O meu filho não ligava há três meses. Pensei que estava ocupado com o trabalho. Acabei por ir visitá-lo de surpresa. Uma mulher estranha abriu-me a porta e disse que vivia ali há meio ano.

O meu filho não me ligou durante três meses. Pensei que andasse ocupado com o trabalho. No fim, decidi eu mesma ir ao Porto, sem avisar. Quem abriu a porta foi uma mulher desconhecida, que disse morar ali há meio ano.

Se nesse dia não tivesse apanhado o autocarro para o Porto, talvez ainda hoje me iludisse, acreditando que o Mário apenas estava assoberbado de trabalho.

Que era o emprego, que tinha um projeto, que os jovens hoje levam a vida a correr e esquecem-se de ligar às mães. Mas fui. E o que vi à porta do apartamento dele trocou-me o chão.

Começou de forma inocente. Normalmente ligava-me ao domingo, perto do meio-dia, entre o meu caldo verde e o café dele. Às vezes, a meio da semana, mandava mensagem: perguntava-me pela tensão, se já tinha ido ao médico, se a dona Balbina do rés-do-chão ainda batia com os tacões. Coisas do dia a dia. Depois da morte do meu Daniel, essas chamadas eram o ar que eu respirava. O único fio a que me agarrava.

Sessenta e um anos, viúva há quatro, trinta e dois anos a trabalhar nos serviços de cartografia da câmara municipal e de repente a aposentação, casa vazia, silêncio. E esse único telefonema dominical a preencher tudo.

Em maio, o Mário deixou de telefonar.

Ao início não me preocupei. Primeira semana achei que se tinha esquecido. Enviei mensagem. Respondeu seco: Muito trabalho, depois ligo. Não ligou. Segunda semana nova mensagem. Está tudo bem, mãe, depois falamos. Terceira silêncio. Liguei, não atendeu. Só respondia horas depois, mensagens estranhas, como se fosse outra pessoa a escrever por ele.

A minha amiga Judite, parceira das aulas de ginástica no centro cultural, disse-me diretamente:

Rosália, vai lá ter com ele. Algo não está bem.

Se calhar arranjou namorada e não quer contar desculpava-o mais a mim do que à Judite.

Ainda mais razão para ligar encolheu os ombros.

Mas fui adiando. O Mário nunca gostou de surpresas. Ainda em vida do Daniel, uma vez lá aparecemos sem avisar e ele olhou-nos como se o tivéssemos apanhado em flagrante. No fundo, só tinha a cozinha desarrumada. Ele era assim precisava do seu espaço. Sempre tentei compreender isso. Ou pelo menos achar que compreendia.

Em agosto, não aguentei mais. Comprei bilhete para o autocarro Coimbra-Porto, três horas de viagem. Levei um frasco do meu doce de abóbora e uma caixa de pudim caseiro, que o Mário adorava desde os tempos de liceu. Fui a pensar no que lhe diria. Que tenho saudades. Que não precisa de telefonar todos os dias, mas uma vez por semana também não é pedir muito. Que sou mãe dele, não um fardo.

Cheguei ao prédio perto das três. Terceiro andar, porta à direita, capacho castanho a dizer Bem-vindo, que lhe tinha comprado para a mudança de casa.

O capacho já lá não estava.

Em vez disso, só um tapete cinzento, sem graça. Toquei à campainha. Abriu uma mulher jovem, talvez trinta anos, cabelo escuro em corte bob, de fato de treino e com uma caneca de chá na mão.

Boa tarde, procuro o Mário Oliveira disse, tentando manter a calma.

A mulher franziu o sobrolho.

Não há aqui nenhum Mário. Estou cá há seis meses.

Fiquei ali, com o pudim na sacola e o frasco de doce na mão, sem saber como respirar. A mulher Inês, como depois se apresentou deixou-me entrar, talvez por achar que ia desmaiar.

A casa era outra. Móveis diferentes, cortinados novos, até as paredes pintadas de fresco. Nada do que me lembrava. Nenhum vestígio do meu filho.

A Inês alugava a casa através de uma agência. Não conhecia o proprietário, tudo tratado por intermédio. Deu-me o contacto da agência. Liguei logo dali, sentada no sofá onde, há meio ano, estivera o Mário.

O senhor da agência confirmou Mário Oliveira pôs o apartamento a arrendar em fevereiro. Não, não deixou morada alternativa. Sim, paga sempre a renda direitinho, transferência de uma conta portuguesa.

Voltei para Coimbra no último autocarro. Não chorei. Estava demasiado atordoada para isso. O meu filho o único, o que me deu o braço no funeral do Daniel, que me ajudava com os impostos, que repetia “mãe, podes sempre contar comigo” saiu, arrendou a casa a uma estranha e não me disse uma palavra.

Três dias sem lhe telefonar. Queria ver se ligava ele. Não ligou.

Ao quarto dia, escrevi-lhe: Estive no Porto. Sei que não moras na rua D. João IV. Liga-me.

Ligou passado uma hora. Pela primeira vez em três meses, ouvi-lhe a voz ao vivo.

Mãe, eu desculpa. Devia ter contado.

Onde estás?

Silêncio. Um silêncio pesado.

Em Hamburgo. Na Alemanha. Desde março.

Sentei-me à mesa da cozinha. Lá fora, a vizinha estendia roupa na varanda, como se tudo estivesse normal, e a minha vida ia-se abaixo.

O Mário falou muito. Que depois de o pai morrer andava sufocado. Que as minhas chamadas, as perguntas pela tensão, o pudim que eu enviava tudo o oprimia. Que não conseguia dizer-me, com medo de me magoar. Por isso escolheu o caminho mais errado fugir.

Senti que, se não saísse, asfixiava disse ele baixinho. Não por tua causa, mãe. Mas por sentir que tinha de ocupar o lugar do pai. Tapar esse vazio.

Quis gritar. Quis dizer-lhe que nunca lhe pedi isso. Mas quando fechei os olhos e tentei ser honesta, revi aquelas conversas de domingo, em que lhe falava de cada dia, cada consulta, cada fatura. Como se, em vez de filho, fosse meu marido.

Não o disse em voz alta. Ainda não estava pronta.

Volta pelo Natal só isto respondi.

Eu volto, mãe.

Ficou silêncio. O pudim que levara ao Porto ficou intacto na bancada. Comi uma fatia sozinha. Estava bom. Sempre esteve.

O Mário veio em dezembro. Sentou-se à mesa da Consoada à minha frente no lugar que fora do Daniel, mas já não como substituição. Como adulto, que magoou, mas teve as suas razões. Não falámos de Hamburgo durante o bacalhau. Talvez um dia conversemos. Talvez nunca aconteça.

A Judite, de vez em quando, pergunta se já lhe perdoei. Não sei responder. Apenas sei que agora, quando o Mário me telefona ao domingo e telefona sempre , faço por falar menos. Pergunto mais vezes como está, em vez de só contar como estou eu. Pouco, mas é um começo.

Às vezes, o maior gesto de amor de uma mãe por um filho adulto é saber deixá-lo partir. Mesmo quando nunca ninguém lhe explicou como se faz.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

two + 5 =

O meu filho não ligava há três meses. Pensei que estava ocupado com o trabalho. Acabei por ir visitá-lo de surpresa. Uma mulher estranha abriu-me a porta e disse que vivia ali há meio ano.
O Exame Decisivo: Desafio Final dos Estudantes Portugueses