Quando eu visitava a Zélia, ela parecia até ficar mais atrapalhada de alegria só de me ver. Era entusiasmo puro. Corria de um lado para o outro, ajeitava-se, apanhava as roupas largadas pelo sofá aquelas que tinha experimentado antes da minha chegada e tirava os rolos do cabelo. Depois ia a correr à casa de banho, penteava-se, passava baton nos lábios. E aí sim, vestida com o que ela achava ser o máximo da elegância, lá vinha, confiante, ao meu encontro.
Também, como é que não havia de estar feliz? É fácil perceber.
A Zélia era mãe solteira. Nunca fora mesmo casada. Chegou a estar um ou dois meses envolvida com o seu Toninho, mas ele depois foi-se embora da cidade para a terra dele, que ela nem nunca chegou a saber direito onde ficava. Talvez fosse das bandas da Galiza, ou de Trás-os-Montes, nem ela sabia bem. Por cá, trabalhava na praça como vendedor. Fazia sabe-se lá o quê, também nunca perguntou.
Pois é, lá se foi o grande amor da Zélia, deixando-a ligeiramente grávida. Bem pouco, duas semanas talvez, que a própria ainda nem sonhava. Só depois, quando o Tony deixou de passar lá as noites e desapareceu de vez durante um mês, é que ela percebeu… digamos… que ia ter a companhia de alguém para o resto da vida.
No tempo certo, nasceu um menino, bonito como tudo! Também, como não havia de ser a Zélia era uma mulher formosa, e o Tony, um galã.
Teve sorte com o menino. Era sossegado como só ele: dormia quase sempre e, quando acordava, mamava no peito dela de olhos bem abertos, todo atento. E leite não lhe faltava, tinha tanto que podia alimentar outro miúdo sem problema.
Nunca foi de adoecer, o pequeno Salvador. Praticamente passou ao lado das maleitas típicas dos bebés.
E chamei-lhe Salvador em homenagem ao actor Salgueiro Maia, porque, na gravidez, a Zélia apanhou por acaso um velho filme dos anos sessenta na RTP, onde o herói era interpretado por Maia, que fazia lembrar vagamente o Tony. Assim ficou decidido: Salvador António Pereira. Zélia repetiu cem vezes o nome completo, escutando o som, gostando do que ouvia música para os ouvidos dela.
Dava gosto ver o pequeno. Para conseguir fazer as lides da casa, Zélia deitava um cobertor no chão da sala, rodeava o Salvador de cadeiras, inventava uma espécie de parque improvisado, colocava-o lá no meio, entregava-lhe a sua mala velha, uns rolos de cabelo, uns panos. E o puto entretinha-se, sem um queixume, sem birras. Até uma vez, quando ela foi espreitar e apanhou o menino com a cabeça entalada entre duas cadeiras (devia estar a tentar sair dali), ele nem chorou, só emitia uns sons abafados e tentava afastar as cadeiras com as mãozitas gordas.
Quando foi crescendo, nem assim arranjava chatices. Zélia deixava-o sair brincar para o pátio, só lhe pedia para ir à janela, de dez em dez minutos, (moravam no rés-do-chão), e gritar: “Mãe! Estou aqui!”
Como ainda não sabia as horas, corria à janela a cada três minutos, gritava até ela aparecer e responder: “Está bem, filho!” E ele continuava a olhar, preso, sem se ir embora. Só quando ela lhe sorria de verdade nunca forçado, porque ele percebia é que desatava a correr e voltava a brincar com os outros miúdos.
Numa dessas fugas para rua, uma vez apareceu a gritar o “mãe, estou aqui”, e quando Zélia olhou, viu-o aconchegando um gatinho ao peito:
Mãe, foi a vizinha que mo deu. Disse que se chamava Timóteo. E que ia ficar mais feliz connosco, que devíamos cuidar muito bem dele.
O miúdo estava tão sincero e orgulhoso que a única coisa que me ocorreu fazer foi sorrir-lhe de volta. Depois, disse:
O Timóteo deve ter fome. Venham os dois para casa, que eu dou-lhe leite.
E lá foi o Salvador todo contente para cima, com o Timóteo atrás. Feliz, o Salvador. O gato ainda estava à procura da felicidade dele.
E assim vivíamos, os três juntos. Até ao dia em que Zélia conheceu o Valdemar.
Era do tempo dela, também nunca tinha casado. Era um tipo ponderado, com boa presença, apesar de não ser muito novo. Trabalhava numa fábrica de móveis e até trazia bom ordenado para casa. Ao sábado, aparecia para passar a noite com ela. Falava pouco, mas comia bem e não era propriamente dado à pinguinha. Para ele, Zélia deixava sempre uma garrafinha de aguardente branca no congelador e servia-lhe num cálice facete, daqueles com pé baixo, que ele adorava.
Dessa vez, tudo correu como sempre. Valdemar chegou, cumprimentou o Salvador logo à entrada. Sentou-se a ver televisão enquanto Zélia terminava os seus preparativos. Depois, lá jantámos os quatro já que Timóteo era parte da família, sentado ao colo do Salvador.
O habitual era que, depois do almoço, todos descansássemos um pouco, para mais tarde darmos uma volta ao jardim da vila.
Mal Zélia fechou a porta do quarto do Salvador, aninhou-se a meu lado, deitou a cabeça no meu braço. Pela primeira vez, falou-me de casamento:
Penso que, para começar, talvez fosse melhor ficarmos aqui na tua casa. Depois, podíamos juntar-nos num sítio maior. Ou talvez arrendar o meu apartamento, sempre era um rendimento extra Só que, Zélia, sabes uma coisa Eu não aprecio gatos. Vai ser preciso encontrar um novo lar para o vosso Timóteo
Timóteo, corrigiu ela, logo tensa.
Isso mesmo, o Timóteo
E ficou calado, ganhou ar sério, rematou:
E o Salvador podia ir para a aldeia com a minha mãe. Lá o ar é mais puro, tem escola, tudo como deve ser. Ainda somos jovens, vamos ter a nossa própria filharada.
A cabeça da Zélia ficou petrificada no meu ombro, nem se mexeu. Ficámos em silêncio assim uns minutos. Depois ela levantou-se, com vergonha, quase como se eu nunca a tivesse visto despida. Enrolou-se no roupão, pegou nas minhas calças, que estavam na cadeira ao lado, chegou-se a mim e disse:
Pronto Olha as tuas calças… Veste-te lá e põe-te a andar
Ir-me embora? Para onde?
Para casa da tua mãe, para a aldeia. Apanha lá o arzinho bom Eu, o Salvador e o Timóteo, já temos ar fresco suficiente aqui no nosso pequeno jardim…





