidosos.
Na escola, começaram a circular rumores. Os professores preocupados chamaram o psicólogo. Organizaram uma sessão especial durante o horário de aulas com todo o conselho pedagógico, até o diretor se juntou.
Benedita, querida, alguém te anda a perseguir na escola? começou o psicólogo de barba bem aparada e óculos de armação moderna.
O que me chateia é que a escola recebeu milhares de euros, mas para o ginásio só veio o velho cavalo de madeira e um pedaço de corda, respondeu Benedita, cravando os olhos no diretor, que fingiu atender uma chamada e escapuliu pela janela.
E amigos, tens?
Amizade é um conceito abstrato, respondeu Benedita, entrelaçando as tranças. Hoje brincam contigo ao salto, amanhã a tua amiga lava-te a loiça enquanto tu fazes as contas do IRS.
IRS? Loiça? Quem te disse essas coisas?
A minha amiga.
Aqui está o problema! Podes chamá-la?
Ela já está aqui, disse Benedita sem vacilar, deixando todos em choque.
Não a vemos. Como se chama?
Dona Graciete.
E quantos anos tem?
Setenta.
E o que te diz ela?
Que é preciso lavar os dentes desde a gengiva, que o cão do vizinho não é mau, apenas assustado e esfomeado, que não devemos esquecer os familiares. E que a vocês, no último quinquénio, calcularam mal o IMI. Devem ir às Finanças e pedir para reverem pelo valor de mercado, porque andaram a considerar pelo valor patrimonial.
O psicólogo anotou tudo, sublinhando bem a última parte.
No final, chamaram os pais da Benedita ao telefone, que estavam a trabalhar.
Espera aí! exclamou o pai, do outro lado. Graciete era o nome da minha mãe! Faleceu há dez anos.
O gabinete encheu-se de suspiros e murmúrios de oração.
Pois, passaram dez anos e nem uma visita. O mato subiu, a cerca está torta, resmungou Benedita.
Pois, eu queria ir… mas nunca arranjo tempo… respondia o pai, engasgado.
Sessão terminada.
No dia seguinte, todos juntos rumaram ao cemitério. Benedita nunca conheceu a avó, apenas ouvira algumas histórias vagas do pai. A campa custou a encontrar, porque aquele antigo pinhal estava agora transformado num mar de pedra. Levava ela um ramo de tulipas amarelas, que pôs numa garrafa de água cortada. O pai endireitou a cerca, a mãe limpou as ervas.
Pai, a avó diz que és boa pessoa mas demasiado metido no trabalho e na internet, daí não sobrares tempo para nada, nem para mim.
O pai ficou vermelho e assentiu em silêncio.
Diz lá que vamos mudar, pediu-lhe enquanto lhe fazia uma festa na cabeça e acariciava a fotografia desbotada da pedra.
Agora sim, ela vai descansar. Não me vai aparecer mais, mas vou ter saudades; era mesmo boa, divertida e muito sábia.
Era, sim, a tua avó via tudo nos outros. E diz-te mais alguma coisa?
Diz. Que a tua dieta da sopa de couve não serve para nada. Se queres emagrecer, vai antes ao ginásio. E que não valia a pena abrir aquela conta em francos suíços era melhor teres feito bem as contas antes. Ah, e sobre aquele cimento manhoso para a base do anexo…





