Casei-me aos 34 anos com uma mulher divorciada de 41, já com uma filha. O meu pai dizia: Tem juízo, Joaquim. Só passado dois anos percebi que ele tinha razão. Eis o que me aconteceu
Tenho trinta e quatro anos. Há dois anos, casei-me com a Paula ela tinha quarenta e um, um divórcio às costas e uma filha de oito anos, Leonor. Lembro-me bem desse dia na cozinha, o meu pai foi direto ao assunto:
Joaquim, pensa bem. Uma mulher com uma criança de outro homem isso não é só uma família, é entrares a meio na história de alguém. E não é certo que te estejam à espera.
Desvalorizei:
Ó pai, deixa-te disso. Amamo-nos, a Leonor é uma miúda normal e vamos dar-nos bem. Vai tudo correr bem.
O meu pai abanou a cabeça, fatalista:
Depois não digas que não avisei.
Ignorei-o. Para mim, tudo com a Paula era verdadeiro. Achava que íamos criar uma família, que a filha dela ia acabar por aceitar-me e que tudo se resolveria não perfeito, mas pelo menos honesto e com carinho.
Enganei-me.
O primeiro mês enquanto durou a ilusão
Fizemos o casamento em junho. Fui viver para casa da Paula: um T2 nos subúrbios de Lisboa, nada de luxos, mas confortável. A Leonor vivia connosco. O pai biológico dela pagava a pensão e vinha buscá-la um fim de semana por mês.
Desde início tentei aproximar-me: convidava a Leonor para jogar às damas, ajudava nos trabalhos de casa, sugeria irmos ao cinema. Ora aceitava, ora rejeitava, sempre distante, com respostas curtas e olhares desconfiados.
A Paula dizia-me, tranquila:
Dá-lhe tempo, Joaquim. Está só a habituar-se.
Esperei. Mas as semanas foram passando e, em vez de se habituar, a tensão só aumentava.
Se fazia jantar, ela torcia o nariz: Não gosto disso. Se ligava a televisão, reclamava: Podes desligar? Não consigo estudar. Mal dava um abraço à Paula na cozinha, já se ouvia: Mãe, anda-te embora daqui.
E a Paula ficava, invariavelmente, ao lado da filha:
Não leves a mal, Joaquim, é só uma criança.
Eu nunca levava a mal. Mas cada vez percebia melhor: naquela casa, eu era o extra. Nem chefe-de-família, nem sequer igual, era um figurante.
Quando percebi que pagava por uma filha que não era minha mas saia sempre a perder
Três meses depois, o dinheiro tornou-se tema. A Paula trabalhava como secretária numa clínica, ganhava uns novecentos euros. Eu era engenheiro numa fábrica, tirava perto de dois mil. O ex-marido ainda ajudava com a pensão.
Mas as despesas não paravam de aumentar: uniforme novo para a escola, depois as aulas de dança, depois explicações de inglês, depois um telemóvel novo.
A Paula, com aquele jeito meigo:
Tu entendes, não entendes, Joaquim? A Leonor precisa disto. Acredita que não te importas de ajudar
Eu ajudava, sempre. Mês após mês, metade do meu salário ia para as necessidades da Leonor. O resto desaparecia em comida, contas e arranjos cá de casa. No final, não me sobrava nada.
Um dia, tentei sugerir:
Paula, se calhar devíamos dividir as despesas. Tu também podias dar um pouco mais
Ela fechou-se numa expressão séria:
A minha salário é pequeno. Apoiei a Leonor sozinha durante oito anos, Joaquim. Tu sabias, quando decidiste casar.
Eu sabia, só não contava ficar sozinho a puxar por tudo
E quem é que deve ajudar? O pai? Ele paga a pensão e pronto. Agora tu és o padrasto, tens a obrigação.
A palavra obrigação magoou mais do que esperava, como uma chapada. Ali percebi: não estava ali pelo amor. Não por ser necessário. Eu era uma função, uma almofada financeira.
Quando apareceu o ex-marido e ficou claro quem realmente mandava
Meio ano depois do casamento, apareceu o ex-marido da Paula, o António. Quarenta e cinco anos, empresário, grande carro, sempre confiante. Trouxe à Leonor uma bicicleta nova e mais umas bonecas.
A miúda exultou, saltou-lhe para o colo, beijo aqui, beijo ali. A Paula olhava para ele com um sorriso brando, quase terno. Eu, de parte, parecia mais o porteiro da casa do que o marido.
O António veio ter comigo, deu-me uma palmada no ombro:
Então, Joaquim, a aguentar-se? És um valente, assumir esta responsabilidade.
Assenti, sem saber o que responder.
Protege-as, sim? Eu não tenho tempo, é o negócio, sabes como é. Mas vejo que te desenrascas.
Desapareceu. A Paula esteve bem-disposta o resto do dia. Eu, pela primeira vez, questionei-me a sério: o que é que estou aqui a fazer?
Mais tarde, arrisquei:
Paula, porque é que o António anda a atrasar a pensão? Há dois meses que não entra nada
Ela encolheu os ombros:
Tem tido problemas no negócio. Quando puder paga.
Mas para a bicicleta e as bonecas encontrou dinheiro
Olhou-me sério, cortante:
Não queiras discutir, Joaquim. É a filha dele, pode dar-lhe presentes.
E não deve pagar a pensão?
Discutimos. A Leonor ouviu os gritos, desatou a chorar. No fim, a culpa ficou toda em mim por traumatizar a criança.
O ponto sem retorno quando me deixaram obrigado e nada mais
Na primavera, atingiu-se o ápice. Estávamos no aniversário da mãe da Paula. A minha sogra, já bem animada do vinho, sentou-se ao meu lado e começou a ensinar-me:
Joaquim, és homem. A Paula precisa de apoio, a Leonor de um pai. Assumiste a responsabilidade, agora leva-a até ao fim.
Explodi, ali mesmo, à mesa, à frente de toda a família:
Não devo nada a ninguém! A Leonor tem pai é o António! Que seja ele a assumir, não eu!
Fez-se silêncio. A Paula ficou pálida. A Leonor chorou. A sogra apertou os lábios:
Foi tempo perdido aceitar-te nesta família, rapaz.
A Paula levantou-se, agarrou na Leonor:
Vamos para casa da minha mãe. Temos de pensar.
Uma semana depois, chegaram-me papéis. Paula pediu o divórcio, queria indemnização pela carrinha que comprámos juntos e pensão alimentícia para a Leonor até aos dezoito como se fosse um padrasto legal.
O advogado avisou:
Joaquim, se provarem que sustentaste a criança, o tribunal pode obrigar-te a pagar pensão.
Sentei-me no carro e liguei ao meu pai:
Pai, desculpa. Tinhas razão
Não quero ouvir eu bem te disse. Aprende, e levanta-te. Passa.
O que aprendi e do que me arrependo
O processo está em tribunal. Vendo a minha carrinha para pagar o que ela pediu. A Paula ficará com a parte dela. Talvez fique a pagar pensão à Leonor.
Tenho pena? Tenho. Não por o casamento em si, mas por não ter ouvido o meu pai. Por meter-me numa vida que não era a minha e afundar a minha à custa disso.
Nem toda a mulher divorciada é problema. Mas quando alguém procura apenas um banco, e a filha vê em ti só um inimigo, foge. Logo. Não esperes que mude.
Eu acreditei. Perdi dois anos da minha vida e metade do que era meu.
Será que o homem fez bem em sair, quando o tornaram obrigado a sustentar a filha de outro, ou devia ter percebido isso à partida?
Será a mulher culpada por tratar o homem como apoio financeiro, ou tinha razão para esperar ajuda?
E o mais importante: quando um homem casa com uma mulher divorciada com filhos tem mesmo obrigação de sustentar essa criança como se fosse dele? Ou é escolha, não dever?






