Quando ele foi encontrado, todos lhe viraram as costas. Dois anos depois, Portugal inteiro fala dele e até na América e no Japão contam a sua história

Quando a encontraram, todos desviaram o olhar. Dois anos спустя, já escreviam sobre ela nos Estados Unidos e no Japão.

Beatriz saiu ao quintal para apanhar salsa para a sopa e, de repente, ficou pregada ao chão. Junto ao monte de compostagem, agarradas uma à outra, miavam baixinho duas minúsculas gatinhas. Uma era roliça e fofa; a outra Bom, a outra parecia saída de um filme de terror doméstico. Beatriz agachou-se e pegou ao colo a mais débil.

Santíssima, que te aconteceu, criatura?

Os olhitos da gata estavam tão cobertos de remela que mal se viam, e até pareciam postos num lugar estranho ao ponto de parecer que a Mãe Natureza os montou à pressa, já com o prazo apertado. As patitas tremiam como varas verdes, e o pêlo era uma manta de nós. Ao lado, a irmã reluzia: rechonchuda, limpa, de proporções certas uma verdadeira Miss Gata da freguesia.

Beatriz, sem dizer nem pio, entrou em casa, trouxe a caixa dos medicamentos e meteu-se a limpar aquela cara felina com algodão embebido em água morna.

Vais-te safar, claro que vais.

As primeiras semanas foram só idas e vindas à veterinária. Reação à ração, pernas que não obedeciam, articulações de gelatina o rol de queixas parecia um diagnóstico feito por um especialista pessimista. À doentinha chamaram Laura, e ela lutava pela vida, com mais teimosia que muitos políticos em Lisboa.

Olha a figura dela! ria Beatriz, vendo Laura virar-se de lado sempre que tentava lavar as orelhas. Laurinha, és um espetáculo!

A irmã, linda e gordinha, foi logo adotada. Já Laura ficou com Beatriz. E, pasme-se, nunca duvidou da sua escolha.

Meio ano depois, Laura, já crescida, pôs no semblante um ar muito peculiar. Os olhos, dantes demasiado próximos, davam-lhe agora um ar de eterno espanto parecia alguém que acabou de se lembrar que deixou o gás ligado. Beatriz fartava-se de fotografar: Laura poisa no sofá num estilo digno de Picasso; Laura com expressão de escândalo matinal; Laura tentando saltar para a janela, falhando sempre miseravelmente. A coordenação, essa, ficou pelo caminho.

Um dia, Maria, a amiga cá da aldeia, passou lá a casa. Ao ver Laura, quase se engasgou com o café:

Ó Beatriz, mas isto é isto é mesmo um gato?

É sim, chama-se Laura e é a rainha cá do pedaço.

Ela fica sempre com essa cara?

Óbvio. Parece que acabou de descobrir que a Terra é redonda.

Maria saca do telemóvel, tira fotos à descarada.

Devias inscrevê-la no concurso do Rabo mais longo lá na junta. É esta semana em São João!

Beatriz encolheu os ombros. Bem, o rabo da Laura era monumental, mas duvidava que fosse para recordes. Mas venha ela, pensou, sempre era uma tarde bem passada.

No concurso, os organizadores olhavam para Laura e trocavam olhares cúmplices, suspirando perplexos. Beatriz até pensou que estavam confusos com a extravagância daquela cara.

Olhe, aproxima-se uma rapariga sorridente, t-shirt com logotipo do evento a sua gata é qualquer coisa. Tem de a mostrar na internet. Faça-lhe um vídeo, publique nas redes!

Acha que alguém há de ligar?

Aposto que sim.

Em casa, Beatriz ficou a olhar para o telefone, indecisa. Espreitou Laura, de olhos esbugalhados, com pose filosófica de quem acaba de ver Eça de Queirós a dançar folclore.

Laurinha, vamos tentar a fama?

No primeiro vídeo, trezentas visualizações. No segundo, mil e quinhentas. O terceiro vídeo foi abanar literalmente a internet.

Beatriz! Viste isto?! o marido apareceu com o tablet A tua Laurinha já tem setenta mil seguidores!

Beatriz esfregou os olhos para acreditar nos números. As notificações apareciam a jato, os comentários multiplicavam-se:

É o animal mais doce que já vi!

A cara dela sou eu todas as manhãs de segunda-feira.

Também quero uma igual! Onde arranjou?

Parece que passou a vida a tentar perceber como veio parar a este corpo.

Percebeu-se: criar uma conta só para Laura já era obrigatório. Beatriz passou a partilhar pequenas histórias da gata: caçadas desastrosas ao reflexo do sol; sonecas de olhos entreabertos (até os músculos das pálpebras davam que fazer); meditações à janela, qual filósofa existencialista de campo.

Os seguidores não paravam: quinze mil. Vinte. Trinta Beatriz nem conseguia acompanhar.

Logo começaram as mensagens de jornalistas. Primeiro de um jornal local, depois regional. Subitamente, até jornais de Lisboa e Porto batiam à porta.

Ó Beatriz, está aqui um americano a querer falar contigo! disse o marido, mostrando o telemóvel Quer entrevista.

Nem de propósito: The Mirror, jornal americano, queria publicar uma reportagem sobre uma gata única de Portugal. Vieram atrás logo uns alemães, australianos e até uns simpáticos japoneses.

Laurinha, estás internacional! disse Beatriz, fazendo-lhe festinhas Imagine-se, estão a falar de ti em Tóquio!

Laura devolveu o mesmo olhar de total estupefação como quem descobre que existe pastel de nata sem canela e virou-se de barriga para o ar, como quem diz: Isto é só mais um dia.

Algumas semanas depois, apareceram câmaras alemãs em casa de Beatriz. Ela tremia, receosa que Laura se assustasse mas a gata manteve-se leal ao seu estilo: sentada com pose torta, olhos esbugalhados, tentativas de salto desastrosas.

Fantástico! exclamava o operador. É tão autêntica!

No fim, o realizador apertou a mão de Beatriz:

Obrigado por salvar esta gata. O mundo fica mais humano com pessoas assim.

Beatriz despediu-se deles, a tentar perceber se aquilo era mesmo verdade ela, a Laurinha carunchosa da compostagem, agora admirada internacionalmente.

Nessa noite, sentou-se no sofá com Laura ao colo, ouvindo a chuva batida e a luz quente do candeeiro a encher a sala.

Ouve lá, Laurinha, murmurou, acariciando a gata quando te trouxe, houve quem dissesse que não valia a pena, que eras uma causa perdida. Que não fazia sentido gastar dinheiro e paciência com uma bicha defeituosa. Agora estão a escrever sobre ti por todo o lado. Há quem diga que a tua cara ajuda a enfrentar maus dias, que faz rir até nos momentos piores.

Laura ronronou e olhou-a com aquele ar de quem está prestes a revelar se o bacalhau à brás leva natas ou não.

És a prova de que todo o ser vivo merece uma oportunidade. Que aquilo que parece defeito pode ser um superpoder. Que o amor ainda faz milagres em pleno século XXI.

O telefone vibrou de novo desta vez, mensagem de jornalistas da Lituânia.

Beatriz sorriu. Nunca imaginou trocar mensagens com a imprensa estrangeira, ou que a sua gata se tornasse uma celebridade, ou que uma história saída do quintal se espalhasse pelo mundo. Mas, no fundo, o melhor não era isso. Era ver Laura viva, contente à sua maneira esquisita, a encher de alegria milhares de pessoas que nunca na vida tinham visto um gato com olhos daquele jeito.

Obrigada, Laurinha sussurrou Beatriz pelo que és, por não desistires, por mostrares que nunca há casos perdidos. Só falta mesmo amor e paciência.

Laura ronronou, fechou os olhos e, até a dormir, mantinha aquele arzinho de surpresa como quem acha que, se calhar, ainda não entendeu bem a aventura incrível que viveu.

Lá longe, alguém abria a página da gata invulgar de Setúbal, espreitava as fotos e percebia o essencial: beleza é coisa relativa, mas bondade é absoluta. E é a bondade que transforma uma gata doente numa estrela, iluminando a vida de tanta gente.

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Quando ele foi encontrado, todos lhe viraram as costas. Dois anos depois, Portugal inteiro fala dele e até na América e no Japão contam a sua história
A nova nora disse que o bebé ainda por nascer precisa do seu próprio espaço, por isso eu e a minha mãe temos de desocupar o quarto.