Que vergonha, toda a gente aqui já tem a horta arranjada e a nossa está uma lástima à vista de todos. Bem que gostaríamos de tratar disso, mas eu estou com uma crise de artrite e a minha mãe ficou presa das costas.

Que vergonha, toda a gente já tem a horta limpa, e a nossa está ali como um espinho no olho. Nós até faríamos, mas a mim deu-me uma crise de artrite, e à tua mãe travou-lhe as costas.

Miguel, para isto é que venho disse o pai, torcendo a boina nas mãos será que nos podem dar uma ajuda a tirar as batatas, Miguel? Que vergonha, todos já arrumaram tudo e nós aqui com isto assim à vista de todos. Nós até fazíamos, mas com estas dores, não conseguimos dar conta.

Enquanto calçava as botas, Miguel resmungou:

Para quê plantar tantas batatas, pai? Não passamos fome, que eu saiba Hoje não consigo, tenho que ir a Évora, é assunto do trabalho.

O pai fez menção de responder de forma mais severa, mas conteve-se e saiu.
Já no quintal, pegou na forquilha e, coxeando, caminhou em direção à horta.

Dona Amélia, que apertava o xaile contra as costas doridas, veio também, apressada.

E então, António, achas que os filhos aparecem?

Respondeu com voz grossa:

Pois sim, aguarda sentada. Pega lá num balde e vai apanhando batatas. Tantos filhos tivemos, cinco, e agora nem tempo têm para ajudar os pais. Mexe-te, mulher, pode ser que até ao fim do dia demos conta de alguma coisa.

Entretanto, Inês, mulher de Miguel, ralhava-lhe:

Mas que família é esta, tudo para eles, tudo cada um por si, nem para ajudar os pais serve. É triste, acredita. Se os meus ainda estivessem vivos, voava para perto deles!

Miguel envolveu-a num abraço:

Tens razão, não fica bem. Vivemos perto e raramente nos juntamos. Vou tirar folga no trabalho e tu liga aos outros, pode ser?

Inês já se sentava com o telemóvel e a agenda.

Como assim não podem? Trabalho? E quem é que não tem trabalho? Tirem licença, pelo menos desta vez. Não tenham vergonha, os velhotes a esforçarem-se e vocês sem moverem uma palha! Não têm com quem deixar os miúdos? Tragam-nos, é melhor estarem ao ar livre do que agarrados aos tablets. Contamos convosco!

Entre súplicas e algum tom mais firme, Inês lá convenceu todos.

Enquanto isso, o senhor António sentou-se a recuperar o fôlego.

Ó Amélia, assim vamos chegar ao Natal a apanhar batata. Para quê semear tanto? Sempre a pensares e se falta para os filhos. Mas onde estão eles agora? Nem mexer um dedo querem. Antigamente era diferente juntos em meia hora limpávamos isto antes do almoço. Que tempo!

Amélia pôs-se a escutar:

Sabes, António, parece que chegou alguém Vai espreitar.

António lá foi, cambaleando até ao portão. De lá, chegaram risos e vozes. Amélia, apoiando-se, dirigiu-se à entrada.

Santa Maria! Tantos! Os filhos todos, e ainda os netos. Que alegria.

Então, pai, mostra onde estão as enxadas, as forquilhas, os baldes? comandava Miguel.

O pai, segurando as lágrimas, soltou num tom rude:

Onde sempre estiveram! Já não se lembram?

E lá começaram. Uns a cavar, outros a apanhar, e outros a pôr batatas a secar ao abrigo. Mandaram logo a Amélia para dentro.

As noras arregaçaram as mangas, prepararam lanche e jantaremos todos juntos. Mas Amélia não conseguia ficar quieta.

Ia dando indicações aqui e ali. Sem o seu olhar atento, nada se fazia bem.

Na horta, as brincadeiras estavam ao rubro.

Lembras-te, Miguel, de quando me atiraste uma batata à testa? Agora é a minha vez! ria o Sérgio.

O avô resmungava a rir:

Olhem para estes, já quase todos com idade para serem avôs, e ainda brincam como miúdos.

Conseguiram! A horta limpa, o restolho em monte, as batatas arrumadas. Hora de petiscar.

Prepararam uma mesa grande no terreiro, risos e conversas sobre a infância enchem o ar.

Amélia disfarçadamente enxughava uma lágrima. Bons filhos. Os vizinhos que passavam cumprimentavam, elogiavam. Alguns, com ar saudoso, lembravam-se dos seus, que raro vinham visitar.

Inês, num sussurro, pergunta a Miguel:

E no trabalho, que disseste?

Ele passa-lhe o braço sobre os ombros:

Disse a verdade, que os pais precisavam de ajuda. Deixaram-me ir sem hesitar. Disseram: Ajudar os pais é sagrado.

No meio da rotina, não esqueçam os vossos pais. Muitas vezes têm vergonha de pedir ou de insistir, mas nada os faz mais felizes do que ver os filhos juntos. Esta é a verdadeira alegria da vida.

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