– Entra, mãe, estávamos à tua espera, – diz o filho Vítor, enquanto a nora pega no casaco e entrega os chinelos à sogra. De repente, o sorriso dela dá lugar a uma expressão de preocupação.

Entra, mãe, estávamos à tua espera disse o filho Tomás, enquanto a nora, Mafalda, lhe tirava o casaco e passava os chinelos para a sogra calçar. De repente, a expressão alegre da Mafalda mudou para uma preocupação subtil no rosto.

Dona Beatriz entrou na sala dos convidados, e Mafalda acenou discretamente com a cabeça para o chão, à procura da origem da inquietação. Tomás reparou imediatamente: marcas húmidas estavam espalhadas no soalho. Trocaram olhares, mas decidiram, por ora, ignorar o assunto.

Tomás e Mafalda tinham novidades, celebravam o nascimento dos seus gémeos, que agora já estavam crescidos o suficiente para reunir a família próxima e comemorar a bênção.

Dona Beatriz, já reformada há alguns anos, trouxe aos bebés umas roupinhas de lã feitas à mão, pois o dinheiro da sua reforma mal dava para as despesas básicas, muito menos para presentes de loja. Por isso, quase não veio de visita; tentou adiar, mas o filho e a nora insistiram: naquele dia, era fundamental a presença da mãe.

Os meninos chamavam-se Francisco e Duarte, o que deixou Dona Beatriz especialmente feliz um era o nome do falecido marido, outro do seu pai. Assim, Tomás perpetuava a tradição dos nomes masculinos na família, gesto que encheu o coração da avó de orgulho.

Que coisa linda, este parece-se contigo, Mafaldinha. E aquele, igualzinho ao pai. Ou talvez o contrário Eu já não distingo, são tão idênticos! Beatriz corria animada à volta dos berços, trocando-os de olhar sem saber qual era qual, perante a semelhança absoluta.

Tomás e Mafalda riram-se de coração a alegria sincera e até a preocupação da avó eram encantadoras.

After the visit, os convidados foram-se despedindo, e Beatriz começou também a arrumar-se. Mafalda lançou um olhar cúmplice ao marido, e Tomás sugeriu à mãe que ficasse para dormir.

Mãe, porque não ficas connosco esta noite? Já está tarde, pode nem haver autocarro a estas horas. Assim, dás uma ajuda à Mafalda com os meninos, que hoje têm banho e todo o ritual para dormir.

Pronto, filho. Se tu achas bem, fico sim respondeu Beatriz, com aquele tom meigo.

Juntou-se à nora a levantar a mesa, lavar a loiça e arrumar tudo. Depois foram todos juntos para o banho dos gémeos. O brilho nos olhos da avó era de pura felicidade. Mafalda colocou-lhe um dos bebés nos braços e Beatriz hesitou, assustada: achava-o tão pequeno que temia que lhe escapasse das mãos.

Oh mãe, já criaste o Tomás sem nunca o deixares cair! brincou Mafalda.

Mas isso foi há tanto tempo, já nem me lembro de segurar um bebé lamentou-se Beatriz, meio a rir.

Mesmo assim, Mafalda pôs o Francisco nos braços da sogra, e o pequeno adormeceu logo ali, aconchegado por aquela segurança familiar. Mafalda embalou o Duarte ao colo.

Prepararam um quarto só para Beatriz dormir à vontade, embora ela mal conseguisse descansar, sempre atenta a qualquer suspiro ou movimento dos netos. Desgastou-se tanto durante a noite nessa vigília que, já de manhã, adormeceu profundamente.

Quando acordou, Mafalda já tinha preparado o pequeno-almoço, os gémeos ainda dormiam.

E o Tomás, onde anda? perguntou Beatriz, admirada ao ver só a nora na cozinha.

Oh mãe, sente-se a tomar o pequeno-almoço, o Tomás já vem apressou-se Mafalda, tranquilizadora.

Pouco depois, Tomás entrou com uma grande caixa nas mãos.

Mãe, é para ti. Abre lá disse-lhe, sorridente.

Beatriz abriu a caixa e ficou de boca aberta: dentro estava um par de botas novas. Surpreendida, nem conseguia falar.

Meus filhos, isto é caro demais, não posso aceitar! declarou Beatriz, quase em lágrimas.

Não há nada mais valioso do que tu, mãe. Calça-as e usa-as em saúde respondeu Tomás, terno.

Beatriz experimentou as botas, maravilhada, pensando como os filhos tinham percebido que ela precisava de calçado novo as antigas estavam tão estragadas que já nem tinham conserto, e para novas não tinha dinheiro.

De repente, ouviu-se o choro de um dos bebés, e a avó, de botas novinhas, correu pronta para acudir.

És uma mulher incrível, obrigado sussurrou Tomás à esposa. Se não fosses tu, não teria reparado.

Não foi difícil: ontem, quando a mãe chegou, vi-lhe os pés encharcados e percebi as marcas no chão, o estado das botas velhas Para nós, trezentos euros é muito dinheiro, mas é um esforço que se faz. Para a mãe, era impossível. Que as calce com alegria Mafalda abraçou-o, enternecida.

Beatriz sentiu-se aquecida, não só pelas botas, mas por se saber querida e essencial para os filhos.

No fim, percebeu o maior valor da vida: o bem maior é cuidar e ser cuidado, e nenhuma prenda supera o calor do amor da família.

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– Entra, mãe, estávamos à tua espera, – diz o filho Vítor, enquanto a nora pega no casaco e entrega os chinelos à sogra. De repente, o sorriso dela dá lugar a uma expressão de preocupação.
Na Véspera do Ano Novo, fui com a minha mãe ao “Mundo da Criança”… E fiquei apaixonada por um único vestido – vermelho, de malha, com uma barra azul viva em baixo e nas mangas. Tínhamos ido só por umas coisinhas, talvez luzes ou fitas… Mas insisti tanto que pedi à minha mãe para experimentar aquele vestido. E ele assentava-me como se fosse feito para mim! Logo comecei a sonhar: gostava muito de um rapaz da turma e queria mesmo que, na festa da escola, ele me visse com aquele vestido. Estava tão empolgada que mal consegui tirá-lo. Quando a minha mãe percebeu, disse: «Vou receber o salário em breve, vamos levar.» Fui a caminho de casa nas nuvens. Enfeitámos o apartamento, montámos a árvore. No frigorífico, só restava gelo e um pedaço de manteiga. Aguardávamos pelo salário da mãe – naqueles tempos, em Portugal, também se trabalhava no dia 31, mas saía-se mais cedo. Nesse dia, a mãe chegou triste: o ordenado não veio, estava atrasado. Com olhos marejados, sentia-se culpada de não haver banquete. Mas lembro-me bem: eu não fiquei nem um pouco triste. A casa tinha o espírito de festa! Sentei-me diante da televisão e vi os filmes de Ano Novo, que só davam nessa altura – havia poucos canais e pouco para escolher. A mãe fez batatas com manteiga, ralou cenoura com açúcar, era tudo o que havia. Sentámo-nos, e a mãe chorou. Fui consolá-la e acabei também a chorar, não pelo jantar, mas porque me doía vê-la assim. No fim, deitámos-nos juntas no sofá, abraçadas a ver o concerto de Ano Novo. À meia-noite, ouvimos os vizinhos na escada, de copo na mão, todos a festejar, mas nós não saímos. Até que alguém tocou à porta – uma vizinha resmungona, que vivia a ralhar comigo por tudo e por nada. Discutiu com a mãe, entrou na sala, olhou para a mesa vazia e saiu sem uma palavra. Uns 20 minutos depois, começaram a bater na porta com força. A mãe foi abrir. Lá estava a Dona Vitória com sacos – comida de festa, saladas, enchidos, frango, bolos, até champanhe e tangerinas! Mandou a minha mãe ajudar, pôs a festa na mesa, chamou-lhe pateta enquanto enxugava as lágrimas dela com a manga e foi-se embora. Depois do Ano Novo, Dona Vitória voltou a ser a dona do prédio, mandando e ralhando como sempre – nunca mais mencionou aquela noite generosa. Anos depois, no funeral da Dona Vitória, apercebemo-nos de que todos no prédio tinham recebido da “nossa resmungona” uma ajuda num momento importante…