Procura-se Marido com Urgência

Diário de António, 23 de setembro

Mãe, tens MESMO de arranjar um novo marido! Mas tem de ser já, já, já!

Quase deixei cair a caneca de café que tinha na mão; um pouco chegou a saltar para a toalha bordada com memórias da minha avó. Pousei a caneca com cuidado, pigarreei e olhei seriamente para a minha filha.

Explica-me lá, Matilde de onde é que vem esse pedido tão urgente? tentei manter a voz firme, mas o coração já estava aos pulos.

Matilde revirava as chinelas no tapete da sala, evitando o meu olhar, muito embaraçada mas resolvida.

É que hoje disse ao pai que tu já tinhas namorado, suspirou fundo. Ele não me deixou em paz com perguntas! Sempre a querer saber se já tinhas alguém! Sempre respondi que não e então ele começa a contar, em modo sermão, que foi um erro tremendo teres ido embora. Diz que perdeste o melhor homem do mundo, que não percebes nada da vida, essas coisas

Olhou-me com uns olhos semi-molhados, onde dançava entre tristeza e zanga com o pai.

E ainda Ele repete sempre que vais perceber o erro e vais voltar para ele. Que não há melhor. E eu perdi a cabeça e atirei-lhe que tu já tinhas conhecido alguém.

Passei as mãos pelos cabelos: de repente parei em memórias com o tom do João aquela autoconfiança fingida, esse jeito de virar tudo em discurso sobre as suas próprias verdades.

Consigo imaginar os nomes lindos que usou, ironizei, tentando aliviar. Nunca lhe passou pela cabeça que eu o deixasse, tão perfeito que era! Por vezes fico convencido de que ele te pede para ires aos fins-de-semana só para poder continuar com os monólogos dele. Não é para saber como vais, é para alimentar o ego.

Matilde deixou-se cair no sofá, enroscando as pernas debaixo do corpo. Passou distraidamente a mão pelo linho, a tentar organizar os pensamentos.

Pois, eu também acho. Ouço-o quase duas horas a falar de como é espetacular. O resto do tempo passo sozinha nem sequer pergunta por mim, se preciso de ajuda na escola nada, como se nem existisse.

A Matilde dizia isto como quem descreve uma terça-feira normal: acordar, pequeno-almoço, escola, trabalhos de casa. Para ela, já era rotina demais para emocionar.

Encostada ao encosto do sofá, olhou para o tecto a pensar no que dissera ao pai. Tudo começou, como sempre, por alguma conquista dele no trabalho: esta semana, tinha fechado um projeto qualquer e ia descrevendo em pormenor quantos zero vírgula qualquer coisa tinham lucrado por causa dele. Depois, os planos para o futuro, as dificuldades, como nunca ninguém lhe reconhece o valor. E quando Matilde quis contar que tinha ganho o terceiro lugar nas Olimpíadas de Matemática, ele só acenou distraído, e voltou imediatamente ao assunto preferido: ele próprio.

A Matilde acabou por encolher os ombros. Desde que se lembra, o pai não vê mais ninguém. Os outros ficam sempre num plano secundário importantes, sim, mas nunca mais do que ele. Qualquer conversa acabava sempre sobre si mesmo: se a mãe se queixava de cansaço, ele arranjava logo um relato sobre as suas jornadas; se Matilde desabafava por causa de amigos, vinha logo uma saga sobre como era popular no liceu. Para ele, os dramas dos outros não tinham peso.

Nunca soube bem como a mãe aguentou quinze anos ao lado dele. Quem sabe tenha sido por ela, para evitar que a filha crescesse sem pai. Em pequena, Matilde acreditava que ele ia mudar, que um dia ia acordar e ver que elas existiam de verdade. Mas o tempo foi passando e nada. Só depois da separação é que se surpreendeu com a calma de não haver ninguém a manipular conversas, não haver histórias em que tudo girava à volta dele.

E porque é que eu tenho de arranjar já um namorado? perguntei à Matilde, num tom mais cortante do que o desejado. Se disseste, disseste. Não há grande drama

Ó mãe, tu não tens noção de como ele ficou quando ouviu! Primeiro ficou branco, depois vermelho. Berrou tanto que a dona Júlia do andar de baixo apareceu lá em casa! A sério, até me assustei. Queria saber o nome do homem, os detalhes todos Eu disse que não podia contar, que tu me pediste para não lhe dizer nada Aposto que vais ter o telemóvel a tocar com chamadas dele!

Dirigi-me para a varanda e olhei pela janela. Estou mesmo a ver o escândalo que aí vem, penso eu. Filha, filha ainda me vais dar cabo do coração!

Sentei-me ao lado da Matilde e abracei-a. Agora não há volta a dar. O que está dito, está dito.

Mas porque é que inventaste isso, minha querida? sussurrei, embalando-a. Estávamos tão bem, e agora lá vamos ouvir as birras todas de novo Até me apetece desligar o telemóvel.

Matilde soltou-se suavemente do meu colo e olhou-me nos olhos, muito séria.

Porque tu és fantástica! respondeu com convicção. És bonita, inteligente, tens amigos, os homens gostam de ti achas que não noto? Só que ele passa o tempo a dizer mal de ti, mãe. Já chega.

Acariciei-lhe o cabelo loiro, sentindo-me meio confuso mas cheio de ternura.

Percebo, filhota, percebo murmurei. Se queres que te diga, pensei que ficasses triste se eu arranjasse alguém a sério. Ainda agora nos separámos

Ainda me custa admitir: tinha medo que a Matilde visse em alguém novo uma traição, ou tentativa de excluir o pai. Procurei no rosto da Matilde qualquer sombra disso.

Disparate!, exclamou, firme. Quero é ver-te feliz!

Braços cruzados, sorriso teimoso: parecia mais adulta do que eu muitas vezes.

Olhei-a, e todo o medo e ansiedade se começaram a dissolver. Matilde não só aceitava, como insistia. Talvez eu é que me agarra demasiado ao passado.

Obrigada pelo teu carinho, filha. És mesmo uma campeã, disse-lhe.

Ela encostou-se a mim, num abraço forte, e pela primeira vez em muito tempo senti um consolo verdadeiro. Naquele momento, a nossa pequena família parecia ainda mais sólida, mesmo contra ventos e tempestades.

*****

Em Lisboa, o escritório era um burburinho. Tentei concentrar-me na folha de Excel, mas as linhas dançavam à frente dos olhos. A cabeça latejava pior desde manhã já tinha tomado um Ben-u-ron, mas não me serviu de nada. Toquei nas têmporas, no gesto automático de quem já fez isto vezes sem conta.

Depois de hesitar, pedi à colega Beatriz para passar na farmácia da esquina. Voltei a engolir outro comprimido, mas a dor persistia. Cada ruído as teclas, o ar-condicionado, os risos ao fundo do corredor era como um martelo lá dentro.

Foi então que o segurança, senhor Carlos, bateu à porta, ligeiramente nervoso:

António, está cá o o seu ex-marido. Diz que tem de falar consigo. Desce para a entrada ou quer que o encaminhemos para fora?

Fechei os olhos, senti a tensão a subir. Mesmo o tom calmo de resposta custou: Já desço, Carlos. Desculpa o incómodo.

Por dentro praguejei. Dias maus parecem atrair sempre mais sarilhos. Não bastava estar de rastos, tinha de levar ainda com o João, em pleno escritório. Será possível que nem uma chamada faz antes? Ou quer mesmo fazer uma cena?

Desci devagar: quanto mais depressa andasse, mais latejava a cabeça. O edifício fervilhava colegas em reuniões, outros junto ao café a planear jantares de sexta. Passei por eles, a tensão apertando-me o pescoço.

Na recepção avistei logo o João: irrequieto, braços a gesticular, discutindo com os vigilantes, voz cada vez mais alta. Os seguranças já olhavam de lado, prontos a intervir.

Que raio queres tu?, atirei, sem rodeios, quando me aproximei. Mantive a compostura, mas a vontade era virar costas e deixá-lo ali.

Ele virou-se para mim, rubro, olhos a faiscar.

Tu! A Matilde disse-me! Já arranjaste namorado apenas depois de meio ano de divórcio?

O tom era de ciúme, dor e descrença: como se esperasse que a filha estivesse a brincar. Mas, ao ver a minha calma, caiu-lhe a ficha.

Levantei as sobrancelhas, ligeiramente trocista:

E era suposto guardar luto eterno? E tu, no casamento, eras exemplo de fidelidade? Queres demais, João!

Por momentos ficou sem palavras, a mão ainda estendida, os olhos anuviados. No átrio as pessoas passavam, ora a espreitar, ora a fingir que nada viam. O mundo resumia-se àquela nuvem tensa entre nós.

Eu não admito que a minha filha viva com um estranho! Vou tirar-te a Matilde! Nunca mais a vês!

O tom era histérico, como se realmente acreditasse que podia mudar alguma coisa. Sorri, contido:

Já acabaste? És digno de um prémio do circo.

De repente, do fundo do átrio, aproximou-se alguém. Era o Dr. Ricardo Esteves, o diretor-geral da empresa fato azul-marinho, ar seguro, sorriso desconcertante. Os seguranças endireitaram-se.

O que se passa aqui?, perguntou, tranquilo mas com autoridade.

Não se meta, isto é assunto nosso, barafustou João.

Ricardo nem se alterou. Aproximou-se, parando estrategicamente entre nós. Olhava com uma calma que quase irritava o João.

Assuntos pessoais discutem-se em privado quem faz escândalos públicos convém lembrar-se onde está, disse Ricardo, olhando-o de cima. E nesse momento pousou-me o braço nos ombros, gesto delicado mas cheio de significado.

Quem sou eu? O homem que faz o António feliz. E não admito ninguém aos berros com quem amo. Se mexes com a nossa filha de modo irresponsável, não acaba bem para ti!

O João gelou todo mudado da petulância anterior. Ninguém o tinha enfrentado assim, com voz baixa mas firme. Engoliu em seco. Ficou uns segundos parado, e depois virou-me as costas, saindo espumando:

Não esperes um cêntimo de pensão!

Nem tu, nem ninguém já faz falta nisso, respondi, quase com alívio. Assim, a Matilde vai deixar de ouvir as tuas lamúrias!

Só então reparei que o braço do Dr. Ricardo ainda me envolvia. Baixei os olhos, um pouco corado, e afastei-me devagar.

Sinceramente, obrigado Não imagina o quanto ajudou hoje!

Ricardo sorriu e piscou o olho.

Almoçamos juntos? Há um restaurante novo ao fundo da rua

A hesitação durou só um instante. Senti-me livre, talvez curiosa e, afinal, devia isso à sorte de um novo começo.

Vamos, pois claro.

O toque dele era firme, inteiro, mas sem ser opressivo. O calor e alívio voltaram ao lugar da dor na cabeça.

***

Naquele almoço, com travessa de bacalhau à Brás e um pastel de nata, tudo parecia mais leve. O Dr. Ricardo partilhou histórias da sua infância em Évora, os anos difíceis da perda, a evolução pessoal e confessou que já há muito temposlevava na cabeça para me convidar para sair.

Nunca quis pressionar, sabia que estavas a atravessar uma tempestade, admitiu, mexendo o café. Mas hoje não consegui ficar quieto

Ouvi-o com atenção. Não era vaidoso, nem tentava impressionar só verdadeiro, coisa rara. O jeito respeitador e atento tocou-me fundo.

***

Três meses depois, casámos na Igreja de Santo António, bem no coração de Lisboa. A boda foi um encanto Ricardo sabia sorrir com gestos pequenos, festas, mimos de avéu, e até contratou a tuna da faculdade para surpreender-nos com serenata.

Matilde apoiou-me em tudo arranjou flores, agarrou nos convites, ajudou-me a apertar o vestido. No momento dos votos, abraçou-nos forte:

Estou tão feliz por vocês, murmurou os olhos cheios de serena alegria.

Foi nesse dia que avisou, com sinceridade rara, que não chamaria pai ao Ricardo.

Gosto muito de ti, Ricardo. E fico descansada de ver a mãe bem Mas pai, pai já lá tenho um.

Ricardo aceitou, nem sombra de aborrecimento:

Matilde, entendo perfeitamente. O que importa é sermos todos unidos.

João tinha recebido convite pura provocação, confesso. Resolvi enviá-lo só para ele perceber que a vida continua, mesmo sem ele. Nem resposta deu, mas passou semanas a telefonar a amigos comuns, vitimizando-se.

Podes imaginar? Convida-me para o casamento dela! Depois de tudo!

Tentava que alguém compactuasse com a sua raiva mas ninguém ligou. Uns diziam cada um segue o seu caminho, outros abafavam suspiros. Quanto mais reclamava, mais percebia que ninguém tinha pena.

A dada altura, mudou de queixa Não é possível encontrar o amor verdadeiro em seis meses. Só quer esquecer-me, não é real!. E, de vez em quando, vinha o lamento clássico: Dei-lhe tudo, nunca soube agradecer.

Perguntavam-lhe: Agradecer o quê? O casamento não é dever. A gratidão não se exige.

João calava-se. Nessas alturas percebeu que já ninguém se compadecia, que as desculpas tinham acabado.

Deixou de ligar. Ficou só, com os seus álbuns velhos, uma ou outra peça de roupa esquecida. A vida foi andando só ele é que não sabia como seguir em frente.

***

Entretanto, eu, Ricardo e Matilde seguimos a nossa vida: jantares em casa, passeios ao domingo por Belém, discussões sobre filmes e sabores de gelado. A tranquilidade instalou-se devagarinho, sem pressas nem sobressaltos.

Hoje, quando olho para trás, percebo que só quando nos libertamos de culpas e fantasmas é que há espaço para a felicidade regressar. Aprendi, sobretudo, que merecemos todos uma segunda oportunidade. E há vozes, como a da minha filha, que nos mostram o caminho mesmo quando duvidamos de nós próprios.

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