Olha só o que me aconteceu ontem, vais-te rir. A mesma história podia ser novela portuguesa, juro! Então, a Celina ia a correr para o trabalho de manhã quando percebe que tinha deixado o telemóvel em casa. Sabes como é, com a pressa Lá decidiu voltar atrás para buscar o dito cujo e, mal entra no elevador, aquilo para no oitavo andar! Ficou presa ali, à espera que alguém a viesse tirar dali.
Enquanto esperava, começa a ouvir vozes no corredor. E não é que reconhece logo a voz do marido, o Artur? Ele estava a falar super carinhoso com outra mulher, a tal Lurdes do andar de cima! Minha querida, mal posso esperar para estarmos juntos de novo, diz ele, todo meloso. Logo à noite vamos estar, espera por mim depois das dez, responde a Lurdes. O Artur ainda pergunta se o marido dela vai trabalhar no turno da noite, e ela confirma que sim, vai sair às nove e meia e só volta de manhã, por isso têm tempo. Até comenta que têm de se despachar porque ele pode voltar a qualquer momento. Oiço tudo ali, sem acreditar bem no que estava a acontecer. Até reclamei comigo própria: Então é assim que ele vai tomar ar fresco antes de dormir? Só se for ar dos oitavos andares
Os técnicos lá chegaram e tiraram-me do elevador, mas o choque e a raiva não me largavam. Já estava a magicar vingança.
Quando chegou mais perto das dez, o Artur, com a maior das calmas, diz: Ó Celina, eu vou dar uma volta para esticar as pernas. Logo ali, atirei: Estás maluco? Olha que está a chover! Ele todo despachado, agarra no chapéu-de-chuva e diz que é importante caminhar para o coração, que não acredita nessas superstições. Eu não demoro, uma hora e pouco e estou em casa.
Nem meia hora passou e estava ele de volta, todo aflito e sem o chapéu, sem casaco, sem sapatos nem nada! Bato-lhe à porta só com a corrente posta. Então, cadê o chapéu? E os sapatos, onde estão? O homem diz que foi assaltado por uns rapazolas lá fora e que ficou sem nada. Coitado, treme de frio, pede para eu abrir a porta. Olha, disse-lhe logo: As tuas coisas estão ao pé do lixo, junto ao elevador. E quando passares pela Lurdes, manda-lhe um beijinho, sim?
Ele fica feito parvo, mas eu não quis saber. Fechei a porta, sentei-me a ver televisão e pensei: ainda bem que os nossos filhos já são crescidos e têm as suas vidas, não viram esta vergonha.
O Artur lá foi buscar a mala, vestiu-se e decide ir para casa da mãe, mas percebe que deixou o telemóvel em casa da outra. Volta para trás, vai pedir o telefone emprestado e fica preso no elevador, acredita? Faltou a luz naquele prédio inteiro, e lá ficou o homem, tal como eu antes, encalhado no oitavo andar. Quando voltou a haver eletricidade e conseguiu sair, eu já tinha saído para o trabalho. Bem feita!
E ainda houve mais: indo pelas escadas, encontra a Lurdes lá em baixo, ela também com mala, à espera do elevador. Pergunta-lhe logo: Tens o meu telemóvel? E ela, desfeita em nervos, diz que sim e que também traz as coisas dele. Acabaram por sair juntos de elevador mas, cada um seguiu para seu lado ela apanhou um táxi, ele outro.
Sinceramente, destas novelas reais em Lisboa, nem a SIC fazia melhor. E tudo isto só por ter-me esquecido do telemóvel em casa! História digna de telenovela, achas normal?






