Quando fomos passar férias na aldeia, trouxemos da cidade o nosso gato Tomás. Na aldeia, morava também o irmão de Tomás, o Baltazar. O Baltazar tinha uns olhos tão esbugalhados que o apelido foi inevitável. Por esses lados ninguém tem papas na língua.
No início, não foi nada fácil para o Tomás. Apesar de ser mais pequeno, o Baltazar não quis saber de boas maneiras e fez questão de mostrar quem mandava. Corria com o irmão das suas provisões e bufava assustadoramente, parecia cantor de fado a dramatizar o refrão.
Numa noite, o Baltazar cometeu o erro clássico do valentão de aldeia achou-se invencível e atacou o Tomás sem reservas. O Tomás, com aquele ar de marquês cansado dos salões lisboetas, afastou-o languidamente com a pata, estilo deixe-me, caro senhor, e sem querer acertou-lhe com um murro certeiro que atirou o Baltazar para dentro do balde do lixo.
Assim, de forma inesperada e meio atrapalhada, como tudo na sua vida, o Tomás acabou por subir à posição mais alta da escala felina.
Na aldeia, os gatos têm um papel puramente prático: caçar ratos e ganhar o pão ou melhor, as sobras à força do seu ofício. Só o inverno salvou o Tomás de ir trabalhar para o campo, graças ao frio e à falta de colheitas para guardar.
As refeições eram um verdadeiro desafio, distribuídas sem horário nem critério puramente dependentes da inspiração da avó. O Tomás, vindo da cidade, achava aquilo um martírio. Ali estava ele habituado a comer do prato de porcelana, servido a horas certas, diretamente das mãos de um mordomo.
Com o stress, o Tomás depressa recuperou os instintos de caçador. Não foram poucas as vezes que, a meio da noite, o encontrava espreitando dentro da panela, em busca de qualquer petisco esquecido.
O Baltazar, sempre de sentinela ao pé do banco da cozinha, bufava furiosamente ao ver-me chegar, alertando o irmão do intruso. O Tomás virava-se preguiçosamente e miava para o Baltazar: Deixa estar, este é dos nossos devias era ver como ele desata a farejar pelo frigorífico no escuro.
Um dia achámos que o Tomás já estava ambientado e levámo-lo ao quintal, sentámo-lo na neve. Quando voltou o olhar para nós, a cara toda coberta de branco, os olhos tinham aquela tristeza de quem pensa na vida mal vivida, tal e qual António Variações naquelas fotos antigas. Depois disso já não quisemos sair mais com ele para a rua.
Certa noite, os amigos do meu filho Tiago vieram cá a casa. Estávamos todos aconchegados na sala, enquanto eu lia à pequenada A Noite de Natal do Eça de Queirós. Na parte em que uma madrasta se transforma numa gata preta e arranha o soalho com as garras, a porta abre-se com um rangido assustador, e entra o Baltazar, todo vaidoso.
Foi a nossa desgraça: o Tomás tinha ensinado ao irmão o seu truque preferido abrir portas com a pata, por mais travadas que estivessem.
A sala era pequena, mas cada um de nós conseguiu fugir para seu canto. Um dos rapazes ficou entalado na janela, só não caiu porque a avó o segurou a tempo ela, que sempre soube alimentar bem toda a gente.
Ah, sim, talvez seja importante dizer agora que o Baltazar era absolutamente preto, sem um só pelo de outra cor.
É caso para dizer: não é todos os dias que a literatura clássica tem um efeito tão duradouro nas crianças de hoje em dia.
No fim, percebemos que cada experiência diferente, mesmo as mais desconcertantes, são oportunidades para aprendermos seja a adaptar-nos a um novo mundo ou a perceber que, no fundo, todos nós precisamos de um pouco de compreensão e humor para lidar com os imprevistos da vida.






