Vingança da Lurdes
Querido diário,
A chuva miudinha do outono caía de mansinho, sem coragem de fazer estragos. Eu, Lurdes, seguia com os olhos colados à janela do autocarro que me levava de volta a casa da minha infância. Mas a verdade é que, há já uns anos, chamava mesmo de casa aquele T1 moderno no coração de Lisboa, no nono andar de uma torre, com vista sobre um mar de telhados e pessoas sempre apressadas. A aldeia, aquela rua de calçada e o jardim dos meus avós, tornaram-se apenas lembrança. Os meus pais continuavam lá, claro, e foi lá que nasci e cresci antes de me aventurar pelos estudos e pelo coração da cidade.
Aos vinte e sete anos, sentia algum orgulho do caminho traçado. Tirei o curso de Medicina em Coimbra, trabalhei depois num renomado salão de estética em Lisboa, fui subindo na carreira, sempre a correr de um lado para o outro formações, workshops, cursos A minha agenda estava sempre cheia.
Nunca teria regressado agora à aldeia, não fossem certos sinais estranhos vindos de casa. Sempre que ligava à mãe, o meu pai nunca estava por perto. Se ligava ao meu pai, a mãe parecia misteriosamente ocupada.
Mãe, que se passa aí? indagava eu, a tentar arrancar-lhe alguma verdade.
A resposta era vaga, como sempre: Nada de especial, Lurdinhas, está tudo bem por aqui.
Chegada ao Porto de avião, restavam-me duas horas de autocarro. O tempo já não me assustava, viajar tornara-se um hábito.
Quando o camionete parou na estação da vila, revi o largo, a pastelaria de sempre, embora agora tivesse outra placa Sabores da Aldeia e notei que as tílias junto à praça estavam mais altas. O sol, envergonhado, espreitava entre nuvens. Avisei a mãe que vinha, mas nem eu sabia bem a que horas chegaria.
O taxista da terra, vestido com um casaco gasto de fazenda, encaminhou-se preguiçosamente.
Vais para onde, menina? perguntou, conduzindo minha mala pelo empedrado.
Para a Rua do Cruzeiro, número 7 respondi, sentindo a nostalgia cravar-me o peito.
A casa dos meus pais abriu-se diante de mim, com as portadas azuis todas escancaradas, e as bugarreiras no jardim pareciam não ter envelhecido. Ao lado do portão, três oliveiras tocavam já o céu o meu pai plantara-as quando acabei o 12º ano.
Lurdinhas! A minha mãe, Matilde, irrompeu da janela à porta. Abraçou-me, a rir e a chorar ao mesmo tempo.
Mãe, também tinha saudades, mas não era preciso tanto drama tentei sorrir.
É de alegria, filha! Três anos sem te ver ao vivo
Larguei a mala à entrada, tirei o blusão e as botas, e estendi-me no sofá. A minha mãe sentou-se ao meu lado e ficámos ali, por uns minutos, em silêncio e de mãos dadas, como que a recuperar o tempo em que não estivemos juntas.
Até que finalmente perguntei, sem rodeios:
E o pai? Não está em casa?
A mãe insistiu em alimentar-me antes da conversa: Come primeiro, filha. Conversamos depois.
Notei uma toalha nova na mesa, o serviço de flores, coisas que não reconhecia tão diferente da decoração prática do meu apartamento na cidade.
Os bolinhos de bacalhau macios, a sopa de legumes da horta, o pão quente O sabor de infância não muda.
Não resisti por mais tempo:
Então, o pai está onde? Em trabalho?
Está em viagem, sim respondeu a mãe, limpando as mãos ao avental Mas Lurdes, há muito que queríamos falar contigo. Não é coisa de telefone Pronto, eu custava a contar, sempre foste ocupada, sempre sem tempo O que acontece é que nos separámos, eu e o teu pai.
Fiquei a olhar para ela, incrédula. Empurrei a chávena de chá já fria, levantei-me e fui espreitar o antigo quarto deles. As roupas do pai tinham desaparecido do roupeiro.
Mas onde é que ele está agora?
Senta-te, Lurdes, e ouve-me por favor. As pessoas por vezes separam-se, mesmo depois de muitos anos. Eu e o Manuel já estávamos por passar. Ele agora vive na quinta dos teus avós.
Preciso de falar com ele disse, levantando-me, determinada.
Ele está fora, volta amanhã.
No fundo, eu sentia-me traída como é que se separam depois de uma vida juntos? Havia outra mulher?
A mãe assentiu, resignada:
Sim, começou a viver com alguém do Vale das Poças. Vive agora na quinta dos teus avós com ela e o filho dela.
Fiquei tonta de raiva e frustração.
Como consegues falar disso assim, como se nada fosse?
Lurdes, não há razão para sofrimento. Eu aceitei. Vocês sempre foram o centro do mundo para nós. E sabes mais vale cada um ir à sua vida em paz do que viver juntos fingindo
Ficámos em silêncio, eu a remoer.
Ao fim da tarde, vesti fato-de-treino, enfiei o boné e saí para deitar a cabeça ao vento, fazer o caminho até ao rio, como fazia em miúda. O ar puro recordou-me os colegas de infância, aquelas amizades que se perderam com a correria e a vida citadina.
Bati ao portão da quinta dos avós. Uma mulher, talvez quarenta anos, mexia numa panela junto ao fogão.
És a tal nova dona desta casa? disparei, sem cerimónias.
A mulher olhou-me, desconfiada. Deve ser a Lurdes O Manuel mostrou-me a tua fotografia, entra.
Não vim cá por ti, vim porque esta casa é dos meus avós!
Ela baixou o olhar, um pouco assustada.
Não precisei de vir para guerras Só quero viver em paz disse ela. Chamava-se Teresa.
Pois eu não quero saber, isto não é sítio teu, devias arrumar as coisas e ir-te embora.
Eu não fiz mal a ninguém… O Manuel quando veio ter comigo já não estava bem com a tua mãe.
Nesse instante surgiu um rapaz teria doze anos , o filho dela.
Vai brincar, Diogo! pediu a mãe.
Eu também saí, sentindo uma raiva surda que não me largava. A aldeia parecia-me pequena demais para tanta desilusão.
Cheguei a casa e desabafei tudo com a mãe.
E agora vais aceitar isto assim? Não sentes nada?! Não tens vontade de te vingar? atirei.
A minha mãe só me olhou, cansada. Não, filha. Já não vale a pena. O Manuel estava cá apenas por tua causa O que nos ligava verdadeiramente eras só tu.
Fiquei sem saber que dizer. Nunca soube de nada disto e o choque era tão grande que, apesar da idade, me senti menina outra vez, sem chão. O sonho de um dia regressar a casa e encontrá-los juntos desfazia-se ali. A minha única arma era um desejo de vingança, injusto e infantil talvez, mas naquele momento parecia a única coisa ao meu alcance.
Passaram-se dois dias. O meu pai voltou da viagem, mais velho, com olhos inchados de quem passou noites mal dormidas. Fingiu que nada era, quis abraçar-me, mas eu recusei. Tens outra família agora.
Saí para passear até ao rio. Uns rapazes pedalavam a grande velocidade e, no caminho, vi um dos miúdos cair por cima de umas tábuas com pregos. Era o Diogo, filho da Teresa. Dei por mim sem pensar corri para ajudar. Tirei o casaco, fiz um garrote. Telefonei ao meu pai, expliquei rápido. Em cinco minutos ele chegou de jipe, a Teresa apareceu logo a seguir, sem fôlego, completamente perdida.
Rápido, ajuda-me a pô-lo no carro!
Levámos o Diogo ao hospital de Oliveira do Bairro. Lá dentro, entre corridas para a urgência, a Teresa olhou para mim com os olhos lavados em lágrimas:
Obrigada Ele é tudo o que tenho
Abracei-a desconcertada, sentindo o peso da raiva antiga dissolver-se um pouco. O Manuel aperfeiçoou-me apenas com o olhar.
No dia seguinte, era tempo de voltar a Lisboa. Eu e a mãe estávamos na paragem dos autocarros, céu novamente cinzento.
De repente, uma carrinha velha parou perto. Era a Amélia, minha amiga de infância, agora com uma criança ao colo, seguida pelo pai dela, o senhor António. Encontrá-la encheu-me o coração de uma alegria miúda.
Pensei tanto em ti, Lurdes! disse a Amélia, trocando contactos apressada.
A carrinha do meu pai encostou. Saíram ele, Teresa e o Diogo, a coxear mas já bem disposto.
Olha, Lurdes, já caminho quase sozinho! disse o rapaz, orgulhoso.
És um valente, Diogo sorri, genuinamente, pela primeira vez em dias.
A Teresa, envergonhada, voltou a agradecer. Olhei à volta, para estas pessoas entrelaçadas pela vida, e percebi os laços de uma aldeia são mais fundos do que eu pensava.
O autocarro chegou. A mãe estava outra vez com lágrimas nos olhos. O meu pai olhou-me de frente.
Volta, filha, está bem? E perdoa-me.
Prometo que volto disse, abraçando-os a todos.
Acenei pela janela, prometendo em silêncio não desaparecer, não por eles, mas porque compreendi ali mesmo uma verdade: família nunca é eterna nem imutável como a casa dos pais, mas o amor, seja ele o que for, é sempre o lugar para onde temos de voltar.
E assim, fecho este capítulo, com a promessa de regressar sempre a casa, à família, a mim próprio.
LurdesEnquanto o autocarro deslizava pela estrada serpenteante em direção à cidade, deixei os olhos pousados nos campos, agora verdes de renascença depois da chuva. O cheiro húmido da terra parecia querer segredar-me aquilo que só agora tinha coragem de aceitar: tudo muda, mas há raízes que nos prendem, num gesto invisível, ao sítio donde viemos.
No bolso, senti o bilhete que a mãe me tinha escondido na mala, Para leres mais tarde, com a sua letra redondinha. Abri-o devagar uma frase só: Quando o vento for forte demais, lembra-te: as bugarreiras resistem porque abanam.
Ri-me baixinho. As lágrimas surgiram-me finalmente, sem amargura. Doía, sim mas era a dor de crescer e de entender, como quem prova o travo doce-amargo das primeiras cerejas da infância.
Lá ao fundo, vi Lisboa aproximar-se, com o seu bulício imparável. Respirei fundo. Desta vez, vinha mais leve: a vingança perdeu o peso, e no lugar ficou uma força nova e silenciosa, herança de quem sabe curar, mesmo o próprio coração.
Talvez, pensei, o regresso a casa aconteça todos os dias, sempre que temos coragem de escolher a paz em vez da mágoa, cada vez que olhamos para dentro e nos permitimos recomeçar.
Sorri ao meu reflexo no vidro. Não importa onde eu vá levo comigo o que mais importa: a coragem, o perdão, e a promessa de nunca perder de vista as raízes. Porque, afinal, até as bugarreiras, ano após ano, voltam a florescer.







