Após 4 meses de troca de mensagens, aceitei encontrar-me com um cavalheiro de 52 anos — começou a conversa com 5 reclamações

Dizem que a antecipação da festa costuma ser muito mais doce do que a celebração em si. No caso da Margarida, a espera se arrastou por quase quatro meses, transformando-se numa espécie de telenovela online com episódios diários, sempre a mesma hora.

Nesse tempo, ela já sabia de cor que o António detestava coentros, era sportinguista ferrenho, sabia os nomes dos amigos dele da Primária e já nem se espantava com a mania que ele tinha de colocar quatro pontos de exclamação em cada bom dia.

Aos quarenta e cinco anos, Margarida já ia a encontros não com borboletas no estômago, mas com uma espécie de curiosidade irónica de quem vai a um leilão só para ver quanto pagam pelas antiguidades. Vamos lá ver qual é a peça rara desta vez, pensava enquanto se arranjava.

Era daquelas mulheres que consegue vestir uma camisola de lã básica como se fosse um manto real, dona de uma autoconfiança que desarma qualquer tango social embaraçoso.

Da parte de António, acabado de fazer cinquenta e dois, a conversa digital demonstrava ponderação, alguma ironia e o mais apelativo cheiro a estabilidade.

No nosso tempo, Margarida, escrevia-lhe ele pelas madrugadas, já não se procura foguetórios, mas aconchego. Quero estar com uma mulher que me entenda sem palavras.

Sem palavras? Perfeito, quanto menos melhor, pensava Margarida, a reforçar o rímel. O importante era que as poucas palavras trocadas não lhe fizessem querer fugir para Paris na hora.

Marcaram no típico café lisboeta, daqueles com luz quente e cheiro a pastel de nata recém-saído do forno. Margarida chegou à hora composta, bem-disposta, pronta para uma noite divertida. Estava impecável, como sempre.

António entrou cinco minutos depois. Ao vivo, parecia mais baixo do que nas fotos e o olhar era de quem acabou de encontrar um erro grave na declaração do IRS.

Sentou-se à frente, esboçou o que só por boa vontade se poderia chamar de sorriso, e cumprimentou secamente.

Nada de elogio, nem um que bom ver-te finalmente.

António examinou Margarida com um ar de fiscal da ASAE, depois sugeriu: um cafézinho acompanhado de uma fatia de bolo. Ficaram por aí.

Margarida, começou ele com voz de professor cansado em sala de reuniões, estive a pensar no nosso contacto. Quase quatro meses. E, agora que te vejo ao vivo, acho que é melhor deixar claras certas coisas. Tenho cinco reparos a fazer.

Algo lá dentro dela fez cling era o som de esperança a estatelar-se no chão. Margarida apoiou o queixo na mão e acenou.

Cinco reparos? Isso promete. Força, que eu gosto de listas curtas.

António estava imune a sarcasmo e ergueu o polegar.

Primeiro reparo: fotografias.

Numa das fotos, em que usas um vestido azul, a tua silhueta está um pouco diferente. Agora reparo que és, digamos, mais robusta. Isso pode enganar um homem. Nesta idade devemos ser mais honestos.

Margarida engoliu um sorriso. Robusta é inovador, sempre melhor do que monumental, obrigada.

Segundo reparo: demora nas respostas.
Às vezes demoras demasiado a responder. Por exemplo, há três semanas, escrevi-te às 14h15 e só respondeste às 16h40. Os homens não gostam de esperar. Isso é falta de respeito.

Acho que nesse dia estava numa reunião tentou ela, mas ele já ia no terceiro dedo.

Terceiro reparo: o local do encontro
Porque é que vieste para aqui? Este café é demasiado chique. Eu sugeri um mais em conta. Essa escolha revela uma propensão ao consumismo exibicionista.

Margarida olhou para o galão e pensou em despejá-lo em cima dele, mas a curiosidade venceu.

Quarto reparo: a aparência

Para que é esse vestido? Só viemos tomar café. Parece-me demasiado provocador para uma tarde destas. As jóias também são demais. Uma mulher deve chamar a atenção pelo conteúdo, não pelo brilho. A minha idade pede substância, não montra.

Quinto reparo: autonomia

Foste tu que escolheste o restaurante, dizes muitas vezes eu própria. Assim um homem não se sente homem. Preciso de uma mulher que pede opinião, não de uma que faz tudo sozinha. Se ficarmos juntos, tens de rever isso.

Terminou, cruzou os braços, esperando penitência ou agradecimento pela franqueza.

Margarida olhou-o por uns segundos e sentiu, finalmente, a ficha a cair: aqueles quatro meses tinham sido só um longo casting para o cargo de boazinha inconveniente. Ele não procurava ternura, só alguém a quem pudesse impor os seus regulamentos afetivos.

Olha, António, disse, meiga mas perversa, também fiz as minhas análises. E em menos de cinco minutos.

Então? semicerrando os olhos.

És um fenómeno zoológico. Fazes atravessar Lisboa para cobrares à mulher que acabaste de conhecer a taxa do gosto, da aparência e do direito à autenticidade. Nunca vi tamanha auto-estima inflacionada.

António torceu o nariz:

Estou apenas a dizer o que penso.

Não, abanou a cabeça Margarida. Não és honesto. És infeliz. Tentando medir o mundo com a régua enviesada da insegurança. Não gostas das minhas fotos? Vai ao Museu; os quadros ficam sempre iguais. Achei que demoro? Arranja um Tamagotchi. O vestido é para ti? Erro teu vesti-o para ME sentir bem.

Ela levantou-se, ajeitou a mala e olhou-o com compaixão:

Se o teu frágil ego não aguenta um eu própria, o que precisas não é de um romance, mas sim de consulta. Aos quarenta e cinco, valorizo tanto o meu tempo que não o gasto com quem começa o encontro a listar defeitos meus.

Vais-te embora? E o café? murmurou António.

Bebe o café sozinho. Ajuda-te a poupar euros. Última sugestão: gostavas que olhassem sempre para a tua boca? Marca no dentista.

Chegada a casa, Margarida bloqueou António em todas as redes e apps. Para ela, conforto aos quarenta e cinco já não é só manta e sofá é telemóvel sem notificações de quem nos quer cortar à medida do seu padrão.

E vocês, o que acham? É azar de encontro ou um sketch dramático muito ensaiado? E será que vale a pena insistir quando alguém, logo no início, nos passa uma fatura por sermos genuínos?

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Após 4 meses de troca de mensagens, aceitei encontrar-me com um cavalheiro de 52 anos — começou a conversa com 5 reclamações
„Мама живе с моите пари” — тези думи ме разтресеха до болка