Sem Caminho de Volta

Caminho sem volta

Lembro-me bem daquele início de manhã, muitos anos atrás, quando pus a chávena sobre a mesa e olhei para o Artur. Ele estava junto ao espelho do corredor, ajeitando o colarinho da camisa nova. Era uma camisa justa, aos quadradinhos miúdos, do tipo que se vê em rapazes de vinte e poucos anos, e não em homens feitos, prestes a completar cinquenta primaveras.

Artur, vais trabalhar ou tens outro destino?

Claro que vou trabalhar, onde mais havia de ir?

Era só curiosidade. Nunca usaste roupa dessas para a empresa.

Ele voltou-se. O olhar tinha algo de diferente, menos presente, um pouco impaciente. Como se tivesse pressa de partir e eu estivesse no caminho.

Leonor, mudar a roupa faz parte da vida. Não é nada de outro mundo.

Não disse o contrário.

Pois, não dizes nada, mas olhas.

Pôs o casaco. Não o habitual, cinzento, pendurado no bengaleiro há anos, mas um casaco azul-escuro, curto, que comprou havia pouco. Segui-o com os olhos até à porta. Depois peguei na chávena e fui para a cozinha. Lá fora, o princípio de março tinha céu cinzento e chuva miúda. Na janela vivia o meu vaso de gerânios, que rego todas as terças, folhas viçosas e aquele cheiro caseiro, meio ácido. Encostei a testa ao vidro e pensei que a última vez que saímos juntos, Artur e eu, fora em outubro. Ao teatro, uma peça de que gostei, embora ele tivesse ficado calado o regresso inteiro.

Vinte e cinco anos. Muito tempo, a ponto de já não o contar em dias.

Trabalhava na contabilidade de uma construtora pequena, nos arredores de Lisboa. Ambiente estável, colegas que já tratava pelo nome há décadas. Lá, chamavam-me dona Leonor, mesmo aqueles que podiam ser meus pais. Cumpridora nos horários, metódica. Em casa, a mesma ordem: todas as segundas trocava a toalha da cozinha, de linho riscado, clara, sempre bem passada; o roupão felpudo, cor de leite queimado, comprado três anos antes e guardado com esmero. Ao fim das tardes, gostava de me perder por entre páginas de um romance, chá quente com doce de ameixa feito por mim em agosto. A vida estava alinhavada, tal um vestido bem ajustado: nada a mais, nada a faltar.

Mas algo começou a mudar no Artur pelo Carnaval, nos finais de fevereiro. Inscreveu-se num ginásio, coisa que nunca mostrara interesse. O tom, porém, não era estou a cuidar de mim, mas cansei de ser um velho desleixado. Não liguei muito: já ouvira falar dessas crises antes dos cinquenta os exercícios, as dietas, um certo medo de que o melhor já tivesse passado. Deixei andar, não fazia mal a ninguém.

Depois veio o perfume doce, enjoativo, de marca estrangeira, frasco negro com prateado. Nada a ver com o aroma leve, meio amadeirado, que ele sempre usara. Aquele cheirava na entrada ainda muito depois dele sair. Observei, resignei-me.

Logo surgiram as camisas novas. E mais uma. E uns jeans, apertados, com rasgões no joelho, que encontrei por acaso, a arrumar o armário. Disse nada. Coloquei de volta.

Em março, os serões começaram a ser mais vagos. Num dia era jantar de trabalho, noutro precisava ficar até tarde, depois passava pela casa do Rui Eu escutava e acenava. Vinte e cinco anos dão hábito de confiar, de não pedir explicações afinal, tudo o que tínhamos tinha sido construído com confiança.

Mas um peso miúdo, silencioso, ia crescendo por dentro de mim. Como aquele ponto da costura que repuxa depois de lavado com água fria, sem nunca romper.

Nas semanas seguintes, vi que passava mais tempo de olhar preso ao telemóvel. Antigamente largava-o em cima da mesa e esquecia. Agora, era sempre no bolso. Se tocava, ia atender à varanda. Uma vez entrei na cozinha e vi que ele virou o visor para baixo, perguntando se precisava de ajuda no jantar coisa inédita nele.

A minha amiga Graça, companheira dos tempos de liceu, foi direta:

Ó Leonor, não vês? É o clássico, crise da meia-idade. O Alberto aos quarenta e oito comprou uma Vespa. Andou de couro e capacete três meses. Depois fartou-se.

O Artur não faria dessas

São todos iguais, até deixarem de ser.

Não compliques.

Não complico nada, só te faço abrir os olhos.

Passei a observar melhor. Quanto mais olhava, menos entendia. Em casa, jantava, dormia, falava um pouco sobre o escritório ou sobre o cano da casa de banho. Ao mesmo tempo, parecia longe, pensamento noutro sítio, conversas só por hábito.

Uma noite, sentados à mesa, servi-lhe o chá primeiro, arrumei os biscoitos numa tigela:

Artur, está tudo bem contigo?

Normalíssimo.

Tens andado estranho, distante.

Levantou os olhos da chávena.

É o trabalho, Leonor. Ando exausto com estas mudanças.

Percebo. Perguntei só por perguntar.

Está tudo bem, repetiu, agarrando um biscoito.

Maio trouxe calor cedo. Plantei as petúnias no terraço, vermelhas e brancas, como fazia todos os anos, compradas à velha senhora do mercado. Rego-as de manhã, aproveitando os primeiros raios de sol. Prazer miúdo e sem perguntas, só isso.

Nesses dias, por mais de uma vez Artur chegou quase à meia-noite. Alegava jantares de negócios. Não discuti. Simplesmente ouvia como ele se mexia baixinho no quarto de banho, os passos prudentes pelo chão de madeira. Demorava a adormecer depois.

Até que um dia não aguentei.

Artur, tens alguém?

Hesitou segundos. Longos demais para um simples não.

Que ideia, Leonor?

Só perguntei.

Não inventes.

Está bem, disse eu. Nunca mais perguntei.

Mas dentro, algo moveu-se. Não se partiu, nem desmoronou apenas arrastou-se para um sítio diferente, como móvel mudado de lugar, tornando o passo na sala estranho.

No verão, começou a dizer que dormia em casa do Rui. Uma vez, outra e outra. Embrulhava-lhe uma camisa numa saca e nada dizia. Talvez Graça tivesse razão e fosse só uma crise, pensei. As pessoas com cinquenta anos perdem-se muitas vezes. Depois voltam. Não se deitam fora assim, de repente, vinte e cinco anos.

A meio de julho, Artur sentou-se à minha frente, já com a camisa aos quadrados que eu tinha decorado desde março. Cruzou as mãos, olhou a janela. O gerânio resistia ao calor. Eu sabia o que ia acontecer, talvez soubesse há muito.

Leonor, precisamos conversar.

Diz.

Vou-me embora.

Pousei a chávena. Ainda sentia o calor na cerâmica.

Para onde vais?

Fez uma breve pausa.

Chama-se Vânia. Tem vinte e dois anos. Conheci-a há meio ano.

Do lado de fora, alguém regava flores com uma mangueira ouvia-se o tom regular da água a pingar.

Desde fevereiro, portanto?

Por aí.

Quando compraste as camisas novas.

Leonor…

Não estou a culpar-te, só a alinhar os factos.

O olhar dele tinha aquela surpresa culpada de quem esperava lágrimas ou gritos que o limpassem de culpa.

Não entendes… murmurou, enfim. Preciso de sentir que estou vivo. Que ainda me espera qualquer coisa. Olha para nós, Leonor. Somos uns velhos…

Tens quarenta e nove, Artur.

Pois.

Não entendo esse pois.

Ele levantou-se. Deu uma volta pela cozinha, pousou uma chávena vazia na banca. Mais um gesto, para não sustentar o olhar.

Vivemos como vizinhos. Tu sabes isso. Todos os dias a mesma toalha, o mesmo chá, o gerânio, tudo igual. Isto não é vida, Leonor. Isto é estagnação.

É lar, disse baixinho. O lar que levantei durante vinte e cinco anos.

Sei disso. E agradeço-te. Mas não posso mais.

Olhei para ele. Perguntei-me se alguma vez o soube quem era. Talvez tenha sido sempre assim, e eu só via o que queria ver.

Vens buscar as tuas coisas hoje?

Notou-se o embaraço no rosto dele.

Não, hoje não. Depois, devagar.

Está bem.

Levantei-me, deitei fora o resto do chá, arrumei as chávenas. Enxuguei as mãos num pano, saí da cozinha. Abri a janela da sala. O cheiro a asfalto quente e a tília dos jardins vizinhos enchia o ar. Inspiro fundo. Amanhã tinha de regar as petúnias, reparei que a manteiga acabava.

Em alturas assim, são os pensamentos práticos que salvam mais que palavras.

As primeiras semanas sozinha pareceram irreais. Nada de quebras violentas continuei a levantar-me, comer, ir trabalhar, regar as plantas. Mas a casa estava vazia de sons. As coisas dele já não estavam no quarto de banho, o bengaleiro desapertado. Comprei um cabide novo para pendurar a mala, a ocupar o espaço.

A Graça apareceu no primeiro sábado, trouxe uma tarte de couve e ficou até ao anoitecer.

Como vai a tua vida?

Normal.

A sério, Leonor?

Sério. Normal. Dói, mas é normal. Percebes?

Bem, murmurou Graça. Ao menos explicou?

Disse que estávamos velhos, que era um pântano de rotina.

O pântano era dele, não teu.

Deitei mais chá, a luz já se fundia em sombras, a cozinha quente, a tarte descansava sobre a tábua. Soube que sabia criar aconchego e que, de agora em diante, o meu aconchego era só meu.

Vinte e dois anos, Graça.

Ouvi, sim.

Não é inveja, é aritmética estranha. Tinha a idade dela quando casei. Agora ele está com alguém dessa idade

O tempo, Leonor, é isso que procuram. Mas não volta.

Pois não. Ele que descubra.

Não respondi. Sentia que havia algo essencial que precisava entender, mas não sabia o quê. Apenas que por dentro, tudo estava fora do sítio, como armário mudado de lugar.

No escritório, nada contei. Sempre fui reservada, os colegas sabiam. A Catarina, rapariga nova, perguntou um dia se estava tudo bem. Disse que sim, só cansada. Ela trouxe-me café do bar, ficou um gesto inesperadamente bom.

Agosto passou em suspensão. Não má, nem boa. Continuei a fazer compotas, como sempre. A escumar o tacho para a velha tigelinha, depois barrava no pão. As bagas desse ano eram sumarentas, doces. Os frascos alinhados na despensa davam paz, como se a vida seguisse, indiferente.

Artur só voltou a ligar para buscar o resto das coisas. Chegou num sábado de manhã. Deixei-o entrar; passeou pela casa em silêncio, pôs roupa na saca, algumas ferramentas, livros, documentos. Passou pela cozinha, viu a mesa, os gerânios.

Estás bem?

Estou.

Não me guardes rancor.

Não, Artur. Sigo com a minha vida.

Ele acenou e saiu. Fechei a porta, ouvi os seus passos na escada, fiz ovos mexidos. Comi, lavei o prato, fui ver as petúnias que já murchavam. O setembro estava próximo.

O divórcio deu-se em outubro. Sem dramas, quase burocrático. Fui à advogada, uma senhora jovem de mãos ágeis e olhos cansados; despachou tudo. A casa já era minha, desde sempre. Artur não reclamou, talvez a nova fase não comportasse lembranças da anterior.

Saí do tribunal e parei a ver chover na Praça da Figueira. Comprei uma regueifa na padaria a caminho de casa. Preparei o chá, cortei o pão, olhei pela janela: o outono ia-se impondo, folha após folha.

Em todos os casamentos, a separação acontece antes do adeus formal, dizia um artigo que li ao acaso, numa noite de insónia. Era verdade. Tudo tinha começado antes no silêncio do teatro, no telefone virado ao contrário. Eu é que não quis ver.

Com novembro chegaram os dias frios e um novo ritmo. Inscrevi-me em aulas de aguarela, como sempre quis. Quarta à noite, caminhava até uma pequena oficina, cheirava a tinta e papel, ninguém sabia nada do meu passado. Desenhava mal, manchas tortas, proporções erradas, mas aquele foco tranquilo sobre a cor fazia-me bem.

A professora, uma senhora de cabelo branco, um dia abrandou ao meu lado:

Pinte sem medo, Leonor. O papel aguenta.

Tudo tão simples. E tão verdadeiro.

A Graça telefonava todas as semanas. Conversávamos sobre livros, trabalho, as notícias do mundo. Sobre Artur, cada vez menos. Nota que existe um alívio silencioso. Não é indiferença, é apenas espaço: a vida vai ocupando devagar os cantos vazios.

Perguntava-me, como muitas mulheres na minha situação, o que fiz de errado? E nunca encontrava resposta honesta. Fui boa dona de casa, fiel, discreta, trabalhadora, nunca exigi mais do que devia. Talvez o erro fosse acreditar que isso chegava. Mas mesmo assim, não mudaria nada.

Veio o inverno, o mais frio em muitos anos. Comprei botas novas, baixas, cor de vinho. Uma colega elogiou. Pequeno detalhe, mas levei o elogio comigo o dia inteiro.

Em janeiro, a Graça ligou, aflita:

Leonor, sabias do Artur?

Não, tenho-o bloqueado.

Teve um ataque cardíaco no meio de um bar qualquer, em plena noite. Foi parar ao hospital. Diz que foi grave.

Ali fiquei, a olhar a neve que caía rarefeita na rua.

Viveu demasiado depressa, imagino.

Parece que sim, com festas e mais festas com a Vânia. Dormiam de dia, dançavam à noite, ele continuava com o ginásio como um jovem Não aguentou.

Vou pensar se faço alguma coisa.

Desliguei. Passei largo tempo a olhar pela janela, sem conseguir identificar o que sentia. Mistura de ansiedade, cansaço e, lá no fundo, um alívio sereno: a casa era o meu lugar.

No dia seguinte, telefonei ao hospital. Era possível visitas, disseram.

Levei uma mala pequena com água, maçãs, uns bolinhos caseiros. Entrei aquele cheiro igual a todos os hospitais, mistura de desinfectante e inquietação. A enfermeira orientou-me até ao quarto.

Artur estava deitado, magro, o rosto envelhecido. Não reconheci ali o homem renovado que ele quis ser poucos meses antes só um homem cansado.

Leonor

Olá, Artur.

Pousei o saco, sentei-me ao seu lado.

Não pensei que vinhas.

Pois vim.

Olhou para mim, olhos fundos, cheios de coisas que dispensei destrinçar.

Estás melhor?

Estou. Ontem foi pior, agora é esperar. Fico aqui pelo menos uma semana, dizem.

Faz sentido. Descansa.

Leonor hesitou. A Vânia não apareceu. Disse que vinha. Não veio.

Fixei as maçãs.

Previsível.

Achas?

Adivinhei.

Fechou os olhos. Silêncio comprido.

Fui um parvo, Leonor.

Pois foste.

Não estou a pedir desculpa por pedir. Só não percebi antes Pensava que ela me traria juventude, afinal, deixou-me só.

Eu percebo.

Disseram-me para te pedir desculpa, que errei. Chamei à nossa vida um pântano, mas tu é que criaste uma casa. Fui injusto.

Olhei-lhe as mãos essas conhecia-as melhor do que o rosto, vinte e cinco anos depois estavam quase iguais.

Quero voltar, Leonor.

O quarto gelou por instantes.

Estás a ouvir?

Estou.

Quero voltar para casa. Sem ti, já percebi, não sou nada. Era ali que estava a vida. E fui procurá-la noutro lado

Levantei-me, fui à janela. Uma pomba cinzenta empoleirada num ramo nu. Fiquei a olhar, a pensar. Perguntei-me, pela primeira vez sem máscaras, o que sentia. E só encontrei serenidade. Nem mágoa, nem rancor. Serenidade. Como uma dor que, de tanto doer, já deixou de fazer mal.

Artur, vais ficar bem. Vais recuperar, vais a tua vida.

Mas, Leonor, eu quero voltar.

Eu ouvi. E agradeço que me digas. Mas eu não volto.

Ele estremeceu.

Porquê?

Procurei ser honesta sem ser cruel.

Tenho pena de ti, Artur. Neste instante, só te quero bem. Mas isso não basta para viver junto. Entendes?

E não dava para tentar outra vez?

Não. Há coisas que não se buscam de novo. Secaram. Como um poço vazio.

Leonor, por favor.

Trouxe-te maçãs e água porque não consigo ser de outra maneira. Mas não volto. Não é raiva. Simplesmente, não existe mais nada para reconstruir.

Ele caiu num silêncio fundo.

Entendo.

Ainda bem.

Vesti o casaco, ajeitei o colarinho.

Aviso a enfermeira para olhar por ti. Liga ao teu filho, ele merece saber.

Não somos próximos

Liga-lhe. Ele é teu filho.

Peguei na mala e fui até à porta.

As maçãs são boas, Golden. Come-as.

Fechei a porta com cuidado.

No corredor, o mesmo cheiro quente-áspero do hospital. Desci ao rés-do-chão, abri a porta da rua e inspirei o ar frio de Lisboa após a chuva. Fui para a paragem do autocarro, sem vontade de ligar à Graça tinha de ficar um pouco sozinha, apenas estar.

O autocarro chegou logo, sentei-me junto à janela. A cidade passava depressa: árvores nuas, candeeiros, pessoas com sacos do supermercado a vida seguia o seu curso normal.

Pensei que quando um homem troca a mulher por uma mais nova, o mais difícil não é a traição propriamente dita. É o depois, é perceber como reerguer-se. Não vingar, não esperar, não olhar para trás mas construir. E isso exige mais coragem do que parece.

Olhei pela janela e pensei na quarta-feira. Tinha aula de aguarela. Iríamos pintar paisagens de inverno. Ainda tropeçava nos reflexos da neve, nas mesclas de azul e cinzento nas sombras. Mas continuaria a tentar.

O autocarro parou à minha porta. Apertei melhor o casaco, a brisa gelada de janeiro. Caminhei a passos lentos, cada recanto conhecido: a farmácia, a pastelaria, a pracinha com o baloiço a ranger sem crianças.

Subi ao meu andar. Abri a porta. O calor da casa, o cheiro familiar. Descalcei as botas, calcei os chinelos. Na cozinha, pus a chaleira ao lume, ajeitei a toalha riscada. Com a água quase a ferver, fui até à janela. O gerânio estava firme, folhas a precisar de um pano. Tenho de limpar.

A chaleira chamou-me. Servi o chá, aqueci as mãos na chávena.

Lá fora, os candeeiros acendiam-se, um por um, teimosos na luz de janeiro.

Pensei que sexta passaria pelo mercado para comprar leite e ovos. Se ainda houvesse boas maçãs, trazia algumas para fazer tarte. A Graça anda sempre a pedir a receita.

E quarta-feira pintaria neve.

***

Lá fora, Lisboa barulhenta continuava, entregue ao seu caos. Mas ali, na cozinha de toalha riscada e gerânio na janela, reinava silêncio. O meu silêncio, só meu. Não o dava a ninguém.

O telefone estava pousado. Ele podia ligar. Podia pedir mais uma vez. Saberia que atenderia, perguntaria do seu estado, aconselharia a seguir o médico. Porque não sei ser doutra forma.

Mas não voltaria atrás.

Sabes, dona Leonor disse para mim mesma, voz segura, ecoando na cozinha vazia isto nunca foi um pântano. Foi só vida. Só que não era a vida dele.

Bebi o último gole de chá. Lavei a chávena. Fui à sala acender o candeeiro de canto, pois nunca gostei de ler à luz fria do teto.

Apontei o marcador no livro, retomei a leitura. Lá fora, caía uma chuva miúda sobre Lisboa. O gerânio permanecia no seu lugar. E a toalha estava estendida, sem rugas.

Tudo, finalmente, no devido lugar.

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