Svetlana, olá! Desculpe incomodar, sou a sua vizinha de baixo.

– Olá, Dona Carminho! Desculpe incomodar, sou a sua vizinha de baixo.
– Já baixo o volume da música, sim, não era por querer incomodar! respondeu a jovem com um leve sorriso, ajeitando o robe de algodão e equilibrando um copo de vinho na mão.
– Ora, que disparate, não é nada com o barulho. É que ligaram do trabalho do meu marido, para ir já e com urgência.
– Está tudo bem com ele?
– Não disseram, só que era urgente. Ir até à casa da minha mãe demora uma eternidade Não se importava de ficar de olho no meu filho? Tem sete anos e meio, já se consegue safar, mas eu fico sempre de coração nas mãos… e hoje, com estes nervos…
– Claro que sim. Só vou vestir-me decentemente e já aí desço.
– É um miúdo sossegado, normalmente ou está agarrado ao tablet ou dispara mil perguntas, coitado.

***
A jovem, agora de top branco e jeans, estava sentada à mesa, com uma chávena de chá, a falar ao telemóvel:
– Aquela Cristina da contabilidade é mesmo uma cabecinha oca. Vê-se de longe a maneira como se assanha ao Senhor Pedro António.
O miúdo entrou na cozinha, agarrado ao tablet, de onde vinham sons de discussão parecia um episódio daqueles de Caçadores de Mitos versão portuguesa. Na t-shirt dele lia-se O Futuro é dos Robôs! a letras grandes.
– Olha, desculpa lá, tenho de desligar. Estou numa missão de caridade agora. despediu-se ela ao telemóvel. Olá, sou a Tia Carminho! Queres um chá?
– Não, obrigado. Sou o Martim. A mãe avisou-me. E é muito bonita… embora a mãe diga sempre que as bonitas são umas desgraçadas. O meu pai responde que, por esse raciocínio, ou ela é feia ou fez um mau negócio no casamento.
– Os teus pais deviam ter programa de comédia próprio! Mas obrigada pelo bonita. Quanto à parte do infeliz…
– E o seu marido, onde está?
– Olha, foi só ali… ao supermercado. Há três anos.
– Ahhh, entendi! Deu de frosques!
– Sabes, existe algo mais forte que chá nesta casa? Estes diálogos deixam-me a precisar!
– Acho que há vinho no frigorífico.
– Obrigada, mas fico-me pelo chá. Estou de visita.
– Tia Carminho, precisa arranjar outro marido.
– Martim, espero por ti então cresceres. Onde é que eles andam, esses maridos todos?
– Tem de saber o que procura! Vi num programa de televisão que é preciso uma lista, com tudo bem definido.
– Manda-me lá o link. Queria um assim: rico, bonito e bom. Que me adorasse, me sustentasse, me levasse a jantar fora…
– E o que ganha ele com isso?
– Como assim? Eu gostava tanto dele, ia ao SPA, essas coisas…
– Pois, mas que proveito tem ele? Se for esperto, quer uma parceira, não um grilo a ocupar espaço…
– Vinho, já! – Ela abriu o frigorífico à pressa, despejou o chá na pia e encheu a caneca de vinho.
– Também vi um documentário sobre esposas de milionários. Disse lá que acabavam todas alcoólicas. Moravam em mansões e encharcavam-se.
– Isso, meu querido Martim, chama-se solidão. Vais beber comigo? Estou a brincar!
– Sabes com quem vou casar?
– Já sei: comigo!
– Pois, nem por isso.
– Então?
– Com a Madalena. Fazemos robótica juntos. Ela é mais esperta que eu. Uma vez num concurso, tínhamos dois módulos que não se conectavam. Eu já em pânico, e ela calma: tirou tudo e levou até ao parque. Lá, sem interferências, os módulos lá se entenderam. Acabámos a ganhar o concurso. É daquelas pessoas em quem se pode confiar. Gosta-se dela por isso!
A jovem esvaziou a caneca num gole e encheu de novo.
– Ai, a Madalena já me roubou o noivo! Tu achas que tenho de procurar namorado no trabalho, é?
– Os bons aparecem por si! Procurar marido não é como procurar tomates maduros no supermercado.
– Grande psicólogo, hã? Que raio de conversa.
– Então seja você a mulher rica, bonita e bondosa! Entendeu?
– E para quê é que eu queria alguém, então? Ia viajar, aprender inglês, inscrever-me numas aulas de dança, cursos de culinária… Aprendia até a fazer sushi!
– E o que é que a impede agora?
– Falta-me o marido para pagar isso tudo.
– Então, é um parasita, tipo barata?
– Olha, menos! Eu só quero aquele final feliz à portuguesa, pronto…
– Pare de ver novelas! Vai ficar a vida toda a procurar um fantasma, em vez de viver.
– Cala-te! Parece que já sabes tudo! Vai para o teu quarto. Hora de dormir, génio!
O rapaz foi-se embora. Caiu uma lágrima à jovem. Acabou o vinho. O telefone tocou, ela desligou. Porta da frente abriu-se. Entrou o casal, bem-disposto, a sorrir com um copinho a mais.
– Carminho, muito, muito obrigada por ficar com o Martim! cantarolou a vizinha.
– Não foi nada. Olhe, bebi um bocadinho do vosso vinho
– À vontade, minha querida.
– Vejo que com o seu marido está tudo bem?
– Ai, foi ele, com uns colegas doidos. Hoje é o aniversário do nosso primeiro beijo. Fui ao escritório, o homem deitado no chão com um papel no peito: Beija-me para eu acordar!. Depois comprámos vinho e fomos ao cinema, como nos velhos tempos.
– Vocês devem conspirar juntos para me deixar maluca! Já me vou embora…
– E o Martim, portou-se bem? perguntou a mãe à porta.
– Mal, muito mal. Posso vir mais vezes? Precisa de uma boa educação…

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