Ele vagueava pela noite lisboeta, cambaleando a cada passo, depois de se refugiar em mais um copo generoso de bagaço. Para onde ia? Nem lhe importava. Era da terra as pernas por si só acabavam por guiá-lo até casa. Entretanto, entretinha-se em questões maiores: filosofava, alto, como quem conversa com as pedras da calçada.
Porque carga dágua é que a minha vida é assim? Vinte e sete anos… os amigos já têm filhos na escola, enquanto as raparigas fogem de mim ao fim de um mês e isso nos melhores dias. Sou bruto? Não, não sou… Bem, talvez seja. Mas homem que é homem precisa de ser assim sorriu o Martim. O único sítio onde acertei foi no negócio. Longe de ser milionário, mas dá para viver com algum estilo.
De repente, parou. Apertou a cabeça entre as mãos, as lágrimas caíram-lhe pelos olhos abaixo:
Tanto dinheiro que dei a esse médico, para no fim me dizer: Não posso fazer nada. Só tenho aqui a morada de um especialista em Lisboa, mas, francamente, não creio que ele consiga mais. Amanhã, pego e vou ter com esse tal especialista.
Chegou à beira do rio, ao velho Cais do Sodré. Espreitou para a escuridão da água.
E se me atirasse daqui? O Tejo é fundo, se calhar resolvia tudo de uma vez. Olhou outra vez para o brilho negro do rio. Não, atirar-me não me dá. Está frio. E o Sócrates ainda não jantou. Vou para casa.
Passou pela ponte. Nela, uma figura ergue-se à meia-luz: uma mulher jovem, demasiado jovem, com o bebé deitado num sling ao peito. Ela olhava para as águas. Subitamente, trepa ao corrimão, abre os braços…
Martim correu. Agarrou-a pela cintura, puxou-a para si, e tombaram juntos na calçada poeirenta do velho viaduto. O bebé rebentou num pranto.
Estás maluca? gritou Martim, o álcool varrido do corpo num instante.
O que te interessa? Deixa-me em paz! desfez-se em lágrimas.
Achei que ainda era cedo para bateres com a porta da vida acenou, apontando para o bebé a chorar. E muito mais para ele. Vá, levanta-te e vai para casa, para o teu homem ou para a tua mãe. Tens alguém, não tens?
Não tenho casa, nem marido, nem mãe. Não tenho ninguém!
Que raio de sorte a minha levantou-a, pondo-lhe o bebé nos braços. Anda daí.
Não vou a lado nenhum contigo! Ainda és algum tarado…
Queres atirar-te daqui, mas tens medo de andar com um desconhecido? Tem juízo. Anda lá!
***
Caminhavam pelos becos da Graça, o choro do bebé a ecoar entre as pedras das ruas.
Porque é que ele nunca se cala? resmungou Martim, já impaciente.
Tem fome a mulher apertou o bebé contra o peito.
Então dá-lhe de mamar!
Não tenho leite. Nem dinheiro.
Nem juízo, aparentemente resmungou Martim, olhando para os lados. Olha ali, uma mercearia aberta. Bora, compro leite.
***
O segurança e a funcionária fitavam-nos com desconfiança. Martim agarrou um cesto e fitou a companheira interina:
Anda.
Onde está o leite? voltou-se para a funcionária.
Ali, naquele lado respondeu, seca, apontando.
Chegaram ao frigorífico.
Escolhe o que quiseres mandou Martim.
Este chega pegou um pacote.
Leva mais. Todos os que precisares. Esperou que ela enchasse o cesto. Mais, precisas de quê?
Fraldas.
Fraldas? O que é isso?
Estão ali um sorriso breve passou-lhe pelo rosto.
Traz!
E toalhitas…
Vai buscar.
À caixa, Martim passou o seu cartão bancário.
Só aceitamos dinheiro vibrou a funcionária, fria.
Martim sacou de uma nota de cinquenta euros toda amarfanhada e passou-lha.
Não tenho troco, rematou ela.
Traga um chocolate no troco, desse ali, apontou Martim, irritado.
***
Chegaram ao apartamento. A mulher mexeu-se de espanto, olhando à volta. Martim largou os sapatos, correu ao frigorífico, sacou uma posta de peixe, atirou-a ao Sócrates, o gato, depois abriu um Compal que bebeu sofregamente. Aproximou-se da mulher:
Dormes aqui, neste quarto apontou-lhe. Cozinha, casa de banho, duche. Vou dormir.
Começou a afastar-se, depois parou e virou-se:
Como é que te chamas?
Filipa.
Eu sou Martim.
***
Não parece ser tarado. Encostou-se à cozinha, acendeu o fogão, pôs a chaleira. Tonta! Quase que me atirava ao rio… e o que seria de mim e do Tomás a esta hora? Amanhã ele corre comigo de certeza. Mais vale hoje ficar ao menos quente.
O apito da chaleira. Correu ao quarto pequeno, deitou o pequeno Tomás na cama, retirou do bolso um frasco, regressou à cozinha. Lavou a tetina, deitou leite e misturou com água quente.
O pequeno lambuzou todo o leite, adormeceu a seguir. Limpou-o com a toalhita, vestiu a fralda. Sossegou.
Ela, cheia de fome, bisbilhotou o frigorífico. Agarrou um naco de chouriço, meteu-o à boca, de seguida fatiou pão, queijo e fiambre.
A fome domada, achou aquilo tudo uma falta de respeito, mas encolheu os ombros deitou-se ao lado do filho e adormeceu.
***
A manhã acordou. A meio da noite levantara-se duas vezes para alimentar o Tomás, oito meses sempre com fome. Ouvira Martim levantar-se, agora estava novamente de pé.
Está na hora ajeitou-se, para não acordar o pequeno. O que é bom acaba depressa.
Martim andava agitado na cozinha. Ela tratou rapidamente da casa de banho, entrou:
Senta-te, mandou ele, mostrando uma cadeira. Faço ovos mexidos.
Deixa estar, faço eu! empurrou-o de leve para o lado.
Cortou ramo de salsa, polvilhou os ovos, lavou os copos, fez um café forte.
Ele, enquanto isso, berrava ao telefone, ora dando ordens, ora batendo boca. Filipa teve a impressão de ser invisível para Martim. Comeu, bebeu o café, ergueu-se.
Ela enrijeceu à espera:
Pronto, agora é que nos põe na rua.
Filipa, ouve com atenção! Eu vou estar fora uma semana. O mais importante, alimenta o gato chama-se Sócrates. Nem penses dar-lhe dessas comidas de pacote! Só peixe fresco e carne. O meu escritório é proibido! Nas outras divisões, faz o que quiseres.
Ao fundo chorou o Tomás. Filipa saltou e olhou para Martim.
Vai lá.
Voltou cinco minutos depois, filho ao colo. Em cima da mesa, várias notas de cinquenta euros.
Isso deve chegar-te para a semana toda, apontou para o dinheiro. Vou indo.
Deu um passo em direção à porta. Então o pequeno estendeu-lhe os braços e, numa palavra meio perdida, murmurou algo parecido com pa-pa. Talvez Martim o tenha só sonhado. Ainda assim, sentiu um aperto fundo no peito. Sabia que nunca seria pai.
Filipa, posso pegar nele ao colo? saiu-lhe, surpreendendo-se.
Vai! sorriu-lhe, passando o menino. Nunca pegaste num filho?
Nunca.
O Tomás riu, acenando alegremente os bracinhos, Martim fitou-o, rendido.
Nunca terei um filho, pensou, entristeceu-se, devolveu o bebé à mãe.
E saiu.
***
No regresso, a cabeça girava. O especialista lisboeta assegurara-lhe que nunca teria filhos. Que lhe valia tanto dinheiro, um T4 na Lapa, um Mercedes? Para quê, sem família? Entra no apartamento… está imaculadamente limpo, como nunca.
A mulher sorri, envergonhada.
Pa-pa! as mãozinhas acenam-lhe.
A mala com a roupa cai, os braços correm para o pequeno Tomás, e o resto dissolve-se, como numa manhã enevoada.







