A Vida Adiada
Mãe, posso tirar um rebuçado da caixa? Só um! Por favor! Mariana torcia-se em voltas de raposa junto ao aparador onde Irene tinha escondido, com tanto esforço, os poucos doces comprados no mercado negro.
Não pode ser! É para a mesa de Natal. Se comeres agora, no fim do ano não sobra nada.
Mariana embicou o lábio, sentindo-se sem fôlego no sonho molhado de Viseu, onde as sombras se arredondavam nos cantos da cozinha azul. “Porquê, mãe?” pensava Mariana, enquanto luzia as pontas da trança. Se é bom, é para depois. Se é bonito, só se usa à missa ou em dia de festa. Apetecia-lhe tanto usar o vestido novo, o tal que o pai trouxe do Porto, cheirando ainda a viagem e a chuva batida nos cestos de vime, e ir logo mostrar à Teresa, que nunca parecia privar de regras destas; ao menos à filha ela deixava levar os vestidos novos para a escolinha da paróquia. Mariana ouvira qualquer coisa, às escondidas da cortina, sobre não comprar: a mãe da Teresa costurava tudo. Pois, costurados ou comprados, a Teresa era sempre a mais vaidosa do jardim, os laçarotes dançavam-lhe na cabeça como pássaros. Mariana, no seu vestido de pintinhas gastas, pintinhas que pareciam sumir no algodão já sem memória, sentia a infância a dissolver-se-lhe na pele.
Não sabia, então, quanto suor custavam esses rebuçados e os tais vestidos à sua mãe e ao seu pai. Irene era funcionária na biblioteca municipal, o pai engenheiro numa firma de elevadores, sempre ao sabor dos ventos. Mariana crescera a ouvir uma palavra pousada em todos os móveis: arranjar. Isso queria dizer que havia sapatos sem igual, panelas herdadas, fatias de bolo que se dividiam pelos que estavam. Ganharam para cada coisa bonita uma semana de batatas e arroz. Irene nem calçou as botas novas nas primeiras semanas; o brilho delas iluminava-lhe os olhos cada manhã, e foi por isso que Mariana lembrava cada cicatriz, cada sola que se gastava, como se as botas fossem relíquias de uma história de maresia.
O tempo corria e as coisas desfiavam-se. Aparecia agora de tudo nas montras de Aveiro: calças, camisolas, chocolates e bolachas, mas os escudos portugueses tornavam-se a dificuldade. Mariana estava no oitavo ano quando o pai chegou, suado das escadas íngremes, com um sorriso desatado:
Arranjaram-me trabalho, filha!
Ela não entendia ainda porquê aquela alegria de adulto, mas era coisa boa. Uma empresa moderna de eletrónica, às vezes falava de computadores como se fossem barcos voadores. O pai, que sempre parecia viver nas nuvens, acordou. Descobriu-se bom chefe, bom com as datas e números, ficou importante na cidade. Tudo ficou mais simples. A mãe já não puxava o cabelo sobre o caderno das contas; Mariana teve os primeiros jeans que maravilha! e sapatilhas azuis como o céu de junho.
Desistiu de ir trabalhar cedo; quis antes ir para a faculdade no Porto, decidiu estudar a sério. Os pais apoiaram. Passou dois anos mergulhada nos livros, esquecida até da rádio e das amigas, e entrou para a universidade. A vida ganhou cheiros de liberdade: diploma com honras, emprego que lhe arranjou o pai, já com contactos dos tempos da empresa nova. Finalmente, parecia poder pensar em si, talvez numa família. Mas não. Mariana punha sempre tudo em segundo plano. A carreira era o seu altar; nunca mais queria contar tostões por sapatos ou medo pelo teto. E foi sendo assim, até os pais já não terem mãos para a tanta alegria da filha: comprou uma casa própria, guiava o seu carro, passava férias em Roma, em Paris. Só… só que sozinha.
Mas Mariana nunca se incomodou de estar sozinha. Sempre tivera pretendentes, sempre o telefone tocava. Só que ela achava que, enquanto era jovem, muito havia ainda a viver; filhos viriam depois, se calhar nunca.
Aos trinta e cinco, caíram-lhe em mãos os primeiros amores sérios. Ela e Vítor eram colegas num prédio de vidro e ferro, com vista para o rio Douro. Anos lado a lado, cruzavam palavras como quem joga damas, nunca mais que isso. Mariana não imaginara, naquele mundo instável de trabalho, que Vítor gostava dela. Ele, homem de olhos cinzentos e camisas engomadas, era altamente considerado e apreciado; era tudo o que Mariana gostava num homem. Finalmente, numa das galas da empresa e nos sonhos era sempre outono , Mariana, já com um copo a mais, pousou a cabeça no ombro de Vítor durante uma valsa perdida.
Casa comigo. Estamos os dois lançados, já não somos novos. Está na hora de arriscar uma família. Sempre gostei de ti. Mais do que gostava.
Mariana riu:
Vítor, não sejas tonto. Temos todo o tempo do mundo. Vamos com calma.
Mas de manhã, viu-se a olhar-lhe nos olhos, e o sonho tomou conta da boca:
Sim. Caso contigo.
O casamento foi uma festa, Irene chorou de alegria, pensava já que nunca teria netos. Três anos depois, Mariana percebeu: tudo o que achava importante era poeira, e só o que sempre adiou importava.
Não há… não há futuro para mim, mãe… Mariana quase não chorava. Olhava o resultado dos exames nas mãos. Porque fui tão burra?
Oh, filha, calma. É só uma clínica. A medicina avança. Tudo pode mudar.
Quando? atirou as folhas ao ar, entre tapetes com padrões esquisitos, cortinas que não combinavam, tudo sonhado na infância com cheiros a sopas e a cera do chão.
A casa dos pais parecia congelada no tempo. Recusavam dinheiro para obras ou móveis. O pai já não trabalhava, andava doente, e Irene era prisioneira do receio de o deixar só. Mariana insistia, ia comprando alimentos, restaurando móveis velhos: vintage, dizia. As obras já tinham sido feitas há dez anos, mas repentinamente Mariana pensou: talvez devesse mudar os papéis de parede, dar outra face ao soalho. Estranho como, quando tudo rui, pensamos nos rodapés…
Mãe, tu não entendes? É que tempo é precisamente o que não tenho…
Sentaram-se juntas entre as sombras, embaladas no crepúsculo dos sonhos mau-passados. O telefone tocava noutra dimensão. Mariana chorava e parava, em silêncio. Por fim, ergueu-se, vendo a silhueta da mãe:
Obrigada, mãe…
Porquê, Marianinha?
Por ouvires. Só tu. Agora mais ninguém precisa.
O que estás a dizer?! Irene tapou-lhe a boca com a palma da mão. Precisas de mim. Precisas do teu pai. E do Vítor!
Do Vítor… já não.
Porquê, Mariana?
Porque é meu problema, não dele. O tempo dele também não pára. Ainda pode ser pai. Com outra.
Levantou-se, abraçou a mãe, não ouvindo mais argumentos. Ia para casa.
Não vou perder-me, mãe, não te preocupes. lançou um beijo pelo ar, fechou a porta. Irene desabou na cadeira do corredor, pedindo a Deus explicações.
Mariana não queria regressar. Dobrou rumo à marginal do rio, que no sonho era o Tejo, fluía devagar na maré vazia, cheia de vento agreste. Só passavam donos com cães, um casal idoso apressado, vozes roucas por dentro de gabardinas. Mariana seguiu-os com o olhar e chorou como se tudo se desmoronasse numa espuma misturada com saudade. Sonhou que também a ela cabia envelhecer de mãos dadas, decifrar olhares, construir um mundo. Mas já não seria. Percebeu, como um relâmpago de sal, que sempre amara Vítor. E adiara esse amor, como adiara tudo. Mas de que servia isso, agora?
Olhou a superfície negra do rio, lembrou-se dos passeios com os pais, do gelado que se partilhava, faça sol, faça chuva, e a garganta nunca lhe doeu nem no inverno, nem no sonho porque o gelado era coisa sagrada. Mas assim, com filhos, não haveria.
Desviou o olhar do abismo, sacudiu a cabeça. Basta! A autopiedade não mudava nada. Havia-de ir em frente. Encontrar qualquer coisa de novo. Tudo o que conquistara parecia vapor, percebeu claramente: carreira não enche vazio; o resto valia pouco. Tinha de procurar outra coisa. O quê, isso ainda não sabia. Mas havia uma decisão por tomar um agora para não deixar outra vida em suspenso.
Foi buscar o carro, mas parou de repente. Um grupo de rapazes, talvez dezasseis anos, rodeava o carro, sombras de sonho. Olhou à volta; deserto. Não haveria ali nem polícia, nem coragem para acudir. Mas sentiu raiva, quase uma indiferença sonâmbula: e daí, que importava agora o que lhe viesse a acontecer?
Meteu as mãos geladas nos bolsos e foi direta:
Então, que é que se passa?
Os moços viraram-se, rostos quase irreais.
É o seu carro?
É sim.
Debaixo do capô! Precisa abrir! Tem de tirar! Toda a frase parecia música, mas Mariana percebeu que não iam saltar-lhe em cima. Era outra coisa.
Espera! Fala um de cada vez. Que há debaixo do capô?
O mais pequeno chegou-se à frente. “O chefe”, marcou Mariana mentalmente.
Um gatinho. Vimos a trepar para debaixo do carro. Pode estar preso, ou mais acima, no motor. Se não tirarmos, magoa-se.
Mariana ergueu as sobrancelhas:
Tens a certeza?
Estou. Eles, nesta altura do ano, procuram calor nas máquinas.
Mariana abriu o carro. E, debaixo do capô, tiraram um gatinho preto, tão negro como pedra vulcânica, que se debatia furioso.
Ai, que peste, este gato! riam-se os rapazes, e o líder passou-lho às mãos. Fique com ele!
Eu? Mariana aceitou o animal, que se aquietou de súbito. Nunca tive gatos, o que faço com ele?
Vai ver que aprende. Só tem de o alimentar. disseram, rindo, e seguiram rua abaixo.
Mariana lembrou-se: Rapazes, esperem! Vasculhou o bolso e tirou uma nota. Não se salva um bicho sem moeda! Como diz a minha mãe.
Obrigado! deram-lhe o aceno, sumindo-se. Mariana sentou-se no carro com o gato no colo.
E o que faço eu contigo?
O gato, agora dono e senhor do seu casaco, amassava com as patas sujas o tecido claro, ronronando cada vez mais alto.
Está bem… Estou velha, com um gato a rebolar-me nas tristezas. Pronto! Vá, para casa.
Adiando a conversa com Vítor para a manhã seguinte, passou o resto do serão entre água quente, gatos minúsculos e pulgas:
Aonde é que foste buscar tanta bicheza, bicho feio? Como é que me deixei apanhar nesta trapalhada de sonho? Mariana ensaboava o gato, Vítor, à porta, com uma toalha.
Engraçado…
O quê?
Normalmente os gatos odeiam água. Este parece gostar, fica quieto.
E até ronrona. Não ouves? Parece um motorzinho!
Mariana embrulhou o animal.
Acabou, agora é comer!
Mais tarde, deitada no sofá, o gato à cabeça, Vítor criou coragem:
Mariana, então? Novidades?
Ela suspirou fundo. Era melhor contar logo, de manhã não seria mais fácil.
Vamos divorciar-nos, Vítor.
O quê?! A que propósito?
Porque não vou poder ter filhos. Só culpa minha. Tu ainda tens tempo, podes encontrar alguém, seres pai.
Vítor olhou-a, cabisbaixo:
Achas mesmo que sou uma máquina, que troco por outra pessoa só porque sim? Mariana, o que é para mim importante é tu estares comigo. Não outra qualquer. Mas tu já decidiste.
Virou-se, pegou no gato que bocejou, e saiu.
Hoje durmo no escritório. Boa noite.
Mariana assentiu. Só chorou quando ficou sozinha. Duvidou, mas achava que só ela tinha razão. Com o tempo, mudaria tudo.
Não dormiu, as ideias latejavam-lhe. Puxou pelos fios todos da vida com Vítor, achando sempre que o seu caminho era o mais correto. Por momentos, chorou. Fosse como fosse, Vítor nunca lhe ia cobrar. Era bom demais para isso.
Ainda dormia, devagar, quando Vítor saiu com o gato. Encontrou-se sozinha, uma manta sobre os joelhos, um bilhete na mesa: “Volto à noite falamos. Nem penses que foges de mim. Amo-te!”
O gato sentado a postos.
Queres café, tu?
Pela primeira vez em dias sorriu, vendo o bicho correr para a cozinha. A dúvida parecia evaporar-se. Talvez fosse o tempo, talvez o amor ainda morasse ali. Apetecia-lhe estar viva. Ligou para o trabalho, tirou o dia. Marcou cabeleireiro, manicura, quis vestir-se bem.
A cidade chorava chuva. Os carros navegavam nos carreiros líquidos, Mariana esqueceu o guarda-chuva, molhou-se até aos ossos, mas recusou voltar atrás. Sentou-se no salão esperando que a chamassem: folheava revistas velhas, só maternidade, infância. Viu um menino de olhos verdes numa fotografia. Parecia conhecê-lo, era estranho, quase um déjà vu coberto de vento da Serra da Estrela. Três, quatro anos talvez, olhos com líquen. Mariana estremeceu, leu o texto pequeno por baixo da imagem.
A cabeleireira chamou, mas Mariana já tinha desaparecido revista na mão, vapor de sonho nas pontas dos dedos.
Vítor olhou, surpreso, quando Mariana entrou de rompante:
Olha! pôs a revista à frente dele, apontando o menino.
Quem é?
Não sei. Só diz nome e idade. Mas olha!
Puxou Vítor para o espelho entre gabinetes. Ele leu devagar, olhou, e assustou-se o reflexo era o do menino, trinta anos adiante.
Incrível Vítor murmurou.
Nem lhe chamo certeza. Não sei de nada. Se calhar já foi adotado. Não interessa. Só sei que não quero mais adiar nada!
Seis meses depois, trouxeram o Xavier, o menino da fotografia, para casa, acolhido do lar de Leiria. E, passados dois anos, uma revista perdida trouxe-lhes também uma menina: Beatriz. Tinha só ano e meio, nunca conhecera outra mãe; Mariana foi tudo. E cinco anos depois, achando sintomas de menopausa, Mariana foi ao médico.
Qual quê, doutora? Não pode ser!
Nasceu Constança, pontual, provocando espanto pela casa fora.
Irene ainda conheceu a neta. Partiu um ano depois, doença longa. Mas em todo tempo que restou, encheu a vida de netos.
Vocês são a minha alegria, vocês são a minha vida
Depois da perda, Mariana arrumava os armários dos pais, preparando o pai para viver com ela. Num canto, achou uma caixa. Ao abri-la, ficou estática, depois chorou alto: as botas velhas da mãe. Abraçou-as, finalmente soltando a dor de meses, de despedidas adiadas. Os filhos assustaram-se:
Mãe! Que foi?! Xavier correu.
Mariana tirou as botas da caixa, abraçou-as. O pranto saía-lhe finalmente.
Porque choras, mãe? Beatriz ajoelhou-se, tentou segurar-lhe o rosto. Não conseguiu, então abraçou-lhe o pescoço. Constança imitou as irmãs, todos choravam, até Vítor, vindo da cozinha, chegou a duvidar da realidade do sonho.
Calma! O que foi?
As meninas calaram-se, aguardando. Agora, sabiam que tudo ia ficar bem. A mãe não choraria mais, pensavam.
Vítor, imagina Guardou-as todo este tempo Tudo!
Mariana pôs as botas de lado, explorou o resto do roupeiro: lençóis, toalhas que recusara trazer quando casou (“não combinam com o meu estilo”). Tudo perfumado por saquinhos de alfazema, como um campo aberto entre as madeiras. Havia rendas já amareladas, ponto cruz esbatido sinais de outros tempos.
Como é que deixamos sempre tudo para amanhã? Não faz sentido. Nunca aproveitamos a vida de verdade. E depois, talvez não haja amanhã. Não é justo.
Vítor abraçou-a. Nem precisava dizer nada.
Constança, enredando-se nas pernas da mãe, ergueu o rosto de olhos verdes:
Mamã!
Mariana congelou seria sonho? Vítor sorriu e assentiu, ela ajoelhou:
Diz outra vez!
Mamã! Constança enfiou-se nos braços da mãe. Mamã…
Xavier e Beatriz bateram palmas.
Disse mãe! Xavier piscou o olho ao pai. Perdes-te, pai.
Teremos de ir convosco ao Jardim Zoológico.
Quando? Beatriz saltava. Aos fins de semana?
Para quê esperar? Mariana beijou a pequena, encostou o nariz ao dela. Não adiemos o prazer. Vamos hoje!
Olhando as roupas espalhadas pelo chão, percebeu: há coisas, sim, que se podem e devem deixar para amanhã. Agora sabia-o numa clareza que só o sonho permite.
Guiando, ouvia as gargalhadas no banco de trás. Não sabia como fazer os filhos plenamente felizes, mas pelo menos ia tentar ensinar-lhes isso: não adiar a vida. Porque amanhã é bicho traiçoeiro. Quando parece que falta um passo, tudo muda e pode nunca chegar o tal dia.
E gelado?
Agora? Xavier, espantado. Mas mãe, nem almoçámos!
Há tempo. E então?
Sim! palmas e risos no banco de trás, e Vítor sorrindo.
Estás a estragar estas crianças, mulher…
Mas que seria da vida sem uns mimos, homem meu? Afinal, se não for agora… quando será?







