Um Copo de Leite

O copo de leite

Não é fácil para quem vive na solidão, e tanto menos para aqueles que estão por perto. Maria Lobo percebeu isso há muitos anos. Já ia no oitavo ano como assistente social em Lisboa. Durante esse tempo, correu tantas ruas, emagreceu, ficou mais seca de modos e aprendeu a responder com ironia, sobretudo quando alguém falava mal do seu trabalho. E tu quem és para comentar os meus casos?!, disparava, encarando o curioso por baixo da franja ruiva com os seus olhos verdes e amendoados. O interlocutor afastava-se rápido, sem perceber bem para onde ia. Por isso ganhou a alcunha de Maria Lobisomem.

Durante todos esses anos, Maria tratava de comprar alimentos para os utentes, limpava as casas quando preciso e conseguia conversar com todos, encontrando sempre um ponto de entendimento. Apenas uma vez houve conflito: um idoso solitário ofereceu-lhe uma tablete de chocolate. Era proibido aceitar presentes, ela nunca o fazia, mas fraquejou, e como negar então? Trouxe o chocolate para casa, mas nem conseguiu comer um quadradinho parecia que lhe atravessava a garganta. Ofereceu ao miúdo da vizinha e, quando o idoso insistiu com outra prenda, recusou. O senhor foi queixar-se ao centro social: Hoje em dia uma simples tablete de chocolate já não chega a estas cuidadoras, só querem envelope com dinheiro Quiseram despedir Maria, e ela não resistiu: Podem despedir, não vou chorar! Não sou um capacho, para me limparem os pés! Mas os outros utentes defenderam-na. Entre eles, Ana Monteiro. Maria já tinha um carinho especial por Ana, mas depois desse episódio sentiu-a quase como uma irmã, a irmã que nunca teve.

Tinham trajetos parecidos na vida, ambos marcados pela infelicidade de terem perdido os pais cedo. Ana, deficiente desde pequena, sonhava mais alto. Maria, apesar do físico saudável, trazia a alma cheia de cicatrizes, tímida, sempre quase a chorar nem Ana compreendia. O que as igualava era a ausência de filhos. Maria já se resignara, mas Ana permanecia combativa, animada, até censurava Maria quando a via murchar. Ganhou coragem depois dos ensaios no atelier do centro de reabilitação. Preparava-se para o concerto, algo que relutara em aceitar mas que o padre Lucas, que a visitava em festas religiosas levando oração e mimos, incentivava sempre achara o bordado o mais adequado: Ana, mesmo sem dedos especialmente ágeis, bordava com determinação. Primeiro foram toalhas, lenços, e depois decorou um vestido de linho com motivos em meia-tinta, desenhos em vermelho e aves verdes extravagantes. O vestido, uma vez pronto, foi à exposição do artesanato e venceu o primeiro prémio, acabando vendido no último dia. Foi o primeiro dinheiro que Ana ganhou e, ao receber o montante em euros, ligou a Maria a chorar, sem saber o que fazer.

Não chores. Logo decidimos o que fazer ao dinheiro, riu Maria, mas logo ficou séria. Compramos material, fazes outros vestidos para trabalharmos dois anos seguidos. Assim não pensas tanto nessas ideias.

Ana não respondeu, ainda magoada. A verdade é que, ultimamente, pensar num marido ocupava-lhe os sonhos. Sabia de cor, por filmes portugueses, como eram os casais apaixonados, de que falavam, mas nela só restava inveja.

O sucesso da exposição trouxe-lhe outra proposta: frequentar a turma de dança no centro, e criar um número de dança a pares. Isso é impossível!, riu incrédula, desligando o telefone, certa de que só podiam estar a gozar.

Voltaram a ligar, convenceram-na a ir experimentar, e se não gostasse, ninguém pressionaria. Afinal, o talento tem de crescer!, insistia uma voz áspera de mulher. Agora que ganhou o prémio, está na altura de ampliar horizontes. Combinámos tudo com o centro social, terá sempre uma trabalhadora consigo.

E o meu par, quem é?

Uma pessoa como a Ana. Temos várias duplas assim. Em Portugal ninguém fica para trás. Cada um pode encontrar o seu lugar!

Pode ser, suspirou Ana.

No dia seguinte lá estava o condutor carrancudo do autocarro especial, rapado quase à zero, à hora combinada. Ana foi sem chapéu, para não estragar o cabelo louro que Maria tinha tirado dos rolos minutos antes. Já no autocarro aguardava o seu par: Alex, também em cadeira de rodas. Ao tocarem as mãos, Ana sentiu a força e calor de uma mão masculina um milagre.

Na chegada ao centro, assistidas por Maria e o motorista, ajudaram Ana a entrar com a cadeira, até ao salão dos ensaios; Alex manobrava sozinho. No início, nada corria bem. Suavam, coravam, repetiam ordens, giravam, tremiam, sempre desajeitados, envergonhados perante a coreógrafa alta e esguia, elegante como uma libélula, e a enérgica dona Margarida, regente do estúdio, que parecia por vezes mais um foguete em miniatura. Mas com esforço, duas vezes por semana durante todo o outono e inverno, Ana habituou-se aos ensaios e Maria nunca a largava.

Ana acabou por trocar as agulhas pelas danças. Agora não sabia estar sem ensaios, ia animada como se fosse para o emprego de sonho.

E naquela tarde ia outra vez esperá-la, ansiosa por Maria. Mas Maria chegou taciturna, cansada, como se detestasse ir aos ensaios. Ana não se conteve:

O que se passa, Maria? Que cara é essa?

Nada, resmungou Maria, disfarçando.

Ana, percebendo o clima, mudou de assunto:

Somos novas, Maria! Nem chegámos aos quarenta. Podemos casar!

Outra vez com isso? revirou Maria os olhos. Eu já passei essa fase Sete anos casei e fui largada, compreendo o motivo, não julgo! Eu é que corri atrás deles menina, agora pago o preço. Só lamento pelos meus pais nunca terem tido netos.

O passado passou, sorriu Ana. Eu casaria vinte vezes, no teu lugar!

As tuas críticas outra vez?

Se não queres casar, arranja agora, há formas de ter filho.

Isso custa rios de dinheiro! Achas que ganho muito?

Mas ouvi dizer na televisão que agora fazem esses tratamentos pelo SNS, de graça!

Deixa isso para depois. Vais vestida com quê?

Nem queres ouvir até ao fim. Vou de camisola cor-de-rosa e saia cinzenta!

Já podias vestir o vestido novo, para isso foi feito!

Guardo para o ensaio geral, não quero sujá-lo no autocarro!

No ensaio da véspera, ficaram até mais tarde. Maria trouxe Ana para casa, despiram-na, sentou-a no banquinho da casa de banho, deu-lhe um banho demorado enquanto Ana falava excitada e risonha. Depois ajudou-a a vestir o roupão, levou-a à cozinha, pôs o chá, serviu bolos e passas. Ana, olhando o chá, soltou uma pergunta súbita:

Como foi o teu primeiro?

O primeiro o quê?

A noite com um homem, corou Ana.

Nem me lembro, pá

Não mintas. Foste casada anos, e agora o Nicolau passa-te a porta.

Passava! Só ficou dois meses depois do divórcio, depois arranjou melhor, mais nova. Não há nada para invejar!, cortou Maria.

Eu gosto do Alex, atirou Ana, num orgulho tímido. Ele olha para mim de um jeito

Os morenos sempre gostaram das loiras. Não te iludas! Depois arranjas confusão para ti mesma.

Como foi, afinal?

Não foi não quero falar. Vai, bebe o chá, deita-te um pouco, estás pálida!

Ana calou, reconhecendo aquele aperto. Maria percebeu: Agora ficou apanhada, pensou. Rápida, lavou as chávenas e despediu-se:

Fecho a porta, amanhã volto à hora do almoço. O que queres de compras?

Tu sabes, replicou Ana, amarga, de olhos já cerrados.

Mas descansa bem, amanhã é o ensaio geral!

Ana nem respondeu.

Olhem que as danças dão nisto! rosnou Maria, pensando acrescentar ainda vai dar em maluquice, mas calou-se.

Na rua, pensamentos viraram-se: Ela precisa de arranjar alguém. Só parece frágil! E arrependeu-se de falar do Nicolau.

Já sozinha, Ana lamentou o modo frio com que tratara Maria. Mas Maria é que a ignorava. A quem havia de contar aquela inquietação que lhe apertava o peito até doer? Se ao menos escrevesse poesia compunha um poema para o meu coração, suspirou ela, a mágoa crescendo ao ponto de quase não conseguir respirar. Afogava memórias de Alex, mas era impossível: cabelo podado, olhos castanhos profundos e as mãos seguras. Nos primeiros ensaios morria de medo de tombar nos braços dele, mas percebeu que não havia que temer. Isso trouxe-lhe confiança e começou a receber elogios. Muito bem!, dizia a bailarina, como se ela fosse uma criança, e Ana adorava.

Aprendeu o número de cor, habitou-se ao Alex, à presença constante de Maria, até com o eletricista no fato laranja que ajustava focos atrás do palco. Pensando no ensaio geral do dia seguinte, inquietava-se: E depois do concerto? Alguma vez teria coragem de falar com Alex como gente grande? Ou nunca haveria de convidá-lo a casa, anunciar aos vizinhos, tenho homem? Ou só restava a alegria dos ensaios? Amanhã teria de dar o melhor, podia garantir convites futuros.

De manhã, alisou o vestido roxo com lantejoulas, verificou as costuras. Tudo perfeito. Imaginou-se já na festa E depois? Deixou de pensar. Bastava ouvir a música, confiar em Alex, não evitar o erro e não dar panelas para comentários tipo: O que se pode esperar dela

Estava imersa quando a chave rodou na porta.

Então, estrela, pronta para brilhar no ensaio?, provocou Maria, seca, mas com um meio sorriso.

Pronta, mas tão nervosa

Ainda bem! Quem não sente, não vale. Vamos lá, devagarinho.

Prepararam-se. Pediram ao motorista rabugento que viesse mais cedo, para Ana vestir o vestido, controlar a vergonha. E assim que entraram no Centro Cultural, a sensação era de todos olharem para eles e para Alex, vestido de preto com gravata borboleta e com uma mulher ao lado dele.

Nos bastidores, Alex aproximou-se de Ana, beijou-lhe a face:

Vai correr bem!

Ana acenou, esquecida das palavras, bochecha a arder, vontade de pousar ali a mão.

Sentiu uma mão apoiando-lhe o ombro. Abriu os olhos para ver uma mulher, apoiada numa bengala.

Não se aflija. Vai correr bem!, murmurou a desconhecida.

E a senhora é? gaguejou Ana, com um mau pressentimento.

Alex, ao lado, pareceu adivinhar:

Ana, esta é a minha mulher, Isabel!

Ana acenou, olhando de relance: no dedo de Alex, uma aliança de ouro. Nunca antes a vira! As palavras, a aliança, tudo caiu sobre si como uma parede a ruir. Faltava-lhe o ar, o chão fugiu-lhe dos pés

Quando recuperou os sentidos, olhou em redor e voltou a fechar-se.

O que aconteceu à Monteiro?! perguntou Margarida, a regente, num tom entre o pânico e a zanga. Sempre tão rigorosa, agora com cara de vagem seca.

Ela tem de ir para casa. Está esgotada, disse Maria, com firmeza.

Ela precisa é de um médico! Quando estiver consciente, sobe ao palco. Não andámos meio ano a ensaiar para deitar tudo a perder!

Talvez pelo grito ou por si só, Ana abriu os olhos, mas não queria responder nem olhar ninguém; calou-se até chegarem à porta de casa.

O Alex?, murmurou a Maria.

Ficou. Vai dançar o número antigo, a solo. Tu pareces uma boneca de açucena a derreter. Não fiques assim. O padre Lucas bem avisava

E Ana zangou-se. Quando Maria, com a ajuda do motorista, a colocou no quarto, ela atirou-se para a cama ainda de vestido.

Acabou-se tudo?!, sorriu o motorista, pela primeira vez simpático.

Já chega. Agora vá-se embora!, enxotou Maria o homem, voltando-se para Ana. Então? Que se passou?

Esta não respondeu logo, mas chorando, confessou:

O Alex é casado.

Maria até teve vontade de rir, pensando que algo realmente grave teria acontecido. Fizeste planos para ele? Encheu-te de ilusões?

Não tens nada com isso! Vai-te embora!

Maria ficou sentada mais um pouco, mas Ana repetiu:

Vai-te embora e nunca mais venhas! Não preciso de ti! Tu és má, Lobisomem!

Se tivesse gritado, Maria entenderia. Mas saiu, mesmo assim magoada. Sabia que Ana não tinha ninguém da família, era quase da casa, a sua família por opção. Como é possível? Ninguém te vai tratar como eu! As outras vão, limpam e saem. Eu até filmes vejo contigo, faço-te o jantar, fico cá… E agora, sou má, sou Lobisomem!

Obrigada, dona Ana, murmurou, saindo, resignada.

Em casa, Maria tentou jantar, sem forças. Bebeu chá, deitou-se no sofá. Estava exausta do ensaio geral. Sentiu o sono a chegar e, antes de adormecer, pensou: Fica sozinha dois dias! Vais ver Princesa laureada!

Adormeceu profundamente, até ser acordada pelo telefone era o padre Lucas.

Maria Lobo, venha rápido a casa da Ana. Tem de a levar ao hospital!

Maria ficou sem fôlego, lembrando-se de que não tinha trancado a porta. Vestiu-se à pressa, correu pelas ruas até ao prédio. Havia uma ambulância, polícia, vizinhas e o padre.

O que se passou?

Parece intoxicação Ligou-me há pouco, disse estar mal, pediu ajuda e não explicou nada. Quando entrei, estava desmaiada no chão ao lado de comprimidos abertos Chamei a ambulância.

Aproximou-se um polícia de sobrancelhas negras:

Quem é para a vítima?

Sou assistente social. O que foi?

Aparentemente, tentou suicidar-se!

Mas ela é um anjo

Alguém a fez chegar aí. Temos de averiguar. Tem a chave?

Tenho

Venha. Tem de desligar tudo e trancar a casa, eu selo a porta, depois leva-nos à esquadra para explicar.

Maria fez o que lhe pediram, retirou comida, encontrou o telefone da Ana.

Posso levar para ela?

Tudo fica como está!

Cumpriu as ordens. Quando tudo concluído, foi prestar depoimento. O polícia, lendo o que Maria escreveu, riu-se:

Foi desgosto de amor?

O que havia de ser?

Então não há caso. Pode ir.

Em vez de casa, Maria foi ao hospital. Lá, soube que Ana estava na reanimação, mas fora de perigo.

O pior passou! suspirou Maria. Posso vê-la?

Está em isolamento, por causa da gripe, explicou a funcionária. Traga só a cadeira quando vier buscá-la!.

Nos dias seguintes, só telefonava, sabendo pela enfermaria que Ana nada dizia. Ao quarto dia, tocou o telefone:

Fala do hospital. É a enfermeira da Ana Monteiro. Ela pediu para vir cá, mas só pode ver-se pela janela, por causa do surto. Segundo andar, terceira janela à esquerda.

Obrigada. Posso levar algo?

Nada!

Nesse dia, Maria despachou os utentes mais cedo, foi ao hospital e, cá de fora, viu Ana surgir, magra, mas com olhos luminosos. Ana tentava gestos, quase não conseguia, mas depois ergueu uma folha: DESCULPA. Maria acenou, franzindo o sobrolho, a dizer que não havia que perdoar. Sentiu uma alegria inexplicável.

Deixou-se ficar na rua, pensando quão quente estava o sol a brilhar no bairro, enchendo as janelas e o largo da igreja. Cheirava a primavera fresca, e as preocupações da semana pareciam derreter. Não tenho mais nada para lamentar! concluiu Maria, e, limpando lágrimas de felicidade, lembrou a amiga. Aquela Ana é mesmo teimosa uma verdadeira cabra!, sorriu, a vida recomeçando, enfim, do lado certo do inverno.

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