Baratas
As baratas na minha cabeça dançavam o vira. Uma dança espertalhona, bem à nossa moda.
Sacudiam as patinhas, faziam rodopios, batiam palmas ao ritmo da música, cada vez mais alta na minha cabeça.
Na verdade, as minhas baratas sempre foram comportadas. Discretas, de boa família. Isso pelo menos sempre tiveram. Fui eu que trabalhei na genética delas durante muitos anos, com arte e engenho. À minha, nasci com pouca.
A minha avó dizia sempre que ter baratas na cabeça é um dom. Se uma pessoa tem baratas, é porque é original, diferente, com aquele brilhozinho no olhar. E, assim, a vida é bem mais divertida para si e para quem o rodeia. Falta tanto entusiasmo na nossa rotina…
Essa coisa do entusiasmo nem sequer fui eu que inventei; era a minha avó Isaura, toda moderna, cheia de expressões, modas, sempre à frente. Aos oitenta e tal, era de uma energia invejável!
Na verdade, a Isaura não era avó, era bisavó. Mas quem quer saber de detalhes? Se a avó já tinha partido há muitos anos e a bisavó ocupou-lhe o espaço e lugar no coração, então bi- ou não, sempre foi avó e pronto. Dispenso as complicações.
Amava a minha avó como ninguém. Como não havia de amar? Não havia pessoa mais próxima de mim. A mãe não conta!
A mãe era outra história. Era tudo: linda, inteligente, directora de uma escola! Ainda bem que não era a mesma escola onde eu estudava. E agradeço isso, mil vezes, à avó. Foi ela que obrigou a minha mãe a pôr-me noutra escola.
Para quê sobrecarregar a tua filha com os teus problemas?
Não entendi, mãe…
Pois, nem eu quero que entendas. Numa escola, ela é só mais uma. Na tua, seria sempre a filha da directora. Vais arruinar-lhe a reputação! E reputação é coisa que se perde num instante e custa imenso a ganhar. Poupá-la! Vais perceber mais tarde
A minha avó falava sempre assim: sem papas na língua, direta ao assunto, porque acreditava que era assim que se faz. Eu, Maria Leonor, via o resultado não sei se era certo ou errado, mas funcionava. A avó criou a minha mãe desde os cinco anos, depois de perder a mãe a sua filha. O que aconteceu, só soube mais tarde. Era um tema que nem mãe nem avó gostavam de lembrar.
Uma infeliz coincidência, Leonor. Uma dessas coisas da vida. Um pedaço de gelo duma varanda mal cuidada, ninguém limpou o telhado, e a vida pagou-se assim, num instante. A sorte foi não serem as duas… A tua mãe ia ao lado. Se a tua tia não a empurrasse para longe, ficávamos só nós.
Avó, mas acidentes assim podem acontecer com qualquer um?
Queres que te minta?
Não, claro!
Pode calhar a toda a gente! Contigo, comigo, até ao Papa. Não serve de nada ter medo disso.
Então para quê serve?
Para viver! Viver cada minuto como se fosse o último! Faz alguma coisa bonita e boa neste mundo; damos o que conseguimos, sem esperar retorno… Para que o mundo fique melhor, mais honesto, mais bonito, mais luminoso. De escuridão já está o mundo farto!
Dizer é fácil, avó. O difícil é fazer.
Se sabes isso, já estás no bom caminho! As baratas da tua cabeça estão a crescer espertas.
O quê está a crescer? Baratas?! Credo, avó!
Insetos nunca foram o meu forte. Borboletas? Abelhas? Tudo bem! Agora, baratas? Não havia bicho mais nojento para mim.
Ai, avó, ali está uma barata!
Não mexas nela! Pode ter crias! dizia a avó, esmagando-a com uma chinela e espreitando à volta. Viste mais alguma?
Não Mas disseste que tinha filhos
Pois estou curiosa de saber onde!
E lá vinha a grande limpeza. Eu sabia que os supostos filhos da barata teriam o mesmo destino.
Com os anos percebi: a avó sabia que eu apenas gritava nunca agia. Enquanto me decidisse, a barata já teria netos a concorrer no meu cabelo.
Toda a gente sabia disso sobre mim, da avó aos treinadores de ginástica.
A sua filha é flexível, tem talento, mas pensa demasiado devagar. E, Maria de Deus, isso pode ser perigoso na hora de decidir. Talvez o xadrez…
Pois, vou pensar nisso! disse a avó, e inscreveu-me ali mesmo no clube de xadrez.
Maravilha! Ninguém me apressava, podia pensar até mais não, e ainda por cima elogiavam! Era perfeito para mim. E ali fiquei anos.
A avó gabava-se do meu sucesso. Levava o troféu para casa, toda orgulhosa, para que vizinhos, amigos e conhecidos vissem.
És uma estrela, Leonor!
Avó, não me assustes! Lembras-te do que disseste à mãe? Estrelas não são felizes. Eu não quero ser estrela, muito menos!
Estás a entender tudo ao contrário!
Então, explica-me! Eu sou criança
A minha avó explicava, sempre. Tudo, a cada pergunta minha com cuidado e paciência. Nem sempre as respostas agradavam à minha mãe, claro.
Mãe, o que foi que disseste agora à Leonor? Ela hoje perguntou-me o que é levar uma criança ao colo para casa! Ela só tem treze!
Então? As crianças agora sabem tudo cedo! Pergunta-lhe o que se passa na turma dela. São amores e paixões que nem eu, que fui casada três vezes, conheço metade do que eles já sabem!
A Leonor não me contou nada disso, mãe
Porque não perguntaste! Para as Smarelas somos discretos, mas dentro da nossa cabeça dançam baratas como nunca viste. Fala mais com a miúda, e não te preocupes! Eu só lhe disse verdades, não inventei nada.
Mãe, e se a inteligência dela é demais? Tantas perguntas esquisitas. Como falo com alguém assim?
Como eu falava contigo, filha. Lembras-te?
Nunca me escondeste nada, mãe. Nunca. Porquê?
Porque a vida ia ensinar-te pior. Prefiro que a Leonor saiba já como as coisas são, do que andar a tropeçar e a aprender pela dor. Lembras-te? Tu percebias tudo, e mesmo assim tiveste a Leonor aos dezenove, sem marido. O que fizeste de bom?
Mãe!
Não me zangues! Eu entendo, sabes? O amor, o desconhecido, o homem da tua vida que afinal não era nada. E temos a Leonor, que é a melhor parte! O que me custa é veres-te sozinha, Alice. Devias ser feliz!
Mãe, não voltes a esse assunto!
Está bem! Mas pára de fechar os olhos à vida. Errar uma vez não é o fim do mundo.
Eu sei, mãe! E a Leonor não foi erro nenhum!
Nunca disse isso, filha. Referia-me ao amor cego! Quando fugiste de casa, procurei-te duas semanas sem um lamento. No fim, levei-te uma tarte de couve e fingi que nada se tinha passado. Amo-te, filha…
Eu a ti, mãe
Então deixa-me educar a Leonor à minha maneira!
Deixo
No final, a minha mãe acabou por encontrar a sua felicidade. Eu tinha acabado de fazer dezasseis anos quando ela começou a namorar o Henrique, mas só passado quase um ano teve coragem de contar fui eu que percebi tudo, ao vê-la num café, sorrindo de maneira diferente ao novo namorado. Aquela felicidade não era comum na minha mãe.
Corri para casa, confundi-me, pensei muito Falei com a avó.
Avó, sabias?
Suspeitava, Leonor.
Não quero atrapalhar.
Então não atrapalhes! Fácil.
E se ele a magoa?
A avó que, na altura, fazia rissóis com as mãos cheias de farinha sorriu, limpou as mãos ao avental e puxou-me para si.
A nossa Alice nunca está sozinha. Se for preciso, cá estamos.
Claro que não discuti. Se alguém sabia dessas coisas era ela ex-inspectora da polícia, desvendou crimes sérios, apanhou gente perigosa. Sabia mais do que contava e, se estava tranquila, era porque conhecia o Henrique melhor do que todos. Mas para mim, aceitar aquele homem seria difícil.
Mas teve de ser. O Henrique apareceu lá em casa, pediu a mão da minha mãe, até eu dei o meu consentimento! A sinceridade dele era óbvia, e a ruga preocupada da minha mãe desapareceu, como um passe de mágica. Gostava de vê-la feliz.
Com a chegada do meu irmãozinho, Tomás, tive de lutar muito contra o ciúme. Não mostrava, mas por dentro doía-me. A mãe parecia ainda mais feliz, eu sentia-me a perder-lhe o lugar. Desabafei com a avó.
O que é isto, mocinha? Mal te educámos! ralhou ela, furiosa.
Avó, só sinto que…
Não me digas! Achei que era maturidade tua quando te recusaste a mudar para casa da tua mãe: não quer atrapalhar. Acreditei, vi sabedoria! Afinal, continuas agarrada à exclusividade de filha única Mas agora, tens companhia, sabes? Nem eu nem tua mãe estaremos aqui para sempre agora já não tenho medo do futuro.
Avó, já pensei nisso
Doí, não é? Vais dividir a mãe… Deixa-te de dramas! Amar não é dividir. Só tens de estar presente a tua mãe vai agradecer.
Não quero viver com eles
Ninguém te obriga. Passa lá depois das aulas, ajuda naquilo que puderes. O amor é isso mesmo: quanto mais dás, mais recebes!
Não sei Sinto-me estranha.
És normal! Foste filha única demasiado tempo. Mas vai passar. Um dia, terás família e perceberás.
E eu mal tinha tempo para a introspecção: era estudar para entrar em Medicina, aprender, fazer voluntariado E ainda havia o Diogo, o chato magrão da turma paralela.
Tínhamos-nos cruzado num primeiro de Setembro. Eu, toda produzida, a correr para o gabinete da subdirectora buscar o guião que iria apresentar. Tropecei nas escadas, torci o pé, e quem me estendeu a mão foi o Diogo:
Mais cuidado, devias ver onde pões os pés…
Obrigada, mas o que fazes aí parado, então?
A tentar ajudar, tu é que és contraditória.
Recusei a ajuda, coxeando até ao gabinete da professora Pedroso.
Leonor, magoaste-te?
Deve ter sido só um entorse… Vou ao posto médico daqui a pouco.
Vais já!
O Diogo, sempre atrás, pôs a minha mochila na cadeira.
Precisas de ajuda até à enfermaria?
Vais à tua vida!
Ele encolheu os ombros e saiu. A professora ficou a ver-me, abanando a cabeça.
Podias ser mais simpática, Leonor. O Diogo é um rapaz educado. Quer ser médico como tu…
Pois, pois
Nunca pensei muito na profissão sempre assumi: cuidar de crianças é importante e difícil! Sempre preferi desafios. Ah, e desafios nunca faltaram: da minha própria família ao Tomás, o mano barulhento e teimoso, mas absolutamente adorável. Em pouco tempo, aprendeu a reconhecer-me, chorava quando eu não ia lá, e até tinha já o seu próprio quarto em casa do meu padrasto.
No entanto, o que eu via nas brincadeiras com ele era o vazio a crescer: amava o pequeno, claro, mas admitir isso custava-me. Não adiantavam conselhos nem da mãe, nem da avó.
Os problemas não só existiam, como se multiplicavam, e as minhas baratas, contentes, dançavam o vira ainda mais rápido quando algo novo surgia para me inquietar. O importante era agir.
Foi por causa do Tomás que comecei a duvidar: E se eu afinal não gosto mesmo de crianças? Serei má médica?
Avó, se eu não gostar de miúdos, não posso! Entendes?
Mas quem é que disse que não gostas?
Não sei…
Estás a complicar!
É razão para refletir, não é? Vou ser má…
Fico contente! Ao menos levas isto a sério. Uma médica zangada não deve tratar de crianças. Resolve isso depressa!
Como?!
Logo penso!
Quando voltou, tinha uma solução: uma mini-estágio em casa da dona Vera, amiga da avó, família grande, cheia de netos. Se aguentasse uma semana ali, estava pronta para Medicina pediátrica.
A avó contou-me da vida difícil da Dona Vera. Tivemos aquela conversa com uma chávena de água nas mãos, a janela aberta sobre Lisboa, o vento a murmurar.
A família dela… um erro dos grandes da minha vida, Leonor. A mãe, desaparecida durante meses; a filha, a Vera, foi criada sozinha. Um padrasto perigoso, uma história de novela negra. Não sei como a Vera sobreviveu. Os irmãos ajudaram, e os pais do namorado meteram-se ao barulho, levaram tudo a tribunal, e eu fui acompanhando de longe, mas nunca me perdoei.
A semana naquela casa foi intensa. Muitos miúdos, muita confusão, cada um mais reguila que o outro. Mas encontrei o meu lugar rapidamente, percebi que estava pronta para este mundo. Vou ser médica, decidi, e atirei-me aos estudos.
Entrei em Medicina. As minhas notas chegavam, mas fiquei sempre a pensar: poderia ter feito melhor…
O que não esperava era encontrar o Diogo nos corredores, logo no primeiro dia.
Ora, estás aqui também.
Só aquele ar calmo já me enfurecia.
Pois, estou! E tu, o que fazes?
Venho aprender.
Com o tempo, percebi que o Diogo falava pouco porque não gostava de desperdiçar palavras. Durante um ano, ignorei-o, trocando olhares de lado. Ele, tranquilo, limitava-se a acenar. Só ficou atento a mim quando entrei numa equipa de voluntariado no hospital pediátrico da cidade.
Uma tarde, lá estava eu, cabeça enfiada numa peruca de palhaço cor-de-laranja, quando ouvi atrás de mim:
Por esta não esperava! Perdeste-te?
As crianças riam-se das nossas parvoíces, sem suspeitar das emoções que fervilhavam entre mim e o Diogo. Ele entretinha os miúdos, fazia animais de balões, abraçava sem pedir licença.
No fim, ele ofereceu-me uma flor feita de balões.
Mereces! Gostei de trabalhar contigo.
Obrigada…
Vais para casa? Queres que te pague um café?
Porque és tão estranho? ri-me, a rodar a flor nos dedos. Vá lá, aceito!
E fui. Descobri que o Diogo vivia só com a mãe, a ajudar nas despesas, e que, afinal, as nossas baratas dançavam ao mesmo compasso. Percebi ali: a avó tinha razão.
Ela dizia:
Valoriza quem tem as baratas da mesma espécie que as tuas. Não há muitos assim neste mundo. Se encontras um, agarra com tudo o que tens!
Avó, já te cruzaste com pessoas assim?
Claro! Todos os meus três maridos eram fãs das minhas baratas. Também tinham as suas, muito jeitosas!
Mas então… Por que não ficaste com nenhum?
Isso agora é outra história. Quando cresceres mais, talvez te conte… O importante é não foi por falta de amor nem de entendimento. E mantive sempre amizade com todos, sinal de que gente boa existia. Um dia falo disso, Leonor.
Talvez já perceba.
Ainda bem! Este teu Diogo, gostei dele. Quase tão bom como tu!
Quase?
É melhor! Atura-te! riu-se.
Avó! Um dia ainda te mostro…
Vai treinando, que a proposta não tarda! Ele é dos que não deixam assuntos por resolver. E tu, gostas dele?
Acho que sim. Acho que amo…
Óptimo. Vai buscar as chancas, para a dança!
Avó!
Só falta ver os vossos filhos. Antes disso, não vou a lado nenhum!
Que filhos, avó?! Ainda nem casámos!
Vão casar, isso é certo.
E as minhas baratas lá dançavam o vira…
Porque, tal como a avó previa, a proposta veio. Da maneira tradicional, com anel e tudo.
A mãe chorou como nunca. A avó Isaura bateu palmas, esquecida da artrose nas mãos. Dona Vera, chegada com a família toda, também chorou e abraçou-me:
Bom rapaz, menina! Não o percas!
Não dá, dona Vera, nem que quisesse.
Isso porquê?
As nossas baratas são todas da mesma raça. A avó diz que é raro! Se perder um assim, não encontro outro igual.
Ah, já percebi! Então temos reforço no nosso grupo. Parabéns, Leonor! Agora fico descansada. Vou abraçar a tua avó! E dar os parabéns ao Diogo. Com gente assim, fazemos boa companhia!






