Guardiões de Portugal

– Senhora, deixe-me passar!

Alguém empurra Leonor nas costas, e ela, sem querer, dá mais um passo à frente, agarrando com força as alças do carrinho para não escorregar na calçada húmida. O casaco aberto, como sempre, só atrapalha. As abas soltas escondem o motivo por que ela segue tão devagar e mesmo no meio do passeio.

– Ai, desculpe!

Uma rapariga apressada tropeça ao ver o carrinho do Tomás. Ele está sentado, mãos pousadas nas pernas, sem sequer tentar ajudar a mãe. Com este tempo, só atrapalharia a girar as rodas do carrinho desajeitadamente.

Leonor suspira, acena-lhe:

– Não faz mal. Vai, vai!

Ajusta o gorro de Tomás, pega de novo no carrinho.

– Seguimos? Ainda temos algum tempo. Mas sabes como é, nunca é muito.

– Mãe, como é que arranjávamos tempo para além da ida ao centro de saúde? Tomás mede a distância até ao fim da calçada e lá agarra a mão ao aro da roda.

– Filho, calma. A mamã leva o carrinho sozinha! Aqui é só um bocado mais complicado, a seguir já está limpo. Vês? Depois de atravessar a rua, vais tu!

– Está bem!

– Então, o que querias? Tempo para quê?

Tomás hesita.

– O Rodrigo contou que na Rua de Sousa Martins abriu uma loja nova só com modelos. Têm uma tinta que preciso.

– Tomás, não vamos ter como chegar lá hoje. É longe e este tempo está uma confusão. Ao final do dia disseram que voltava a chover… E descer-te de novo Leonor pára, ao ver o ar desapontado do filho. Vai concordar, claro, mas vai ficar triste. Olha, eu vou lá por ti! Escreve-me o nome da tinta, e compro. Ficas com a avó Vera.

– Porquê com a avó? Ela hoje ia cuidar das plantas.

– Tem revanche! Na última jogada ganhaste-lhe três vezes ao xadrez! Ela exige revanche. Diz que nunca alguém a derrotou assim e agora tem vergonha! E prometeu ensinar-te póquer.

– Isso é cartas, mãe!

– Ai filho! Não é só cartas, é filosofia!

– Tu sabes jogar?

– Pouco. A avó Vera é que me tentou ensinar, mas não tenho cabeça para contas como tu. Perco sempre. Exige cálculo e planeamento.

– Tipo xadrez?

– Quase!

– Então fico com a avó. Mas

– Sei que preferias ir pessoalmente à loja. E havia de gostar, sabes? Mas espera mais para a primavera, combinado? Vamos poder ir sempre, e até passear no jardim do Campo Grande ao pé. Os teus patos estão logo ali Aceitas?

– Pronto

– Boa! Então, conta-me: que tinta precisas?

– Vermelha, mas não igual aos meus húsares, uma diferente

Tomás começa a explicar em detalhe e as mãos dele voam, deixando as rodas. Leonor assente e avança, retomando a caminhada cruzada, como lhe chama, porque não sabe dar outro nome ao que é a sua vida.

A dela divide-se entre antes e depois de há dois anos.

Nesse dia, recebe um prémio no trabalho e planeava mimar o filho e o marido, quando a porta do gabinete se abre e aparece a colega, Madalena, branca como cal.

– Leonor, não conseguem falar contigo

As mãos dela gelam.

– O quê?!

– O Tomás Leonor, acalma! Ele está vivo! Levaram-no para Santa Maria.

Só viu o condutor que atropelou o filho em tribunal. Ele evitou fitá-la, mas isso pouco lhe importou. Soube que tentara dar-lhe explicações, mas Leonor sentia que nem valiam nada.

Que podiam os pedidos de desculpa? Abririam as portas da reanimação? Trazê-lo de volta, saudável? Rebobinar aquela tarde trágica que mudou tudo?

– Para onde ia com tanta pressa?

Foi tudo o que perguntou ao homem.

– Minha mãe estava a morrer Escondeu tudo de mim. Só ligou nos últimos dias para me despedir, no fundo. Estou culpado!

– Eu sei

Não a acalmou nada dizer isso. O pensamento dela era só Tomás. A temida porta da reanimação é agora passado, mas nada aliviou. Precisava de estar com o filho, não de falar com estranhos.

– Chegou a tempo? pergunta-a já indo embora.

– Não

Nunca mais falou com ele. O marido toma-lhe o lugar e ela vai para o hospital, sem regressar às sessões do tribunal tinha coisas muito mais importantes a tratar.

– Está complicado o chefe do serviço folheava papéis, sem a olhar.

O que dizer a uma mãe que só queria ouvir Vai ficar tudo bem?

Mas não ia

Leonor percebeu-o logo. O médico falava em reabilitação e técnicas novas, e ela só pensava Tomás nunca mais vai andar Nunca Nenhum especialista podia ajudar. Infelizmente

Não pensava nela própria, nem no marido e nas tensões que só então começaram. Estavam sempre juntos, e agora segue cada um no seu caminho. Uma abraça a realidade; o outro não consegue aceitá-la.

– Não vês? Temos de tentar tudo! o seu marido quase grita.

– Não há mais nada a fazer Percebes?

– Disparate! Se estes médicos não servem, arranjamos outros!

– Então procura.

– Trabalho todos os dias, quem trata disto?

– É o teu filho

– E teu também!

Então, Leonor procurou. Médicos, clínicas, todas as hipóteses que pudessem devolver a Tomás a possibilidade de se levantar. Mas às vezes os milagres perdem-se pelo caminho. O destino, distraído, deixa fugir uns bilhetes de esperança aqui e ali, sem se dar conta.

O milagre do Tomás perdeu-se. Leonor percebeu cedo que tinha é de viver com isso.

Dizer que foi difícil não diz nada.

Teve de largar o trabalho, estar mais presente. Discussões com o marido tornaram-se longas brigas. Tomás ouvia e sentia-se mal; só lhe apetecia fugir. Tentava controlar-se, mas o olhar amargo de quem amara era insuportável.

– Se o fosses buscar à escola, como as outras mães, isto não acontecia!

Naquele arrufo, palavras de gelo cravaram-se entre eles e Leonor nunca perdoou. O marido arrependeu-se logo, pediu desculpa, mas era tarde. Sentiu dentro de si uma geada. Quando ele fez as malas e bateu com a porta Tomás acordou.

– Mãe, que se passa?

– Dorme, filho. O mal foi-se embora

– Para sempre?

– Para sempre. Agora somos só nós dois. Não volta a incomodar-nos.

Ficou mais leve?

Não. Pelo contrário. Mais confusa. Viu bem o quanto custava ao Tomás adaptar-se, esforçando-se para o ajudar.

Foi por acaso que comprou a primeira caixa de soldadinhos.

– Olha, Tomás!

– O que é isto?

– Soldadinhos. Mas estão por acabar. É preciso pintar.

– Para quê?

– Para parecerem reais.

– Porque estão vestidos de modo estranho? Tomás analisa um cavaleiro.

– São húsares. Não são soldados modernos.

– Que são então?

– Vou contar!

E sentam-se lado a lado, folheando livros para saber como pintar as miniaturas. Leonor suspira ao ver o filho a reviver. Uma ideia feliz.

Passado um ano, Tomás já tem um exército inteiro. À noite, fazem batalhas e debatem o valor dos dragões e infantaria.

– Mãe, tu és o Napoleão! Faz tudo direitinho!

– Não mandes em mim! Tens o teu exército!

– Mas vais mudar a história assim! grita Tomás ao ver a mãe mexer nas miniaturas no tapete.

– Quem dera que desse para mudar, filho sussurra Leonor, cedendo e deixando o regimento de Gorchakov avançar no tapete.

O pai deixou de aparecer após o nascimento de mais um filho na sua nova família. Leonor soube pela ex-sogra, Vera, que demorou a dar-lhe a notícia.

– Perdoa, Leonor

– A senhora não tem culpa! Sempre nos apoiou, sempre connosco. Sem isso, não sei se aguentava.

– Eles vão para fora

– Para onde? Leonor quase larga o bule.

– Para França. Documentos, casa Só não levaram a mim

– Como?

– Não preciso lá, não sou útil A mãe da nova mulher é muito ativa. Ao neto só pôde vê-lo uma vez. Já chega. A minha família não resta nada

– Quer fazer-me sentir mal? Nós somos família! O Tomás é o seu neto!

– Não me enxote, Leonor! Quero ficar. Tanto compreendo Não devia ser assim!

– Quem sabe… Leonor aperta as mãos frágeis da antiga sogra. Talvez seja mesmo assim que deve ser. Não precisamos de quem nunca quis saber de nós. A tal apareceu na vida dele muito antes

– Sim, antes ainda

– Portanto, o destino não é tão cruel assim. A traição apanha-se antes. Só que não foi a senhora, foi ele. E isto nada tem a ver consigo. Ao Tomás faz falta a avó, eu preciso de ajuda. Fique connosco, sim? Família não se perde só se for vontade. E eu não quero perder a minha. E a senhora?

Vera não responde. Abraça Leonor e decide, então, ficar.

Entre pessoas, não pode haver melhor que a verdade. Não se ama alguém guardando segredos. Nem é por se livrar do segredo: é por suspeitar que o outro também o tem. E então desconfiamos.

Leonor sabia tem Tomás e Vera. Mais ninguém. Até Madalena, a amiga de sempre, foi-se afastando, dizendo que não consegue ver Tomás assim.

Leonor não discutiu. Madalena refazia a vida; naquela nova etapa, não havia espaço para as dores antigas dos outros.

Leonor via as fotos felizes da amiga nas redes sociais e genuinamente desejava-lhe sorte. Porquê não? Foram quase dez anos de amizade e confiança.

Ainda assim, quando Madalena lhe escreveu a perguntar por novidades e se precisava de algo, Leonor preferiu não responder. Não iria sobrecarregar quem achava que era peso a mais.

E problemas não faltavam.

Com muitos desenrascava-se ela ou Vera; outros, não conseguia.

Vera sempre ali. Por poder deixar Tomás com ela algumas horas, Leonor voltou ao trabalho. Vera fazia tudo: limpava, cozinhava, ajudava com os passeios.

Baixar o carrinho do quarto andar de um prédio antigo sem elevador ou rampa era duro e Leonor sabia que um dia seria impossível. Tomás ainda era leve, mas não ia durar.

Leonor tentou de tudo para pôr uma rampa no prédio, mas foi como tentar tirar a lua do céu. Negaram-lhe vez após vez; percebeu que precisava mudar.

– Leonor, talvez compremos uma casa fora da cidade. Ar puro, o Tomás precisava

– Oh, mas Vera, e as terapias? E a escola? Tomás gosta de programação, como arranjo professores bons numa aldeia? Onde vimos casas, não há sequer Internet. Levaria muito para pôr. Não podemos sair de Lisboa, Vera! Ele precisa de oportunidades! Posso tirar-lhe isso?

– Não entendo, mas apoio-te. Pensar é preciso.

– É Leonor, porém, não via saída.

Trocar o apartamento?

Nos prédios novos há rampas e até elevador; mas os preços estavam pelas horas da morte. Com o que gastava com o tratamento do Tomás, nem pensar. Viu preços uma vez percebeu logo: impossível.

Dois agentes imobiliários abanavam a cabeça. Apartamento no rés do chão por valor razoável? Impossível. Ninguém queria o T2 pequeno da Leonor.

– Entenda, assim não se vende. Não há procura

Agradecia o esforço, mas ficava furiosa.

Porquê?! Porque não podia ela decidir o futuro do filho? Porque estava sujeita ao fado, que ora chora, ora ri, mas nunca lhes dá trégua?

Só que o destino, afinal, não é tão cruel. Desatento, talvez, mas não mauzão. Um billetinho de sorte ficou esquecido na cesta dele. E naquele dia, quando aquela miúda apressada empurra a Leonor no passeio, entra na vida deles o senhor Manuel.

– Menina, precisa de ajuda?

A voz atrás de Leonor, quando tentava arrancar o carrinho do monte de lama da esquina, vinha de um homem já idoso.

– Não, não Agradeço! Consigo!

Ela sorri, mas o velhote ignora. Anda à volta do carrinho, estende a mão ao Tomás. Aperta-lhe a mão:

– Sou o avô Manel. E tu, rapaz, não ajudas à tua mãe? Olha que ela está arrasada!

– Tentei, mãe ralha.

– Entendi! Dá cá, filha! Eu trato disto.

Passa-lhe um saco com tangerinas, marela:

– Agarra isso. Adoro tangerinas! Porto-te bem, dou-te uma! Vamos lá!

Arrasta o carrinho e Leonor fica de boca aberta. O senhor desfaz o montinho de lama, atravessa a rua, a falar animado com o Tomás. Ela apressa-se atrás.

– Para onde vos levo? Não tenho pressa! Manuel estaciona o carrinho.

– Oh, não precisa, vamos sozinhos!

– Tão bonita, mas teimosa! Manuel tira uma tangerina, parte-a e dá metade a Leonor e Tomás. Não posso andar, já agora, com boa companhia? Ou incomodo?

– Não, é simpático Leonor acha graça ao senhor.

Vão ao centro de saúde e tudo corre bem.

No dia seguinte, alguém bate à porta ao almoço.

– Tenham paciência Aceitam visitas?

Leonor reconhece logo o senhor do dia anterior. Tomás grita, feliz:

– Avô Manel! Vieste por mim? Boa! Oh mãe, então? Vai lá cumprimentar!

Em pouco tempo, Leonor já não entendia nada. Aquele estranho, em poucos dias, resolve quase todos os problemas que ela juntou num ano.

– Leonor, falei com os teus vizinhos, os Monteiro do prédio ao lado. Têm um apartamento igualzinho, mas no rés-do-chão. Querem trocar. Vão ver o teu hoje. Pede compensação, que o teu está melhor. Eu ajudo a pôr o outro em ordem, não te preocupes. Só precisas de algum para os materiais.

– E se não concordam?

– Já concordaram. Só falares disso. Falei com ele, é homem de palavra.

– Como sabe?

– No café contaram-me. Conhecem-no há 40 anos. Nunca falhou.

– Como conseguiu isto?

– Fala-se com as pessoas! Tu, nem perguntaste como te achei a primeira vez.

– Realmente, como?

– Perguntei: onde mora a senhora bonita dos olhos grandes e o rapaz que não se quer levantar?

– Avô Manel! Eu quero! Só não consigo!

– Se quiseres mesmo, rapaz, até voar um dia podias!

– Como assim?

– No verão mostro. Agora não.

– Dê uma pista.

– Nem penses! Não chores! Não és menina!

– Não sou!

– Bom rapaz! Anda, deixa falar com a mãe. Se fizermos tudo certo, este verão já passeias sozinho na rua.

– Boa!

– Ai que barulho! Já estou quase surdo, mas até eu fiquei tonto! Manuel ri, enquanto Tomás pratica nas rodas. Tem força o teu filho, Leonor, mas falta mais. Achei um massagista, antigo enfermeiro militar; sabe técnicas óptimas, até estudou no Tibete. Era vê-lo.

– Não vale a pena Já ouvimos todos os diagnósticos.

– E conformaste-te? olha-a sério. Não, Leonor! Enquanto não for o fim, não se desiste. Tudo pode acontecer. Olha para mim, exemplo vivo.

– Conta?

– Um dia conto tudo. Das minhas viagens pelo Atlântico, como quase morri três vezes e até como aprendi a voar! O meu parapente, os meus amigos pilotos tudo conto. Mas depois.

– Porquê?

– Porque hoje vai ser dia de trabalho. O Zé do 5.º anda livre. É o melhor soldador que há! Vai ajudar com a rampa.

– Quer licença para isso! Sem ela, não pode!

– E não viste isto? tira um papel branco. Tenho tudo: licença, assinaturas dos vizinhos. São todos bons. Os esquecidos, lembrámos!

– Quem é nós?

– Achas que conseguia sozinho? Não, Leonor. O administrador do prédio, a Vera, outras senhoras. Tantas flores por aqui, quase fiquei sem saber para onde me virar!

– Anda cá, Manuel, que sedutor!

– Era só o que faltava! Já aceitei vocês, sou vosso! E tu, o Tomás e a Vera, agora olho por vocês! Não se deixa uma mulher com um rapazote ao deus-dará! Que despropósito!

E Manuel cumpriu. Em semanas, Leonor mudou-se para o novo apartamento. Andava por entre os quartos vazios, emocionada, ao ver as portas largas que Manuel e os vizinhos estavam a adaptar para o carrinho do Tomás.

A rampa nova no prédio fez Leonor pedir desculpa aos vizinhos.

– Desculpem, mas é essencial para nós

Mas ninguém a criticou.

– Leonor, está tudo bem. Que Deus dê saúde ao seu rapaz!

Leonor, acostumada a olhares esquivos na rua, questionou Manuel:

– Como conseguem ser tão naturais connosco? Não resmungam? Não evitam? Normalmente sentimo-nos incómodos e desviam o olhar

– Medo, Leonor. Têm medo.

– De quê?

– Não percebes? Medo de azar, de desgraça. Por isso afastam-se dos diferentes. Mas nem todos.

– Nem todos O senhor nunca evitou. E os vizinhos.

– Por vezes lembram-se que são humanos! ri Manuel.

Na verdade, foi ele quem explicou porta a porta, falando com todos:

– A filha está bem? A esposa saudável? Que bom! Conhecem a Leonor e o Tomás? Grande mãe, grande lutadora! Maravilha conhecê-los!

Leonor nem sabia destas conversas. Mas tinha tanto a agradecer àquele desconhecido que, de repente, se tornou indispensável.

Sobretudo porque o tal massagista, afinal, deu-lhe esperança para Tomás.

– Perceba, Leonor. É um fiozinho de esperança. Pequeno nem quero iludi-la. Mas não se pode perder! Têm de ir a Lisboa.

– Lisboa?

– Sim. O meu amigo, grande cirurgião. Se ele não resolve, ninguém resolve. Já falei, está disposto a ver o Tomás.

– Ver?

– Demora e é difícil, mas antes de arriscar uma intervenção, há muito trabalho de preparação.

– Não sei se conseguimos pagar

– Não te preocupes, Leonor! Vera mete-se, apesar do olhar reprovador de Manuel. Não olhes assim, Manel! Está decidido.

– Que decidiu, Vera?

– Vendo a minha casa. E já liguei ao António, o pai do Tomás. Também vai ajudar. Não protestes! Não é tempo de orgulho! O importante é pôr Tomás de pé! Ele é pai, ainda assim, e lembrei-lho! És sensata, Leonor. Agora temos de estar todos juntos. Só assim pode dar certo

Leonor acena. Não há o que dizer; sente que a Vera tem razão. O Tomás é o mais importante.

Da operação, seis meses depois, Tomás ainda não recupera tudo, mas a rampa que Manuel construíra já não tem uso: Leonor conheceu quem também precisava de uma.

– E o seu rapaz, dona Leonor?

– Agora já anda. Por enquanto só de canadianas, mas é só o começo.

– Acha que? a senhora olha para a filha na cadeira ao lado de Tomás.

– Dou-lhe o contacto do médico. Pode ser. Agora sei: nunca se deve desperdiçar uma oportunidade!

– Como aguentou? Com tanta dor

– Nem é mérito meu. Garanto-lhe os anjos existem. E podem ser muito diferentes. Os meus, são muitos. São os meus protetores.

– Verdade?

– Mesmo. Um deles é chefe. Forte, inflexível e, por fora, um velhote bondoso. Acredita que todos são bons. Só precisam de ser lembrados disso, de vez em quando.

– Como se chama?

– Manuel. Manuel Vicente. O meu anjo. Meu e do Tomás. Não é, filho?

Tomás acena, protegendo os olhos do sol, levanta-se com esforço do banco, e pisca o olho à miúda faladora ao lado.

– É isso, mãe! Posso dar uma volta com a Marta? Não vamos longe!

Leonor toca o braço da mãe da Marta, que estremece receosa, e sorri:

– Claro E nós podemos juntar-nos? Não atrapalhamos?

– Sim, sim! Há gelados para todos!

E numa nova família instala-se um pouco de silêncio.

E ali entra, ainda tímida, a esperança.

Que nunca se tema a esperança.

Se lhe dermos espaço e uma ajudinha, cresce rápido e muda tudo onde habita. Pode não correr tudo como sonhamos, mas basta o riso voltar a ecoar em casa para o azar se acanhar num canto antes de sair porta fora. Já não ouviremos esse barulho: há outros a escutar.

E esse som, tímido, começa a brilhar como o cristal, e esperança de novo aprende a dançar copiando a pequena menina pelo qual o Tomás irá pedir tanto à vida.

– Por favor! Mais um bocadinho Ajuda-a como me ajudaste?

O destino, sem explicar a ninguém, procura no fundo da cesta, faz mais um aviãozinho de papel e sobe-o ao céu, assobiando baixinho. Depois segue o caminho, sonhando a quem há de ainda repartir uma fatia de felicidadeTomás sorri, acena à mãe. Com passos ainda hesitantes, companhia nova ao lado, ruma devagar ao jardim. O sol afaga-lhe os ombros: já não pesa tanto. Leonor observa-os afastarem-se, sente o peito abrir, leve, lavado como a calçada depois da chuva.

Manuel aprofunda-se no banco ao seu lado, a casca grossa do rosto suavizada num sorriso.

Viste, filha? Às vezes só falta um empurrãozinho.

Leonor respira fundo. Há no ar cheiro azul de promessas, rumor de vida pela frente.

Sabe que virão outros dias maus, outros não consigo. Já não tem medo. Aprendeu: há sempre mais mãos do que pensamos, e cada um carrega a sua dose de milagres pequenos. Quando partilhados, crescem, mudam de nome. Passam a chamar-se futuro.

Vera chega com sacos do supermercado e um sorriso cúmplice, senta-se entre eles. Leonor sente-se, enfim, inteira. Não por ter tudo: mas por nunca mais estar sozinha.

Na relva, Tomás e Marta desafiam-se, tentam correr. Tropeçam, riem. O velho mundo deles o de muros, degraus e portas fechadas já não é o único. Agora, há caminhos abertos até onde chegue a esperança.

Leonor fecha os olhos um instante. Imagina, talvez, ouvir ao longe um aviãozinho de papel a dançar pelo céu o seu bilhete escrito em silêncio. Um pedido simples: que ninguém mais volte atrás sozinho.

Quando os reabre, vê Tomás a erguer os braços, como quem voa. Sabe que, por ele, aprenderá a voar também, sempre que for preciso.

Sorri. O resto pode esperar. Afinal, a vida recomeça um bocadinho todos os dias e, naquele, escolheram caminhar juntos.

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