Colégio Interno para a Filha

Internato para a filha

Maria casou-se com Ricardo há quatro anos, num daqueles casamentos que todos chamam de porto seguro. Depois das humilhações e noites em claro com o primeiro marido, que vivia perdido nos cafés e tascas de Lisboa, ela achava enfim que tinha posto os pés em terra firme, saindo do pântano das decepções.

Ricardo era um homem metódico, reservado, já chefe de secção numa empresa. Gostava de regras e rotina: tudo devia estar nos seus devidos lugares, nada de surpresas a desestabilizar o lar.

Nos tempos de namoro, Maria contou-lhe, evidentemente, sobre a filha, Beatriz, que nessa época tinha doze anos. Entretanto, por arranjos da vida, Beatriz ficou a residir com o pai, Daniel, e a sua nova companheira. Era um assunto distante; Ricardo sabia da criança, mas como não pedia dinheiro, não ocupava a casa de banho nas madrugadas nem partilhava o jantar na sua mesa, o facto existia apenas como detalhe biográfico da mulher.

A rotina ganhou forma. Compraram um apartamento modesto na Amadora, com crédito bancário uma sala pequena, quarto, cozinha americana orgulhosamente chamado de o nosso ninho. Maria trabalhava na receção de uma clínica dentária, enquanto Ricardo segurava o principal do orçamento familiar. Mas Maria também contribuía para o empréstimo, e isso dava-lhe um sabor de igualdade. Até já pensavam em ter um filho, para selar o laço de vez.

Mas tudo desabou numa tarde vulgar, com uma mensagem de Daniel. Os dois falavam pouco; tratavam apenas dos básicos pensão, escola, seguro de saúde da menina. Dessa vez, o texto era comprido: Maria, tens de ficar com a Beatriz. Tivemos um bebé, a Inês quase não aguenta, e a Bia… sabes como são adolescentes, querem atenção. Não conseguimos. Desculpa, mas és mãe. Ela precisa de ti, já não aguento mais.

Maria leu e releu a mensagem, o coração gelado. Foi ter com Ricardo, que nesse momento arranjava sardinhas na cozinha, e estendeu-lhe o telemóvel.

Ricardo, temos um problema disse, num fio de voz. O Daniel pede para a Beatriz vir para casa. Eles tiveram um bebé, não dão conta.

Ricardo pôs de lado a faca, fitou-a como se ela estivesse a falar de um problema de canalização.

Para nossa casa?! perguntou, limpando as mãos ao pano. Estás a dizer… para morar connosco?

Sim, Ricardo. É minha filha, tem dezasseis anos, não tem mais onde ficar…

Ricardo levantou-se da cadeira. O espaço parecia de repente apertado, como o camarote de um ferry em hora de ponta.

Ouve, Maria, ouve bem: eu sabia que tinhas uma filha, nunca neguei. Mas nunca pensei em viver com um adolescente que não é meu. É uma estranha. Não quero outra pessoa a andar pela casa, a comer do meu pão, a usar o meu duche, a criar problemas.

Ela não é estranha insistiu Maria, tremendo. É a minha filha. Sempre soubeste dela, quando casaste comigo…

Casei contigo cortou Ricardo, seco. Não casei com a tua filha, nem com os problemas do teu passado. Casei com uma mulher cujo filho vive com o pai, o que era perfeito para todos. E agora, porque o pai farta-se, eu que fique com a “batata quente”? Não, desculpa. A minha vida não é isto.

E que dizes tu da nossa vida? Da casa por que pagamos juntos? Não é só tua!

Tu tens direito a viver aqui riu ele, frio. Se queres tanto a tua filha, nunca devias ter saído da casa do Daniel.

Maria sentiu-se esmurrada. Ricardo nunca falara com tal frieza; parecia um patrão irritado com a funcionária rebelde.

O que sugeres então? sussurrou ela.

Isso é lá contigo, Maria. Tu é que és mãe. Mas aviso já: se ela vier para aqui, eu vou embora. Ficas com a dívida e ainda me pagas o que já dei à Caixa. Não vou sustentar filhos dos outros.

A calma dele era de cortar a respiração. Maria ficou ali parada, olhando as costas largas, as mãos a escamar sardinhas e saiu da cozinha sem chão debaixo dos pés.

Tentou negociar com Daniel: pediu um mês, uns dias… Impossível: Inês anda à beira de um ataque, a Bia só bate portas, ouve músicas até de madrugada. Preciso de descansar, já fiz o meu papel. Agora és tu. E nem mencionou apoio financeiro, mesmo tendo uma firma de remodelações a render-lhe bons euros. Maria percebeu: ou ia buscar a filha, ou ficava entregue.

Foi tentando conversar com Ricardo, escolhendo momentos calmos. Nada mudava.

Uma noite, deitada ao lado dele, a voz implorante:

Ela ajuda em casa, estuda, não vai arranjar confusão. Pode dormir na sala, pelo menos por enquanto.

Maria a resposta cortante, no escuro. Sabes o que é viver com um adolescente estranho? Não é só ajudar em casa: chego do trabalho, quero paz, e lá anda ela a olhar para o tlm, cabelos pelo lavatório. Só quero sossego, não uma república de estudantes.

Mas eu sou mãe! Como posso abandonar a minha filha outra vez? O que vai pensar de mim?

Já tem idade para perceber onde se deve meter. Mas não, os filhos acham sempre que os pais lhes devem tudo…

Maria abafou o choro com as mãos, o corpo a tremer. Ele deu-lhe as costas e murmurou: Poupa-me ao drama.

Dois dias depois, Ricardo mostrou-lhe um papel:

Encontrámos uma solução: há um internato de meninas em Oeiras. Fica lá durante a semana, com acompanhamento, e vem aos fins de semana. Ficas descansada, eu não perco a minha paz.

Ela pendurou o casaco devagar, a alma partida.

Queres meter a minha filha num internato, como se fosse órfã?

Cala-te com isso. Aquilo é uma escola, onde as filhas de famílias complicadas estudam, têm cama e comida. Não é meter na rua, é civilizado.

Civilizado? Isto é para que eu não perturbe o teu sossego, para que possas continuar na tua rotina, sem cabelos na banheira nem barulho no televisor.

Se tens outra ideia, diz. Apartamento, nem pensar o teu ordenado não chegava. O Daniel passou a bola, e agora é isto: ou ela aqui e eu vou, ou internato.

Maria não conseguia decidir. Vivendo entre a culpa pela filha, que já uma vez deixara com o pai, e o medo de perder a casa e o marido. As amigas davam mil conselhos, nenhuns úteis. Tinha medo de dizer à filha: vem, mas o teu padrasto não te quer, ou espera, que penso nalguma coisa. E Beatriz não ligava.

O tempo escoava. Daniel mandou: Se não a vieres buscar até sexta, aciono a proteção de menores.

Três dias antes do prazo, a discussão rebentou no auge. Maria, nervosa, não cedeu como sempre:

És um egoísta! Sabias que eu tinha uma filha! Fingiste, e agora, perante o facto, mostras quem és mesmo. Não me amas, só me queres sem passado, sem problemas.

Mas estás disposta a deitar tudo fora, o que construímos, por uma miúda que quase não vês há anos? Achas isto justo? Ficamos todos a pagar pelo teu remorso de mãe?

E tu, achas justo tratares uma criança como um incómodo? É a minha filha! Posso ser fraca, mas não sou um monstro. Não vou abandoná-la outra vez só para não te incomodar!

Mas já a abandonaste! Preferiste esta vida, este apartamento! Agora queres que eu pague pelo que tu fizeste? Não, resolveste sozinha!

Internato?! Maria chorava alto. É isso que queres? Mandar a minha filha para longe, como se fosse um móvel velho?

Ela já sabe que ninguém a quer! Internato só a vai tornar mais independente.

Maria ia responder, mas nesse instante ouviu um som abafado um soluço. A porta estava entreaberta, e via-se um pedaço de mochila e cabelo louro. O coração gelou.

Correu à porta, abriu-a. Beatriz olhava-a com olhos vermelhos, encostada à parede, a chave dada por Maria na mão.

Não me toques atirou Beatriz. Ouvi tudo. Internato, que fui descartada, que não me queres. Tudo.

Não é o que pensas… tentou Maria, mas nem ela acreditava nas palavras. Era só um desabafo…

Uma solução para me descartares rebateu Beatriz, já de lágrimas a correr pelo rosto. Ninguém me quer. Vocês só querem saber a quem me passar, como uma mala sem asa.

Beatriz, isso não é assim… Ricardo da cozinha, com voz de sargento. Aqui ninguém te põe fora. Somos adultos, havemos de resolver.

O olhar de Beatriz para ele era ódio puro.

Resolveram sim: internato, visitas só ao domingo. Eu não preciso de pessoas assim.

Isto não é decisão final… Maria avançou, mas Beatriz já abria a porta para sair.

Fica. Por favor. Não te mando para lado nenhum. Maria tentava segurá-la.

E ele? apontou Beatriz para Ricardo, frio na ombreira da porta. Já o ouvi, não preciso de mentiras.

Maria olhou para Ricardo, pedindo um sinal, um gesto de humanidade, mas só viu fúria e irritação.

Beatriz disse Ricardo, seco , ninguém te expulsa, mas tens de respeitar que esta é a nossa casa, temos regras. O internato seria melhor para todos.

Ricardo! gritou Maria, mas era tarde.

Beatriz puxou o braço, recuou, olhou a mãe com mágoa.

Não me procures murmurou, fechando a porta.

Maria correu atrás, escadas abaixo, saiu à rua. Só via escuridão, os lampiões a iluminar o alcatrão molhado, folhas mortas no vento.

Beatriz! chamou, a voz sumida entre prédios húmidos, já sem resposta.

Correu pelo bairro, entrou pelas arcadas, perguntou a estranhos. Ninguém a vira. Chamava ao tlm, sem sucesso desligado ou sem carga.

Quando voltou, Ricardo estava na sala, vendo telejornal.

Estás aí, sentado?! Ela desapareceu!

Ricardo afastou-a, agarrou-a pelos pulsos, gelado:

Para. É adolescente, fugiu, quer fazer-se ouvir. Vai voltar. Todos passam por isto.

Ouviste-a? Não me procures! Pode ter-se ido meter em sarilhos!

E então? Vais chamar a polícia? Nem aceitam queixa antes de 24 horas. Espera.

Esperar? Tens noção do que é dormir sem saber onde está uma filha de dezasseis anos? És doido?

Tu é que passas dos limites. Se tivesses falado com calma, ela não fugia. Problema teu.

Maria fitou-o, incrédula. O homem que pensara conhecer era agora um estranho, frio, incapaz de compaixão.

Vestiu o casaco, foi bater ruas, parques, cafés abertos, abordou desconhecidos, nada. Lisboa parecia alheia à dor dos outros.

Pela manhã, gelada, Maria voltou. Ricardo já saíra. Na mesa, um recado: Liga para o internato. O endereço está aqui. Olhou para o papel, e sentiu-se a enjoar. Quase não chegou à casa de banho.

Beatriz não voltou nesse dia. Nem no seguinte.

Maria e Daniel notificaram a polícia. Sempre apáticos: Adolescente chateada, quantos se perdem? Normal. Se calhar, semana próxima regressa. Falavam como se ela fosse um caso rotineiro, passageiro, entre milhares.

Beatriz não voltava.

Uma semana passou. Maria, sem comer, sem dormir, contactava todas as amizades da filha, ia às estações, pregava cartazes com o sorriso da Beatriz miúda de sol, cheia de vida por viver. Ricardo começou por ser calmo, depois irritado; Maria, sem trabalhar, sem cuidar da casa, ele a arcar com tudo.

Dez dias depois, exausto, explodiu:

Até quando isto? Se ela não quer voltar, não volta.

Não quer, ou não pode? Maria olhava-o, olhos encovados, a voz falha pelo medo.

Olha, deve andar com os amigos. Levou dinheiro e telemóvel, certo? Só não quer falar contigo. E percebo-a: mãe como tu, só drama.

Interrompeu a frase; Maria ergueu-se, o ar tão negro que Ricardo nem tentou argumentar.

Sai daqui sussurrou. Agora.

Estás a expulsar-me da minha casa?

Não é só tua, mas já não me interessa. Quero a minha filha. Vai-te embora. Agora.

Ele fez as malas em meia hora. Saiu. Maria não reagiu.

Na polícia, ia todos os dias. Mais fotografias, descrições, súplicas. Sempre a mesma resposta: Estamos a trabalhar. Contratou um detetive privado, queimou o que guardava para férias. Dois meses de buscas, nada. Maria, fiz tudo. Rodei pensões, estações, redes sociais. Ou ela esconde-se bem, ou… já percebe onde isto pode dar.

Maria recusava aceitar.

Ao fim de três meses, ligaram da polícia. Precisa de fazer um reconhecimento. Quase desmaiou. Mas era só a mochila e a camisola da Beatriz, encontradas num prédio abandonado em Chelas, local usado por jovens sem lar. Entre os detidos, ninguém a reconheceu ou não quiseram reconhecer.

Maria mergulhou nos calmantes para se aguentar. Ia trabalhar no piloto automático, apenas para pagar o crédito. Ricardo ligou várias vezes, prometendo agora que aceitaria Beatriz, se porventura aparecesse, que poderiam recomeçar. Maria desligava-lhe sempre o telefone.

De noite, sonhava com Beatriz ora pequenina, com tranças, no infantário; ora aos dezasseis, mochila às costas, a olhar-lhe nos olhos e dizer: Não me procures. Acordava, suada, esgotada.

Ao fim de meio ano, deram como desaparecida a nível nacional. Um mês depois, suspenderam o processo sem provas, sem testemunhas. Maria assinou os papéis, sem os ler. O que importava? O único verbo importante era desaparecer.

Após oito meses, quando começava a habituar-se ao vazio eterno, caiu de cama cheia de dores. Emergência, cirurgia tiraram-lhe o útero. Nunca mais poderia ter filhos.

Deitada, encarava o tecto branco, a sentir romper-se a última ponte para o futuro. Teve uma filha, viva, querida, de cabelos dourados e olhar sério perdeu-a. Porque traiu, porque teve medo de perder o marido, a casa, a ficção do conforto. Nunca entendeu que a salvação não estava no companheiro, mas naquela rapariga no corredor, a ouvir-se tratar como mobília, como complicação ou filha dos outros.

Agora, Maria não tinha filha, nem marido, nem hipótese de tentar de novo. Só uma fotografia na mesinha: Beatriz a sorrir, o sol a cegar-lhe os olhos. Atrás, um rabisco infantil: Gosto muito de ti, mãe.

Às vezes, já enquanto adormecia, Maria jurava ouvir passos no corredor, a porta a abrir-se: Mãe, cheguei. Corria à entrada só vazio, apenas o luar na parede nua.

Nunca soube o que realmente aconteceu a Beatriz. Se está viva, se encontrou esse lugar onde não atrapalha ninguém, ou se já não pertence ao mundo. Maria vivia nesse limbo, pior que qualquer verdade: sem consolo, sem esperança, só culpa, que lateja com o coração e nunca desaparece.

Ricardo, um ano depois, conheceu outra mulher sem filhos, sem passado , casou, e logo nasceu um bebé ali mesmo, em Lisboa.

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