Em vez de mim
A minha sogra percebia claramente que Catarina não queria casar com o viúvo, e não era por ele já ter uma filha pequena, nem pela diferença de idade, mas sim porque ela tinha um medo verdadeiro dele.
O seu olhar sério parecia trespassar-lhe o coração, que batia acelerado de aflição, como se procurasse fugir das lanças daquele olhar. Catarina baixava os olhos para o chão, sem vontade de os levantar; e quando finalmente o fazia, todos viam o brilho das lágrimas, que depois escorriam grossas pelas suas bochechas coradas de vergonha. As mãos tremiam, e os pequenos punhos quase se indignavam contra a sogra e aquele noivo imposto.
Mas, traída pela própria língua, acabou por dizer: “Vou.”
Bem, assim ficou decidido. Ir para uma casa assim, para um homem daqueles, dono de tanto, seria até pecado recusar! Ora, ele adorava a primeira mulher, cuidava dela até ao fim, sempre paciente mesmo quando ela andava sempre doente, fraquita, sempre a tossir. Iam juntos pelo caminho, ele fazia três passos para cada um dela, sempre a amparar, sem nunca lhe levantar a voz, não era como o teu pai, Catarina
Durante a gravidez, quase ninguém a via andar, vivia deitada, e após o parto, era o Manuel quem passava as noites a tratar da menina ela cada vez mais frágil.
A mãe dele assim contava:
E tu, cheia de saúde, és um presente! Habituada ao trabalho, fiada, tecedeira, boa até com a enxada e a foice. Seria desperdício dares-te a um moço inexperiente, dos tais com mais manha que juízo, vais para homem de valor, que todos conhecem. Que sorte a tua!
Eu tratava de arranjar uns licores, fazíamos um serão, porque ao viúvo nem lhe apetecia festas não queria dançar sobre memórias de quem já partiu. Quanto ao enxoval, ele pediu para não se preocupar, já bastava tudo o que havia em casa.
Manuel casou-se pela primeira vez por amor, mesmo sabendo que a Vera era doente desde sempre. Disseram-lhe que ele, rapaz forte, precisava de mulher robusta, mas não houve quem o demovesse só a Vera lhe servia.
No povoado corria o boato que devia estar amaldiçoado para se meter assim em trabalho e sofrimento.
Os médicos sempre diziam ser coisa dos pulmões qualquer constipação dela agravava tudo. Manuel achava que pelo amor ela melhoraria, tentava cuidar dela como podia.
E no início, o casamento corria bem. Eram felizes, de uma alegria serena.
Mas depois, a gravidez trouxe fraqueza e sonolência, deixava-a sem forças para lavar roupa ou sequer pentear o cabelo. Os médicos diziam que era daqueles enjôos de gravidez, que depois passava. Manuel nunca lhe negou nada, defendia-a até da própria mãe, que só via um fardo em vez de mulher de casa.
Quando veio ao mundo a pequena Madalena, Manuel ainda acreditou que a sorte mudava. Houve alegria, sim, mas pouco durou. Um resfriado tirou rapidamente as forças à mulher, que foi definhando à vista de todos.
Levou-a para o hospital, mas o médico foi direto:
Os pulmões estão a desfazer-se.
Vera, já consciente do fim, pediu-lhe atenção:
Ninguém nunca desfez os planos de Deus. Já não posso lutar, o sofrimento venceu-me e peço-vos perdão, a ti e à nossa filha. Nasci para a dor e trouxe-vos comigo ao mesmo destino.
Manuel apertou-lhe as mãos quentes, sentindo no peito o último esforço dela para dizer o essencial.
Falou ainda do seu amor, preocupada com Madalena, pediu-lhe que se casasse com Catarina, porque conhecia a sua história difícil ao lado da madrasta, das irmãs e do pai bêbado. Tinha ouvido tudo pela própria mãe, que era pessoa atenta, percebia logo quem valia a pena.
Catarina é doce, resistente, forte e sabe bem o que é a vida dura não vai magoar a nossa filha. Só te peço, Manuel: sê-lhe fiel como foste a mim. E lembra-te, se voltares a magoar a nossa filha, que te amaldiçoe para lá do mundo. Disse isto devagar, apertando-lhe a mão.
Manuel chorou como criança, mal vislumbrava a mulher por entre as lágrimas, sentindo o último suspiro dela. O rosto dela, sereno e sorridente, fixara-se num ponto. Segurava ainda a mão dele ao partir. Manuel beijou-lhe cada centímetro do corpo, prometendo cumprir os últimos desejos dela.
Por isso mesmo, um ano após a morte de Vera, fui pedir Catarina em casamento.
A sogra preparara a madrasta, desejava para a neta uma boa mãe, e sabia de saúde que o seu tempo na Terra lhe escapava. Queria ver neta e genro felizes.
Ela e todos viam o que eu passava. Por mais que sentisse falta de uma mulher em casa, mais me cortava ver Madalena sem uma mãe, a pedir atenção e carinho.
Comecei a reparar em Catarina: submissa, trabalhadora, bonita e até parecida com a minha mulher o mesmo cabelo comprido, o passo leve, o sorriso tímido.
Por vezes, apetecia-me aproximar-me, abraçá-la forte, calar tudo e, por um instante, rever-me na felicidade de outros dias.
Ela própria não sabia porque aceitara: talvez farta da escravidão na casa da madrasta, do pai bêbado, das irmãs gozonas, ou porque tinha pena da minha filha. Mas, ao aceitar, percebeu que a espera uma última prova aprender a amar e fazer-se amar por mim.
Depois do pedido, levei Catarina a minha casa para conhecerem melhor.
Durante toda a doença, Vera vivia para Madalena; não largava a menina um segundo. À noite, eu via ao acordar como a mãe lhe sussurrava conselhos, como se a preparasse para viver sem ela.
Devia Madalena ter três anos, pouco mais. Nada a afligia além da falta de mãe. Quando alguém aparecia em casa, corria sempre à porta, cheia de esperança, imaginando que seria a mãe.
Eu tentava explicar-lhe, sem sucesso aos olhos de uma menina, nada substitui o colo da mãe.
Receava iludir-me com Catarina. Mas quando vi Madalena quase chorar por Catarina ir embora, senti uma paz dentro de mim.
Madalena pegou-lhe na mão, levou-a ao seu quarto, destapou a cama, arrumou febrilmente as almofadas e saltou cheia de alegria, como se tivesse ganho o mundo.
Catarina lembrou-se do seu passado duro: a madrasta a dar pão com desdém, escondendo doces, batendo-lhe nas mãos pelo trabalho mal feito, as roupas remendadas, o pai deitado no chão pela bebedeira e ela a tapá-lo com pena. Recordou as ameaças de a despachar ao primeiro homem que aparecesse sentiu um nó na garganta e aproximou-se de Madalena, abraçou-a bem junto de si e adormeceu ao lado da menina no sono mais tranquilo.
Não a deixei ir embora. Percebemos que esposa está com o marido, não onde não é bem-vinda.
Hoje olho para trás e penso em tudo que vivi. Entendi que, por maiores que sejam as nossas perdas, a vida oferece sempre novas possibilidades, desde que estejamos dispostos a enfrentar o medo, cuidar de quem nos precisa e permitir que o amor floresça de novo mesmo em chão marcado pela dor e pela saudade.






