Olga preparava pimentos de conserva quando o marido chegou do trabalho. – Já cheguei, – chamou Sérgio ao entrar na cozinha, e ficou paralisado.

Lembro-me como se fosse ontem, apesar de terem passado tantos anos. Era outono, e a Maria Amélia estava a preparar-se para fechar os frascos de pimentos em conserva, quando o Joaquim chegou do trabalho.

Cheguei, gritou ele da entrada, dirigindo-se à cozinha, e lá ficou parado a olhar à sua volta. O que se passa aqui?

O que se passa, o quê? Estou a fazer pimentos em conserva, como tu pediste, Maria sorriu docemente, mas o Joaquim parecia cada vez mais perturbado.

Estou a perguntar o que é isto tudo? balançou a mão pela cozinha atulhada.

A que te referes, Joaquim? Queres explicar, por favor? ela respondeu, sem entender o motivo daquele aparato.

Não te faças de desentendida, sabes perfeitamente do que falo, atalhou, e daquela vez, irritado.

Maria Amélia olhava para o marido, atónita, sem perceber porque ele se enfurecia tanto com uma cozinha desarrumada.

Tinham começado a viver juntos fazia quatro meses. Joaquim, que durante anos vivera sozinho, aceitou abrir mão da sua conhecida solidão confortável, numa nova tentativa de construir uma vida a dois. Ambos se conheceram já depois dos quarenta. Maria tinha uma filha crescida, empregada numa pastelaria na Baixa de Lisboa. Joaquim, por sua vez, pouco via o filho de dez anos do primeiro casamento, pois a ex-mulher estava a viver no Porto.

Parecia-lhes um sonho impossível de tão bom encontrar enfim alguém de quem se gostava tanto como da própria companhia.

No princípio, Maria só via virtudes em Joaquim. Deixou o seu pequeno apartamento arrendado em Alcântara e mudou-se, decidida, para casa dele, na Amadora, quando ele pediu.

Maria esforçava-se por ser uma boa companheira. Achava mesmo que, com Joaquim, poderia encontrar a tão sonhada felicidade, talvez até crescerem juntos até à velhice.

Durante os primeiros meses, sentia-se levitar. Surpreendia Joaquim constantemente com doces e pratos tradicionais arroz de pato, bacalhau à Brás, pão-de-ló ao domingo por vezes até depois de dias esgotantes de trabalho. Espantava-se com as energias que conseguia arranjar.

Isto, pensava ela, só podia ser amor.

Com o tempo, no entanto, Joaquim mudou. Chegava do escritório cansado, aborrecido, a resmungar por tudo e por nada. Reclamava da chávena que não estava lavada, do chão mal aspirado, do edredão mal colocado.

Parecia-lhe incrível: em casa reinava a ordem, o jantar estava pronto, só faltava sentar-se à mesa e, no entanto, havia sempre motivos para críticas pequenas.

Maria Amélia também trabalhava, regressava do escritórioainda assim conseguia sempre deixar tudo em ordem antes de ele chegar.

No começo, Maria ignorava o mau humor, mas com o tempo, sentiu o cansaço e o incómodo a crescer-lhe no peito. Não dizia nada, esperando que fosse passageiro, que algum dia as coisas se encaixassem.

Desde sempre Maria fazia as conservas para guardar para os meses frios, mas até evitava fazê-lo quando Joaquim estava por casa. Afinal, não gostava do cheiro, dizia que a cozinha ficava um caos. Naquele dia, ele devia ter ido à casa da irmã, como fazia amiúde aos fins-de-semana para ajudar o cunhado com o carro. Mas, inesperadamente, voltou mais cedo e apanhou a cozinha ocupada pelos tachos, os pratos espalhados, o cheiro a vinagre no ar.

Maria, já vais arrumar isto tudo! disparou.

Claro que vou, como sempre. Já me viste deixar a casa desarrumada?

Oh, deixa lá. Daqui a nada ficas cansada e fica tudo a meio. Isto está um forno e nem se pode respirar!

Então vai para a sala, vê um bocado de televisão. Eu acabo já aqui.

Quero jantar. O que há para comer?

Já aqueço e levo-te, só preciso acabar isto primeiro

Vais aquecer o quê, as massas com bifes de ontem? Já como isso há dias!

Pronto, não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Foi um dia puxado: tive de ir duas vezes ao mini-mercado, sacos pesados Também estou cansada e ainda levo com o teu mau humor!

Tu é que estás a ralhar! indignou-se Joaquim.

Não estou nada, só queria acalmar-te

Estou farto disto! cortou ele, atirando a frase no ar.

Foi aí que Maria perdeu a paciência.

Do quê? De teres sempre a casa limpa, cama feita, comida na mesa, alguém que te sorri todos os dias? Ou será que te cansei eu, com a minha presença nesta casa? Diz lá, de que estás farto?

De ti! Não quero mais os teus jantares, nem esta casa cheia de cheiros de conservas!

Sabes que mais, Joaquim? Já chega também! Passas a vida a reclamar de tudo. És um pessimista! Não ajudas em nada, e ainda dizes que te incomoda o meu trabalho nas conservas, que tu próprio pediste! Pedi-te para me ajudares no supermercado, recusaste para ir para a garagem com o teu cunhado! Tu é que andas a cansar-me! Explodiu ela.

Joaquim, talvez ferido no orgulho, ou ofendido pelo tom e o olhar de Maria, ultrapassou todos os limites. E Maria percebeu, de repente, que não podia perdoar.

Acabou. Entre nós, acabou! declarou ela, cansada, saindo da cozinha.

Com as mãos a tremer, Maria Amélia arrumou o que pôde nas malas o que estava à vista, enfiou em duas sacas, vestiu rapidamente as calças de ganga e saiu.

Joaquim assistiu, parado, mas não fez nada para impedir ou pedir desculpa.

Essa noite, Maria escreveu à amiga Laura, em Alvalade, e ficou lá. No dia seguinte, alugou um pequeno apartamento na Graça, gastando vários euros em renda adiantada, mais a comissão da imobiliária e nas pequenas coisas que precisaria na nova casa.

Não lhe ocorreu sequer voltar atrás nos primeiros dias. Só depois, o peso da solidão começou a senti-lo. Recordava a discussão, as palavras trocadas. Ambos erraram.

Sabia que não podia perdoar, mas o peito pesava.

Joaquim nunca ligou, nunca a procurou. Mandou-lhe, nessa noite, uma mensagem: “E agora, o que faço com os pimentos?”

Maria respondeu, de coração apertado: “Faz o que quiseres, é-me igual agora!”

Custou-lhe, claro, pensar em todo aquele trabalho e dinheiro investidos na conserva. Mais meia hora e tudo estaria terminado

Maria fartou-se de esperar por um pedido de desculpa que nunca chegou.

Uma semana depois, sentiu que devia ir fechar os últimos capítulos. Avisou Joaquim de que passaria para ir buscar umas coisas e devolver as chaves. Preferiu ir quando ele lá estivesse.

Joaquim abriu-lhe a porta. Estava abatido, mas isso já não lhe mexeu com o coração. Se realmente a amasse, teria feito alguma coisa, não ficaria em silêncio tanto tempo.

Maria, não dá mais. Se me amasses, alguma coisa terias feito. Em vez disso, ignoraste-me toda uma semana.

Desculpa, eu não sei Estava fora de mim, balbuciou ele.

Vivamos assim. Eu vim buscar o que é meu.

Entrou, pegou nas últimas coisas: uns frascos de chá, o xampô favorito, a caneca rosa que a filha lhe ofereceu, a manta de tricô que a irmã lhe trazia do Norte. Tudo o que restava dela na casa, colocava nos sacos, levando de volta aos poucos a dignidade.

Joaquim tentava desculpar-se, mas ela já não queria ouvir.

O silêncio de uma semana tinha dito tudo.

Quando a Maria chamou um táxi, Joaquim bloqueou-lhe a saída.

Por favor, não vás, fico perdido sem ti!

Mas eu perco-me contigo, Joaquim, respondeu ela, afastando-o delicadamente.

Saiu, deixando-o parado, sem compreender o que tinha feito de errado. Nunca mais se voltaram a cruzar, apesar das palavras doces trocadas em tempos.

No táxi, durante o fim de tarde cinzento de Lisboa, Maria olhou pela janela, as folhas caídas cobrindo as ruas e a sua alma. Lembrou-se que o seu aniversário se aproximava, e apesar de tudo, a vida continuava. Sussurrou para si, com um sorriso leve:

Vai correr tudo bem. Vai mesmo correr tudo bem.

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Olga preparava pimentos de conserva quando o marido chegou do trabalho. – Já cheguei, – chamou Sérgio ao entrar na cozinha, e ficou paralisado.
„Мама ще живее тук! — заяви мъжът. — Кате, трябва да поговорим… Ти въобще смяташ ли да решаваш проблема с майка си? Днес намерих сурово месо в пералнята, а вчера тя отвори водата във ваната и просто излезе! Имаме малки деца, а тя е с напреднала деменция — някога ще разбереш ли, че е опасно за всички ни? Какво ще стане, ако пусне газта и запали кибрит? Тя крие котлети в калъфките, детето е стресирано, съседката отдолу се оплаква… А ти все: „терпи, така е на всички, това е нашият дълг!“ Но една нощ можеше да ни взриви. Събрала съм багажа, отиваме при майка ми. Щом „не си предател“ — грижи се ти, ден и нощ! Докато накрая не издържа и прозря: че любов и уважение към близките не е да поставяш всички в опасност, а да намериш помощ — и спокойствие за всички.“