Anel sobre a toalha
Não, disse André. E nesse não tão breve coube tanto, que Nina estacou no meio do quarto, o brinco na mão. Tu não vais.
Ela olhou para ele. Estava em frente ao espelho, já de fato novo, azul escuro com riscas finas, que lhe teria custado, talvez, várias vezes o salário semanal que ela tinha há vinte anos. A gravata ajeitada, o cabelo arrepiado com gel, cada fio no lugar. Não a olhava no espelho. Olhava para si próprio.
Como assim, não vou? perguntou Nina, e a voz soou-lhe mais calma do que esperava.
É isso mesmo. Tu não vens, e pronto.
Nina pousou o brinco em cima da cómoda. O quarto era caro, tudo ali era caro e, de certo modo, estranho: cortinas pesadas, cor de bronze velhinho, cama com cabeceira de madeira verdadeira, tapete tão macio que os saltos se afundavam e nada se ouvia. O Hotel do Norte era considerado o melhor da cidade do Porto Nina nunca antes o tinha pisado e, três horas antes, estava tão contente como uma miúda, a mexer nas toalhas grossas, a cheirar os frascos pequeninos de gel de banho.
Mas três horas antes tudo era diferente.
André disse ela baixinho , tínhamos combinado. Comprei um vestido. Foste tu que disseste que era importante, que o Dr. Simão Alvares queria conhecer as famílias dos colaboradores.
Mudei de ideias.
Porquê?
Ele por fim virou-se. Olhou-a de frente e no olhar descobriu-se qualquer coisa que a fez perder o ar. Não era raiva. Era pior que raiva.
Nina, olha para ti. A sério, olha bem.
Ela olhou. No espelho, via-se uma mulher de cinquenta e dois anos com um vestido verde escuro até ao joelho. Bom vestido, escolhido com todo o cuidado, com conselho da senhora da loja na Rua das Flores. O cabelo arranjara-o ela, até estava decente. O rosto, marcado por pés de galinha mas vivo.
Pronto, estou a ver.
As mãos, Nina.
Ela baixou os olhos. Caíam-lhe ao lado do corpo: mãos largas, pele gretada nas articulações, calos na base dos dedos. Tinha arranjado as unhas, pintara-as de bege discreto, mas a forma era simples, nada parecida com as das fotografias das esposas dos colegas, que André lhe mostrava de vez em quando no telemóvel.
O que têm as minhas mãos? perguntou, embora já soubesse.
Vão estar pessoas importantes hoje. Esposas de diretores, parceiros. Elas reparam.
Reparam no quê?
Não finjas, Nina. Sabes bem do que falo. As tuas mãos parecem parecem mãos
de quem trabalha? completou ela baixinho.
André não respondeu. Tornou a olhar o nó da gravata, apesar de estar no ponto.
Não quero ter de explicar onde trabalhaste e o que fazias. Aquilo é outro mundo, Nina. Outros assuntos. Tu não encaixas.
Trabalhei vinte anos para tu encaixares nesse mundo disse ela, e a voz quebrou-lhe por um segundo só. Vinte anos. Fiz turnos triplos enquanto estudavas. Lavei pratos de restaurante, estive à caixa nas obras, vendi fruta na feira para pagares aquela licenciatura à noite. Estas mãos, André, pagaram-te os livros. O primeiro fato. O primeiro telemóvel, onde fizeste amigos importantes.
Eu sei. Eu lembro-me. Mas agora não interessa.
Nina ficou ali, uns segundos, a olhar-lhe as costas largas dentro do fato caro, à procura daquele André que conhecera. O André que, em 1998, lhe chorava no ombro quando o pai fora internado e não havia dinheiro para as receitas. O que prometera devolver tudo, compensar tudo, que ela era o mais importante da vida dele.
Ele já não estava ali.
Queres que eu fique no quarto?
Quero que não me estragues isto. É um jantar importante. O Dr. Simão Alvares decide hoje quem será Diretor Regional. Entendes? É a minha carreira toda. Trabalhei oito anos para chegar aqui.
Trabalhámos corrigiu ela.
Nina usou ele aquele tom seco, de trabalho, igual ao que usava com colegas pelo telefone. Não comeces com isso do nós. Peço-te que fiques. Pede jantar ao quarto, vê televisão. Eu volto cedo.
Estás a esconder-me.
Peço-te que compreendas.
Tens vergonha de mim.
Não respondeu. E esse silêncio era resposta.
Nina aproximou-se da janela. Do lado de fora, a cidade do Porto acendia, caía o primeiro frio do ano e desde a tarde que um véu de neve colonizava as sacadas, leve e branco. Tão bonito. Sempre adorara o primeiro nevão. Em miúda, saía com a amiga Tereza a apanhar flocos e vê-los derreter na pele. A Tereza dizia: Choram porque não querem morrer. E ela ria-se.
Está bem disse Nina.
Ouviu André suspirar, aliviado. E sentiu dentro de si formar-se um nó pequeno e sólido, debaixo das costelas.
Eu sabia que ias perceber. Depois de hoje, tudo muda, Nina. Prometo. Vamos de férias para onde quiseres. Eu compro-te
Vai, André.
Ele pegou na carteira, conferiu o telemóvel. À porta, voltou a falar:
Não abras a ninguém. Está tudo pago até amanhã, está tudo incluído.
Vai.
A porta fechou-se. Nina ouviu o clique do trinco eletrónico. Por instantes, não percebeu bem. Deu uns passos, puxou a maçaneta. Não abriu.
Puxou outra vez, mais forte.
Ele fechou-a por fora. Pediu à receção? Ou o quarto tinha algum sistema que só destrancava com chave? Não interessava. O resultado era só um: ali estava ela, no melhor hotel do Porto, de vestido verde escuro, e sem sair.
Sentou-se devagar, na ponta da cama.
Não chorava. Sentia que era caso para chorar, que era resposta natural. Mas não. Só um vazio estranho, o nó duro por dentro e na cabeça um sossego tão estranho, como depois de um grande barulho.
Não sabia quanto tempo ali ficou. Depois foi até ao televisor, ligou. Passava um noticiário, mas não captou uma linha. Desligou.
Bebeu um copo de água fria do minibar, que lhe tirou o arranhado da garganta.
Voltou à porta, bateu só de leve. Ninguém respondeu. Era natural, toda a gente fora para os seus jantares, ninguém queria saber de uma senhora presa no quarto, de vestido arranjado.
Pensou: podia sempre telefonar à receção. Mas o que diria? O meu marido fechou-me dentro do quarto? Imaginou a cara da funcionária, a confusão, o administrador. André saberia. E depois?
Sorriu, amarga. Era isso: continuava a preocupar-se com o depois, em como André reagiria. Mais de vinte anos a pensar nisto antes de tudo.
Pegou no telemóvel da mesinha, marcou o número dele. Não atendeu. Um minuto depois, devolveu a chamada, rápido, seco: Estou no jantar, está tudo bem, dorme. E desligou.
Ela pousou o telemóvel e olhou para as próprias mãos. Assentou-as no colo, voltadas para cima. Ali estavam. Largas, quentes, de pele áspera. Um corte pequenino na mão direita, feito a cortar pão para as sandes que levavam ao interior quando André entrou na faculdade. E ambos riram, saiu com o dedo enrolado no lenço de pano. Ele entrou, e festejaram como miúdos.
Na esquerda, um calo no indicador, dos últimos três anos, desde que entrara no armazém a fazer extras para poder comprar o primeiro fato sério para o marido. Ele tirou o emprego e ela sentiu-se tão orgulhosa. Festejaram em casa, ela a fritar batatas, a cantar baixinho na cozinha. Ele abraçando-a, a prometer que sem ela nada teria sido possível.
Onze anos antes.
Lá fora, já noite cerrada. A neve parara, o céu limpo, cheio de estrelas. Nina colou a testa no vidro frio da janela sossegou-lhe, de algum modo.
Bateram à porta. Três pancadas leves.
Está alguém? era uma voz de mulher. Se quiser, posso trocar a roupa da cama.
Nina pensou dizer que não, estava bem. Mas, sem saber porquê, disse:
A porta está trancada. Por fora.
Silêncio. Depois:
Por fora?
Fechada com chave. Não a consigo abrir.
Mais silêncio. Som da chave no trinco, um clique. Porta aberta.
Na soleira, uma mulher nova, farda cinzenta do hotel, avental branco, cabelos presos atrás, rosto simples e aberto. Olhava para Nina, entre curiosa e compreensiva. Não pena compreensão.
Está bem?
Estou disse Nina. Obrigada.
Eu sou Olívia.
Nina.
Ficaram ali as duas. Olívia, sem entrar, com o carrinho da roupa encostado na parede.
Ficou muito tempo assim? perguntou.
Talvez duas horas.
Quer sair?
Quero e, só ao pronunciar, sentiu como queria. Quero sim.
Venha. No sétimo andar têm um jardim de inverno. À noite ninguém aparece por lá. É bom, sossega. Eu mostro.
Nina pegou na bolsinha, vestiu um casaquinho leve e saiu. O ar do corredor, diferente do ar parado do quarto, soube-lhe a vida.
Faz isto muitas vezes? perguntou a Olívia, no elevador.
Ajudar quem se fecha nos quartos?
Olívia sorriu, evasiva.
Já vi de tudo.
Foram até ao sétimo andar. Olívia abriu uma porta discreta; atrás, um espaço claro e surpreendente: o jardim de inverno. Tectos de vidro, palmeiras em vasos, limoeiros com frutos miúdos amarelos, plantas largas que Nina não distinguia. Cadeiras de verga, mesas pequenas, chão de mosaico claro. Por cima, o céu puro e estrelado.
Sente-se. Respire. Ninguém vem.
Não precisa de ficar.
Eu fico até às dez. Se precisar de alguma coisa, ligue para a receção, diga que está no jardim.
Nina assentiu. Olívia saiu, fechando a porta suavemente. Nina sentou-se, alisou as pernas, reclinou para trás.
Ali era de facto bom. Cheirava a terra, folhas, e um toque fresco de limão. Quente sem ser abafado. Calmo de um modo raro para quem vive na cidade.
Fechou os olhos.
Pensou na velha ambição: uma padaria. Há quinze anos, ainda falava dela com André. Um cantinho para fazer pão, bolos e tarte. Sonho antigo, quase esquecido. André ria-se, sem mal, só com ternura. Claro, abre lá isso, tu és ótima a fazer pão. Ela sabia que não era sério, mas aceitava.
Depois vieram trabalho, contas, a carreira dele, mudanças. Mudaram-se três vezes, sempre pelas promoções dele; Nina arranjando sempre novo emprego, nova vizinhança, nova casa. Boa esposa. Sempre esforçada.
Abriu os olhos. Ao lado, no limoeiro, um fruto pequeno, amarelo e polido. Nina tocou nele de leve. Duro, fresco.
Também se esconde aqui? perguntou-lhe uma voz masculina, inesperada.
No canto do jardim, oculto por uma planta, sentava-se um senhor de uns setenta anos, forte, com fato aberto, cabelo branco penteado para trás, rosto sério mas olhos brilhantes.
Desculpe, não tinha dado por si.
Aqui há espaço para todos.
Sorriu discreto. Nina também.
Fugiu ao jantar? ele riu. Lá em baixo está o grande banquete.
Não, respondeu ela. Não me quiseram lá.
O homem olhou sem invadir.
Eu fugi, sim. O evento é meu, imagine, e eu fugi.
Porquê?
Cansaço. Não do evento, das conversas. Toda a gente quer alguma coisa, toda a gente diz o que convém, todos sorriem. Com a idade aprendemos a ler. Cansa ler sempre o mesmo.
Nina acenou. Entendia bem.
E você? O que a trouxe até aqui?
Uma sugestão da empregada.
Bem sugerido. É o meu terceiro dia aqui. Viemos pela reunião, depois a conferência, hoje o jantar. Minha filha insistiu: não cancele, é importante.
Sua filha?
Ela é que tem mão no serviço. Tem jeito para isto. Ainda sorriu. Eu sou Simão.
Nina ergueu a cabeça. Era ele, então. Simão Alvares.
Simão Alvares? perguntou, já adivinhando.
Alvares. Sem surpresa. E a senhora é
Nina. Nina Rodrigues.
Ficaram em silêncio. Lá fora, por detrás do vidro, as nuvens escondiam as estrelas. O aroma das plantas fazia-se sentir.
Então aquele jantar lá em baixo começou Nina, hesitante.
São os meus funcionários e chefias. Deveria anunciar a decisão de uma promoção. Mas, para ser sincero, ainda não decidi. Talvez tenha fugido por isso.
Estranho encontro, pensou Nina; o marido em baixo, a tentar impressionar aquele homem, e ela ali.
Sente-se mal? perguntou de repente.
E era verdade: notou-lhe agora pálido, murchava-se no assento. O rosto cinzento, a mão agitada.
Passa já disse, Às vezes acontece. É da tensão.
É recorrente?
Primeira vez assim. O calor do salão precisava de ar. Mas isto
Caiu no silêncio. Nina levantou-se e aproximou-se, avaliando-o. Cara de suor, pálpebras claras, mão esquerda a apertar o braço da cadeira.
Dói onde?
No peito. E no braço.
Esquerdo?
Sim.
Deixou de pensar, fez o que sabia. Procurou o pulso: batida rápida e incerta. Umidade na pele.
Tem medicação? Nitroglicerina? Aspirina?
No bolso do casaco virou os olhos.
Nina abriu devagar o casaco dele, achou um porta-moedas de couro, e dentro, as pastilhas.
Ponha uma debaixo da língua.
Sei bem.
Ajudou-o com a mão firme. Depois ficou ali, simplesmente a segurar-lhe a mão. Não era obrigação clínica nenhuma, mas era como se faz: segurara a mão ao pai muitas vezes, à vizinha Dona Adélia nos últimos tempos. As mãos precisam estar seguras.
Melhorou? perguntou após uns minutos.
Um pouco. Devo
Já estou a ligar.
Discou para a receção, pediu ajuda, ambulância, alguém da equipa de saúde.
Enquanto esperavam, não largou a mão dele. Falavam baixo, trivialidades: sobre o limoeiro, sobre nevar sempre cedo no Porto, sobre a utilidade dos jardins cobertos em noites de inverno.
Ele ouvia, respirando fundo.
É enfermeira?
Não. A vida ensina-nos isto.
Boa professora.
Por vezes.
Chegaram depressa: staff do hotel, depois a filha de Simão, Catarina, com blazer preto e rosto sério, muito semelhante ao pai. Viu-os, fitou Nina à beira, e ficou uns segundos em silêncio.
Pai
Tranquila, Catarina. Esta senhora ajudou-me. Manteve-me calmo.
Catarina agradeceu, sem floreados.
Vinte minutos depois, a ambulância. O médico recomendou exames, mas confirmou: foi um aviso, tivesse demorado mais, e seria pior. Simão cedeu, mas, antes de sair, insistiu:
Quero levá-la lá em baixo. Ao jantar. Cinco minutos só.
Simão, vai descansar protestou Catarina.
Cinco minutos.
Desceram juntos. No salão de festas do Hotel do Norte era festa grande: mesas compridas, toalhas brancas, luz quente. Ao verem Simão Alvares entrar, todos mudaram de conversa. O rosto sério e o médico atrás disseram tudo.
Nina viu André ao centro da mesa, entre homens de fato. O rosto alterou-se: espanto, confusão, medo, um choque.
Simão parou. Olhando para a sala cheia, manteve-se firme.
Peço desculpa, tenho de sair por questões de saúde. Nada de grave. Mas antes quero dizer isto: esta senhora, Nina Rodrigues, ajudou-me quando precisei. Segurou-me a mão, deu o remédio, chamou ajuda. Calmamente. Quero que saibam.
Silêncio total, as cabeças viradas para ela.
Não sei quem é, disse Simão pausado , mas ela não sabia quem eu era. E ajudou na mesma.
Todos olhavam. Nina sentia-se atravessada por olhares, inclusive o do marido. O dela pousou, por instinto, naquele olhar: André estava pálido, espantado, desfeito.
Alguém pode dizer quem é esta senhora? perguntou Simão.
Uns segundos pesados. Depois, o homem ao lado de André disse:
É a esposa do André Rodrigues.
Simão fixou André.
Rodrigues?
Levantou-se, quase a medo.
Sim, Doutor Simão, é minha esposa, Nina.
Porquê não estava ao jantar?
André calou-se, abriu e fechou a boca.
Ela não se sentiu bem.
Quem se sentiu mal fui eu disse Simão. E ela, pelos vistos, estava bem. Virou-se para Nina. Porque não veio?
Podia mentir, pensou Nina. Dizer que optou por não ir, ou estava indisposta.
Olhou as suas mãos.
O meu marido trancou-me. Não quis que viesse. Não considerei-me adequada para estas ocasiões.
O silêncio cortou o ar. O olhar de André, destruído, deixou de ser problema dela.
Nina tirou o anel do dedo.
Sem teatro, foi até à mesa dele, deixou-o junto do prato, perto do copo de água.
Vou buscar as minhas coisas e fico em casa da Tereza. Manda os papéis quando quiseres.
Virou-se para Simão.
Rápidas melhoras. E obedeça aos médicos. Eles sabem.
Catarina apertou-lhe a mão, só por um segundo. Nina sentiu o calor. Fez que sim.
Saiu da sala. Pelo corredor, cruzou-se com Olívia.
A empregada olhava-a de frente, sem disfarçar.
Está tudo bem? perguntou.
Está, sim. Estranhamente, está.
Olívia sorriu.
Espere um momento.
Desapareceu, voltou com um copo de chá quente.
Da cozinha. Aceite.
Nina bebeu, sentiu o doce morno, reconfortante. No corredor do hotel, a beber chá num copo de papel, sentia-se leve. Como se o peso dos ombros tivesse desaparecido.
Onde trabalhavas antes daqui?
Um pouco por tudo: caixas, cafés. Aqui há dois anos.
Gostavas do café?
Gostava. Sempre com comida é melhor do que lençóis.
Nina riu.
Sabes fazer pão?
Olívia arregalou os olhos.
Um bocadinho. A avó ensinou. Pão, broa, folares.
Está certo.
Acabou o chá, pousou o copo no carrinho, foi buscar as malas ao quarto.
Pouca coisa. Assentou o casaco, a bolsa, olhou uma última vez para o ar luxuoso, para a cómoda onde ficara o brinco. Levou-o.
No elevador, telefonou à Tereza.
Ela atendeu ao segundo toque, como sempre. Mal ouviu Nina, disse:
Vem cá. Deitei já os rissóis ao lume.
Como soubeste?
Ninas, conheço-te há quarenta anos. Só ligas assim quando tens de vir. Anda.
Nina saiu do Hotel do Norte para o frio cortante do Porto. Na rua, a neve era tão limpa, os candeeiros acesos. Apanhou um táxi e o condutor, calado, calhou bem.
Olhou, pela janela, a cidade passar, e pensava já não na padaria. Via-a, de verdade: o espaço pequeno, cheiro a pão, balcão antigo, madeira, luz pela manhã, vizinhos a entrar, trocarem palavra e calor.
Parecia-lhe tão real que só faltava acontecer.
*
Oito meses se passaram.
A padaria Lugar Quente abriu no início do outono, numa ruela do Porto, longe do bulício do centro. O espaço era antigo: fora florista, com grande montra. Tereza descobriu-o. Fizeram obras à medida: azulejo claro, prateleiras de madeira.
Nina fez questão das prateleiras. Tereza argumentou que madeira dá mais trabalho limpa mais difícil, regras de higiene mas anuiu. E davam um calor especial.
As receitas vinham da mãe, de uma caderneta amarelada, escrita à mão nos anos 60. Pão de centeio, broa, empadas de carne ou maçã, bolas doces e pão-de-ló. Quando abria a caderneta, por vezes, a garganta apertava.
Olívia ligou passado um mês. Nina tinha-lhe deixado o número naquela noite, talvez sem fé que ela usasse.
Disseram que abriu uma padaria Não estava a brincar sobre o pão?
Não estava.
Então, posso trabalhar?
Pode, sim.
Olívia mostrou-se excelente ajudante e aprendia depressa. A avó deixara-lhe jeito: sentia a massa, coisa de quem aprendeu de verdade.
Catarina, a filha de Simão, aparecera três meses depois: ligou, agradeceu, quis conversar com calma, não a correr. Sentaram-se a tomar café, devagar. Catarina lidava com finanças, era prática mas tinha um fundo bondoso e atento. O pai saiu do hospital em duas semanas. Disse à Nina:
Como vai a padaria?
Estamos quase a abrir.
Avise a Catarina, para virmos buscar pão fresco.
No dia da inauguração, apareceu com a filha. De sobretudo, ar saudável, diferente da noite no jardim.
O pão acabou de sair disse Nina.
Assim é que é.
Sentaram-se perto da janela. Olívia trouxe-lhes pão, bolos, chá. Comeram. Simão fez aquela expressão de quem se lembra de casa.
Está feliz? perguntou-lhe, de repente.
Nina pausou, desta vez sentiu mesmo: sim.
Creio que sim.
Creio não é certeza.
Então: sim. Sem dúvida.
Havia fila na porta não esperara tanto. O pão voava, tinham de cozer mais. Olívia, atrapalhada mas sorridente, cheia de farinha nos cotovelos. Tereza à caixa, a conversar com meio Porto. Nina amassava.
Ficava à mesa a sentir o cheiro do pão, tão cheio que parecia transbordar para a rua, gente a parar à porta pelo aroma.
Pensou em André. Devia ter sabido. Na cidade, tudo se sabe. Simão não o escolhera para o cargo. Catarina explicou: a decisão estava tomada há semanas, antes daquela noite. O episódio do jantar não alterou, só desvelou a verdade.
Pensava nisso raramente, não com dor mas porque não valia a pena. A vida antiga acabara, começara outra. Aqui, pensava em pão, massa, nas mãos de Olívia, em Tereza, nas visitas do Simão, nas conversas com Catarina, tardes de chá quando fechavam.
A massa ia para o forno.
Nevava lá fora, primeiro nevão do ano. Flocos grossos, branco sobre portas e beirais.
Nina limpou as mãos no avental, foi à janela.
Viu-o.
André, do outro lado da rua. Sem chapéu, longo sobretudo. Olhava para Lugar Quente, para a luz, a fila, o cheiro a pão. Só parou, a olhar.
Nina ficou ali. Não sentiu raiva ou saudade, apenas uma estranha serenidade, tão ténue como olhar uma fotografia antiga.
André ficou um minuto, levantou o colarinho e partiu, desaparecendo do campo de visão.
Ela voltou para o forno.
O pão estava quase pronto. O cheiro subia-lhe ao peito como só o cheiro de pão caseiro pode cheiro de casa, de tudo estar certo.
D. Nina, são as três últimas, certo? chamou Olívia.
As últimas, sim. Amanhã, mais cedo, metemos outras.
Venho às oito.
Cá estarei às sete.
Olívia voltou ao balcão.
Tereza chegou-se, calada, ao lado de Nina.
Viste?
Vi.
E então?
Nina pensou.
Nada respondeu. Era uma pessoa a passar.
Tereza apertou-lhe a mão. Assim mesmo. Sem palavras.
Nina devolveu o gesto.
Nevava lá fora. No forno, o pão subia. Olívia ria com as clientes ao balcão. Dentro do pequeno Lugar Quente era calor, cheiro a pão e canela, e esse aroma transbordava para a rua, onde quem passava cheirava, sorria, e seguia o caminho um pouco mais leve.
Nina tirou uma broa, bateu no fundo. O som era perfeito, oco e firme.
O pão, finalmente, nascido das suas mãos.






