Namorei com uma mulher durante quase um ano, nunca me faltou generosidade com ela nem com o neto dela. Mas bastou eu pedir-lhe uns pastéis para levar comigo, para rapidamente perceber o meu verdadeiro lugar.
O empregado colocou à nossa frente, com cuidado, uma caixa plástica onde já embalara quase intacta uma fatia de bolo de chocolate. Lourdes puxou logo a caixinha para si, mostrando no rosto aquele ar satisfeito que sempre transparecia quando se tratava do neto. Sentados num café elegante no Chiado, a música tocava baixinho, mas dentro de mim crescia um desconforto surdo.
Estávamos juntos há quase um ano. Eu, Carlos, tenho cinquenta e oito anos, ela cinquenta e quatro ambos com percurso de casamentos, separações, filhos crescidos e, claro, netos. Eu tenho dois um rapaz e uma rapariga. Ela tem um neto adorado, Simão, miúdo de seis anos, a luz dos seus olhos, que vi apenas uma ou duas vezes de passagem, mas sobre quem já ouvi mais do que sobre a meteorologia dos últimos meses.
Lourdes colocou a caixa na carteira e sorriu-me com aquela ternura pela qual me apaixonei.
O Simão adora tudo o que tenha chocolate, disse-me. E eu já estou cheia, nem me apetece mais. Mais vale levar, não se estraga, não achas?
Acenei em silêncio, chamei o empregado e paguei a conta, onde entrou o bolo, o meu café e a salada dela. Dinheiro nunca foi problema não era disso que se tratava. O que me incomodava era o hábito silenciosamente instalado nos últimos seis meses. Eu fazia de conta que não notava nada, explicava a situação com o típico carinho de avó. Sempre que podia e quase sempre à minha custa Lourdes arranjava maneira de levar alguma coisa para casa, justificando-se com o deleite do neto.
O primeiro sinal de alerta surgiu há três meses. Fomos ao cinema, ver uma grande estreia. Comprei os bilhetes, e na entrada do bar, Lourdes pediu o maior balde de pipocas de caramelo e uma coca-cola.
Estranhei: normalmente cuida muito de si, raramente se permite doces. Pensei que era só para petiscar durante o filme. Já sentados, com as luzes reduzidas, estendi a mão para a pipoca, mas ela mantinha o balde bem seguro, tapado com uma tampa que pedira de propósito.
Não comes? murmurei, a estranhar.
Não, não me apetece agora, sussurrou. Guardo para o Simão, que vai dormir lá em casa. Ele adora pipocas do cinema, mas os pais quase nunca lhe compram.
Por pouco não me engasguei com a coca-cola. Apercebi-me que, na verdade, eu pagara pipocas não para nós, mas para o neto delae sem que sequer me tivesse perguntado. Ela tomara aquela decisão como se fosse natural. Todo o filme senti-me deslocado; o balde parecia estar sob vigilância. No fim, levei-a a casa e ela saltou do carro com as pipocas, radiante, enquanto eu me sentia uma espécie de estafeta que ainda tinha pago pelo serviço.
O mais curioso: Lourdes não vive com dificuldades. Tem um bom emprego, veste-se com gosto, tem carro próprio, não lhe falta nada.
O verdadeiro susto veio no sábado passado. Lourdes convidou-me para almoçar em casa dela, prometendo as suas famosas empadas, de que tanto falava. Fui prevenido, levei um bom vinho, fruta fresca, e uns lombinhos de salmão queria enfeitar a mesa. A casa estava inundada com o aroma delicioso do forno.
Na cozinha, repousava uma grande tigela tapada com um pano. Por baixo, uma pilha de empadas, reluzentes e douradas. Sentámo-nos, Lourdes serviu chá e pôs uns cinco pastéis no meu prato.
Come, Carlinhos, enquanto estão quentes, disse-me com carinho.
Eram deliciosos. Comi três de carne e dois de legumes, saí da mesa reconfortado, satisfeito. Conversámos, abrimos o vinho. Senti um rarefeito conforto caseiro.
Essas empadas são uma maravilha, Lourdes, disse eu, espreguiçando-me. Logo à noite chegam cá os meus netos, a minha filha traz os meninos para o fim-de-semana. Dá-me uns quantos para levar, eles só comem porcarias de supermercado, a mãe não gosta de cozinhar.
Não podia imaginar o que aconteceu a seguir.
Lourdes mudou de imediato. Desapareceu o sorriso, o rosto ficou tenso, o olhar distante.
Oh Carlos disse já sem doçura, numa voz quase fria. Dava de bom grado, mas só posso dar-te uns poucos. O Simão vem cá esta noite, fiz quase tudo a pensar nele.
Levantou-se, foi à taça grande vi bem, devia ter lá umas trinta empadas. Remechou, tirou um saco pequeno e lá pôs três. Duas de legumes, uma de carne.
Pronto, disse, estendendo-me aquele saco modesto. É para os teus provarem. Não posso tirar mais, senão o Simão não tem jantar.
Fiquei a olhar para os três pastéis naquele saco, sentindo-me cada vez mais incomodado. Havia uma montanha deles na tigela. Eu acabara de chegar com vinho, fruta, salmão. Nunca lhe fui forreta. E ela, verdadeiramente, poupava nos meus netos umas empadas.
Lourdes, há ali tanto tentei ainda, já incomodado. O Simão não vai conseguir comer tudo. Dá ao menos dois a cada um dos meus, são só dois.
Ela apertou os lábios, voltou a cobrir a tigela como quem guarda um tesouro, e respondeu:
Carlos, as compras estavam contadas. Prometi ao Simão. Não leves a mal, mas não posso distribuir tudo o que faço. Comeste, gostaste? Óptimo. O resto é para o meu neto.
Chamou-lhe “distribuir”como se eu fosse um estranho a pedir esmola, não o homem com quem constrói uma relação e que há minutos ajudava a compor a mesa de almoço.
Porque é que, na hierarquia dela, eu estava abaixo de uma criança de seis anos?
Meia hora depois, fui-me embora com uma desculpa qualquer. O cheiro daqueles pastéis no banco ao lado, antes conforto, agora incomodavatrazia-me ao nariz mais amargura do que aconchego. Refleti sobre o que ia na cabeça dela e as conclusões não eram animadoras.
Sempre achei que, numa relação saudável, os dois adultos são a prioridade. Os filhos e netos contam muito, mas depois. Para Lourdes, o centro do universo é o Simão: prioridade absoluta. E eu? Serei apenas um financiador? O homem que paga cafés, idas ao cinema e a pipoca para levar?
Quando pago o bolo para o neto dela, é natural, “somos família” mas família de quê, ao fim de um ano de namoro? Mas ao pedir eu alguns pastéis para os meus netos, é “não posso dar”. É sempre unilateral: o neto dela é privilegiado, alimentado com o melhor; os meus, quase figurantes, ficam com três empadas para dois. E Lourdes nem sequer percebeu o que aquele gesto significoudar a um homem adulto um saco pequeno e tapar a tigela como quem protege um segredo.
Em casa, quando os meus netos chegaram, a minha filha, exausta, arrumava as compras.
Cheira a empadas, pai!
Tirei o tal saco e senti vergonha.
A senhora Lourdes mandou para vocês provarem, murmurei, sem olhar para minha filha.
Desapareceram num instante, claro, eram boas.
Há mais? perguntou a minha neta, lambendo os dedos.
Não, querida, só havia estas, respondi, e saí para a varanda fumar.
No frio, de olho nas luzes de Lisboa, perguntei-me: para que serve isto? Para que quero uma mulher que, quando o assunto é o neto, considera o meu dinheiro de ambos, mas os seus pastéis, tesouro intocável? Não era uma questão alimentar. Posso comprar o que for, pedir comida num segundo, se quiser. O que doía era o gesto.
Ela nem entendeu que me magoou. Ligou à noite, divertida: “O Simão já cá está, comeu tanto, está felicíssimo a ver desenhos animados.” Ouvi em silêncio. Quis responder: “Os meus perguntaram se havia mais e eu disse-lhes que não.” Mas não disse.
Alguém já viveu algo assim? Onde o melhor é sempre guardado para o lado deles, e de nós só se espera que contribuamos? Acha que vale a pena falar sobre isto? Ou será só aquele zelo típico de avó, e sou eu que começo a resmungar à toa?
No fim, percebo: não são os pastéis mas a justiça e o equilíbrio. Numa relação, a reciprocidade é tudo; e, sem ela, até o maior dos manjares deixa um travo amargo.






