Diagnóstico: Traição

Diagnóstico traição

5 de maio

Hoje foi mais um daqueles jantares de domingo, no apartamento dos pais do Ricardo, em Lisboa. Não sei bem porquê, mas sempre que entro naquele prédio antigo, com o cheiro intenso a café acabado de fazer e aquele tapete gasto no hall, sinto que atravesso a fronteira para um outro território, onde a minha privacidade é alvo de um interrogatório subtil ou nem sempre tão subtil assim.

A vossa relação já é tão séria disparou Dona Cláudia, olhando-me nos olhos, com aquela insistência que só as mães portuguesas sabem ter. O Ricardo ficou calado, a condenar tudo em silêncio, mas a mãe dele não desistia. Quando é que casam, então?

Forço um sorriso, tentando mostrar alguma simpatia é o que se espera de mim, claro. Ainda é cedo. Estamos só a viver juntos há um mês, Dona Cláudia, cada coisa a seu tempo. É melhor esperarmos, percebermos como corre… Ainda nos andamos a adaptar ao dia-a-dia, não é verdade? Quem sabe não acabamos a embirrar até pelos pratos por lavar! quis brincar, mas a tensão estava no ar.

Ela arqueou as sobrancelhas, firme na sua missão de conhecer o futuro da linhagem. A verdade é que acho que até gosta de mim, pelo menos mais do que gostava da Rita, aquela personagem arrogante e sem maneiras. Sempre achei que tinha caído para o lado certo neste casting de sogras.

E o Martim, como está a correr com ele? mudou de assunto Dona Cláudia, mas continuou atenta. O Martim, filho do Ricardo do primeiro casamento, era um capítulo importante desta equação. Lembrei-me da preocupação que senti quando vim viver com eles: e se o miúdo me odiasse, e se me achasse uma intrusa, uma ameaça à memória da mãe?

Respondi do fundo do coração, talvez com mais ternura do que pretendia mostrar: É fantástico, Dona Cláudia. Ao início tinha receio que ele me olhasse de lado, mas fomos conversando, cozinhando juntos. Agora acho que me reconhece o sabor do arroz de pato e já não troca feijoada por nada! sorri, ao lembrar a surpresa dele quando provei a sopa.

Além disso, até já me pede para aprender receitas. Prefere bem mais a minha cozinha à do pai, coitado acabei, rindo-me. Ricardo anuiu de cabeça, cúmplice, finalmente sorrindo comigo.

E ainda não te pediu um irmãozinho? voltou Cláudia ao assunto, agora já sem disfarçar o tom de expectativa.

Senti a mão de Ricardo apertar-se involuntariamente. Conheço os seus sinais. Sabia que esta conversa o incomodava, mas Dona Cláudia é aquela típica mãe portuguesa: direta, curiosa, nada de rodeios. Gosta de dizer tudo, nem que magoe.

Que tem? O Martim adora crianças! insistiu, com um olhar entre o traquina e o maternal. E tu és tão nova, Filipa, tens tempo para dois ou três petizes!

Painéis de desconforto acenderam-se dentro de mim. Custa-me ter de estar a expor estes assuntos, ainda mais numa sala iluminada por luz de teto fria, rodeada de fotografias de família em que ainda nem apareço. Espremi os dedos por baixo da mesa, forçando serenidade à voz:

Infelizmente, os médicos não recomendam que eu tenha filhos, Dona Cláudia disse, tentando que o meu tom saísse firme.

Silêncio. Ela olhou-me de lado, claramente surpreendida. Questões de saúde feminina, é? Olhe que hoje em dia A medicina está a avançar tanto. O impossível hoje é normal amanhã! acrescentei um sorriso tenso, esperando, em vão, que distinguisse o limite entre curiosidade e invasão.

Suspirei, senti o olhar de Ricardo pousar em mim, mas não interferiu sabia que era comigo. Não é capricho, Dona Cláudia. É mesmo impossível. Tenho uma doença degenerativa nos olhos e, segundo o médico, uma gravidez pode acelerar a minha cegueira. O risco é real. Não podia pôr em causa essa possibilidade só porque alguém espera netos. Prefiro conhecer o Martim, acompanhá-lo, quem sabe um dia pensar em adoção ou recorrer a outros caminhos. Mas arriscar a minha saúde, não.

O desencanto mal disfarçado atravessou o olhar de Cláudia, que deixou o resto da conversa morrer no ar. Percebi bem: não era a nora dos seus sonhos. Ela idealizara uma nora robusta, cheia de saúde, pronta para lhe encher o quadro de família com netos em correrias pelo jardim.

Mas não senti culpa. Já tínhamos falado disto, eu e o Ricardo, em longos serões com chá de limão, após reuniões com especialistas e horas a ler sobre a doença. O risco era demasiado grande e ambos preferíamos deixar as portas abertas para outras soluções, sem desafiar o inegociável.

Já a sair, o ambiente era formal e frio. Cláudia deu-me um meio abraço protocolar; Ricardo olhou-me, cúmplice, pedindo desculpa apenas com os olhos. Quando fechámos a porta, o ar lá fora pareceu extraordinariamente fresco nunca Lisboa me soube tão bem como naquele momento. Entrelacei os dedos nos dele, sem uma palavra, unindo-nos à nossa maneira. Sabíamos que aquela noite tinha mudado alguma coisa, mas o essencial continuava igual: estarmos juntos, ao preço que fosse.

***

Julho

Os dias correm, mas ultimamente não me tenho sentido como habitual. Achei que era apenas cansaço, que os turnos no escritório andavam a puxar demais por mim. Mas a indisposição não passava: enjoo matinal, sensibilidade aos cheiros, aquela fraqueza estranha, o corpo cansado ao fim do dia.

Contei à minha mãe, ao telefone. Ela ouviu-me, tentou não soar alarmada, mas acabou por perguntar: Madrinha, tens a certeza que não estás grávida?

A ironia fez-me rir. Impossível, mãe. Tomo a pílula religiosamente, sempre à hora certa. Foi tudo prescrito, estou atenta a tudo.

Ela insistiu: Por desencargo, filha. Faz um teste, só para não ficares com dúvidas.

Não queria dar braço a torcer, mas cedi. Entrei na farmácia do bairro com passo apressado, tremendo por dentro. Peguei em dois testes, paguei com o MBWay (o teste não foi nada barato, quase 20 euros!), meti os exames na carteira e fui para casa, a suar fri@.

Segui as instruções. Aguardei, mais nervosa do que nunca. Quando olho, vejo duas linhas. Duas. Aquilo gelou-me o sangue. Teste repetido: o mesmo resultado. Não pode ser. Fiz tudo “by the book”, como é possível?

Nesse momento a campainha tocou e, sem tempo para pensar mais, larguei o teste na lixeira e fui abrir a porta: era o Martim, claro, sem chave outra vez depois do treino. O resto do dia passou a correr, mas nunca mais tive paz.

***

Dois dias depois

Senti que tinha de sair de casa. Não sabia como abordar isto com o Ricardo não podia, ainda. A confusão, o medo, o risco a latejar na cabeça. Combinei com a minha mãe ir passar uns dias a Setúbal. Disse ao Ricardo que a minha mãe estava doente e fui. Ele insistiu se era preciso ajuda, se devia ir comigo, mas recusei, com um nó no estômago por o estar a enganar.

A manhã seguinte foi passada numa clínica privada. Consulta rápida, análises, ecografia. A médica era assertiva e serena: Está grávida de cinco ou seis semanas.

A sensação de irrealidade apoderou-se de mim. Como podia ser possível? Tinha feito tudo certo.

Tentei perceber junto da médica. Mas tomo tudo direitinho. Não falho nenhum dia…

Ela explicou: Pode ter havido uma falha no medicamento, uma interação com alguma substância, problemas de absorção, até stress extremo pode interferir É raro, mas acontece.

Fechou a ficha clínica, olhou-me nos olhos: Imagino que queira saber as opções.

Assenti, já sem lágrimas para chorar. O risco de perder a visão é elevado, ninguém me garante que não acabe cega. Não posso aceitar isso.

Compreendo. No seu caso, é uma decisão racional e legítima. Vamos organizar o processo, segue com estes exames.

Atravessei o corredor devagar, sentindo cada passo pesar como chumbo.

***

Porquê que não me disseste? perguntou-me o Ricardo, exultante ao telefone. Bastou-me ouvir aquele tom para perceber que sabia. Encontrei o teste no chão Porquê esconder?

Quis responder calmamente. Ricardo, foi um engano, tenho a certeza, a pílula estava sempre controlada.

Ele hesitou. Depois acabou por confessar: Olha, a minha mãe esteve cá um dia destes. Viu os teus medicamentos, e tentou convencer-me Falou-me de casos de sucesso, de medicina moderna, disse que se calhar vocês preocupavam-se demasiado hesitou. E, pronto, calhou derrubar o frasco e acabei por repor as pílulas por vitaminas. Acreditei que podíamos arriscar. Não achei que fosse nada de grave

A indignação tomou conta de mim. Ouve bem, Ricardo, puseste a minha saúde em perigo. Sabes qual é o diagnóstico, sabes tudo o que está em risco, e foste na conversa da tua mãe? Achaste que tinhas esse direito?

Ele murmurou: Achei que seria pelo melhor…

Parecia tudo um pesadelo kafkiano. Senti-me traída, despida de qualquer resguardo no que mais é íntimo o meu corpo. Não quis mais conversar naquele dia. Combinámos encontrar-nos perto do Jardim da Estrela, no sábado, para decidir o que fazer.

No sábado, ele apareceu antes da hora, com rosas brancas. Eu levei o meu irmão mais velho, o João, por precaução. Ricardo tentou oferecer flores, mas eu entreguei-lhe uma folha: a confirmação clínica, o fim da gravidez.

Não vou pôr a minha saúde em risco nem deixar que decidam por mim, muito menos depois do que fizeste. Amanhã passo buscar as minhas coisas. Trago o João, para não haver confusões.

Ricardo ficou gelado. Falaste com outros médicos? implorou. Disseram-me que o risco não é assim tanto, achava que podíamos ter essa família

Engoli a raiva. És capaz de discutir detalhes médicos sem saber o meu diagnóstico? Sabes o que é não poder ver o Martim crescer, ou nunca mais ler um livro, só porque tu e a tua mãe não respeitaram a minha decisão?

O João aproximou-se, firme, e Ricardo percebeu que agora não era altura de pressionar.

Afastei-me. Tinha a certeza de que não quero alguém na minha vida em quem não possa confiar nem no mais básico. Não posso viver a achar que alguém decide sobre o meu corpo em segredo. Para mim, traição não é só uma mentira. É retirar-nos o direito a escolher por nós.

Fui-me embora. Senti o João ao meu lado, e pela primeira vez em muitos anos, senti-me menos vulnerável. O Ricardo ficou ali, junto ao portão do jardim, com as flores numa mão caída.

Hoje, escrevo no meu diário para me lembrar: confio nas minhas decisões. A vida é imprevisível, mas o amor-próprio nunca poderá ser posto em causa, nem pelo Ricardo, nem pela Dona Cláudia, nem por ninguém. Mesmo que doa.

Talvez amanhã Lisboa me pareça novamente leve.

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Diagnóstico: Traição
Veď ty zarábaš celé hory peňazí, však? Švagriná si odo mňa požičala peniaze na byt a išla na dovolenku k moru. Toto leto k nám prišla na návštevu milovaná sestra mojej manželky. Hovoril som jej domáci miláčik, lebo na všetkých rodinných oslavách sa hovorí iba o nej – bola jednotkárka, úspešne skončila vysokú školu, našla si prácu v odbore, no povedzte, nie je to ideálna dcéra? Moja manželka je najstaršia, ale školu nedokončila a vydala sa. No to rodičom nevadilo, lebo ja som bol slušne bohatý podnikateľ, vlastný byt, auto aj solídny príjem. Ale aj tak bola najlepšia práve tá mladšia sestra. A tak toto leto, keď švagriná prišla na návštevu, požiadala ma o pôžičku – že potrebuje peniaze na zálohu na hypotéku, lebo chce vlastný byt. Pre mňa to nebol problém, dal som jej peniaze. Uistila ma, že robí na úrade a všetko splatí načas. Peniaze si požičala, takmer mi prisahala, že každý mesiac bude splácať. No o týždeň neskôr už bola pri mori! Bol som z toho poriadne zmätený, keďže teraz nemala ani na byt, ale dovolenkovať išla. Zobrala si voľno, všetkým hovorila, že si na dovolenku šetrila celý rok, no jednu vec opomenula – hypotéku si nakoniec vôbec nevzala. Keď som sa jej na to pýtal, povedala, že si to rozmyslela. Požiadal som ju teda o vrátenie dlhu, na čo mi povedala, že peniaze nemá, všetko minula pri mori. Vtedy mi došlo, že žiadny byt si ani nechcela kupovať. Poprosil som ju slušne, aby mi dlh čo najskôr vrátila, lebo som jej predsa požičal na byt, nie na dovolenku pri mori. Jej odpoveď ma však poriadne nahnevala: – Veď zarobím ešte veľa peňazí, počkáš, teraz nič nemám. Ako si myslíte, že to celé dopadlo? Presne – svojej mame sa posťažovala, že si pýtam peniaze skôr, ako sme sa dohodli, a že takto sa rodina nespráva – a zrazu bola najmladšia dcéra opäť dokonalý anjel, a my „bohatí monštrá“!