Meia-azul
Custódia, cobre-me amanhã, faz favor! É o aniversário da sogra, tenho de lá ir dar os parabéns.
Mas não foi há um mês que já estiveste nos anos dela? Custódia levantou os olhos da caixa com os cartões de leitores.
Cu! Para que estás com essas minudências? Uma coisa é os anos, outra são as festas do nome! Preciso mesmo, estás a ver? E para ti, custa-te assim tanto? Sem filhos, sem marido! Sozinha como um fuso… Ai, desculpa! Não era minha intenção…
Irina bateu com a mão na boca, mas já não havia nada a fazer. Custódia, de rosto fechado, acenou e saiu da sala de leitura.
Que figura a minha… Irina encolheu os ombros e lançou um olhar enviesado à Lúcia.
Com a Lúcia não se brincava. A colega bibliotecária sabia pôr-se na linha, não dava trela, e logo cortava conversas. Custódia ficava inquieta só de ouvir os comentários, e Irina fartava-se de rir.
Vês, Custódia? Não somos todas meias-azuis como tu! Olha para mim ou para a Lúcia. É assim que se vive! Agora tu? Da biblioteca a casa, a correr. Entre cachecóis e gatos… Uma solteirona! Desculpa a franqueza, mas se não somos nós a guiar-te, quem será? E olha que, se fores a ver bem, até és mulher bonita! Mas sempre esse ar de choro… Diz lá, Lúcia?
A Lúcia raramente deixava a conversa ir longe.
Basta! Porque é que te dás a ti como exemplo? Tiveste histórias a rodos, e agora? Estás com o Vasco, ele ora te trata mal, ora anda aos flirts… E tu, toda janota, a querer ensinar os outros!
Mas ao menos tenho marido! E filhos! E a Custódia, o quê? Mais um bicho lá para casa? Ainda acaba a dormir na biblioteca, corrida pelos próprios gatos. Epá, Custódia, porque não tens tu pelo menos um filho para ti? Pronto, não precisas do marido, mas parece que herdaste alguma coisa dos teus pais que, pelos vistos, não te deixaram à míngua. Criavas o miúdo sozinha. Não eras só.
Nestas alturas a Lúcia já não se segurava e Irina fugia, inventando qualquer pretexto, enquanto Custódia se refugiava num canto a limpar as lágrimas.
Que culpa tinha ela? A vida não quis assim. Os pais adoeceram: primeiro o pai, depois a mãe. Mais de quinze anos de cuidados, lavagens, camas… Dava para pensar em namoro sequer? E, vamos ser honestos, nunca houve assim uma chuva de pretendentes… Custódia espreitava-se ao espelho: não era feia, mas também não era uma rainha de beleza. Olhos cinzentos, rosto bem desenhado, a trança grossa que só cortou depois da mãe falecer, mudando para um cabelo curto, mais prático.
De resto, era a Custódia. Mulher honesta. Sem vícios, sem grande ambição.
E não sentia falta disso. Bastava olhar para a vida das colegas para tremer de medo.
Quanto à Irina, viver em matrimónio… O que tinha isso de fantástico? Toda a vila sabia da vida dupla do Vasco. Aqueles ciúmes e cenas, discussões nas escadas, faziam das suas brigas uma peça de teatro local. Irina achava que a vida era para viver sem vergonha, antes tudo à vista do que andar a alimentar boatos. Custódia não compreendia: para quê tanto desgaste? Onde estava o orgulho, o amor-próprio? Mas ela sabia que os romances dos seus livros pouco tinham a ver com aquilo. Orgulho servia a quem tinha casas de praia, um tio rico… mas quem ganhava a vida entre estantes, com filhos a criar e uma mãe doente, não podia dar-se a luxos.
Nunca condenou Irina. Tão diferentes, mas havia entre elas uma espécie de ternura. Se era para criticar, Custódia fazia esforço por entender a colega, e às vezes a paciência valia a pena. Afinal, Irina ajudava de verdade: quando Custódia precisava de alguém que fizesse injeções à mãe, foi Irina quem apareceu à noite, tudo feito sem pedir nada em troca.
Por acaso achas que quero mesquinhez? bufava Irina quando Custódia lhe tentava pagar. Põe lá isso no bolso! Queres chatear-me? Estranha, tu és, juro.
Custódia só sentia vergonha. Pedir ajuda magoava-o, tentava compensar depois, oferecendo cachecóis, gorros, ou as luvas bordadas com pintassilgos, que a filha de Irina só usava ao domingo, com medo de perder.
Irina, mexendo no presente, olhou, sorrindo.
Devias abrir uma loja online. Tinhas logo demanda!
Custódia ainda considerou, depois desistiu.
Não conseguia produzir tanto. Faço à mão, cada coisa é única.
Mete as nossas velhotas nisso! Ali, no banco do prédio, a conversar. Davas-lhes jeito. E elas ganhavam uns trocos.
Por estranho que pareça, pegou. Irina tinha veia de negócio, se gastava era noutra luta: o casamento. O site de costura abriu, começaram a chegar encomendas, não eram aos milhares, mas ajudava, e as outras velhotas agradeciam. Agora à noite, lá estavam elas no banco, de agulha em riste, a traçar planos para a moda da estação.
Viste este modelo? A tia Alzira fez igual! Só mudar o ponto e fica moderno. Eu usava já!
Custódia punha mãos à obra. Duas semanas volvidas e Irina desfilava de saia nova, mais uma peça no site.
Não era fortuna, mas Custódia, pela primeira vez, sentiu-se útil. Afinal valia alguma coisa…
Lúcia, a observar, ria das maluquices, mas às vezes ajudava. Dominava a renda de bilros como ninguém, embora o tempo nunca abundasse.
Aprendi com a avó. Dizia que dava jeito na vida. Pela certa!
As rendas da Lúcia eram as peças mais caras do site. E ninguém se queixava de a ver ali, ao pé da janela da sala de leitura a trabalhar na renda, enquanto as amigas faziam o resto. Sabiam o quanto aquela renda ajudava à vida da Lúcia.
É que, logo depois de nascerem os gémeos, o marido evaporou. Artista, dizia ele. Procurava-se. Mas a verdade é que não se encontrou ali, nem ali ficou. Lúcia fez tudo o que pôde para que ele escolhesse ficar. O homem não trabalhava, pintava, desaparecia dias a fio, a pretexto de angariar admiradores. A filha mais velha nem pai lhe chamava.
Mãe, o senhor Paulo está aí…
Aquilo punha o homem furibundo.
Estás a envergonhar-me! Ela devia saber o pai que tem!
Ao início, Lúcia calava, lembrando as palavras da mãe: Mais vale um pai do que nenhum. Mas mudou de ideias.
E o que fizeste tu por ela, hein?
Talvez por causa da segunda gravidez ou só por cansaço, o Paulo fugiu no dia em que soube dos gémeos, dois rapazotes saudáveis.
Lúcia não sofreu muito. Tinha emprego, pais no campo ajudavam de tudo: legumes, frutas, ovos. Fim-de-semana, em vez de praia, era para a terra, o que havia de fazer?
Os filhos de Lúcia cresceram saudáveis. Custódia, ao vê-los, pensava: Se soubesse que os meus seriam assim, talvez ouvisse a Irina.
Mas ter um para si assustava Custódia. Tinha medo de ficar só no mundo, sem família, e as amigas, com os seus problemas. Se ela desaparecesse, que seria do filho? Instituição? Orfanato? Isso não. Antes cachecóis e gatos. Não se foge à responsabilidade.
Custódia não suspeitava que a Irina, à frente do conselho de mulheres do prédio, procurava há tempos um partido para ela. Mas vila pequena, homens poucos, as contas muitas. Por isso calavam-se, só a Irina, às vezes, deixava escapar um comentário.
Mas o destino tem as suas voltas. O candidato surgiu surpreendendo toda a gente, até a Custódia. Ninguém adivinharia tal coisa, nem a Irina com as suas manobras.
Nesse dia, depois de uma discussão e lágrimas, Custódia acedeu a substituir Irina na biblioteca. Planeava despachar o serviço ao fim do dia, ficar livre para tratar do site, pôr fotos dos novos trabalhos. Uma peça especial, um vestido de renda branco, desenhado e cosido pela Lúcia, ia ser o cartão de visita.
Para casamento… Que coisa linda, Lúcia! Mãos de ouro.
Diz isso aos meus filhos! Quase que me estragavam ontem. Um segundo que sai da sala, quando volto têm as tesouras cortando o vestido. Tive de remendar, mas já está.
Custódia ia publicitar este vestido, e todo o caminho até casa matutava no texto para o site.
Quando ia a subir as escadas, parou, escutando, de repente esquecida do vestido, do site, de tudo o resto.
Socorro…
O pedido era fraco, quase engolido pelo burburinho do prédio. Jantares, discussões, miúdos a correr, Custódia tentou calar a algazarra para perceber.
Socorro…
Desta vez não havia dúvidas.
Custódia morava num prédio antigo, velhotes vizinhos, muitos sem família. Conhecia-os bem, ajudaram-na a cuidar dos pais, alguns eram do conselho, outros só sorrindo desejavam marido e filhos à Custódia.
Entre esses estava a Dona Zinaida.
Tinha sido amiga da mãe, professora de matemática, a única que a aconselhava sempre com carinho:
Saúde? Oh menina Custódia, já não tenho disso! O importante é saber como tu andas…
Só com Dona Zinaida Custódia era um pouco mais aberta, recebendo em troca um conselho sensato ou uma palavra amiga.
Vive a tua vida do teu jeito, Custodinha. Não dês ouvidos aos outros diziam que cada um que viva como sente, que enfiam-nos em bitolas que não são nossas. E eu, já vi tanto: filhos nascidos por obrigação, vidas sem amor… Nunca dá bom resultado.
Estas conversas tranquilizavam Custódia. Afinal talvez não fosse tão errada.
Dona Zinaida viveu casada quase cinquenta anos, andou por meio Portugal, acabando na vila da família da Custódia. Não teve filhos: os alunos eram o regozijo dela, visitavam-na nos anos, por vezes, apareciam para um café.
São os meus meninos! dizia ela.
O marido partiu há poucos anos. Custódia, receando o pior, trouxe-lhe um gatinho, encontrado na rua.
Está sozinho também. Que acha, D. Zinaida?
O gato ficou e não duvidava Custódia de que a Dona Zinaida viveu mais uns bons anos graças ao Boris, como o batizou, que exigia peixe fresco todas as manhãs do mercado municipal. Lá ia ela, saía de casa, nem tempo para se deprimir.
E assim viviam o gato e a velha. Contentavam-se com a companhia. Mas agora era um pedido de socorro a irromper pela escada.
Custódia não hesitou. Num ápice estava no andar de baixo, bateu à porta da presidente do condomínio:
Dona Maria, está alguém mal!
Dona Maria não era de invadir casas. Mas, passadas duas horas e ninguém aparecer, que se lixe a lei.
Prendam-me, se lhes faltam velhos na cadeia!
Guardava duplicados das chaves dos inquilinos antigos. Nunca se sabe
E encontraram D. Zinaida caída na casa-de-banho, perna torcida, incapaz de se mexer. Não sabia quanto tempo ali estivera, mas só pensou gritar e confiar que os vizinhos escutavam.
Foi Custódia quem ouviu. Fez tudo para salvar a vizinha, depois decidiu: ninguém devia enfrentar a velhice totalmente sozinho.
A convalescença da Dona Zinaida foi longa. Custódia ia ao hospital, cuidava dela em casa. Só que à quarta subida de escadas decidiu: Venha viver comigo. Não lhe custava; Irina, praguejando, ligou ao médico, foi ajudar com as injeções.
Vai ver que se põe aí de pé num instante! Agora não é tempo de doenças!
Ao início, D. Zinaida não queria dar trabalho: Vou estragar-te a vida, Custódia. Mas logo percebeu: aquilo vinha do coração, não de obrigação.
Pessoas como tu, minha filha, são raras. Os anjos deviam olhar melhor por ti! Ou será que já és um deles…?
Recuperou Dona Zinaida, e Custódia estava feliz: casa cheia, gatos, muita alegria. Desde que Boris, o matulão, decidiu impôr-se às gatas de Custódia, a algazarra era geral. Depois, encostava-se à dona, ofendido.
Pronto, Boris, mudam-se os tempos dizia ela. Hás-de habituar-te…
O que era previsível mudou. A vida da Custódia pegou fogo e teve outro ritmo.
Tudo começou numa noite, quando tocaram à porta.
Será a Irina? Custódia, meio distraída, pausou o filme que via com D. Zinaida e foi à porta.
No patamar um homem: barba, ar sisudo, colete de cabedal, jeans gastos. Um tipo de homem que nunca entrava na vila.
Procura alguém?
Boa noite. A Dona Zinaida vive cá agora?
E deseja falar com ela por…?
Por amizade.
Custódia hesitou, mas Boris disparou corredor fora. Cumprimentou logo o visitante com um miado.
Ó Boris! Olha quem está aqui!
O homem sorriu largo, mudou de postura. Já não era ameaçador era um amigo dos gatos. Custódia abriu a porta.
Entre, faz favor!
Dona Zinaida viu-o, exclamou:
Sérgio! Que surpresa, meu querido! Que fazes por cá?
De passagem para o Douro, encontro dos motociclistas. Decidi ver-vos.
Desculpa não telefonar, esteve difícil. Olha, esta é a Custódia meu anjo da guarda, acredita!
Sérgio, assim que se sentou, coreu e ficou calado.
Muito gosto…
Zinaida, sempre atenta, percebeu antes de todos. Multiplicou pedidos de ajuda, usou todos os pretextos para que os dois conversassem mais tempo.
Sérgio só partiu dois dias depois, e voltou nas semanas seguintes. Subitamente, Custódia arranjava-se. Uma noiva improvável.
Sérgio, conhecemo-nos tão pouco… Isto faz sentido? inquietava-se.
Que importa, Custódia? Damos contas a quem? Somos adultos.
Irina e Lúcia, ao saberem, calaram-se. Olharam-na com estranheza.
Custódia, nem pergunto se o amas. Não temos idade para mergulhos cegos. Mas é bom homem?
E por que não havia de ser? respondeu, sorrindo. A Irina engoliu em seco: ontem era uma ratinha cinzenta, hoje uma rainha. É impressão minha ou o amor faz milagres?
Falei demais, Custódia. Que sejas feliz! Lúcia, temos de tirar o vestido do site!
Já o fiz piscou Lúcia.
Nunca a vila vira tal casamento. Quando a procissão de motas passou nas ruas, todos estranharam.
Para onde vão?
A Custódia da biblioteca vai casar.
Ora vejam! Ainda bem! Mulher de valor. E ele, é bom rapaz?
Parece confiável…
Três anos depois, Sérgio amparou Dona Zinaida, já quase independente, à saída do carro:
Eu saio sozinha! Vai, Sérgio, busca o teu filho.
Custódia ajeitou o vestido novo, obra da Lúcia, e ordenou ao fotógrafo:
Todos juntos! Que caibam todos!
O fotógrafo teve de dar voltas para alinhar na escadaria do hospital todos os que Custódia queria na primeira fotografia do seu filho: Irina e família, Lúcia com filhos, o conselho de mulheres com Dona Maria ao peito.
Como poderia ser de outra forma? O mundo tem é de ter muitas e boas pessoas.







