Hoje de manhã, a minha mulher, Mafalda, avisou-me que vamos ter o nosso quarto filho. E acrescentou:
Não há dinheiro para comprar casa. Por isso, temos de conseguir uma do Estado. Tu não és bom a reivindicar direitos, portanto, enquanto não a conseguirmos, vou ter um filho por ano: se não conseguimos pela qualidade do pai, conseguimos pela quantidade de filhos!
Chegado ao meu Instituto, abri timidamente a porta com a placa Direção. A sala estava cheia. O Diretor Silva e o seu adjunto, Domingos Carvalho, estavam numa reunião.
Está em causa o nosso prestígio… Temos de ultrapassar os outros institutos em todas as modalidades desportivas… Ah, aqui está o nosso trunfo! disse Silva ao ver-me entrar.
Senti-me embaraçado.
Eu não sou nenhum trunfo… Vim falar sobre a casa…
O prédio fica pronto para a semana anunciou Domingos, solenemente. Estás em primeiro na lista. Só falta saltares e depois, é só festa de inauguração.
Saltar para onde? perguntei eu, com um sorriso nervoso.
De paraquedas. Amanhã há competição.
Parei de sorrir.
Saltar para quê?
Para o chão esclareceu Domingos.
Mas para quê, exatamente?
Não vês televisão? admirou-se o Diretor. Agora está na moda: atores a patinar no gelo, cantoras a actuar no circo em trapézios A novidade agora é os cientistas baterem recordes… Ontem o Professor Lopes boxeou no ringue, apontou para Lopes, sentado no sofá com o nariz inchado e a cara coberta de pensos. O Professor Cardoso no sábado entrou na luta greco-romana e agora está na Unidade de Cuidados Intensivos… Agora és tu. Sorteámos os desportos que faltavam calhou-te o paraquedas.
Ao ouvir calhou-te, senti-me desfalecer.
Quando é o salto? consegui perguntar.
Amanhã. No Dia das Aves, disse Domingos.
Olhei para Silva, à espera de salvação.
Para quê que as aves querem que eu me estatele?
Silva aproximou-se, pôs a mão no meu ombro.
Vais ter direito a casa maior, como pai de família numerosa, mas… Há apartamentos com varanda e sem varanda… Uns têm vista para o jardim, outros para a fábrica de cimento… Ao distribuir, vamos contar com quem participa ativamente na vida do Instituto…
Fez-se silêncio. Mastiguei um comprimido de calmante e falei:
E se eu não chegar ao chão?… Ou acertar noutro sítio?… A minha família fica com vista para o jardim?
Domingos sorriu, paternal:
Tu sabes como é a regra: viúvas e órfãos têm prioridade!… E não te enerves tanto! deu-me uma palmada nas costas. Vais acompanhado por um veterano! apontou para um rapaz pálido de óculos encostado a um canto.
É o nosso bolseiro explicou Domingos. Ele vai ser dispensado de qualquer maneira por falta de vagas.
Sempre temi alturas. Começo a suar só de subir a um escadote. Ao ouvir avião, apanho logo enjoo. Por isso, ao fim do dia, em casa, tentei treinar: saltei várias vezes da cama para o tapete.
No dia seguinte, levaram-me a mim e ao bolseiro num miniautocarro preto, semelhante a um carro funerário. Atrás vinha Silva. E num elétrico vinham uns trinta colegas, professores, investigadores, todos para apoiar.
Chegados ao aeródromo, Domingos e a fanfarra contratada por ele receberam-nos ao som da marcha fúnebre. Como era uma banda de funerais, a despedida foi tão penosa que até o piloto ficou com os olhos marejados. Três músicos entraram connosco no avião para nos incentivar, tocando algo animado quando saltássemos.
O instrutor, homem sereno, olhou-nos com pena. Ao ver a minha barriga, ordenou para me darem um paraquedas extra. Fiquei carregado com mais um, parecendo um camelo de duas bossas, enquanto o bolseiro era só de uma.
Lá em cima, o instrutor explicou de novo todos os motivos para o paraquedas não abrir, beijou-nos três vezes e, com ar culpado, abriu a escotilha e sussurrou: Está na hora.
Estendi-lhe um envelope.
Entregue à Mafalda. Se nascer um rapaz, chame-lhe o meu nome.
Ele tentou acalmar-me:
No início assusta, depois já não sentes nada.
Força, kamikaze! encorajou o piloto.
A banda atacou com O nosso bravo Lusitano nunca se rende! fechei os olhos e saltei. Quando os abri, ainda metade de mim estava no avião, a outra metade já pendurada no vazio, preso à escotilha. O instrutor e o bolseiro tentaram empurrar-me, mas nada feito.
Temos de o ensaboar sugeriu o bolseiro.
O instrutor começou a stressar:
Abram caminho! Estão a travar a competição!
Como? gritei.
Sopra todo o ar!
Soltei um Uuuu! gigante, esvaziei o peito, e caí no abismo. Puxei o anel ainda no avião, então o paraquedas prendeu-se ao trem de aterragem, e fiquei pendurado.
O piloto começou a fazer manobras para me largar, mas eu segurava-me bem.
Chega de disparates! berrava o instrutor. Larga do avião!
Mas eu agarrava-me com unhas e dentes.
O instrutor saiu meio corpo da escotilha e tentou soltar-me; o bolseiro segurava-lhe as pernas. Quando quase me soltava, o avião tremeu e saíram ambos disparados. O instrutor ainda agarrou o meu casaco, e o bolseiro segurou-se às pernas dele. Íamos os três pelos ares, parecendo acrobatas de circo.
A banda tocava Voai, pombas, voai.
O instrutor gritava que o bolseiro lhe estava a cortar a circulação e ia ficar com gangrena!
Para o ajudar, ofereci ao bolseiro as minhas pernas, já que as dele pendiam sem rumo. Mas ele achava mais prático agarrar-se às pernas magras do instrutor do que às minhas.
O avião não conseguia pousar com este trio pendurado. Voava baixo sobre o aeródromo, para saltarmos para a relva por ordem bolseiro primeiro. O piloto baixou tanto que o bolseiro já arrastava os pés pelo chão, mas nunca largava as pernas do instrutor, e o avião voltava a subir connosco.
O instrutor rogava pragas às pernas e ao bolseiro, desejando ficar livre dele.
A banda tocava O céu, o nosso lar!.
O combustível já estava no fim. De dentro da escotilha, passaram uma vara com um laço, apanharam o bolseiro pelos pés e foram puxando-nos: primeiro ele, de cabeça para dentro, depois o instrutor, por fim eu. Só que fiquei entalado de novo a cabeça para dentro, as pernas no ar. Mas já não tinha medo: o avião já ia pousar. Só tive de correr uns 500 metros agarrado ao avião na pista.
Ninguém se magoou, todos animados.
A banda tocou a marcha mais alegre das fúnebres.
Só o instrutor ficou imobilizado: o bolseiro ainda lhe agarrava as pernas, com tanta força que só com alicate o largaram.
Quando o puseram de pé, viram que as calças estavam curtas, transformadas em calções tropicais. Mas rapidamente perceberam: não era das calças, as pernas é que tinham crescido tanto pendurado, que o instrutor parecia um avestruz.
Amanhã há nova competição, anunciou Domingos.
Ao ouvir isto, o instrutor ficou branco como o meu paraquedas fechado e foi a saltar para o telefone. Ninguém sabe para quem telefonou, nem o que disse. Mas deram-me a vitória, nesta e em todas as futuras competições da próxima década. Até reconheceram o meu recorde de corrida: afinal, corri à velocidade do avião. Só que como só correram as minhas pernas, e o tronco ia a voar, dividiram a marca por dois.
Mesmo assim, fiquei com o recorde!
Esta manhã, a minha esposa contou-me que vamos ter o nosso quarto filho. E acrescentou:







