Um Prazer Caro: O Luxo que Encanta os Portugueses

Um luxo caro

Beatriz, outra vez? Já chega, não? Parece que todo o meu ordenado vai só para o teu gato!

O gato, que Beatriz tentava meter à força dentro da transportadora, conseguiu escapar-lhe dos braços, caiu pesadamente no chão e fugiu para um canto do corredor, onde começou a miar de forma gutural e triste. Pelo seu ar, o gato, a quem Beatriz dera o nome romântico de Gil Vicente já há muitos anos, parecia decidido a vender bem cara a sua vida, que, na opinião do Diogo, não valia nada.

Já lá iam muitos anos porque o Vicente, como Beatriz o chamava carinhosamente, vivia com ela há mais de dez. Quantos anos teria mesmo o gato, Beatriz não sabia ao certo. Trouxera-o da rua, e não era já um gatinho. Era adulto, ainda que jovem, como vaticinaram no consultório veterinário à mãe da Beatriz.

Foi lá que Marta, mãe da Beatriz, chegou a correr com a filha, apertando contra si o gato embrulhado numa velha manta de bebé.

Por favor, salve-o!

Onde é que arranjou este bicho? a veterinária franziu o nariz. Um gato de rua, não vê?

Que importa? É meu! Ajude-o, veja como está mal, coitadinho! Que está à espera? O meu dinheiro vale menos do que o daqueles que aqui vêm com gatos de raça?

Naquele momento, Marta estava tão zangada que a veterinária achou melhor não discutir. E fez ela muito bem.

Marta Ferreira era uma mulher de uma teimosia rara. A vida assim o exigia! Tentem lá criar uma filha sozinha, sem apoio e ainda cuidar de dois idosos, tudo ao salário de educadora de infância! Ninguém sobrevive sem se tornar de ferro.

Saber defender-se, Marta sabia. Mas o coração era generoso. Adorava crianças e gatos, e até cães, apesar de uma desconfiança de infância.

Ela impunha respeito. Nem as vizinhas no prédio, nem os pais das crianças da creche, nem desconhecidos que por vezes achavam que aquela mulher frágil e sozinha era presa fácil, lhe levavam a melhor.

Mas era de forma subtil. Marta não gritava, não armava barracas. Sabia encontrar o argumento certeiro, aquele que virava a conversa e dava a volta ao mais renitente. Em vez de discussão, em minutos já estava alguém que lhe queria mal a desabafar-lhe a vida, enquanto Marta acenava, ouvia e esperava. No fim, agradeciam-lhe, pediam desculpa e iam à sua vida.

Como conseguia isto, ela própria não sabia. Tinha um dom qualquer para ouvir e perceber as pessoas. Talvez fosse simplesmente por isso mesmo: porque sabia escutar, e não se impunha.

Mas esse dom era de sentido único. Conseguia acordos com desconhecidos mas, em casa, era quase o oposto.

O marido fugiu passado uma semana de casados. A mãe ainda brincava: Aguentou até demais!

Custou-lhe, claro. Mas quando soube que ia ser mãe, acalmou. Afinal, mulher é mulher, e só elas dão vida! Homens não engravidam!

Esperou a chegada da filha com mais expectativa ainda do que pelo Natal. Na sua vida, festas eram raras. Mas aquilo era um acontecimento!

A mãe não a apoiou.

Para que te metes nisso, Marta? Um peso! Jovem, bonita, até tinhas futuro. E agora vais passar a comer massa todos os dias! Ter filhos é um luxo caro, Marta! Tu ainda não entendeste. Mas vais perceber!

Mas mãe, nós não vivíamos assim já?

Pois, filhinha! E de que te serviu?

Marta ficou a pensar. Queria dar ouvidos à mãe, mas nunca teve tanto medo do vazio de não ter aquele bebé na sua vida. Como é que podia negar-se a si própria isto a maternidade? Como podia ser mãe se não lutasse por si e pelo bebé?

Foi a avó quem resolveu tudo. Apareceu na cidade, ajeitando o xale domingueiro, e anunciou:

Tens de ter esse bebé, Marta! Eu ajudo!

Mas avó, e o avô lá sozinho na aldeia?

Ele desenrasca-se! E se não der conta, vem cá também!

Um embrulho limpinho pousado na mesa o velho lenço bordado da avó.

Lembras-te? Abre lá!

Marta nunca tinha visto tanto dinheiro na vida.

O avô vendeu a casa de família. Os terrenos ali estão muito valiosos agora. Isto chega para um T2 pequenito. Depois, o resto é contigo, filha.

Avó, nem sei…

Tu consegues! Agora não discutas! Não é para ti, é para o bebé. Mãe só há uma.

Aquele embrulho foi a gota de água entre Marta e a mãe.

Ah, agora apareces de mão cheia! Quando pedi, disseste que não havia! Vejo como é

A avó fechou-se com a filha, mas nunca conseguiu convencê-la. A mãe de Marta recusava aceitar porque é que a Marta, com aquela má cabeça, lhe saía tudo na rifa: apoio, casa, tudo. Como se fosse sorte grande!

O que havia de tão especial em Marta, nunca ninguém percebeu. Não fora leviana, engravidara do marido, e mesmo entre eles a culpa nunca era só da mulher. “Quando dois puxam o carro, ambos têm de puxar”, dizia a avó.

A casa nova era fantástica: quatro assoalhadas, num prédio antigo, a precisar de obras, mas a avó convocou logo uma equipa que, sob o seu comando, deixou tudo impecável. Quando Marta viu o seu quarto, com o berço novo, desatou a chorar.

Não chores, minha tonta! Vai mas é ver a cozinha nova! comandou a avó.

A Beatriz nasceu antes do tempo, mas tudo correu bem. Era saudável e doce. Marta, depois de ter levado tantos tabefes verbais da mãe, prometeu a si mesma nunca tratar assim a filha.

A avó é que está sempre contigo! Claro! Ela deu-te casa e ajuda! E eu? Nem sequer me deixam ver a neta!

Mãe, anda cá quando quiseres, mas não faças escândalo. A Beatriz assusta-se.

Assusta-se? O mundo para ela está ao contrário! Ela é bebé! O que é que a assusta?! Eu falo alto?

Mãe, tu gritas

A mãe, rebelde, não queria escutar.

Vais ver se ela um dia não te responde igual!

Não vai! assegurava Marta, num tom calmo.

Vai, sim! É só criar mal! Eu também te estraguei demasiado, agora levo com isto! Sempre atrás de ti, “Martinha, Martinha!”, e olha o pago!

Obrigada, mãe! disse Marta, de súbito calma.

Porquê? a mãe, desconcertada.

Pela lição. Agora já sei o que não fazer! Obrigada!

Ai, que tolices!

No íntimo, Marta só pensava: Eu vou ser diferente!

Mais fácil de dizer do que de cumprir.

Beatriz não era difícil nem mimada, mas tinha caráter. Sabia o que queria, desde nova, e conseguia sempre.

Mãe, posso comer um docinho?

Beatriz, depois do almoço!

Nem um chocolatinho?

Nem pensar.

Está bem! Mas depois posso comer dois, se comer tudo?

Marta ria-se desta esperteza, e sim, dava-lhe dois chocolates, depois do prato limpo.

Pequenas vitórias mas foi assim que Beatriz aprendeu que birras não valem a pena. E até a avó, resmungona, Beatriz conseguia acalmar, passando-lhe o dedo pela testa.

Não resmungues, vovó, faz-te rugas! E tu és tão bonita. Anda cá!

A avó calava-se logo, e Beatriz sentava-se no colo dela, alisando-lhe a cara, enquanto Marta sorria em silêncio.

Com o tempo, a família encontrou equilíbrio.

Marta trabalhava, os avós cuidavam da neta. Tudo parecia controlado, até a avó adoecer. Os médicos abanavam a cabeça, mas Marta percebeu sem precisar de palavras.

Vamos ao Porto, vovó? Há médicos melhores lá

Não, querida. Já vivi. O que me pesa é deixar-vos. Não deixes o teu avô sozinho!

E foi nesse período que Beatriz trouxe para casa o gato.

O dia em que Vicente entrou para a família mudou tudo: Beatriz desapareceu ao sair da escola. O avô seguiu-a, atrasou-se minutos, mas não a apanhou.

Onde poderia ter ido uma criança num percurso de duzentos metros, em linha reta para casa? Inexplicável.

Toda a vizinhança se mobilizou, e foi a própria Beatriz que voltou a cara chorosa, exausta, trazendo um gato embrulhado na sua manta.

Estás bem, filha? Não te dói nada?

A mim não, mãe. Mas ele dói! Salva-o!

E Marta correu com o gato à veterinária. O animal estava ferido, mas seguro e, depois de um tratamento caro, foi entregue à dona.

E trate dos documentos! Isso de gato de casa sem chip não é com a gente.

Marta nem quis ver o recibo. “Por este dinheiro, vinha o pedigree”, murmurou, mas pagou.

Em casa, fez contas: o dinheiro não chegava até ao fim do mês. Faltavam os medicamentos para a avó, para o gato, o aniversário de Beatriz Queria que a filha não sofresse o vazio dos seus próprios aniversários, onde os presentes eram raros.

Mãezinha, posso pedir-te uma coisa? Beatriz surgiu na cozinha.

O que foi, querida?

Não me dês presentes. Posso mesmo ficar com ele? Ele é o meu presente

Marta olhou para o bolo de pelo cinzento que dormia aos seus pés. O gato recusava-se a ficar longe dela. A decisão estava tomada. Vicente ficaria.

O milagre foi que aquele arruaceiro de subúrbio adaptou-se logo à casa. Comportava-se impecavelmente e adorava os avós. Não saía de junto da avó.

Algo mudava naquela casa. Marta, cansada de viver de salário de educadora e das reformas dos avós, arriscou e mudou de vida. Começou a trabalhar como ama em casas de famílias recomendadas e nunca mais lhe faltou trabalho ou aumentos.

Chegava a casa e agradecia ao Vicente:

Obrigada, bichano! Se não fosses tu

Vicente ronronava em resposta e lançava olhares cúmplices à Beatriz, a sua favorita. Passava-lhe os dias, inclusive enquanto ela estudava ou chorava à porta do quarto da avó, despedindo-se dela, ou quando o avô seguiu a avó meses depois.

E esteve quando Marta, finalmente, conheceu alguém que a valorizou e casou. O marido era devoto dela, não permitia que ninguém lhe fizesse mal, nem a mãe dela, com quem até encontrou rapidamente equilíbrio depois de lhe emprestar o carro com motorista, claro.

Agora a mãe de Marta atravessava a rua, vitoriosa:

O meu genro vai levar-me à quinta!

Beatriz, então já estudante universitária, tornou-se independente. Deu-se bem com o padrasto, mas preferiu continuar a viver na casa de infância.

Levou lá o namorado:

Uau, Beatriz! Isto é quase um palácio!

Exageras!

Tanto espaço! Eh, e isto?!

Saiu de rompante, entre a sala e o corredor, o gato, já idoso, bufando e rosnando, lançando-se ao novo visitante, que saltou, assustado.

Tira o gato daqui! Tira!

Beatriz acalmou Vicente, mas nunca houve simpatia entre ele e Diogo.

O gato odiava o namorado da principal dona. E Diogo, quando Beatriz não via, fazia questão de afastar o gato agressivamente.

Passou um ano, casaram-se. Mas aos poucos tudo azedou. Diogo começou a criticar Beatriz, tal como Marta ouvira do primeiro marido.

Que mulher és tu, Beatriz? Isto é comida? Não sabes cozinhar! Que raio de esposa és tu?

A avó ensinara Beatriz. Não havia milagres, mas incompetente não era de certeza.

Até que Vicente deu pretexto.

Que é isto?! ao ver o recibo da veterinária, Diogo arregalou os olhos. Beatriz, és louca?! Nunca gastei tanto comigo! Isto é só um monte de pelos!!

Diogo, Vicente não é só pelos! Ele é família!

Tua, não minha! E já chega! Da próxima vez, vai porta fora!

Beatriz, que nessa manhã tinha descoberto que estava grávida, calou-se. Mais tarde, Vicente voltou a não conseguir usar o caixote e teve de o levar outra vez ao veterinário e Diogo voltou a perder a cabeça.

Basta! Chega deste animal! Não dou mais um cêntimo! Rua com ele!

Só se for comigo! Beatriz, calma de costume, dessa vez não se conteve.

Então vão os dois! Já chega! Porque tenho de aguentar isto tudo?

O ambiente mudou, de vez. Talvez fossem as hormonas, mas naquele instante Beatriz percebeu que não seria aquilo que queria para si nem para a criança.

Nada disse sobre a casa ser dela. Limitou-se a tirar as chaves do bolso da gabardina do marido, apertou-as na mão, abriu a porta. Disse:

Estou grávida. Não me posso enervar. Vicente percebe. Tu não. Agora, tens de sair. Quando estiveres mais calmo, falamos. Mas assim, não. Porque se expulsas da minha vida sem pensar, sem sentir aquele que esteve quase toda comigo, que farás quando eu própria deixar de servir? Já chega. Agora preciso levar o Vicente ao veterinário. Ele precisa, eu sou responsável. E é o correto.

Diogo não discutiu. Só pegou nas coisas, bateu a porta.

Beatriz tinha a certeza: ele nem sequer ouvira o anúncio da gravidez. Só via o gatoe como livrar-se dele.

Pôs a transportadora no chão. Vicente, já docilmente, entrou. Ela sorriu:

Pronto, companheiro? Vamos a isto. Está na hora de mudar. E tudo começa com tua saúde!

O gato melhorou. A idade pesaria, claro, e Beatriz teria de repetir as visitas ao veterinário, mas o Vicente tornou-se ainda mais paciente. Um dia, a filha de Beatriz a pequena Leonor, única a quem Vicente permitiria todas as tropelias deslizará a mãozinha pelo seu rabo, e ele consentirá, ronronando de prazer.

Não haverá ama melhor: o velho gato ensinará Leonor a adormecer, aninhando-lhe a pata felpuda.

E, embora Beatriz pensasse em dar à filha o nome da mãe, Marta dissuadiu-a:

Fala com Diogo. O vosso bem, agora, é assegurar o melhor para a criança, mesmo separados. Vocês fizeram de tudo para manter as aparências. Agora é tempo de ir além disso, pelo bem dela.

Beatriz ouviu a mãe, surpreendendo o ex-marido.

Não esperava tanta sabedoria de ti

Cresci, talvez. O que achas?

Só posso agradecer, Beatriz. Não puseste o orgulho à frente da filha. Eu vou ajudar.

E cumpriu.

E Leonor cresceu entre duas casas, dois coelhos, dois quartos, entre o amor da avó Marta e da avó Helena, mãe do pai. Uma só alegria, partilhada por todos, e Leonor sentir-se-á protegida e amada, convencida de que quem a ama é capaz de se entender.

Só o velho Vicente saberia todos os segredos daquela menina. Mas nunca o revelaria. Não porque não soubesse falar, mas porque, nesse amor todo, já estava tudo dito.

Quando a mãe-gata é meiga, os gatinhos também o são. E a pequena Leonor estava bem servida desse carinho. Chegará o dia em que ela própria dará vida, se debruçará no berço do filho, lhe acariciará a face e sussurrará:

Olá, meu pequenino. Esperei tanto por tiE nesse instante, com o quarto mergulhado na penumbra suave da noite, Leonor reparou que Vicente estava sentado ao lado do berço. Tão velho e elegante, como um guardião de bigodes, fitava-a com aqueles olhos sábios e cintilantes, cheios de histórias e segredos silenciosos. Leonor sorriu-lhe, feliz, e esticou a mãozinha: os dedos delicados tocaram-lhe o focinho húmido, e sentiu o ronrom leve como uma promessa.

No corredor, Beatriz espreitava, coração cheio, recordando todas as vidas, partidas e recomeços, todas as mãos que a tinham amparadoe sorriu também, rendida à constatação de que o amor, em qualquer casa, nos chega por muitas vias: num gesto carinhoso, num pão quente, num olhar de gato ou numa avó sábia que tudo enlaça.

Vicente cochilava ao som da respiração da pequena, e Beatriz percebeu que, por mais caro que pareça o amor seja de um filho, de uma mãe, de um gato ele acaba sempre por ser o maior dos luxos, mas o único bem que, quanto mais se reparte, mais cresce. E foi assim que, entre ronrons, rugas e memórias, a família descobriu a verdadeira fortuna: uma casa cheia de pequenas lealdades, algumas dentadas, muitos mimos e a certeza de nunca se estar, de facto, sozinho.

Lá fora, na janela, a noite era calma. E por entre as sombras, parecia até ouvir-se, baixinho, um miar de contentamento sinal de que, pelo menos naquela família, o amor tinha sempre cama feita e colo à espera.

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